Estudar é uma tarefa de reinvenção, de recriação

        “Estudar é, realmente, um trabalho difícil. Exige de quem o faz uma postura crítica, sistemática. Exige uma disciplina intelectual”. Aquele que estuda é desafiado pelo texto. O objetivo de quem estuda é se apropriar do significado do texto que estuda. Estudar um texto é estudar o estudo de quem o escreveu. Quem estuda percebe que o conhecimento é condicionado pelo seu momento histórico e social. Estudar é uma tarefa de reinvenção, de recriação. Estudar, nessa perspectiva, é ter uma atitude crítica em relação ao texto estudado.

        O ato de estudar é uma atitude crítica diante do mundo. Estudar é, fundamentalmente, e sobretudo, pensar a pratica frente ao mundo. Estudar é ter um diálogo com o autor do texto. “O ato de estudar demanda humildade”. Nem sempre um texto é de fácil compreensão. A compreensão de um texto pode se transformar num grande desafio. “Estudar não é um ato de consumir ideias, mas de cria-las e recria-las”.

O homem e o ambiente em que vive

        Imagine um índio caçando, com seu arco e sua flecha. Ao lado desse índio, imagine também um camponês caçando com uma espingarda. Qual desses dois caçadores pode ser analfabeto? “Não se pode dizer que o índio é analfabeto porque vive numa cultura que não conhece as letras. Para ser analfabeto é preciso viver no meio das letras e não conhecer elas”. É que o homem só existe em relação ao seu ambiente. Não existe homem sem um mundo. “Admitindo-se que todos os seres humanos morressem, mas ficassem as arvores, os pássaros, os animais, os mares, os rios, seria isto mundo”? O mundo existe porque o homem existe para nomeá-lo.

O homem reinventa o mundo

        O homem transforma o mundo através do seu trabalho. Por meio do seu trabalho o homem se expressa no mundo. É fazendo o seu trabalho que o homem transforma o mundo. Sem trabalho não existe homem. Um mundo de homens sem trabalho é um mundo que não existe. Portanto, não existe mundo fora da relação homem-mundo. A visão de mundo que vê o homem como instrumento de produção desconsidera que o homem se expressa no mundo por meio do seu trabalho.

        “Transformando a realidade natural com seu trabalho, os homens criam o seu mundo. Mundo da cultura e da história que, criado por eles, sobre eles se volta, condicionando-os. Isto é o que explica a cultura como produto, capaz ao mesmo tempo de condicionar seu criador”.

        Os homens desenvolvem as suas maneiras de pensar e de se comportar no mundo fundamentadas nas ideias culturais dominantes na sociedade em que fazem parte. Essas maneiras de pensar e de atuar no mundo condicionam o mundo para essas maneiras de pensar e de atuar no mundo. Ao mesmo tempo, os homens são condicionados por essas maneiras de pensar e de atuar no mundo.

        Esse condicionamento as maneiras de pensar e de atuar no mundo estabilizam os homens numa forma de pensar e atuar o mundo que lhes parece segura. Com isso, as inquietações que propõem mudanças trazem consigo o medo do novo, o medo da perda do seu ‘status social’. Esse medo impede a reflexão crítica das ideias e dos comportamentos instituídos.

O homem recria a si mesmo

        “É que, no momento em que os indivíduos, atuando e refletindo, são capazes de perceber o condicionamento de sua percepção pela estrutura em que se encontram, sua percepção começa a mudar, embora isso não signifique ainda a mudança da estrutura. É algo importante perceber que a realidade social é transformável; que feita pelos homens, pelos homens pode ser mudada, que não é algo intocável, um fado, uma sina, diante de que só houvesse um caminho: a acomodação a ela. Poderá dizer-se que a mudança da percepção não é possível antes da mudança da estrutura’’.

Psicologia de Rebanhos

“O rebanho é os meus pensamentos e os meus pensamentos são todos sensações” (Fernando Pessoa).

 

        Experienciando a si mesmo através da vivencia das suas emoções e sentimentos, o homem percebe como ele se usa para fazer as coisas. Percebendo como se usa, o homem pode mudar a maneira como ele se usa. Percebemos que podemos mudar o jeito que atuamos por uma nova percepção de como fazemos isso.

Referencias

FREIRE, Paulo. Ação cultural para a liberdade e outros escritos. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2011.

 

As emoções propriamente ditas

        “Classificar é um mal necessário. A medida que os nossos conhecimentos aumentam, os rótulos e as classificações deverão melhorar e tornar-se um mal menor. A classificação básica para as emoções propriamente ditas faz uso de três categorias: emoções de fundo, emoções primarias e emoções sociais”.

        As emoções de fundo, como o nome sugere, são especialmente baixas, estão no fundo. As emoções de fundo são percebidas em manifestações sutis. Elas são percebidas nos movimentos dos membros ou do corpo inteiro, na força desses movimentos, na sua precisão, na sua frequência e amplitude. Também podem ser percebidas na melodia da voz, nos ritmos da fala, na maneira de emissão dos sons da fala, etc.  “As emoções de fundo são manifestações compostas de reações” que visam regular o funcionamento do organismo e se desenrolam e acontecem a todo instante.

