O que denominamos realidade é construído pela mente

        “O universo físico não existe independentemente do pensamento dos participantes. O que denominamos realidade é construído pela mente. O mundo não é o mesmo sem você. O universo físico não existe sem os nossos pensamentos sobre ele.

        Construímos a nós mesmos e construímos uns aos outros para além do tempo. A maneira como olhamos as coisas afeta aquilo que olhamos por vias muito sutis. Por vias muito sutis, a maneira como prestamos atenção em nos mesmos e nos outros muda-nos continuamente em algo novo. Aquilo que pensamos de nós mesmos e de cada uma das outras pessoas determina a maneira como aparecemos a ela e a nós mesmos. Se eu mudar meus pensamentos acerca de mim e de você, mudarei a mim e a você!

        A sequência temporal não tem significado, pois essas construções acontecem além do tempo. A razão pela qual as sequências temporais são desprovidas de significado é que esse procedimento de construção tem início antes mesmo que a matéria se materialize. As ondas quânticas podem mover-se, e realmente o fazem, muito, muito rapidamente. De fato, podem mover-se mais depressa que a luz” (Toben e Wolf, 2006).

O modelo de mecânica quântica do átomo

        Com a Física Clássica, os elétrons foram tratados como partículas que existiam em órbitas precisamente definidas. No início do século 20, surgiu a ideia de que partículas poderiam exibir um comportamento de onda. Os físicos passaram a acreditar que o comportamento dos elétrons dentro de átomos poderia ser explicado ao tratá-los como ondas de matéria. “Este modelo, que é a base do entendimento moderno do átomo, é conhecido como a mecânica quântica ou modelo ondulatório” (Khan Academy, 2017).

Luz é onda ou partícula?

        “Luz é uma entidade quântica que pode tanto se comportar como onda quanto como partícula” (Braz Junior, 2015). “O que significa dizer que um elétron se comporta como uma partícula e como uma onda? Ou que um elétron não existe numa localização específica, mas que está espalhado por todo o átomo?” (Khan Academy, 2017).

        “Podemos concluir que os fótons (partículas com massa em repouso nula constituída por um quantum de energia luminosa) se propagam como ondas, mas na sua interação com os elétrons, átomos e íons, comportam-se como partículas, transferindo momento e energia. Duas lições emergem quando se considera esta dualidade onda-partícula. A Física Clássica, que tão bem explica o movimento dos objetos macroscópicos, gerou em nós, significados bem distintos para a palavra ‘partícula’ e para a palavra ‘onda’.

 Partícula: objeto com massa e forma bem definida.

Onda: perturbação num meio material contínuo, de que são bons exemplos as ondas na superfície da água.

        A exploração do mundo dos átomos tem como pano de fundo esta dicotomia. Os átomos e os elétrons pertenciam claramente a classe das partículas e a luz emitida pelos átomos excitados ou pelos elétrons acelerados tinha nitidamente caráter ondulatório. Mas a descoberta do caráter corpuscular dos fótons e das propriedades ondulatórias dos elétrons pôs em causa essa dicotomia. Com relutância, mas inevitavelmente, foi preciso aceitar que a distinção entre onda e partícula não se aplica ao nível atômico” (Prass, 2017).

Mais rápido que a velocidade da luz?

        “Os físicos chamam o pensamento de ‘pré-matéria’! E a pré-matéria pode se mover através do tempo. Einstein (1879-1955) e seus seguidores mostraram que tudo o que move mais depressa que a luz pode ser observado em sequências temporais inversas. Dizem que uma onda quântica é uma onda de probabilidades que se move mais depressa que a luz e conecta nossas mentes com o mundo físico. As ondas quânticas estão em nossas mentes e também fora delas, no mundo, determinando a probabilidade da ocorrência dos fatos.

        Se as partículas de quaisquer objetos pudessem viajar mais depressa que a velocidade da luz, elas também poderiam romper a barreira de tempo. As partículas conseguem se comunicar ao longo de grandes distâncias porque, na verdade, elas não estão separadas. As partículas, no nível mais profundo da realidade, não são indivíduos, mas partes de um todo maior e mais fundamental. E, sendo bastante simplista, o que nos interessa agora não é embrenharmos em teorias da física quântica, mas tornar possível ao nosso raciocínio saber que estamos todos interligados e que nossa mente pode mover as energias do universo” (Farage, 2012).

Pode o pensamento influenciar a intensidade das ondas quânticas?

        O resultado de uma observação altera a função de onda de um sistema. Por exemplo, observe como você está respirando. O simples fato de você observar a sua respiração modifica o ritmo (função) da onda da sua respiração. “Além disso, a função de onda modificada é, em geral, imprevisível antes que a impressão obtida em decorrência da interação penetre em nossa consciência: é a entrada de uma impressão em nossa consciência que altera a função de onda, porque ela modifica nossa avaliação das probabilidades para diferentes impressões que esperamos receber.

        As condições e propriedades físico-químicas… não apenas criam a consciência; elas também influenciam mais profundamente as sensações” (Toben e Wolf, 2006). Inversamente, a consciência influencia as condições físico-químicas?

Psicologia de Rebanhos

“O rebanho é os meus pensamentos e os meus pensamentos são todos sensações” (Fernando Pessoa).

        “O pensamento pode modificar a intensidade das funções de onda quântica. Ora, a intensidade de uma onda quântica é uma medida da probabilidade de ocorrência de um evento. Quanto mais aguda for a percepção ou consciência do observador, maior será a probabilidade de o evento ocorrer. A consciência modifica a onda quântica e, desse modo, altera o mundo físico” (Toben e Wolf, 2006).

