Uma tensão que rege a forma e o movimento do nosso corpo

         A organização mecânica do nosso corpo é regida pelo antagonismo muscular. Os nossos músculos, da cabeça a mão e ao pé, unem todo o corpo em uma tensão que rege a forma e o movimento do nosso corpo, constituindo a coordenação motora. Os nossos músculos estão constantemente alongados. O nosso equilíbrio em pé é mantido por um reequilíbrio constante entre a flexibilidade e a capacidade de extensão dos nossos músculos.

         “Os músculos flexores em geral são longos, suas fibras são menos numerosas do que as dos extensores, mas muito alongáveis. São músculos de grande deslocamento e seu trabalho é importante, porém breve. Eles são potentes, rápidos, dinâmicos, mas consomem muita energia se não trabalharem sob condições favoráveis. Os músculos extensores em geral são curtos, suas fibras, numerosas, são potentes, estáticos, econômicos, apropriados para a postura e favorecem a sustentação”.

         “Toda a complexidade da coordenação motora decorre das relações de equilíbrio que se estabelecem, não somente de musculo para musculo, entre flexores e extensores, mas, ao mesmo tempo, entre os nossos ossos e músculos. No movimento de flexão, todo o corpo se dobra, se reúne no tronco, que se enrola em seu eixo.   A coordenação motora tem atributos que permitem que o corpo tenha uma estrutura autônoma, encontre em si mesmo sua organização. O equilíbrio constante, seja qual for a forma de atividade ou de repouso, e a harmonia do movimento fazem com que a pessoa se sinta “bem””.

         A pele proporciona a autoimagem que fazemos de nos mesmos. A sensação da forma da pele se vincula a imagem de nosso próprio volume e do nosso movimento. A manipulação da pele nos permite recuperar as imagens correspondentes a sensação que temos de que somos esse que estamos tocando. “A pele nos permite perceber a forma de nosso corpo. Assim, nosso próprio volume no espaço tem uma forma percebida: na superfície, pela pele; e, na estrutura, pela sensação de sua mecânica e de seu estado de tensão. O corpo é, na realidade, um volume organizado pela coordenação, um espaço que tem uma forma e um movimento orientado”.

         “O ritmo de um gesto provoca uma sensação que, sem dúvida, passa despercebida. Observamos que pessoas incapazes de se dobrar em uma contração global e densa são, ao mesmo temo, incapazes de concentração, de atenção”. O nosso estado de tensão, a organização das percepções que temos de nos mesmos, a sensação da pele como recipiente, permitem perceber o nosso próprio corpo como um todo organizado, autônomo, interiorizado. O equilíbrio de um estado de tensão coordenado nos dá uma sensação de satisfação.

Psicologia de Rebanhos

“O rebanho é os meus pensamentos e os meus pensamentos são todos sensações” (Fernando Pessoa).

        Eu e você e todos os outros somos um monte de carne que tem uma forma e movimento e ocupa um lugar no espaço em uma época especifica. Somos um corpo, um monte de carne que se movimenta, organizado por uma coordenação muscular. Essa coordenação precisa lidar constantemente com estímulos. Esses estímulos provocam estressantes estados de tensão muscular. Quando conseguimos manter um estado de tensão que produz um equilíbrio nos nossos esforços, temos uma sensação de satisfação.

Referencias

BÈZIERS, Marie Madeleine e PIRET, Suzanne. A coordenação motora: aspecto mecânico da organização psicomotora do homem. São Paulo: Summus, 1992.

 

De cada vez que me mataram

Da vez primeira em que me assassinaram

Da vez primeira em que me assassinaram

Perdi um jeito de sorrir que eu tinha.

Depois, de cada vez que me mataram,

Foram levando qualquer coisa minha…

* * *

 Da contradição

Se te contradisseste e acusam-te… sorri.

Pois nada houve, em realidade.

Teu pensamento é que chegou, por si,

Ao outro polo da verdade…

* * *

Cruel amor

Um dia, da ponta daquela mesa comum de hospedes,

Dona Glorinha me interpelou:

– Seu Mario, o senhor ainda não leu o CRUEL AMOR?

Não, eu nunca tinha lido o CRUEL AMOR…

Pois tudo que falta a minha vida

Toda a imperfeição em que ainda me debato

Vem de eu nunca ter lido o CRUEL AMOR…

De ter achado ridículo o título…

De ter achado ridícula a transcendental pergunta de Dona Glorinha!

* * *

Liberdade condicional

Poderás ir até a esquina

Comprar cigarros e voltar

Ou mudar-te para a China

– Só não podes sair de onde tu estas.

* * *

Poema

O grilo procura

No escuro

O mais puro diamante perdido.

 

O grilo

Com as suas frágeis britadeiras de vidro

Perfura

As implacáveis solidões noturnas.

 

E se isso que tanto buscas só existe

Em tua límpida loucura

 

– que importa? –

 

Exatamente isto

É o teu diamante mais puro!

* * *

Descobertas

Descobrir Continentes é tão fácil como esbarrar com um elefante:

Poeta é o que encontra uma moedinha perdida…

* * *

O ovo sapiens

o homem pensa para dentro, e disto orgulha-se porque

na sua cabeça cabe o universo

como num ovo.