        “As emoções primarias (ou básicas) são mais fáceis de definir. A lista inclui o medo, a raiva, o nojo, a surpresa, a tristeza e a felicidade”.

        “As emoções sociais incluem a simpatia, a compaixão, o embaraço, a vergonha, a culpa, o orgulho, o ciúme, a inveja, a gratidão, a admiração e o espanto, a indignação e o desprezo”.

        Muitas reações de regulagem do organismo são compostas de diversas combinações dos tipos de emoções de fundo, primarias e sociais. “Por exemplo, quando o desprezo utiliza as expressões faciais do nojo, uma emoção primaria”.

As nossas emoções promovem respostas emocionais nos outros

        “Uma emoção social está profundamente gravada no cérebro, pronta para ser utilizada quando chega o momento apropriado”. Nós já nascemos com essas emoções? Essas emoções já estão prontas para serem usadas logo após o nosso nascimento? “A resposta não é a mesma para todas as emoções. Em certos casos, as emoções são de fato inteiramente inatas. Noutros casos, requerem um grau mínimo de exposição apropriada ao ambiente”.

        “É muito provável que a existência de emoções sociais tenha tido um papel no desenvolvimento dos mecanismos culturais de regulação social”. As reações de dominância ou submissão social podem ser um exemplo desse desenvolvimento. “Por que algumas pessoas se tornam líderes e outras seguidoras, por que algumas impõem respeito e outras se acovardam, tem muitas vezes pouco a ver com os conhecimentos ou aptidões dessas pessoas, mas muitíssimo a ver com qualidades físicas que promovem certas respostas emocionais nos outros”.

A satisfação e o controle das emoções

        “A satisfação das pulsões – fome, sede e sexo – causa alegria; mas bloquear a satisfação dessas pulsões pode causar raiva, desespero e tristeza”.

        As emoções sociais não são, de forma nenhuma, exclusividade dos seres humanos. “A maior parte dos seres vivos que exibem emoções detecta a presença de certos estímulos no ambiente e responde impensadamente com emoção”.

        “Quando os seres humanos equilibram automaticamente o pH do seu meio interno, ou reagem com felicidade ou medo a certos objetos, também não estão deliberadamente escolhendo. Certos organismos podem produzir reações vantajosas que levam a bons resultados sem decidirem produzir essas reações e possivelmente mesmo sem sentirem a ocorrência dessas reações”.

        “As reações automáticas criam no organismo humano, sem dúvida, condições representadas como agradáveis ou dolorosas, e finalmente feitas conscientes. Os seres humanos conscientes da relação entre certos objetivos e certas emoções podem esforçar-se, de livre e espontânea vontade, para controlar as suas emoções, pelo menos em parte”.

 

Psicologia de Rebanhos

O rebanho é os meus pensamentos e os meus pensamentos são todos sensações (Fernando Pessoa).

        Ah! São tantas as emoções! Quando eu estou aqui, eu vivo esse momento lindo! A vida de grande parte dos organismos vivos é regida pelas emoções. Conhecer como lidar com as nossas emoções nos possibilita aprender como potencializar a nossa capacidade de regular o prazer e a dor de nossas vidas.

 

Referencias

DAMÁSIO, António. Em busca de Espinosa: prazer e dor na ciência dos sentimentos. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

O sistema de saúde mais antigo do mundo

        “Há registros de que a massagem já era praticada na Índia há mais de cinco mil anos. Reconhecida como o sistema de saúde mais antigo do mundo, captado por diferentes povos da antiguidade, como chineses, persas, gregos, entre outros.

        Os médicos indianos foram os primeiros a fazer cirurgias plásticas, e também introduziram mais de cem instrumentos cirúrgicos, não muito diferentes dos utilizados atualmente.

        As formas de prevenção e tratamento de doenças são dietas, ervas, exercícios, massagens, praticas iogues e meditação.

        Como esse sistema reconhece a singularidade e a constituição única de cada indivíduo, o tratamento é diferenciado mesmo para pessoas que desenvolvem, aparentemente, o mesmo tipo de sintoma. Esse sistema respeita a sua constituição essencial e os aspectos peculiares da história que antecede o sintoma em cada um”.

        O nosso corpo e a nossa mente estão interligados. Se o corpo sucumbe, a mente também adoecera, e vice-versa. Os exercícios contem movimentos que estimulam o organismo afetado por meio do aumento da circulação sanguínea.

        Todos os nossos movimentos são baseados em alongamentos, encurvamentos, torções e relaxamento. Os movimentos proporcionam diversos efeitos, que estimulam e integram as diferentes partes do corpo.

        Os exercícios nos ajudam a acalmar a nossa mente e a nos livrar de todas as distrações. Mas para chegar a esse estágio será preciso percorrer uma longa e diligente jornada, bem como, aprender que a ação física está ligada a respiração e a concentração mental. “A disciplina, por sua vez, ajuda a dissipar a agitação e a confusão da mente, que tanto afligem as pessoas”.

 

A massagem

        “Os deslizamentos, amassamentos e pressões com as mãos e os pés estimulam a circulação e aquecem a musculatura e as articulações, preparando o corpo para as flexões, torções e alongamentos.