Referencias

BRAZ JÚNIOR, Dulcídio. Luz onda ou partícula? Blog Física na veia. Acesso em 25/10/2015. Disponível em

FARAGE, Carmem. Pensamento e ondas quânticas. Sobre o fim dos tempos. Publicado em 13 de agosto de 2012. Acesso em 10/10/2017. Disponível em

KHAN ACADEMY. O modelo de mecânica quântica do átomo. Acesso em 10/10/2017. Disponível em

PRÄSS, Alberto Ricardo. Objetos clássicos e quânticos: conceitos de onda e partícula e dualidade onda-partícula. Porto Alegre: Instituto de Física, Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Acesso em 10/10/2017. Disponível em

TOBEN, Bob; WOLF, Fred Alan. Espaço-tempo e além: rumo a uma explicação do inexplicável. São Paulo: Cultrix, 2006.

 

O desejo de consumo das mais diferentes camadas sociais

Saia desse corpo que não lhe pertence!

 Capitulo 9

        “A partir do século XX, o corpo passou a ser, de fato, um produto comercializado. E virou o desejo de consumo das mais diferentes camadas sociais” (Cassimiro e Galdino, 2012). “O reflexo de um novo ambiente cultural que está relacionado com a nova forma de conceber e de relacionar-se com o corpo” (Fonseca, 2003).

        “No final do século XX e início do século XXI, a superexposição de modelos corporais nos meios de comunicação contribuiu, fundamentalmente, para a divulgação de uma ótica corpórea estereotipada. E determinada pelas relações de mercado” (Pelegrini, 2005).

        Na história da humanidade, assim como na contemporaneidade, “as diferentes sociedades sempre ostentaram um padrão de corpo e de beleza próprio, Há uma explícita tendência à supervalorização da aparência. O que leva as pessoas a buscarem formas corporais consideradas ideais para que sejam aceitas e admiradas na sociedade” (Cassimiro e Galdino, 2012).

        “A lembrança de acontecimentos especais e as emoções que estes despertam devem ser visíveis e estar registradas no que de fato lhes pertence: o corpo. O ambiente com alto apelo visual em que vivemos estimula o comportamento de que as diferenças precisam ser vistas. E não apenas sentidas e intuídas. A marca funciona como um sinal de inclusão” (Pires, 2005).

        “Os padrões de corpos exigidos na sociedade contemporânea não são construções pessoais. Mas uma imposição do consumismo. E de uma sociedade narcísica, que propaga uma ideia padronizada de beleza”. Pois é na negação da sua própria concepção de beleza que o indivíduo se encaminha “para ser incluído em determinado grupo ou tribo. Ou seja, é necessário negar suas próprias escolhas e, quando isso não acontece, corre-se o risco de ser excluído” (Cassimiro e Galdino, 2012).

        “Todo ser humano, independente da cultura ou de outros fatores possui os mesmos direitos, considerados ‘universais’. Essa massificação do homem acabou com as singularidades dos sujeitos” (Moura).

Da identidade para uma forma de identificação

        “À multidão está no vazio, que ela é a própria vacuidade. E é nisto que reside sua potência. Recusando a lógica da identidade, que transforma o povo em proletariado (em sujeito da história)” (Maffesoli, 1998).  Vivemos “a passagem de um modo de identidade (conotação ideológica) para uma forma de identificação (imaginal, conotação que interessa o imaginário). A identidade seria uma característica da modernidade, enquanto a identificação da pós-modernidade” (Barros, 2008).

        “O contexto social e histórico instável e em constante mudança. Associado ao enfraquecimento dos principais meios de construção da identidade; Como a família, a religião, a política, o trabalho, parece levar os indivíduos a apropriarem-se cada vez mais do corpo. Como meio de expressão do eu” (Barbosa, Matos e Costa, 2009).

        “Dizer que uma sociedade não tem identidade significa que não tem tradição. Moda e tradição são conceitos antagônicos.

        Para a nossa sociedade, criar moda é inserir o novo. O indivíduo convive com o efêmero e valoriza o descartável. Faz com que ele traga para mais próximo possível do seu próprio corpo a incapacidade de se relacionar com o que não apresenta mudanças. Com o que é estável, permanente.

        A moda, além de suprir essa necessidade permite o indivíduo se diferenciar dos demais. E ser reconhecido por alguma característica particular, pessoal, intransferível e insere o indivíduo em um grupo social, em um contexto de semelhantes” (Pires, 2005).

        O saber e o poder, interligados na modernidade, tendem a separação. Mediante as transformações que marcam a passagem da modernidade para a pós-modernidade. “O objetivo agora é a autonomia nos mais variados campos e diferentes graus – estético, social, político” (Barbosa, Matos e Costa, 2009).

Sujeitos de produção

        “A sociedade do século XXI já não é uma sociedade disciplinar, mas, sim, uma sociedade de produção. Os seus habitantes já não são, por sua vez, ‘sujeitos de obediência’. Mas, sim, sujeitos de produção. São empresários de si próprios“ (Han, 2014).

        “Sem raízes no passado e sem perspectiva futura resta ao sujeito pós-moderno o seu corpo como realidade incontestável” (Moreira, Teixeira e Nicolau, 2010).

Psicologia de Rebanhos

“O rebanho é os meus pensamentos e os meus pensamentos são todos sensações” (Fernando Pessoa).