Na sua cabeça está o universo

– aprisionado –

 

O homem tem a pobre, a estreita cabeça

Fechada…

* * *

Do sobrenatural

Vozes ciciando nas frinchas… vozes de afogados soluçando nas ondas… vozes noturnas, chamando… pancadas no quarto ao lado, por detrás dos moveis, debaixo da cama… gritos de assassinados ecoando ainda nos corredores malditos… qual nada! O que mais amedronta é o pranto dos recém-nascidos aí é que está a verdadeira voz do outro mundo.

* * *

Psicologia de Rebanhos

“O rebanho é os meus pensamentos e os meus pensamentos são todos sensações” (Fernando Pessoa).

        Viver é morrer a cada instante, a cada experiencia nova, a cada despertar. E quando não morremos por nós mesmos, os outros nos matam. Os outros estão sempre prontos para nos dar aquele empurrãozinho para o precipício. A queda é inevitável e só dá para contar consigo mesmo, pois aonde quer que a gente vá, sempre ira junto esse sentimento de sermos um eu.

QUINTANA, Mario. Antologia poética. Rio de Janeiro: Objetiva, 2015.

 

Arte, inimiga do povo

Corrigindo ideias equivocadas sobre arte e cultura

        Nossa sociedade capitalista é como o Rei Midas, tudo o que toca, transforma em ouro. Tudo é vendável. Tudo é para consumo. A sociedade produziu a arte como um produto para poucos consumidores. A sociedade de consumo transforma em produto quaisquer processos sociais de expressão da vida. Assim fez com a arte, transformando-a em um produto industrial e em negócio comercial. Arte, inimiga do povo.

        É somente nos séculos 17 e 18 que surge esse sistema de arte como algo privilegiado de uma classe social, naquela época a burguesia. Assim, o conceito de arte como uma questão de gosto se assenta na sociedade em detrimento da ideia de arte como uma expressão de um processo social.

        Com a sua ascensão econômica, a burguesia assimila e transforma o estilo de vida da aristocracia. As atividades burguesas de pintar, escrever, esculpir e compor músicas, produzidas com o desenvolvimento da vida social burguesa, passam a ser consideradas como arte. Assim, o desenvolvimento da arte fica amarrado ao desenvolvimento econômico da burguesia.

        Por isso que a música, por exemplo, produzida pela aristocracia ou pelas massas não é mais considerada como arte, somente a música produzida pela burguesia é arte. A arte torna-se um produto de um grupo social. Somente os gostos e as preferencias burguesas são considerados arte. A arte, como ainda, atualmente, é concebida, tornou-se uma produção da classe dominante.

        Disso decorre que para que algo seja considerado arte deva ser aceito dentro de uma área social adequada. Os motivos e as explicações para que algo seja considerado arte está submetido aos gostos e as preferencias dessa área social. Porém, os critérios para que algo seja aceito em uma área social estão sujeitos a livre preferência dessa área social. O critério é o arbítrio. A arte é algo arbitrado pelas preferencias de uma área social.

        A arte, portanto, transformou-se na deliberação de uma área social, surgida com a burguesia, e atualmente sujeita as preferencias das classes dominantes.

O status fraudulento da arte no marxismo

        As revoluções sociais ocorrem em momentos de depressão econômica. As sociedades sob o impacto de revoluções sociais podem ser reconstruídas pela derrubada violenta e revolucionaria das estruturas de poder existentes. As ideias revolucionarias pressupõem que exista uma resistência na sociedade constituída para qualquer tentativa de mudança na estrutura do poder. Será mesmo que existe tal resistência ou essa resistência existiria apenas nos ideais revolucionários?

        Os ideólogos revolucionários bradam que as modificações que pretendem fazer nas produções sociais dominantes são revolucionarias e, portanto, libertarias das formas de vida da sociedade dominante. Entretanto, essa libertação da sociedade dominante é falsa, pois o que se modificou é mantido como referência e alicerce do revolucionário.

        “A libertação depende de não ter mis nada a ver com esse código moral”.

        Muito se fala sobre a ética na atualidade. Enquanto alguns falam, aqueles que a praticam, submetem aqueles que falam, aos seus interesses de poder. Na visão do marxismo, a nossa sociedade está constituída pelo trabalho. O trabalho é a ética da nossa sociedade. Se não há trabalho, não pode haver ética. Se o trabalho é exploração, a ética é uma imposição. É através do trabalho que cada um de nós contribui para todos. Sem trabalho não tem ética.

        O trabalho é uma coisa que eu faço para alguém que não sabe como fazer tal coisa. E esse alguém me retribui, o que eu faço para ele, indiretamente, com o seu trabalho e, diretamente, com o ganho que ele tem com o seu próprio trabalho. Assim, o trabalho é a nossa contribuição para todos. O trabalho é a ética da nossa sociedade. Se não há trabalho, não pode haver ética numa sociedade.

        As áreas dominantes de uma sociedade protegem e preservam as suas produções sociais consagradas como arte. Quando os grupos dominados começam a absorver os produtos sociais oriundos das áreas dominantes, as áreas dominantes estacam o desenvolvimento das suas produções sociais e as transformam em arte.  Assim, as formas de vida e produções sociais das classes dominantes são preservadas e protegidas como sagradas.

A influência corruptora da arte na cultura popular

        Com a supremacia econômica burguesa sobre a aristocracia, a arte passa para o conjunto de processos sociais produzidos pela burguesia. A partir da ascensão econômica da burguesia a arte deixa de ser uma orientação humana básica. Assim decorre que para se ter o status de arte, uma atividade depende da sua inserção nos processos sociais dominantes. Portanto, as práticas de pinturas, escritos, esculturas e músicas consideradas como arte, somente assim o são, por serem mantidas pelas classes dominantes da sociedade.