        Seus efeitos são potencializados com a expiração lenta e profunda, que proporciona maior oxigenação das células e, consequentemente, um intenso relaxamento muscular. Ao mesmo tempo, a respiração permite maior amplitude de movimento, facilitando as manobras de alongamento.

        As fricções, seguidas de alongamentos, servem para lubrificar as articulações, onde normalmente se depositam os excessos de cálcio e de ácido úrico. Isso confere grande alivio da dor”.

Psicologia de Rebanhos

“O rebanho é os meus pensamentos e os meus pensamentos são todos sensações” (Fernando Pessoa).

 

        A mente é um produto do corpo. O corpo é uma imagem da mente. Somos o nosso corpo. O pensamento é um produto da mente que, por sua vez, é um produto do corpo. Existe, entre mente e corpo, uma relação de reciprocidade, aliás, como qualquer relação. Assim, o corpo produz a mente, mas a mente também produz o corpo. Portanto, o corpo também é um produto da mente que, por sua vez, também é o produto de um pensamento.

Referencias

MARTILNELLI, Alda. Yoga massagem ayurvédica: a transformação pelo toque: método Kusum Modak. São Paulo: Editora Olhares, 2011.

 

Contra os que negam o livre-arbítrio nas ações humanas

Contra os que negam o livre-arbítrio nas ações humanas

Vos, crédulos mortais, alucinados

De sonhos, de quimeras, de aparências,

Colheis por uso erradas consequências

Dos acontecimentos desastrados:

Se a perdição correis precipitados

Por cegas, por fogosas impaciências,

Indo a cair, gritais que são violências

De inexoráveis céus, de negros fados:

Se um celeste poder tirano, e duro,

As vezes extorquisse as liberdades,

Que prestava, oh Razão, teu lume puro?

Não forçam corações as divindades;

Fado amigo não há, nem fado escuro:

Fados são as paixões, são as vontades.

 

* * *

 

Reprodução do antecedente, estando o autor preso

Liberdade querida, e suspirada,

Que o Despotismo acérrimo condena;

Liberdade, a meus olhos mais serena

Que o sereno clarão da madrugada!

Atende a minha voz, que geme e brada

Por ver-te, por gozar-te a face amena;

Liberdade gentil, desterra a pena

Em que esta alma infeliz jaz sepultada:

Vem, oh deusa imortal, vem, maravilha,

Vem oh consolação da humanidade,

Cujo semblante mais que os astros brilha:

Vem, solta-me o grilhão da adversidade;

Dos céus descende, pois dos céus és filha,

Mãe dos prazeres, doce Liberdade!

 

 

Epistola a Marilia

IV

Crê, pois, meu doce bem, meu doce encanto,

Que te anseiam fantásticos terrores,

Pregados pelo ardil, pelo interesse.

Só de infestos mortais na voz, na astucia,

A bem da tirania está o inferno.

Esse que pintam báratro de angustias,

Seria o galardão, seria o premio

Das suas vexações, dos seus embustes,

E não pena de amor, se inferno houvesse.

Escuta o coração, Marilia bela,

Escuta o coração, que te não mente.

 

Eis o que hás-de escutar, ó doce amada,

Se à voz do coração não fores surda.

De tuas perfeições enfeitiçado,

Às preces, que te envia, eu uno as minhas.

Ah! Faze-me ditoso e se ditosa.

Amar é um dever, além de um gosto,

Uma necessidade, não um crime,

Qual a impostura horríssona apregoa.

Céus não existem, não existe inferno:

O prêmio da virtude é a virtude,

É castigo do vicio o próprio vicio.

 

* * *

Psicologia de Rebanhos

O rebanho é os meus pensamentos

E os meus pensamentos são todos sensações.

(Fernando Pessoa)

        O homem crente de Adão inventou a escolha. Mas para que havermos de escolher? O homem crente do cristianismo inventou o livre-arbítrio. Mas para que o homem do cristianismo inventou o livre-arbítrio se Deus já tinha criado a escolha? Você sabe para que servem as suas vontades quando você está apaixonado? Quando você está apaixonado as suas vontades servem para… nada. Apaixonado, as suas vontades apenas obedecem às suas paixões. As paixões são fados, disse o poeta, as vontades também. As paixões e as vontades nos aprisionam. Pobre daquele que acredita ter a chave das celas das suas paixões e das suas vontades numa liberdade fora de si mesmo – fora do Paraiso? “Escuta o coração, Marilia bela, escuta o coração que não te mente. O prêmio da virtude é a virtude, é castigo do vicio o próprio vicio”. Fados são as paixões e as vontades. Quem poderá e saberá dizer, quando escolheu viver as suas?

BOCAGE, Manuel Maria Barbosa du. O delírio amoroso e outros poemas. Porto Alegre: L&PM, 2004.

 

Duvidar do que se tem certeza

        Platão (428-348 a.C.) viveu, na Grécia antiga, num período em que muitas tradições e dogmas eram cultuados. ”Onde existem mil crenças, tendemos a nos tornar céticos em relação a todas elas”. Assim, inspirado por Sócrates (469-399 a.C.) a duvidar do que se tem certeza, Platão pôs-se a duvidar de quase tudo, exceto do que ele acreditava que era a verdade.