        Identificar-se com um grupo para não se sentir excluído da sociedade ou singularizar-se como emergência de um eu que busca autonomia? Perder-se na multidão ou encontrar-se na solidão? O sujeito está em relação com o mundo, com as coisas e consigo mesmo. A emergência de um eu leva o homem a isolar-se. Enquanto a atração dos relacionamentos impulsiona o homem para o vínculo.

Referencias

 

Uma tensão que rege a forma e o movimento do nosso corpo

         A organização mecânica do nosso corpo é regida pelo antagonismo muscular. Os nossos músculos, da cabeça a mão e ao pé, unem todo o corpo em uma tensão que rege a forma e o movimento do nosso corpo, constituindo a coordenação motora. Os nossos músculos estão constantemente alongados. O nosso equilíbrio em pé é mantido por um reequilíbrio constante entre a flexibilidade e a capacidade de extensão dos nossos músculos.

         “Os músculos flexores em geral são longos, suas fibras são menos numerosas do que as dos extensores, mas muito alongáveis. São músculos de grande deslocamento e seu trabalho é importante, porém breve. Eles são potentes, rápidos, dinâmicos, mas consomem muita energia se não trabalharem sob condições favoráveis. Os músculos extensores em geral são curtos, suas fibras, numerosas, são potentes, estáticos, econômicos, apropriados para a postura e favorecem a sustentação”.

         “Toda a complexidade da coordenação motora decorre das relações de equilíbrio que se estabelecem, não somente de musculo para musculo, entre flexores e extensores, mas, ao mesmo tempo, entre os nossos ossos e músculos. No movimento de flexão, todo o corpo se dobra, se reúne no tronco, que se enrola em seu eixo.   A coordenação motora tem atributos que permitem que o corpo tenha uma estrutura autônoma, encontre em si mesmo sua organização. O equilíbrio constante, seja qual for a forma de atividade ou de repouso, e a harmonia do movimento fazem com que a pessoa se sinta “bem””.

         A pele proporciona a autoimagem que fazemos de nos mesmos. A sensação da forma da pele se vincula a imagem de nosso próprio volume e do nosso movimento. A manipulação da pele nos permite recuperar as imagens correspondentes a sensação que temos de que somos esse que estamos tocando. “A pele nos permite perceber a forma de nosso corpo. Assim, nosso próprio volume no espaço tem uma forma percebida: na superfície, pela pele; e, na estrutura, pela sensação de sua mecânica e de seu estado de tensão. O corpo é, na realidade, um volume organizado pela coordenação, um espaço que tem uma forma e um movimento orientado”.

         “O ritmo de um gesto provoca uma sensação que, sem dúvida, passa despercebida. Observamos que pessoas incapazes de se dobrar em uma contração global e densa são, ao mesmo temo, incapazes de concentração, de atenção”. O nosso estado de tensão, a organização das percepções que temos de nos mesmos, a sensação da pele como recipiente, permitem perceber o nosso próprio corpo como um todo organizado, autônomo, interiorizado. O equilíbrio de um estado de tensão coordenado nos dá uma sensação de satisfação.

Psicologia de Rebanhos

“O rebanho é os meus pensamentos e os meus pensamentos são todos sensações” (Fernando Pessoa).

        Eu e você e todos os outros somos um monte de carne que tem uma forma e movimento e ocupa um lugar no espaço em uma época especifica. Somos um corpo, um monte de carne que se movimenta, organizado por uma coordenação muscular. Essa coordenação precisa lidar constantemente com estímulos. Esses estímulos provocam estressantes estados de tensão muscular. Quando conseguimos manter um estado de tensão que produz um equilíbrio nos nossos esforços, temos uma sensação de satisfação.

Referencias

BÈZIERS, Marie Madeleine e PIRET, Suzanne. A coordenação motora: aspecto mecânico da organização psicomotora do homem. São Paulo: Summus, 1992.

 

De cada vez que me mataram

Da vez primeira em que me assassinaram

Da vez primeira em que me assassinaram

Perdi um jeito de sorrir que eu tinha.

Depois, de cada vez que me mataram,

Foram levando qualquer coisa minha…

* * *

 Da contradição

Se te contradisseste e acusam-te… sorri.

Pois nada houve, em realidade.

Teu pensamento é que chegou, por si,

Ao outro polo da verdade…

* * *

Cruel amor

Um dia, da ponta daquela mesa comum de hospedes,

Dona Glorinha me interpelou:

– Seu Mario, o senhor ainda não leu o CRUEL AMOR?

Não, eu nunca tinha lido o CRUEL AMOR…

Pois tudo que falta a minha vida

Toda a imperfeição em que ainda me debato

Vem de eu nunca ter lido o CRUEL AMOR…

De ter achado ridículo o título…

De ter achado ridícula a transcendental pergunta de Dona Glorinha!

* * *

Liberdade condicional

Poderás ir até a esquina

Comprar cigarros e voltar

Ou mudar-te para a China

– Só não podes sair de onde tu estas.

* * *

Poema

O grilo procura

No escuro

O mais puro diamante perdido.

 

O grilo

Com as suas frágeis britadeiras de vidro

Perfura

As implacáveis solidões noturnas.

 

E se isso que tanto buscas só existe

Em tua límpida loucura

 

– que importa? –

 

Exatamente isto

É o teu diamante mais puro!

* * *

Descobertas

Descobrir Continentes é tão fácil como esbarrar com um elefante:

Poeta é o que encontra uma moedinha perdida…

* * *

O ovo sapiens

o homem pensa para dentro, e disto orgulha-se porque

na sua cabeça cabe o universo

como num ovo.