        “O jazz é mal interpretado porque é visto através da função ideológica do conceito de arte, quando na verdade só entrou para essa categoria porque essa visão se tornou socialmente aceita”.

        Inicialmente, as ditas manifestações artísticas como pinturas, escritos, esculturas e músicas surgem de todas as áreas sociais. O desenvolvimento dessas práticas evolui para exigências comerciais. Fazer essas práticas significa trabalho, uma forma de ganhar dinheiro. Toda arte atual foi inicialmente uma atividade comercial da sua época.

        Ainda como um conceito generalizado, a arte do trabalho é uma identificação social especifica de um valor. A arte então é uma presença que recorrentemente emerge das várias formas da pratica comercial da sua época. É uma efervescência subterrânea, impensável, que se revela por meio de sua clandestinidade. A arte emerge como produto de consumo de um mercado que desabrocha.

        A partir do momento que uma arte é incorporada pelas áreas dominantes na sociedade, a arte não se desenvolve mais. A arte deixa de ser trabalho. A arte deixa de ser uma atividade comercial e passa para uma atividade sagrada oriunda de uma classe dominante, acessível a poucos, como o trabalho.

        A contemporaneidade coloca a arte no seu lugar de origem: uma pratica comercial.

Psicologia de Rebanhos

“O rebanho é os meus pensamentos e os meus pensamentos são todos sensações” (Fernando Pessoa).

 

        O trabalho é uma expressão cultural que disseminado numa sociedade se torna uma necessidade para os seus indivíduos. O trabalho é uma necessidade que se populariza. A arte é as criações oriundas das manipulações dos recursos naturais efetuadas pelo homem. O homem é o único animal no planeta Terra capaz dessa pratica, a arte. A arte e o trabalho são a contribuição de cada indivíduo para viver numa sociedade – o mercado de consumo. Arte e trabalho são práticas adaptativas ligadas a evolução da espécie humana nesse planeta. A psicoterapia é uma dessas práticas.

Referencias

TAYLOR, Roger. Arte, inimiga do povo. São Paulo: Conrad Editora do Brasil, 2005.

 

Estudar é uma tarefa de reinvenção, de recriação

        “Estudar é, realmente, um trabalho difícil. Exige de quem o faz uma postura crítica, sistemática. Exige uma disciplina intelectual”. Aquele que estuda é desafiado pelo texto. O objetivo de quem estuda é se apropriar do significado do texto que estuda. Estudar um texto é estudar o estudo de quem o escreveu. Quem estuda percebe que o conhecimento é condicionado pelo seu momento histórico e social. Estudar é uma tarefa de reinvenção, de recriação. Estudar, nessa perspectiva, é ter uma atitude crítica em relação ao texto estudado.

        O ato de estudar é uma atitude crítica diante do mundo. Estudar é, fundamentalmente, e sobretudo, pensar a pratica frente ao mundo. Estudar é ter um diálogo com o autor do texto. “O ato de estudar demanda humildade”. Nem sempre um texto é de fácil compreensão. A compreensão de um texto pode se transformar num grande desafio. “Estudar não é um ato de consumir ideias, mas de cria-las e recria-las”.

O homem e o ambiente em que vive

        Imagine um índio caçando, com seu arco e sua flecha. Ao lado desse índio, imagine também um camponês caçando com uma espingarda. Qual desses dois caçadores pode ser analfabeto? “Não se pode dizer que o índio é analfabeto porque vive numa cultura que não conhece as letras. Para ser analfabeto é preciso viver no meio das letras e não conhecer elas”. É que o homem só existe em relação ao seu ambiente. Não existe homem sem um mundo. “Admitindo-se que todos os seres humanos morressem, mas ficassem as arvores, os pássaros, os animais, os mares, os rios, seria isto mundo”? O mundo existe porque o homem existe para nomeá-lo.

O homem reinventa o mundo

        O homem transforma o mundo através do seu trabalho. Por meio do seu trabalho o homem se expressa no mundo. É fazendo o seu trabalho que o homem transforma o mundo. Sem trabalho não existe homem. Um mundo de homens sem trabalho é um mundo que não existe. Portanto, não existe mundo fora da relação homem-mundo. A visão de mundo que vê o homem como instrumento de produção desconsidera que o homem se expressa no mundo por meio do seu trabalho.

        “Transformando a realidade natural com seu trabalho, os homens criam o seu mundo. Mundo da cultura e da história que, criado por eles, sobre eles se volta, condicionando-os. Isto é o que explica a cultura como produto, capaz ao mesmo tempo de condicionar seu criador”.

        Os homens desenvolvem as suas maneiras de pensar e de se comportar no mundo fundamentadas nas ideias culturais dominantes na sociedade em que fazem parte. Essas maneiras de pensar e de atuar no mundo condicionam o mundo para essas maneiras de pensar e de atuar no mundo. Ao mesmo tempo, os homens são condicionados por essas maneiras de pensar e de atuar no mundo.

        Esse condicionamento as maneiras de pensar e de atuar no mundo estabilizam os homens numa forma de pensar e atuar o mundo que lhes parece segura. Com isso, as inquietações que propõem mudanças trazem consigo o medo do novo, o medo da perda do seu ‘status social’. Esse medo impede a reflexão crítica das ideias e dos comportamentos instituídos.