        Antes de Sócrates, os pensadores se perguntavam sobre a constituição das coisas, sobre qual seria o princípio das coisas. Esses pensadores atingiram o seu apogeu quando Demócrito (460-360 a.C.) cogita que “na realidade, nada existe a não ser átomos e espaço”.

        Ensina Sócrates que o verdadeiro conhecimento consiste em duvidar do que se conhece. Dizia ele: só sei uma coisa, e é que nada sei. Sócrates nos ensina a duvidar das nossas próprias crenças, principalmente das crenças preferidas. Possivelmente, as nossas crenças preferidas se tornaram certezas para nós, a partir de algum desejo secreto revestido com o traje do pensamento. Para Sócrates, não há conhecimento verdadeiro enquanto a mente não se voltar a examinar a si mesma. Conhece-te a ti mesmo.

        Sócrates não deixou por escrito nenhuma das suas crenças. Platão, discipulo de Sócrates, foi quem partilhou conosco, por escrito, as suas crenças preferidas de Sócrates. Desconhecemos os critérios de escolha dessas crenças por Platão. Desconhecemos também se essas crenças eram mesmo do Sócrates ou eram crenças do próprio Platão.

 

Pensamentos de Platão sobre a politica

        “E quanto ao Estado, o que poderia ser mais ridículo do que a sua democracia chefiada pela populaça, dominada pela paixão.

        Não é do conhecimento de todos que os homens em multidões são mais tolos, mais violentos e mais cruéis do que separados e sozinhos? Como pode uma sociedade ser salva, ou ser forte, se não tiver a frente seus homens mais sábios?

        A democracia precisava ser destruída, para ser substituída pelo governo dos mais sábios e melhores. A preocupação de sua vida passou a ser a procura de um método pelo qual os mais sábios e melhores pudessem ser descobertos e, depois, habilitados e persuadidos a governar”. Qual seria o critério para se descobrir os homens mais sábios e melhores?

 

Platão e a ética

        Platão segue o pensamento grego da sua época, fundamentado no mito dos heróis e deuses do Olimpo, onde o direito é adquirido pela força. A justiça é constituída pelo interesse do mais forte.        A moralidade é uma invenção dos fracos para neutralizar a força dos fortes.

        A justiça, portanto, é uma relação entre indivíduos que depende da organização social onde esses indivíduos se inserem.

        “Justiça é ter e fazer o que nos compete”.

        A justiça deve ser eficiente. A justiça se baseia no funcionamento harmonioso dos elementos em um homem.

        A verdade muda de roupa com frequência (como toda mulher atraente), mas sob o novo habito continua sempre a mesma.

        Os homens não se contentam com uma vida simples. Os homens são gananciosos, ambiciosos, competitivos e invejosos. Os homens logo se cansam do que possuem e anseiam por aquilo que não tem. Os homens, raramente, desejam qualquer coisa, a menos que ela pertença a terceiros.

 

Platão e a psicologia

        Platão acredita que uma nação somente pode ser forte, caso acredite num Deus todo-poderoso. Um deus que, pelo pavor e pelo terror, incita e obriga o indivíduo a moderar a sua ganancia e a sua paixão. A essa crença num deus, também deve-se acrescentar a crença na imortalidade das almas humanas. A esperança de uma outra vida da coragem para o indivíduo suportar as opressões a que se sujeita nessa vida de carne e osso, além de ajudar a enfrentar a morte dos seus entes queridos. E alimentar o poder dos que valorizam mais essa vida do que uma suposta vida pós-morte.

 

Psicologia de Rebanhos

O rebanho é os meus pensamentos

E os meus pensamentos são todos sensações.

(Fernando Pessoa)

        Com Platão, elege-se, na civilização ocidental, o mundo das ideias como a verdadeira vida. Apesar de Sócrates ter tentado ensinar que deveríamos duvidar das nossas crenças, Platão adere firmemente a crença de que o verdadeiro mundo é o mundo das ideias. O mundo das sensações seria enganoso, inseguro, não confiável. Para Platão, deveríamos duvidar do mundo sensível pois as certezas sobre o mundo estavam nas ideias. Essa crença de que os pensamentos são a verdadeira vida se sustenta atualmente pela ideia de um valor superior dos pensamentos sobre as sensações.

 

Referencias

DURANT, Will. A história da filosofia. São Paulo: Editora Nova Cultural, 1996.

 

As faltas eram julgadas de fora para dentro

        Na Grécia antiga, as faltas eram julgadas de fora para dentro. Não se julgavam intenções, mas reparações, indenizações a vítima, se fosse o caso. Quando a falta é cometida entre pais, filhos, netos, e, entre irmãos, por linha colateral, implica em parentesco sagrado (pessoas ligadas por laços de sangue). Esposos, cunhados, sobrinhos e tios não são parentes em sagrado, mas em profano ou ante os homens.

        Acreditava-se na crença da maldição familiar, a saber: qualquer falta cometida por um membro da família recai sobre o grupo familiar inteiro, isto é, sobre todos os parentes e seus descendentes “em sagrado” ou “em profano”.        Esta crença na transmissão da falta, na solidariedade familiar e na hereditariedade do castigo é uma das mais enraizadas no espirito dos homens.