Na sua cabeça está o universo

– aprisionado –

 

O homem tem a pobre, a estreita cabeça

Fechada…

* * *

Do sobrenatural

Vozes ciciando nas frinchas… vozes de afogados soluçando nas ondas… vozes noturnas, chamando… pancadas no quarto ao lado, por detrás dos moveis, debaixo da cama… gritos de assassinados ecoando ainda nos corredores malditos… qual nada! O que mais amedronta é o pranto dos recém-nascidos aí é que está a verdadeira voz do outro mundo.

* * *

Psicologia de Rebanhos

“O rebanho é os meus pensamentos e os meus pensamentos são todos sensações” (Fernando Pessoa).

        Viver é morrer a cada instante, a cada experiencia nova, a cada despertar. E quando não morremos por nós mesmos, os outros nos matam. Os outros estão sempre prontos para nos dar aquele empurrãozinho para o precipício. A queda é inevitável e só dá para contar consigo mesmo, pois aonde quer que a gente vá, sempre ira junto esse sentimento de sermos um eu.

QUINTANA, Mario. Antologia poética. Rio de Janeiro: Objetiva, 2015.

 

Arte, inimiga do povo

Corrigindo ideias equivocadas sobre arte e cultura

        Nossa sociedade capitalista é como o Rei Midas, tudo o que toca, transforma em ouro. Tudo é vendável. Tudo é para consumo. A sociedade produziu a arte como um produto para poucos consumidores. A sociedade de consumo transforma em produto quaisquer processos sociais de expressão da vida. Assim fez com a arte, transformando-a em um produto industrial e em negócio comercial. Arte, inimiga do povo.

        É somente nos séculos 17 e 18 que surge esse sistema de arte como algo privilegiado de uma classe social, naquela época a burguesia. Assim, o conceito de arte como uma questão de gosto se assenta na sociedade em detrimento da ideia de arte como uma expressão de um processo social.

        Com a sua ascensão econômica, a burguesia assimila e transforma o estilo de vida da aristocracia. As atividades burguesas de pintar, escrever, esculpir e compor músicas, produzidas com o desenvolvimento da vida social burguesa, passam a ser consideradas como arte. Assim, o desenvolvimento da arte fica amarrado ao desenvolvimento econômico da burguesia.

        Por isso que a música, por exemplo, produzida pela aristocracia ou pelas massas não é mais considerada como arte, somente a música produzida pela burguesia é arte. A arte torna-se um produto de um grupo social. Somente os gostos e as preferencias burguesas são considerados arte. A arte, como ainda, atualmente, é concebida, tornou-se uma produção da classe dominante.

        Disso decorre que para que algo seja considerado arte deva ser aceito dentro de uma área social adequada. Os motivos e as explicações para que algo seja considerado arte está submetido aos gostos e as preferencias dessa área social. Porém, os critérios para que algo seja aceito em uma área social estão sujeitos a livre preferência dessa área social. O critério é o arbítrio. A arte é algo arbitrado pelas preferencias de uma área social.

        A arte, portanto, transformou-se na deliberação de uma área social, surgida com a burguesia, e atualmente sujeita as preferencias das classes dominantes.

O status fraudulento da arte no marxismo

        As revoluções sociais ocorrem em momentos de depressão econômica. As sociedades sob o impacto de revoluções sociais podem ser reconstruídas pela derrubada violenta e revolucionaria das estruturas de poder existentes. As ideias revolucionarias pressupõem que exista uma resistência na sociedade constituída para qualquer tentativa de mudança na estrutura do poder. Será mesmo que existe tal resistência ou essa resistência existiria apenas nos ideais revolucionários?

        Os ideólogos revolucionários bradam que as modificações que pretendem fazer nas produções sociais dominantes são revolucionarias e, portanto, libertarias das formas de vida da sociedade dominante. Entretanto, essa libertação da sociedade dominante é falsa, pois o que se modificou é mantido como referência e alicerce do revolucionário.

        “A libertação depende de não ter mis nada a ver com esse código moral”.

        Muito se fala sobre a ética na atualidade. Enquanto alguns falam, aqueles que a praticam, submetem aqueles que falam, aos seus interesses de poder. Na visão do marxismo, a nossa sociedade está constituída pelo trabalho. O trabalho é a ética da nossa sociedade. Se não há trabalho, não pode haver ética. Se o trabalho é exploração, a ética é uma imposição. É através do trabalho que cada um de nós contribui para todos. Sem trabalho não tem ética.

        O trabalho é uma coisa que eu faço para alguém que não sabe como fazer tal coisa. E esse alguém me retribui, o que eu faço para ele, indiretamente, com o seu trabalho e, diretamente, com o ganho que ele tem com o seu próprio trabalho. Assim, o trabalho é a nossa contribuição para todos. O trabalho é a ética da nossa sociedade. Se não há trabalho, não pode haver ética numa sociedade.

        As áreas dominantes de uma sociedade protegem e preservam as suas produções sociais consagradas como arte. Quando os grupos dominados começam a absorver os produtos sociais oriundos das áreas dominantes, as áreas dominantes estacam o desenvolvimento das suas produções sociais e as transformam em arte.  Assim, as formas de vida e produções sociais das classes dominantes são preservadas e protegidas como sagradas.

A influência corruptora da arte na cultura popular

        Com a supremacia econômica burguesa sobre a aristocracia, a arte passa para o conjunto de processos sociais produzidos pela burguesia. A partir da ascensão econômica da burguesia a arte deixa de ser uma orientação humana básica. Assim decorre que para se ter o status de arte, uma atividade depende da sua inserção nos processos sociais dominantes. Portanto, as práticas de pinturas, escritos, esculturas e músicas consideradas como arte, somente assim o são, por serem mantidas pelas classes dominantes da sociedade.