O homem recria a si mesmo

        “É que, no momento em que os indivíduos, atuando e refletindo, são capazes de perceber o condicionamento de sua percepção pela estrutura em que se encontram, sua percepção começa a mudar, embora isso não signifique ainda a mudança da estrutura. É algo importante perceber que a realidade social é transformável; que feita pelos homens, pelos homens pode ser mudada, que não é algo intocável, um fado, uma sina, diante de que só houvesse um caminho: a acomodação a ela. Poderá dizer-se que a mudança da percepção não é possível antes da mudança da estrutura’’.

Psicologia de Rebanhos

“O rebanho é os meus pensamentos e os meus pensamentos são todos sensações” (Fernando Pessoa).

 

        Experienciando a si mesmo através da vivencia das suas emoções e sentimentos, o homem percebe como ele se usa para fazer as coisas. Percebendo como se usa, o homem pode mudar a maneira como ele se usa. Percebemos que podemos mudar o jeito que atuamos por uma nova percepção de como fazemos isso.

Referencias

FREIRE, Paulo. Ação cultural para a liberdade e outros escritos. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2011.

 

As emoções propriamente ditas

        “Classificar é um mal necessário. A medida que os nossos conhecimentos aumentam, os rótulos e as classificações deverão melhorar e tornar-se um mal menor. A classificação básica para as emoções propriamente ditas faz uso de três categorias: emoções de fundo, emoções primarias e emoções sociais”.

        As emoções de fundo, como o nome sugere, são especialmente baixas, estão no fundo. As emoções de fundo são percebidas em manifestações sutis. Elas são percebidas nos movimentos dos membros ou do corpo inteiro, na força desses movimentos, na sua precisão, na sua frequência e amplitude. Também podem ser percebidas na melodia da voz, nos ritmos da fala, na maneira de emissão dos sons da fala, etc.  “As emoções de fundo são manifestações compostas de reações” que visam regular o funcionamento do organismo e se desenrolam e acontecem a todo instante.

        “As emoções primarias (ou básicas) são mais fáceis de definir. A lista inclui o medo, a raiva, o nojo, a surpresa, a tristeza e a felicidade”.

        “As emoções sociais incluem a simpatia, a compaixão, o embaraço, a vergonha, a culpa, o orgulho, o ciúme, a inveja, a gratidão, a admiração e o espanto, a indignação e o desprezo”.

        Muitas reações de regulagem do organismo são compostas de diversas combinações dos tipos de emoções de fundo, primarias e sociais. “Por exemplo, quando o desprezo utiliza as expressões faciais do nojo, uma emoção primaria”.

As nossas emoções promovem respostas emocionais nos outros

        “Uma emoção social está profundamente gravada no cérebro, pronta para ser utilizada quando chega o momento apropriado”. Nós já nascemos com essas emoções? Essas emoções já estão prontas para serem usadas logo após o nosso nascimento? “A resposta não é a mesma para todas as emoções. Em certos casos, as emoções são de fato inteiramente inatas. Noutros casos, requerem um grau mínimo de exposição apropriada ao ambiente”.

        “É muito provável que a existência de emoções sociais tenha tido um papel no desenvolvimento dos mecanismos culturais de regulação social”. As reações de dominância ou submissão social podem ser um exemplo desse desenvolvimento. “Por que algumas pessoas se tornam líderes e outras seguidoras, por que algumas impõem respeito e outras se acovardam, tem muitas vezes pouco a ver com os conhecimentos ou aptidões dessas pessoas, mas muitíssimo a ver com qualidades físicas que promovem certas respostas emocionais nos outros”.

A satisfação e o controle das emoções

        “A satisfação das pulsões – fome, sede e sexo – causa alegria; mas bloquear a satisfação dessas pulsões pode causar raiva, desespero e tristeza”.

        As emoções sociais não são, de forma nenhuma, exclusividade dos seres humanos. “A maior parte dos seres vivos que exibem emoções detecta a presença de certos estímulos no ambiente e responde impensadamente com emoção”.

        “Quando os seres humanos equilibram automaticamente o pH do seu meio interno, ou reagem com felicidade ou medo a certos objetos, também não estão deliberadamente escolhendo. Certos organismos podem produzir reações vantajosas que levam a bons resultados sem decidirem produzir essas reações e possivelmente mesmo sem sentirem a ocorrência dessas reações”.

        “As reações automáticas criam no organismo humano, sem dúvida, condições representadas como agradáveis ou dolorosas, e finalmente feitas conscientes. Os seres humanos conscientes da relação entre certos objetivos e certas emoções podem esforçar-se, de livre e espontânea vontade, para controlar as suas emoções, pelo menos em parte”.

 

Psicologia de Rebanhos

O rebanho é os meus pensamentos e os meus pensamentos são todos sensações (Fernando Pessoa).

        Ah! São tantas as emoções! Quando eu estou aqui, eu vivo esse momento lindo! A vida de grande parte dos organismos vivos é regida pelas emoções. Conhecer como lidar com as nossas emoções nos possibilita aprender como potencializar a nossa capacidade de regular o prazer e a dor de nossas vidas.