        Entretanto, conta-se a boca pequena que essa tal maldição não passa de um conflito entre gerações. Esse antagonismo entre gerações, todavia, quer seja entre pai e filho, avo e neto, ou entre pai e pretendente, é sempre um combate pelo poder. E tem sempre como desfecho a vitória do mais jovem.

        Desse modo, o parricídio (homicídio do pai) e o filicídio (homicídio do filho) ou são substituídos por um simples destronamento, ou são realizados. Mas quando realizados são resultantes de um erro, embora se tenha o respaldo de um oraculo. Em ambos os caos, os poetas evitam colocar em cena o mais horrendo dos crimes aos olhos da sociedade grega.

 

        “O mérito pessoal é uma condição necessária para se subir ao trono dos antigos e a persistência da energia ativa é indispensável para conservar o poder real”. Donde se conclui que a sucessão por morte se fundamenta no princípio da incapacidade, por velhice (cessação da energia ativa), de exercer a função real. A razão é de ordem magica: quem perdeu a força física não pode transmiti-la como deveria e teria que fazer um rei.

O sacrifício do primogênito é um tema comum no mito

        Em todas as tradições encontra-se o símbolo do filho ou da filha imolados, cujo exemplo mais conhecido é o “sacrifico” de Isaac por Abraão. Nas culturas mais antigas, um tal sacrifício, não obstante seu caráter religioso, era exclusivamente um habito, um rito. No caso de Abraão é um ato de fé.

        No mundo antigo oriental, o primeiro filho era, não raro, considerado como filho de deus. É que no Oriente antigo as jovens tinham por norma passar uma noite no templo para “conceber” do deus. Esse deus era representado, evidentemente, pelo sacerdote ou por um enviado, o estrangeiro.

        Pelo sacrifico desse primeiro filho, do primogênito, restituía-se a divindade aquilo que, de fato, lhe pertencia. O sangue jovem estabelecia a energia esgotada do deus, porque as divindades da vegetação e da fertilidade exauriam-se em seu esforço. Na época histórica esses sacrifícios reais foram substituídos por uma “provação” como o de Isaac. Mas cuja execução não mais de consumava: Isaac foi substituído por um carneiro.

        Trata-se, ao que tudo faz crer, de uma repressão patriarcal: obtida a submissão, o ato se dá por cumprido e o opressor por satisfeito.

Psicologia de Rebanhos

“O rebanho é os meus pensamentos e os meus pensamentos são todos sensações” (Fernando Pessoa).

        A Psicologia dos povos muito antigos consistia na reparação dos comportamentos. Reparava-se um comportamento com um outro comportamento. Depois, passamos a sacrificar o novo para inundar de sangue novo o velho poder já exaurido. O homem tem uma “quedinha” para apoiar a tradição, para alimentar o poder instituído e alimentar-se dele. Com o advento da fé, origina-se uma nova Psicologia. O homem descobre que o poder está na fé. O antigo impede o reinado do novo por um ato de fé. O novo é reprimido e submetido e se dá por satisfeito por não ter sido extinguido. Mas a vida é movimento. E o que se move, muda ou retorna. Assim, vemos o retorno da Psicologia dos povos antigos para lidar com as repressões e submissões criadas pela ausência da reparação dos comportamentos.

Referencias

BRANDÁO, Junito de Souza. Mitologia grega: Volume I. Petrópolis: Editora Vozes, 1987.

 

Uma mudança no público consumidor da tatuagem

Saia desse corpo que não lhe pertence!

 

Capitulo 8

 

        Nas décadas de 1950 e 1960 ocorre uma mudança no público consumidor da tatuagem. A tatuagem “passa também a ser utilizada por gangues e como emblema de movimentos contra culturais, como o movimento hippie e mais tarde o movimento punk” (Silva, 2010). “Passou, de forma de expressão popular através da qual os setores marginais comunicavam seus sentimentos e paixões, para converter-se numa marca ornamental de identificação grupal e de transgressão social” (Fonseca, 2003).

        “Na sociedade atual, a tatuagem perde parcialmente essa funcionalidade (identificação grupal e transgressão social), porém, segue exercendo o papel de indicativo da construção do indivíduo, expressando socialmente sua singularidade e autonomia” (Ferreira, 2012).

 

Tatuagem e arte

        “A arte dos anos 1960 tira o corpo da dimensão do pecado, da repressão, da inacessibilidade e da alienação causada pelas restrições sociais e o coloca na dimensão de agente e receptor de sensações e prazeres”.

        Na body art, “o artista se coloca como obra viva, usando o corpo como instrumento, destacando sua ligação com o público e a relação tempo-espaço. Desde a body art, não basta uma arte que retrate o corpo, ou que seja produzida sobre o corpo, ela tem que ser produzida com o corpo.

        O happening é uma forma de expressão artística desenvolvida em grupo que valoriza a espontaneidade e o improviso”.

        No início dos anos 1970, “o coletivo cede lugar ao individual, o improviso e a espontaneidade, ao conceitual. Surge a performance, que consiste na justaposição e na colagem de imagens não relacionadas, selecionadas ao acaso, de maneira lúdica e anárquica. Difere do happening porque, em vez de um ritual, trata-se agora de um espetáculo”.