        “O jazz é mal interpretado porque é visto através da função ideológica do conceito de arte, quando na verdade só entrou para essa categoria porque essa visão se tornou socialmente aceita”.

        Inicialmente, as ditas manifestações artísticas como pinturas, escritos, esculturas e músicas surgem de todas as áreas sociais. O desenvolvimento dessas práticas evolui para exigências comerciais. Fazer essas práticas significa trabalho, uma forma de ganhar dinheiro. Toda arte atual foi inicialmente uma atividade comercial da sua época.

        Ainda como um conceito generalizado, a arte do trabalho é uma identificação social especifica de um valor. A arte então é uma presença que recorrentemente emerge das várias formas da pratica comercial da sua época. É uma efervescência subterrânea, impensável, que se revela por meio de sua clandestinidade. A arte emerge como produto de consumo de um mercado que desabrocha.

        A partir do momento que uma arte é incorporada pelas áreas dominantes na sociedade, a arte não se desenvolve mais. A arte deixa de ser trabalho. A arte deixa de ser uma atividade comercial e passa para uma atividade sagrada oriunda de uma classe dominante, acessível a poucos, como o trabalho.

        A contemporaneidade coloca a arte no seu lugar de origem: uma pratica comercial.

Psicologia de Rebanhos

“O rebanho é os meus pensamentos e os meus pensamentos são todos sensações” (Fernando Pessoa).

 

        O trabalho é uma expressão cultural que disseminado numa sociedade se torna uma necessidade para os seus indivíduos. O trabalho é uma necessidade que se populariza. A arte é as criações oriundas das manipulações dos recursos naturais efetuadas pelo homem. O homem é o único animal no planeta Terra capaz dessa pratica, a arte. A arte e o trabalho são a contribuição de cada indivíduo para viver numa sociedade – o mercado de consumo. Arte e trabalho são práticas adaptativas ligadas a evolução da espécie humana nesse planeta. A psicoterapia é uma dessas práticas.

Referencias

TAYLOR, Roger. Arte, inimiga do povo. São Paulo: Conrad Editora do Brasil, 2005.

 

Estudar é uma tarefa de reinvenção, de recriação

        “Estudar é, realmente, um trabalho difícil. Exige de quem o faz uma postura crítica, sistemática. Exige uma disciplina intelectual”. Aquele que estuda é desafiado pelo texto. O objetivo de quem estuda é se apropriar do significado do texto que estuda. Estudar um texto é estudar o estudo de quem o escreveu. Quem estuda percebe que o conhecimento é condicionado pelo seu momento histórico e social. Estudar é uma tarefa de reinvenção, de recriação. Estudar, nessa perspectiva, é ter uma atitude crítica em relação ao texto estudado.

        O ato de estudar é uma atitude crítica diante do mundo. Estudar é, fundamentalmente, e sobretudo, pensar a pratica frente ao mundo. Estudar é ter um diálogo com o autor do texto. “O ato de estudar demanda humildade”. Nem sempre um texto é de fácil compreensão. A compreensão de um texto pode se transformar num grande desafio. “Estudar não é um ato de consumir ideias, mas de cria-las e recria-las”.

O homem e o ambiente em que vive

        Imagine um índio caçando, com seu arco e sua flecha. Ao lado desse índio, imagine também um camponês caçando com uma espingarda. Qual desses dois caçadores pode ser analfabeto? “Não se pode dizer que o índio é analfabeto porque vive numa cultura que não conhece as letras. Para ser analfabeto é preciso viver no meio das letras e não conhecer elas”. É que o homem só existe em relação ao seu ambiente. Não existe homem sem um mundo. “Admitindo-se que todos os seres humanos morressem, mas ficassem as arvores, os pássaros, os animais, os mares, os rios, seria isto mundo”? O mundo existe porque o homem existe para nomeá-lo.

O homem reinventa o mundo

        O homem transforma o mundo através do seu trabalho. Por meio do seu trabalho o homem se expressa no mundo. É fazendo o seu trabalho que o homem transforma o mundo. Sem trabalho não existe homem. Um mundo de homens sem trabalho é um mundo que não existe. Portanto, não existe mundo fora da relação homem-mundo. A visão de mundo que vê o homem como instrumento de produção desconsidera que o homem se expressa no mundo por meio do seu trabalho.

        “Transformando a realidade natural com seu trabalho, os homens criam o seu mundo. Mundo da cultura e da história que, criado por eles, sobre eles se volta, condicionando-os. Isto é o que explica a cultura como produto, capaz ao mesmo tempo de condicionar seu criador”.

        Os homens desenvolvem as suas maneiras de pensar e de se comportar no mundo fundamentadas nas ideias culturais dominantes na sociedade em que fazem parte. Essas maneiras de pensar e de atuar no mundo condicionam o mundo para essas maneiras de pensar e de atuar no mundo. Ao mesmo tempo, os homens são condicionados por essas maneiras de pensar e de atuar no mundo.

        Esse condicionamento as maneiras de pensar e de atuar no mundo estabilizam os homens numa forma de pensar e atuar o mundo que lhes parece segura. Com isso, as inquietações que propõem mudanças trazem consigo o medo do novo, o medo da perda do seu ‘status social’. Esse medo impede a reflexão crítica das ideias e dos comportamentos instituídos.