 

Referencias

DAMÁSIO, António. Em busca de Espinosa: prazer e dor na ciência dos sentimentos. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

O sistema de saúde mais antigo do mundo

        “Há registros de que a massagem já era praticada na Índia há mais de cinco mil anos. Reconhecida como o sistema de saúde mais antigo do mundo, captado por diferentes povos da antiguidade, como chineses, persas, gregos, entre outros.

        Os médicos indianos foram os primeiros a fazer cirurgias plásticas, e também introduziram mais de cem instrumentos cirúrgicos, não muito diferentes dos utilizados atualmente.

        As formas de prevenção e tratamento de doenças são dietas, ervas, exercícios, massagens, praticas iogues e meditação.

        Como esse sistema reconhece a singularidade e a constituição única de cada indivíduo, o tratamento é diferenciado mesmo para pessoas que desenvolvem, aparentemente, o mesmo tipo de sintoma. Esse sistema respeita a sua constituição essencial e os aspectos peculiares da história que antecede o sintoma em cada um”.

        O nosso corpo e a nossa mente estão interligados. Se o corpo sucumbe, a mente também adoecera, e vice-versa. Os exercícios contem movimentos que estimulam o organismo afetado por meio do aumento da circulação sanguínea.

        Todos os nossos movimentos são baseados em alongamentos, encurvamentos, torções e relaxamento. Os movimentos proporcionam diversos efeitos, que estimulam e integram as diferentes partes do corpo.

        Os exercícios nos ajudam a acalmar a nossa mente e a nos livrar de todas as distrações. Mas para chegar a esse estágio será preciso percorrer uma longa e diligente jornada, bem como, aprender que a ação física está ligada a respiração e a concentração mental. “A disciplina, por sua vez, ajuda a dissipar a agitação e a confusão da mente, que tanto afligem as pessoas”.

 

A massagem

        “Os deslizamentos, amassamentos e pressões com as mãos e os pés estimulam a circulação e aquecem a musculatura e as articulações, preparando o corpo para as flexões, torções e alongamentos.

        Seus efeitos são potencializados com a expiração lenta e profunda, que proporciona maior oxigenação das células e, consequentemente, um intenso relaxamento muscular. Ao mesmo tempo, a respiração permite maior amplitude de movimento, facilitando as manobras de alongamento.

        As fricções, seguidas de alongamentos, servem para lubrificar as articulações, onde normalmente se depositam os excessos de cálcio e de ácido úrico. Isso confere grande alivio da dor”.

Psicologia de Rebanhos

“O rebanho é os meus pensamentos e os meus pensamentos são todos sensações” (Fernando Pessoa).

 

        A mente é um produto do corpo. O corpo é uma imagem da mente. Somos o nosso corpo. O pensamento é um produto da mente que, por sua vez, é um produto do corpo. Existe, entre mente e corpo, uma relação de reciprocidade, aliás, como qualquer relação. Assim, o corpo produz a mente, mas a mente também produz o corpo. Portanto, o corpo também é um produto da mente que, por sua vez, também é o produto de um pensamento.

Referencias

MARTILNELLI, Alda. Yoga massagem ayurvédica: a transformação pelo toque: método Kusum Modak. São Paulo: Editora Olhares, 2011.

 

Contra os que negam o livre-arbítrio nas ações humanas

Contra os que negam o livre-arbítrio nas ações humanas

Vos, crédulos mortais, alucinados

De sonhos, de quimeras, de aparências,

Colheis por uso erradas consequências

Dos acontecimentos desastrados:

Se a perdição correis precipitados

Por cegas, por fogosas impaciências,

Indo a cair, gritais que são violências

De inexoráveis céus, de negros fados:

Se um celeste poder tirano, e duro,

As vezes extorquisse as liberdades,

Que prestava, oh Razão, teu lume puro?

Não forçam corações as divindades;

Fado amigo não há, nem fado escuro:

Fados são as paixões, são as vontades.

 

* * *

 

Reprodução do antecedente, estando o autor preso

Liberdade querida, e suspirada,

Que o Despotismo acérrimo condena;

Liberdade, a meus olhos mais serena

Que o sereno clarão da madrugada!

Atende a minha voz, que geme e brada

Por ver-te, por gozar-te a face amena;

Liberdade gentil, desterra a pena

Em que esta alma infeliz jaz sepultada:

Vem, oh deusa imortal, vem, maravilha,

Vem oh consolação da humanidade,

Cujo semblante mais que os astros brilha:

Vem, solta-me o grilhão da adversidade;

Dos céus descende, pois dos céus és filha,

Mãe dos prazeres, doce Liberdade!

 

 

Epistola a Marilia

IV

Crê, pois, meu doce bem, meu doce encanto,

Que te anseiam fantásticos terrores,

Pregados pelo ardil, pelo interesse.

Só de infestos mortais na voz, na astucia,

A bem da tirania está o inferno.

Esse que pintam báratro de angustias,

Seria o galardão, seria o premio

Das suas vexações, dos seus embustes,

E não pena de amor, se inferno houvesse.

Escuta o coração, Marilia bela,

Escuta o coração, que te não mente.

 

Eis o que hás-de escutar, ó doce amada,

Se à voz do coração não fores surda.

De tuas perfeições enfeitiçado,

Às preces, que te envia, eu uno as minhas.

Ah! Faze-me ditoso e se ditosa.

Amar é um dever, além de um gosto,

Uma necessidade, não um crime,

Qual a impostura horríssona apregoa.