        A body modification cria uma relação do artista com o corpo totalmente diferente das estabelecidas pela body art e pela performance. Nela, a relação corpo-objeto é independente da relação tempo-espaço, conforme entendida anteriormente.

        Não há distinção entre o artista e a obra, entre o sujeito criador e o objeto criado. O sujeito é o objeto e não deixará de ser, independentemente do tempo e do espaço em que se encontre. Não vigora aqui a premissa do pensamento racional, do discurso conceitual” (Pires, 2005).

        A folk-comunicação, “desenvolvida por Luiz Beltrão, teorizando sobre as transformações tanto na forma quanto no sentido, colocam a tatuagem numa categoria rudimentar de comunicação” (Simões, 2011). “Pois é o efeito obtido que conta a partir de agora: não mais apenas a decifração do significado da obra previamente realizada” (Nascimento, 2007).

 

Tatuagem e estigma

        “O sentido estigmatizador do uso da tatuagem começa a mudar a partir dos anos 1980, com o estabelecimento de modernas lojas exclusivas (dotadas de equipamentos especializados, materiais descartáveis e diferentes meios de promoção), a profissionalização de seus praticantes, o melhoramento da técnica. E, sobretudo, as novas formas de conceber o corpo, como obra-prima de construção do sujeito e aberto às transformações. A tatuagem torna-se, assim, uma das opções estéticas procuradas pelas novas gerações” (Perez, 2006).

 

Psicologia de Rebanhos

O rebanho é os meus pensamentos

E os meus pensamentos são todos sensações.

(Fernando Pessoa)

        Podemos considerar a tatuagem como uma forma de construção da identidade daquele que se tatua. Assim, o corpo é identificado e individualizado pela tatuagem. O tatuado considera seu corpo como um corpo singular e único. O tatuado, deste modo, confere a si uma personalidade autônoma e independente.

        Dessa forma, o tatuado cumpre a determinação estética da sociedade de consumo que trata o indivíduo como objeto de consumo. A psicoterapia trabalha a construção do indivíduo pela potência do seu corpo biológico em relação com a sociedade em que ele atua.

 

Referencias

FERREIRA, Deborah Cristina. O corpo como texto: analise discursiva da escrita no corpo. Revista Eventos Pedagógicos, v. 3, n. 1 Numero Especial, p. 138 – 146, abr, 2012. Acesso em 08 de março de 2015. Disponível em

FONSECA, Andrea Lissett Perez. Tatuar e ser tatuado: etnografia da pratica contemporânea da tatuagem. Florianópolis, agosto de 2003. Acesso em 08 de março de 2015. Disponível em

NASCIMENTO, Evando. Os sentidos da i-materialidade: o pensamento estético de Gumbrecht e Oiticica. Ensaio publicado originalmente nos Estados Unidos com o título de “The Senses of I-Materiality”, em Mendes, Victor K.; Rocha, João Cezar de Castro (Org.). Producing Presences: Branching Out From Gumbrecht’s Work. Darmouth: University of Massachusetts Dartmouth Press, 2007, p. 267-286. Acesso em 09 de janeiro de 2015. Disponível em

PEREZ, Andrea Lissett. A identidade à flor da pele. Etnografia da prática da tatuagem na contemporaneidade. MANA 12(1): 179-206, 2006. Julho de 2005. Acesso em 08 de março de 2015. Disponível em

PIRES, Beatriz Ferreira. O corpo como suporte da arte: piercing, implante, escarificação, tatuagem. São Paulo: Editora SENAC, 2005.

SILVA, Bruna Cristina Daminelli. A tatuagem na contemporaneidade. Criciúma, julho de 2010. Acesso em 21 de julho de 2015. Disponível em

SIMÕES, Renan. A Comunicação não Verbal Através da Tatuagem. XIV Conferência Brasileira dos Estudos da Folkcomunicação – “O artesanato como processo comunicacional” – IX Encontro Regional de Comunicação, 2011. Acesso em 21 de julho de 2015. Disponível em

Tensão dos músculos no momento de sua observação

        “O tônus é o estado de contração dos músculos”. O nosso “tônus neuromuscular poderia então ser definido como o estado de contração-tensão dos músculos no momento de sua observação”. O alongamento muscular provoca respostas prolongadas no nosso cérebro. A resposta do musculo as solicitações é adaptável as exigências do momento.

        O nosso aparelho locomotor é função de múltiplas articulações. O centro de gravidade do corpo está situado um pouco acima da metade da nossa altura, “mais ou menos no nível da terceira vertebra lombar”. Somos mais compridos do que largos. A nossa área de sustentação é bem menor que nossa área corporal total. “O risco de desequilíbrio é permanente”.

        Estamos constantemente em desequilíbrio. A instabilidade é o nosso equilíbrio. Um equilibro que controlamos. “O controle da postura e do equilíbrio é considerado como uma atividade complexa baseada nas interações de processos dinâmicos, sensoriais e motores. O objetivo principal do controle postural é o alinhamento ativo da cabeça e do tronco em relação a linha de gravidade”.

        Sofremos, intermitentemente, a ação da gravidade. Ficar em equilíbrio, mesmo sentado, exige um trabalho constante de nossa musculatura.