O homem recria a si mesmo

        “É que, no momento em que os indivíduos, atuando e refletindo, são capazes de perceber o condicionamento de sua percepção pela estrutura em que se encontram, sua percepção começa a mudar, embora isso não signifique ainda a mudança da estrutura. É algo importante perceber que a realidade social é transformável; que feita pelos homens, pelos homens pode ser mudada, que não é algo intocável, um fado, uma sina, diante de que só houvesse um caminho: a acomodação a ela. Poderá dizer-se que a mudança da percepção não é possível antes da mudança da estrutura’’.

Psicologia de Rebanhos

“O rebanho é os meus pensamentos e os meus pensamentos são todos sensações” (Fernando Pessoa).

 

        Experienciando a si mesmo através da vivencia das suas emoções e sentimentos, o homem percebe como ele se usa para fazer as coisas. Percebendo como se usa, o homem pode mudar a maneira como ele se usa. Percebemos que podemos mudar o jeito que atuamos por uma nova percepção de como fazemos isso.

Referencias

FREIRE, Paulo. Ação cultural para a liberdade e outros escritos. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2011.

 

As emoções propriamente ditas

        “Classificar é um mal necessário. A medida que os nossos conhecimentos aumentam, os rótulos e as classificações deverão melhorar e tornar-se um mal menor. A classificação básica para as emoções propriamente ditas faz uso de três categorias: emoções de fundo, emoções primarias e emoções sociais”.

        As emoções de fundo, como o nome sugere, são especialmente baixas, estão no fundo. As emoções de fundo são percebidas em manifestações sutis. Elas são percebidas nos movimentos dos membros ou do corpo inteiro, na força desses movimentos, na sua precisão, na sua frequência e amplitude. Também podem ser percebidas na melodia da voz, nos ritmos da fala, na maneira de emissão dos sons da fala, etc.  “As emoções de fundo são manifestações compostas de reações” que visam regular o funcionamento do organismo e se desenrolam e acontecem a todo instante.

        “As emoções primarias (ou básicas) são mais fáceis de definir. A lista inclui o medo, a raiva, o nojo, a surpresa, a tristeza e a felicidade”.

        “As emoções sociais incluem a simpatia, a compaixão, o embaraço, a vergonha, a culpa, o orgulho, o ciúme, a inveja, a gratidão, a admiração e o espanto, a indignação e o desprezo”.

        Muitas reações de regulagem do organismo são compostas de diversas combinações dos tipos de emoções de fundo, primarias e sociais. “Por exemplo, quando o desprezo utiliza as expressões faciais do nojo, uma emoção primaria”.

As nossas emoções promovem respostas emocionais nos outros

        “Uma emoção social está profundamente gravada no cérebro, pronta para ser utilizada quando chega o momento apropriado”. Nós já nascemos com essas emoções? Essas emoções já estão prontas para serem usadas logo após o nosso nascimento? “A resposta não é a mesma para todas as emoções. Em certos casos, as emoções são de fato inteiramente inatas. Noutros casos, requerem um grau mínimo de exposição apropriada ao ambiente”.

        “É muito provável que a existência de emoções sociais tenha tido um papel no desenvolvimento dos mecanismos culturais de regulação social”. As reações de dominância ou submissão social podem ser um exemplo desse desenvolvimento. “Por que algumas pessoas se tornam líderes e outras seguidoras, por que algumas impõem respeito e outras se acovardam, tem muitas vezes pouco a ver com os conhecimentos ou aptidões dessas pessoas, mas muitíssimo a ver com qualidades físicas que promovem certas respostas emocionais nos outros”.

A satisfação e o controle das emoções

        “A satisfação das pulsões – fome, sede e sexo – causa alegria; mas bloquear a satisfação dessas pulsões pode causar raiva, desespero e tristeza”.

        As emoções sociais não são, de forma nenhuma, exclusividade dos seres humanos. “A maior parte dos seres vivos que exibem emoções detecta a presença de certos estímulos no ambiente e responde impensadamente com emoção”.

        “Quando os seres humanos equilibram automaticamente o pH do seu meio interno, ou reagem com felicidade ou medo a certos objetos, também não estão deliberadamente escolhendo. Certos organismos podem produzir reações vantajosas que levam a bons resultados sem decidirem produzir essas reações e possivelmente mesmo sem sentirem a ocorrência dessas reações”.

        “As reações automáticas criam no organismo humano, sem dúvida, condições representadas como agradáveis ou dolorosas, e finalmente feitas conscientes. Os seres humanos conscientes da relação entre certos objetivos e certas emoções podem esforçar-se, de livre e espontânea vontade, para controlar as suas emoções, pelo menos em parte”.

 

Psicologia de Rebanhos

O rebanho é os meus pensamentos e os meus pensamentos são todos sensações (Fernando Pessoa).

        Ah! São tantas as emoções! Quando eu estou aqui, eu vivo esse momento lindo! A vida de grande parte dos organismos vivos é regida pelas emoções. Conhecer como lidar com as nossas emoções nos possibilita aprender como potencializar a nossa capacidade de regular o prazer e a dor de nossas vidas.

 

Referencias

DAMÁSIO, António. Em busca de Espinosa: prazer e dor na ciência dos sentimentos. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

O sistema de saúde mais antigo do mundo

        “Há registros de que a massagem já era praticada na Índia há mais de cinco mil anos. Reconhecida como o sistema de saúde mais antigo do mundo, captado por diferentes povos da antiguidade, como chineses, persas, gregos, entre outros.

        Os médicos indianos foram os primeiros a fazer cirurgias plásticas, e também introduziram mais de cem instrumentos cirúrgicos, não muito diferentes dos utilizados atualmente.