Céus não existem, não existe inferno:

O prêmio da virtude é a virtude,

É castigo do vicio o próprio vicio.

 

* * *

Psicologia de Rebanhos

O rebanho é os meus pensamentos

E os meus pensamentos são todos sensações.

(Fernando Pessoa)

        O homem crente de Adão inventou a escolha. Mas para que havermos de escolher? O homem crente do cristianismo inventou o livre-arbítrio. Mas para que o homem do cristianismo inventou o livre-arbítrio se Deus já tinha criado a escolha? Você sabe para que servem as suas vontades quando você está apaixonado? Quando você está apaixonado as suas vontades servem para… nada. Apaixonado, as suas vontades apenas obedecem às suas paixões. As paixões são fados, disse o poeta, as vontades também. As paixões e as vontades nos aprisionam. Pobre daquele que acredita ter a chave das celas das suas paixões e das suas vontades numa liberdade fora de si mesmo – fora do Paraiso? “Escuta o coração, Marilia bela, escuta o coração que não te mente. O prêmio da virtude é a virtude, é castigo do vicio o próprio vicio”. Fados são as paixões e as vontades. Quem poderá e saberá dizer, quando escolheu viver as suas?

BOCAGE, Manuel Maria Barbosa du. O delírio amoroso e outros poemas. Porto Alegre: L&PM, 2004.

 

Duvidar do que se tem certeza

        Platão (428-348 a.C.) viveu, na Grécia antiga, num período em que muitas tradições e dogmas eram cultuados. ”Onde existem mil crenças, tendemos a nos tornar céticos em relação a todas elas”. Assim, inspirado por Sócrates (469-399 a.C.) a duvidar do que se tem certeza, Platão pôs-se a duvidar de quase tudo, exceto do que ele acreditava que era a verdade.

        Antes de Sócrates, os pensadores se perguntavam sobre a constituição das coisas, sobre qual seria o princípio das coisas. Esses pensadores atingiram o seu apogeu quando Demócrito (460-360 a.C.) cogita que “na realidade, nada existe a não ser átomos e espaço”.

        Ensina Sócrates que o verdadeiro conhecimento consiste em duvidar do que se conhece. Dizia ele: só sei uma coisa, e é que nada sei. Sócrates nos ensina a duvidar das nossas próprias crenças, principalmente das crenças preferidas. Possivelmente, as nossas crenças preferidas se tornaram certezas para nós, a partir de algum desejo secreto revestido com o traje do pensamento. Para Sócrates, não há conhecimento verdadeiro enquanto a mente não se voltar a examinar a si mesma. Conhece-te a ti mesmo.

        Sócrates não deixou por escrito nenhuma das suas crenças. Platão, discipulo de Sócrates, foi quem partilhou conosco, por escrito, as suas crenças preferidas de Sócrates. Desconhecemos os critérios de escolha dessas crenças por Platão. Desconhecemos também se essas crenças eram mesmo do Sócrates ou eram crenças do próprio Platão.

 

Pensamentos de Platão sobre a politica

        “E quanto ao Estado, o que poderia ser mais ridículo do que a sua democracia chefiada pela populaça, dominada pela paixão.

        Não é do conhecimento de todos que os homens em multidões são mais tolos, mais violentos e mais cruéis do que separados e sozinhos? Como pode uma sociedade ser salva, ou ser forte, se não tiver a frente seus homens mais sábios?

        A democracia precisava ser destruída, para ser substituída pelo governo dos mais sábios e melhores. A preocupação de sua vida passou a ser a procura de um método pelo qual os mais sábios e melhores pudessem ser descobertos e, depois, habilitados e persuadidos a governar”. Qual seria o critério para se descobrir os homens mais sábios e melhores?

 

Platão e a ética

        Platão segue o pensamento grego da sua época, fundamentado no mito dos heróis e deuses do Olimpo, onde o direito é adquirido pela força. A justiça é constituída pelo interesse do mais forte.        A moralidade é uma invenção dos fracos para neutralizar a força dos fortes.

        A justiça, portanto, é uma relação entre indivíduos que depende da organização social onde esses indivíduos se inserem.

        “Justiça é ter e fazer o que nos compete”.

        A justiça deve ser eficiente. A justiça se baseia no funcionamento harmonioso dos elementos em um homem.

        A verdade muda de roupa com frequência (como toda mulher atraente), mas sob o novo habito continua sempre a mesma.

        Os homens não se contentam com uma vida simples. Os homens são gananciosos, ambiciosos, competitivos e invejosos. Os homens logo se cansam do que possuem e anseiam por aquilo que não tem. Os homens, raramente, desejam qualquer coisa, a menos que ela pertença a terceiros.

 

Platão e a psicologia

        Platão acredita que uma nação somente pode ser forte, caso acredite num Deus todo-poderoso. Um deus que, pelo pavor e pelo terror, incita e obriga o indivíduo a moderar a sua ganancia e a sua paixão. A essa crença num deus, também deve-se acrescentar a crença na imortalidade das almas humanas. A esperança de uma outra vida da coragem para o indivíduo suportar as opressões a que se sujeita nessa vida de carne e osso, além de ajudar a enfrentar a morte dos seus entes queridos. E alimentar o poder dos que valorizam mais essa vida do que uma suposta vida pós-morte.

 

Psicologia de Rebanhos

“O rebanho é os meus pensamentos e os meus pensamentos são todos sensações” (Fernando Pessoa).