        Ainda bem que não vivemos somente por conta da nossa consciência. Se tivéssemos que viver conscientes de todos os nossos desequilíbrios, não passaríamos de um pendulo de relógio. “Os desequilíbrios podem chegar a consciência, mas os principais responsáveis pela gestão das informações relativas a postura e das respostas” ao nosso estado de equilíbrio “são subcorticais”.

        “A medula espinhal é o primeiro nível de controle do equilíbrio”. Após aprendermos a nos comportar contra a força gravitacional, passamos a opor-nos por reflexo (sem pensar) aos deslocamentos e restabelecemos “a estabilidade postural em face do menor desequilíbrio”.

A respiração

        “A inspiração marca a passagem a vida extrauterina. O motor fundamental disso é o diafragma, responsável pela respiração de pequena amplitude”. “A expiração, por sua vez, pode ser obtida pelo simples relaxamento dos (músculos) inspiratórios”. Os músculos inspiratórios “agem no sentido da gravidade. Sua função essencial é dinâmica”. Os músculos “inspiratórios são numerosos e de vocação preferencialmente estática”. Os músculos “expiratórios são pouco numerosos e dinâmicos”.

O desenvolvimento motor

        Grande parte da atividade do nosso sistema nervoso dedica-se ao controle da nossa postura. “O movimento se organiza em função das tarefas a cumprir. A coordenação é inseparável dos objetivos a atingir”.

        Os movimentos de um recém-nascido “vêm de reflexos primitivos sem implicação cortical”. Os reflexos primitivos são “progressivamente inibidos e controlados pelo sistema subcortical, para chegar a um controle gestual voluntario”. Esses reflexos primitivos “dão lugar aos reflexos posturais, controlados em grande parte pelo tronco cerebral”. Os reflexos posturais “são basicamente de controle do equilíbrio”.

        “O apoio do pé no solo marca uma etapa fundamental no plano sensitivo-reflexo e motor”. O recém-nascido recorre a uma função estática para passar da sua posição deitada para a posição estável de pé quando criança. Essa função estática está instalada “nos músculos do pescoço, da coluna vertebral, dos membros inferiores e dos adutores-rotadores internos da raiz dos membros”.

As cadeias de coordenação neuromuscular

        Quando adquirimos a postura bípede “definitiva, estável e econômica, joelhos em extensão e fixação da lordose lombar”, recorremos aos “músculos da estática numerosos e potentes” das nossas costas, responsáveis diretos pela nossa “luta contra a gravidade”.

        Essa postura bípede exige constante e intensa tonicidade dos músculos. O movimento da postura bípede inicia-se “no nível do masseter, dos músculos do pescoço e da nuca, para estender-se ao tronco, aos membros superiores e aos membros inferiores”. Essa atividade constante e intensa é responsável pela rigidez muscular que formamos ao longo da vida.

        “A atividade neuromuscular está na base de uma coordenação motora controlando duas funções, estática e dinâmica, decerto absolutamente complementares, mas de imperativos distintos”.

 

Psicologia de Rebanhos

O rebanho é os meus pensamentos

E os meus pensamentos são todos sensações.

(Fernando Pessoa)

 

        A nossa postura tem tudo a ver com a maneira como lidamos com o nosso equilíbrio-desequilíbrio. Sofremos, ininterruptamente, a ação da força da gravidade. Somos constantemente testados quanto a nossa forma de estar no mundo. Embora não tenhamos consciência das nossas posturas, as solicitações e respostas as atividades musculares chegam ao nosso cérebro e nele são organizadas.

Referencias

SOUCHARD, Philippe E. RPG, reeducação postural global: o método. Rio de Janeiro: Elsevier, 2011.

 

Vai, Carlos! Ser gauche na vida

Alguma poesia
        A Mario de Andrade, meu amigo.
Poema de sete faces
         Quando nasci, um anjo torto
         Desses que vivem na sombra

         Disse: Vai, Carlos! Ser gauche na vida.

         As casas espiam os homens

         Que correm atrás de mulheres.

         A tarde talvez fosse azul,

         Não houvesse tantos desejos.

         O bonde passa cheio de pernas:

         Pernas brancas pretas amarelas.

         Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.

         Porem meus olhos

         Não perguntam nada.

O homem atrás do bigode

É sério, simples e forte.

Quase não conversa.

Tem poucos, raros amigos

O homem atrás dos óculos e do bigode.

         Meu Deus, por que me abandonaste

         Se sabias que eu não era Deus

         Se sabias que eu era fraco.

         Mundo mundo vasto mundo,

         Se eu me chamasse Raimundo

         Seria uma rima, não seria uma solução.

         Mundo mundo vasto mundo,

         Mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer

Mas essa lua

Mas esse conhaque

Botam a gente comovido como o diabo.

 

* * *

 

No meio do caminho

         No meio do caminho tinha uma pedra

Tinha uma pedra no meio do caminho

Tinha uma pedra

No meio do caminho tinha uma pedra.

 

Nunca me esquecerei desse acontecimento

Na vida de minhas retinas tão fatigadas.

Nunca me esquecerei que no meio do caminho

Tinha uma pedra

Tinha uma pedra no meio do caminho

No meio do caminho tinha uma pedra.

 

* * *

 

Igreja

         E nos domingos a litania dos perdões, o murmúrio das invocações.