        As formas de prevenção e tratamento de doenças são dietas, ervas, exercícios, massagens, praticas iogues e meditação.

        Como esse sistema reconhece a singularidade e a constituição única de cada indivíduo, o tratamento é diferenciado mesmo para pessoas que desenvolvem, aparentemente, o mesmo tipo de sintoma. Esse sistema respeita a sua constituição essencial e os aspectos peculiares da história que antecede o sintoma em cada um”.

        O nosso corpo e a nossa mente estão interligados. Se o corpo sucumbe, a mente também adoecera, e vice-versa. Os exercícios contem movimentos que estimulam o organismo afetado por meio do aumento da circulação sanguínea.

        Todos os nossos movimentos são baseados em alongamentos, encurvamentos, torções e relaxamento. Os movimentos proporcionam diversos efeitos, que estimulam e integram as diferentes partes do corpo.

        Os exercícios nos ajudam a acalmar a nossa mente e a nos livrar de todas as distrações. Mas para chegar a esse estágio será preciso percorrer uma longa e diligente jornada, bem como, aprender que a ação física está ligada a respiração e a concentração mental. “A disciplina, por sua vez, ajuda a dissipar a agitação e a confusão da mente, que tanto afligem as pessoas”.

 

A massagem

        “Os deslizamentos, amassamentos e pressões com as mãos e os pés estimulam a circulação e aquecem a musculatura e as articulações, preparando o corpo para as flexões, torções e alongamentos.

        Seus efeitos são potencializados com a expiração lenta e profunda, que proporciona maior oxigenação das células e, consequentemente, um intenso relaxamento muscular. Ao mesmo tempo, a respiração permite maior amplitude de movimento, facilitando as manobras de alongamento.

        As fricções, seguidas de alongamentos, servem para lubrificar as articulações, onde normalmente se depositam os excessos de cálcio e de ácido úrico. Isso confere grande alivio da dor”.

Psicologia de Rebanhos

“O rebanho é os meus pensamentos e os meus pensamentos são todos sensações” (Fernando Pessoa).

 

        A mente é um produto do corpo. O corpo é uma imagem da mente. Somos o nosso corpo. O pensamento é um produto da mente que, por sua vez, é um produto do corpo. Existe, entre mente e corpo, uma relação de reciprocidade, aliás, como qualquer relação. Assim, o corpo produz a mente, mas a mente também produz o corpo. Portanto, o corpo também é um produto da mente que, por sua vez, também é o produto de um pensamento.

Referencias

MARTILNELLI, Alda. Yoga massagem ayurvédica: a transformação pelo toque: método Kusum Modak. São Paulo: Editora Olhares, 2011.

 

Contra os que negam o livre-arbítrio nas ações humanas

Contra os que negam o livre-arbítrio nas ações humanas

Vos, crédulos mortais, alucinados

De sonhos, de quimeras, de aparências,

Colheis por uso erradas consequências

Dos acontecimentos desastrados:

Se a perdição correis precipitados

Por cegas, por fogosas impaciências,

Indo a cair, gritais que são violências

De inexoráveis céus, de negros fados:

Se um celeste poder tirano, e duro,

As vezes extorquisse as liberdades,

Que prestava, oh Razão, teu lume puro?

Não forçam corações as divindades;

Fado amigo não há, nem fado escuro:

Fados são as paixões, são as vontades.

 

* * *

 

Reprodução do antecedente, estando o autor preso

Liberdade querida, e suspirada,

Que o Despotismo acérrimo condena;

Liberdade, a meus olhos mais serena

Que o sereno clarão da madrugada!

Atende a minha voz, que geme e brada

Por ver-te, por gozar-te a face amena;

Liberdade gentil, desterra a pena

Em que esta alma infeliz jaz sepultada:

Vem, oh deusa imortal, vem, maravilha,

Vem oh consolação da humanidade,

Cujo semblante mais que os astros brilha:

Vem, solta-me o grilhão da adversidade;

Dos céus descende, pois dos céus és filha,

Mãe dos prazeres, doce Liberdade!

 

 

Epistola a Marilia

IV

Crê, pois, meu doce bem, meu doce encanto,

Que te anseiam fantásticos terrores,

Pregados pelo ardil, pelo interesse.

Só de infestos mortais na voz, na astucia,

A bem da tirania está o inferno.

Esse que pintam báratro de angustias,

Seria o galardão, seria o premio

Das suas vexações, dos seus embustes,

E não pena de amor, se inferno houvesse.

Escuta o coração, Marilia bela,

Escuta o coração, que te não mente.

 

Eis o que hás-de escutar, ó doce amada,

Se à voz do coração não fores surda.

De tuas perfeições enfeitiçado,

Às preces, que te envia, eu uno as minhas.

Ah! Faze-me ditoso e se ditosa.

Amar é um dever, além de um gosto,

Uma necessidade, não um crime,

Qual a impostura horríssona apregoa.

Céus não existem, não existe inferno:

O prêmio da virtude é a virtude,

É castigo do vicio o próprio vicio.

 

* * *

Psicologia de Rebanhos

O rebanho é os meus pensamentos

E os meus pensamentos são todos sensações.