        Com Platão, elege-se, na civilização ocidental, o mundo das ideias como a verdadeira vida. Apesar de Sócrates ter tentado ensinar que deveríamos duvidar das nossas crenças, Platão adere firmemente a crença de que o verdadeiro mundo é o mundo das ideias. O mundo das sensações seria enganoso, inseguro, não confiável. Para Platão, deveríamos duvidar do mundo sensível pois as certezas sobre o mundo estavam nas ideias. Essa crença de que os pensamentos são a verdadeira vida se sustenta atualmente pela ideia de um valor superior dos pensamentos sobre as sensações.

 

Referencias

DURANT, Will. A história da filosofia. São Paulo: Editora Nova Cultural, 1996.

 

As faltas eram julgadas de fora para dentro

        Na Grécia antiga, as faltas eram julgadas de fora para dentro. Não se julgavam intenções, mas reparações, indenizações a vítima, se fosse o caso. Quando a falta é cometida entre pais, filhos, netos, e, entre irmãos, por linha colateral, implica em parentesco sagrado (pessoas ligadas por laços de sangue). Esposos, cunhados, sobrinhos e tios não são parentes em sagrado, mas em profano ou ante os homens.

        Acreditava-se na crença da maldição familiar, a saber: qualquer falta cometida por um membro da família recai sobre o grupo familiar inteiro, isto é, sobre todos os parentes e seus descendentes “em sagrado” ou “em profano”.        Esta crença na transmissão da falta, na solidariedade familiar e na hereditariedade do castigo é uma das mais enraizadas no espirito dos homens.

        Entretanto, conta-se a boca pequena que essa tal maldição não passa de um conflito entre gerações. Esse antagonismo entre gerações, todavia, quer seja entre pai e filho, avo e neto, ou entre pai e pretendente, é sempre um combate pelo poder. E tem sempre como desfecho a vitória do mais jovem.

        Desse modo, o parricídio (homicídio do pai) e o filicídio (homicídio do filho) ou são substituídos por um simples destronamento, ou são realizados. Mas quando realizados são resultantes de um erro, embora se tenha o respaldo de um oraculo. Em ambos os caos, os poetas evitam colocar em cena o mais horrendo dos crimes aos olhos da sociedade grega.

 

        “O mérito pessoal é uma condição necessária para se subir ao trono dos antigos e a persistência da energia ativa é indispensável para conservar o poder real”. Donde se conclui que a sucessão por morte se fundamenta no princípio da incapacidade, por velhice (cessação da energia ativa), de exercer a função real. A razão é de ordem magica: quem perdeu a força física não pode transmiti-la como deveria e teria que fazer um rei.

O sacrifício do primogênito é um tema comum no mito

        Em todas as tradições encontra-se o símbolo do filho ou da filha imolados, cujo exemplo mais conhecido é o “sacrifico” de Isaac por Abraão. Nas culturas mais antigas, um tal sacrifício, não obstante seu caráter religioso, era exclusivamente um habito, um rito. No caso de Abraão é um ato de fé.

        No mundo antigo oriental, o primeiro filho era, não raro, considerado como filho de deus. É que no Oriente antigo as jovens tinham por norma passar uma noite no templo para “conceber” do deus. Esse deus era representado, evidentemente, pelo sacerdote ou por um enviado, o estrangeiro.

        Pelo sacrifico desse primeiro filho, do primogênito, restituía-se a divindade aquilo que, de fato, lhe pertencia. O sangue jovem estabelecia a energia esgotada do deus, porque as divindades da vegetação e da fertilidade exauriam-se em seu esforço. Na época histórica esses sacrifícios reais foram substituídos por uma “provação” como o de Isaac. Mas cuja execução não mais de consumava: Isaac foi substituído por um carneiro.

        Trata-se, ao que tudo faz crer, de uma repressão patriarcal: obtida a submissão, o ato se dá por cumprido e o opressor por satisfeito.

Psicologia de Rebanhos

“O rebanho é os meus pensamentos e os meus pensamentos são todos sensações” (Fernando Pessoa).

        A Psicologia dos povos muito antigos consistia na reparação dos comportamentos. Reparava-se um comportamento com um outro comportamento. Depois, passamos a sacrificar o novo para inundar de sangue novo o velho poder já exaurido. O homem tem uma “quedinha” para apoiar a tradição, para alimentar o poder instituído e alimentar-se dele. Com o advento da fé, origina-se uma nova Psicologia. O homem descobre que o poder está na fé. O antigo impede o reinado do novo por um ato de fé. O novo é reprimido e submetido e se dá por satisfeito por não ter sido extinguido. Mas a vida é movimento. E o que se move, muda ou retorna. Assim, vemos o retorno da Psicologia dos povos antigos para lidar com as repressões e submissões criadas pela ausência da reparação dos comportamentos.

Referencias

BRANDÁO, Junito de Souza. Mitologia grega: Volume I. Petrópolis: Editora Vozes, 1987.

 

Uma mudança no público consumidor da tatuagem

Saia desse corpo que não lhe pertence!

 

Capitulo 8

 

        Nas décadas de 1950 e 1960 ocorre uma mudança no público consumidor da tatuagem. A tatuagem “passa também a ser utilizada por gangues e como emblema de movimentos contra culturais, como o movimento hippie e mais tarde o movimento punk” (Silva, 2010). “Passou, de forma de expressão popular através da qual os setores marginais comunicavam seus sentimentos e paixões, para converter-se numa marca ornamental de identificação grupal e de transgressão social” (Fonseca, 2003).