(Fernando Pessoa)

        O homem crente de Adão inventou a escolha. Mas para que havermos de escolher? O homem crente do cristianismo inventou o livre-arbítrio. Mas para que o homem do cristianismo inventou o livre-arbítrio se Deus já tinha criado a escolha? Você sabe para que servem as suas vontades quando você está apaixonado? Quando você está apaixonado as suas vontades servem para… nada. Apaixonado, as suas vontades apenas obedecem às suas paixões. As paixões são fados, disse o poeta, as vontades também. As paixões e as vontades nos aprisionam. Pobre daquele que acredita ter a chave das celas das suas paixões e das suas vontades numa liberdade fora de si mesmo – fora do Paraiso? “Escuta o coração, Marilia bela, escuta o coração que não te mente. O prêmio da virtude é a virtude, é castigo do vicio o próprio vicio”. Fados são as paixões e as vontades. Quem poderá e saberá dizer, quando escolheu viver as suas?

BOCAGE, Manuel Maria Barbosa du. O delírio amoroso e outros poemas. Porto Alegre: L&PM, 2004.

 

Duvidar do que se tem certeza

        Platão (428-348 a.C.) viveu, na Grécia antiga, num período em que muitas tradições e dogmas eram cultuados. ”Onde existem mil crenças, tendemos a nos tornar céticos em relação a todas elas”. Assim, inspirado por Sócrates (469-399 a.C.) a duvidar do que se tem certeza, Platão pôs-se a duvidar de quase tudo, exceto do que ele acreditava que era a verdade.

        Antes de Sócrates, os pensadores se perguntavam sobre a constituição das coisas, sobre qual seria o princípio das coisas. Esses pensadores atingiram o seu apogeu quando Demócrito (460-360 a.C.) cogita que “na realidade, nada existe a não ser átomos e espaço”.

        Ensina Sócrates que o verdadeiro conhecimento consiste em duvidar do que se conhece. Dizia ele: só sei uma coisa, e é que nada sei. Sócrates nos ensina a duvidar das nossas próprias crenças, principalmente das crenças preferidas. Possivelmente, as nossas crenças preferidas se tornaram certezas para nós, a partir de algum desejo secreto revestido com o traje do pensamento. Para Sócrates, não há conhecimento verdadeiro enquanto a mente não se voltar a examinar a si mesma. Conhece-te a ti mesmo.

        Sócrates não deixou por escrito nenhuma das suas crenças. Platão, discipulo de Sócrates, foi quem partilhou conosco, por escrito, as suas crenças preferidas de Sócrates. Desconhecemos os critérios de escolha dessas crenças por Platão. Desconhecemos também se essas crenças eram mesmo do Sócrates ou eram crenças do próprio Platão.

 

Pensamentos de Platão sobre a politica

        “E quanto ao Estado, o que poderia ser mais ridículo do que a sua democracia chefiada pela populaça, dominada pela paixão.

        Não é do conhecimento de todos que os homens em multidões são mais tolos, mais violentos e mais cruéis do que separados e sozinhos? Como pode uma sociedade ser salva, ou ser forte, se não tiver a frente seus homens mais sábios?

        A democracia precisava ser destruída, para ser substituída pelo governo dos mais sábios e melhores. A preocupação de sua vida passou a ser a procura de um método pelo qual os mais sábios e melhores pudessem ser descobertos e, depois, habilitados e persuadidos a governar”. Qual seria o critério para se descobrir os homens mais sábios e melhores?

 

Platão e a ética

        Platão segue o pensamento grego da sua época, fundamentado no mito dos heróis e deuses do Olimpo, onde o direito é adquirido pela força. A justiça é constituída pelo interesse do mais forte.        A moralidade é uma invenção dos fracos para neutralizar a força dos fortes.

        A justiça, portanto, é uma relação entre indivíduos que depende da organização social onde esses indivíduos se inserem.

        “Justiça é ter e fazer o que nos compete”.

        A justiça deve ser eficiente. A justiça se baseia no funcionamento harmonioso dos elementos em um homem.

        A verdade muda de roupa com frequência (como toda mulher atraente), mas sob o novo habito continua sempre a mesma.

        Os homens não se contentam com uma vida simples. Os homens são gananciosos, ambiciosos, competitivos e invejosos. Os homens logo se cansam do que possuem e anseiam por aquilo que não tem. Os homens, raramente, desejam qualquer coisa, a menos que ela pertença a terceiros.

 

Platão e a psicologia

        Platão acredita que uma nação somente pode ser forte, caso acredite num Deus todo-poderoso. Um deus que, pelo pavor e pelo terror, incita e obriga o indivíduo a moderar a sua ganancia e a sua paixão. A essa crença num deus, também deve-se acrescentar a crença na imortalidade das almas humanas. A esperança de uma outra vida da coragem para o indivíduo suportar as opressões a que se sujeita nessa vida de carne e osso, além de ajudar a enfrentar a morte dos seus entes queridos. E alimentar o poder dos que valorizam mais essa vida do que uma suposta vida pós-morte.

 

Psicologia de Rebanhos

“O rebanho é os meus pensamentos e os meus pensamentos são todos sensações” (Fernando Pessoa).

        Com Platão, elege-se, na civilização ocidental, o mundo das ideias como a verdadeira vida. Apesar de Sócrates ter tentado ensinar que deveríamos duvidar das nossas crenças, Platão adere firmemente a crença de que o verdadeiro mundo é o mundo das ideias. O mundo das sensações seria enganoso, inseguro, não confiável. Para Platão, deveríamos duvidar do mundo sensível pois as certezas sobre o mundo estavam nas ideias. Essa crença de que os pensamentos são a verdadeira vida se sustenta atualmente pela ideia de um valor superior dos pensamentos sobre as sensações.

 

Referencias

DURANT, Will. A história da filosofia. São Paulo: Editora Nova Cultural, 1996.