        “Na sociedade atual, a tatuagem perde parcialmente essa funcionalidade (identificação grupal e transgressão social), porém, segue exercendo o papel de indicativo da construção do indivíduo, expressando socialmente sua singularidade e autonomia” (Ferreira, 2012).

 

Tatuagem e arte

        “A arte dos anos 1960 tira o corpo da dimensão do pecado, da repressão, da inacessibilidade e da alienação causada pelas restrições sociais e o coloca na dimensão de agente e receptor de sensações e prazeres”.

        Na body art, “o artista se coloca como obra viva, usando o corpo como instrumento, destacando sua ligação com o público e a relação tempo-espaço. Desde a body art, não basta uma arte que retrate o corpo, ou que seja produzida sobre o corpo, ela tem que ser produzida com o corpo.

        O happening é uma forma de expressão artística desenvolvida em grupo que valoriza a espontaneidade e o improviso”.

        No início dos anos 1970, “o coletivo cede lugar ao individual, o improviso e a espontaneidade, ao conceitual. Surge a performance, que consiste na justaposição e na colagem de imagens não relacionadas, selecionadas ao acaso, de maneira lúdica e anárquica. Difere do happening porque, em vez de um ritual, trata-se agora de um espetáculo”.

        A body modification cria uma relação do artista com o corpo totalmente diferente das estabelecidas pela body art e pela performance. Nela, a relação corpo-objeto é independente da relação tempo-espaço, conforme entendida anteriormente.

        Não há distinção entre o artista e a obra, entre o sujeito criador e o objeto criado. O sujeito é o objeto e não deixará de ser, independentemente do tempo e do espaço em que se encontre. Não vigora aqui a premissa do pensamento racional, do discurso conceitual” (Pires, 2005).

        A folk-comunicação, “desenvolvida por Luiz Beltrão, teorizando sobre as transformações tanto na forma quanto no sentido, colocam a tatuagem numa categoria rudimentar de comunicação” (Simões, 2011). “Pois é o efeito obtido que conta a partir de agora: não mais apenas a decifração do significado da obra previamente realizada” (Nascimento, 2007).

 

Tatuagem e estigma

        “O sentido estigmatizador do uso da tatuagem começa a mudar a partir dos anos 1980, com o estabelecimento de modernas lojas exclusivas (dotadas de equipamentos especializados, materiais descartáveis e diferentes meios de promoção), a profissionalização de seus praticantes, o melhoramento da técnica. E, sobretudo, as novas formas de conceber o corpo, como obra-prima de construção do sujeito e aberto às transformações. A tatuagem torna-se, assim, uma das opções estéticas procuradas pelas novas gerações” (Perez, 2006).

 

Psicologia de Rebanhos

O rebanho é os meus pensamentos

E os meus pensamentos são todos sensações.

(Fernando Pessoa)

        Podemos considerar a tatuagem como uma forma de construção da identidade daquele que se tatua. Assim, o corpo é identificado e individualizado pela tatuagem. O tatuado considera seu corpo como um corpo singular e único. O tatuado, deste modo, confere a si uma personalidade autônoma e independente.

        Dessa forma, o tatuado cumpre a determinação estética da sociedade de consumo que trata o indivíduo como objeto de consumo. A psicoterapia trabalha a construção do indivíduo pela potência do seu corpo biológico em relação com a sociedade em que ele atua.

 

Referencias

FERREIRA, Deborah Cristina. O corpo como texto: analise discursiva da escrita no corpo. Revista Eventos Pedagógicos, v. 3, n. 1 Numero Especial, p. 138 – 146, abr, 2012. Acesso em 08 de março de 2015. Disponível em

FONSECA, Andrea Lissett Perez. Tatuar e ser tatuado: etnografia da pratica contemporânea da tatuagem. Florianópolis, agosto de 2003. Acesso em 08 de março de 2015. Disponível em

NASCIMENTO, Evando. Os sentidos da i-materialidade: o pensamento estético de Gumbrecht e Oiticica. Ensaio publicado originalmente nos Estados Unidos com o título de “The Senses of I-Materiality”, em Mendes, Victor K.; Rocha, João Cezar de Castro (Org.). Producing Presences: Branching Out From Gumbrecht’s Work. Darmouth: University of Massachusetts Dartmouth Press, 2007, p. 267-286. Acesso em 09 de janeiro de 2015. Disponível em

PEREZ, Andrea Lissett. A identidade à flor da pele. Etnografia da prática da tatuagem na contemporaneidade. MANA 12(1): 179-206, 2006. Julho de 2005. Acesso em 08 de março de 2015. Disponível em

PIRES, Beatriz Ferreira. O corpo como suporte da arte: piercing, implante, escarificação, tatuagem. São Paulo: Editora SENAC, 2005.

SILVA, Bruna Cristina Daminelli. A tatuagem na contemporaneidade. Criciúma, julho de 2010. Acesso em 21 de julho de 2015. Disponível em

SIMÕES, Renan. A Comunicação não Verbal Através da Tatuagem. XIV Conferência Brasileira dos Estudos da Folkcomunicação – “O artesanato como processo comunicacional” – IX Encontro Regional de Comunicação, 2011. Acesso em 21 de julho de 2015. Disponível em