         O padre que fala do inferno

         Sem nunca ter ido lá.

 

* * *

 

Esperteza

Tenho vontade de

– ponhamos amar

Por esporte uma loura

O espaço de um dia.

         Certo me tornaria

         Brinquedo nas suas mãos.

         Apanharia, sorriria

         Mas acabado o jogo

         Não seria mais joguete,

         Seria eu mesmo.

 

         E ela ficaria espantada

         De ver um homem esperto.

 

* * *

 

Poesia

         Gastei uma hora pensando um verso

         Que a pena não quer escrever.

         No entanto ele está cá dentro

         Inquieto, vivo,

         Ele está cá dentro

         E não quer sair.

         Mas a poesia deste momento

         Inunda minha vida inteira.

 

Psicologia de Rebanhos

O rebanho é os meus pensamentos

E os meus pensamentos são todos sensações.

(Fernando Pessoa)

 

         Um verso é a tentativa do poeta para explicar a poesia do momento. A poesia deste momento se encontra nos sentimentos indescritíveis que nos acompanharam por toda a nossa vida. O verso do poeta é sua tentativa de compreender as suas sensações. Como os poetas, os pacientes, em psicologia, versejam na tentativa de compreender os seus sentimentos.

 

ANDRADE, Carlos Drummond de.  Nova reunião: 19 livros de poesia. Rio de Janeiro: Jose Olympio, 1983.

 

Crescem o erro, a ignorância e a cegueira

        São muitos os que dizem, atualmente, que nunca conhecemos tanto o funcionamento das coisas. Entretanto, lado a lado com esse progresso das ideias e das tecnologias, crescem o erro, a ignorância e a cegueira.

        A causa do crescimento do erro está no modo ideológico de organização das ideias: doutrinário e dogmático. Jamais tivemos tantos sistemas teóricos sobre o funcionamento disso ou daquilo.

        A causa da ignorância é o próprio jeito de conhecer. A nossa ciência é simplista e burocrática e especializada e tecnocrata.

        A causa do crescimento da cegueira está no uso esquemático da razão. A razão é o novo soberano de fato. Essa razão endeusada e infalível e sensata e coerente que a todos encanta e mata com a produção descontrolada de armas de destruição.

        A incapacidade de reconhecer e de aprender a complexidade do real é a característica resultante de um modo de pensar separatista da organização do conhecimento.

 

A organização do conhecimento

        “Qualquer conhecimento opera por seleção de dados significativos e rejeição de dados não significativos”. Todo conhecimento separa e associa, hierarquiza e centraliza em função de uma ideia comum. Você dirá que não encontramos outra maneira de conhecer. Você dirá que essas operações de separação e associação e seleção são oriundas da lógica, portanto, sustentam racionalmente a obtenção do conhecimento.

        Porém, essas operações utilizadas pela lógica, já foram organizadas por um princípio de organização do pensamento. Ou seja, essas operações já passaram pelo crivo de um conhecimento anterior. Essas operações logicas foram anteriormente separadas e associadas e selecionadas por princípios que orientaram a nossa consciência para um conhecimento especifico. Esses princípios, por sua vez, foram separados e associados e selecionados por um conhecimento anterior. E, assim, organizamos pensamento sobre pensamento, até um infinito. E excluímos outros infinitos.

 

A patologia do saber

        Vivemos na época da hegemonia das ideias, da simplificação e da separação. Platão sustenta que o mundo sensível é um mundo irreal, que o verdadeiro mundo é o mundo dos pensamentos. Descartes separou o sujeito pensante da coisa pensada. Tanto o pensamento de Platão como o de Descartes são produtos do pensamento separatista, simplificado e reducionista.

        Esse pensamento separatista e reducionista não consegue conceber o singular e o múltiplo como um conjunto. Essa razão idolatrada racionaliza o real. Para o pensamento racional, o real é apenas um detalhe. Para o pensamento racional, as ideias são a verdadeira realidade.

        A ciência isola um fenômeno do seu ambiente e faz conclusões de laboratório sobre o fenômeno, com validade para o funcionamento do fenômeno no seu ambiente real. A ciência brada a imparcialidade do seu método, entretanto, não admite a impossibilidade de separação entre o observador e a coisa observada. Até mesmo as disciplinas que buscam conhecer o homem já concluíram que não precisam do homem para conhece-lo. Constatam assim a inexistência do homem. Transformam a existência humana numa contingencia ilusória.

 

A necessidade do pensamento complexo

        Essa simplificação é compreensível, pois a complexidade do real é uma desordem para a nossa razão imatura. Estudar um fenômeno no laboratório é simplista, é fugir da dificuldade do pensamento complexo, é fugir da desordem do real, é escapar das infinitas inter-relações entre os fenômenos.

        É difícil associar sem identificar ou reduzir. Desde tempos remotos aprendemos a conhecer identificando (separando) e reduzindo (selecionando). A ciência enganosamente constrói uma simplificação do fenômeno no laboratório e conclui leis e propriedades validas para o fenômeno em situações complexas – reais.

        O pensamento contemporâneo é o da simplificação, que não deixa ver a complexidade do real. O pensamento mitológico criou uma vida ideológica de deuses com características humanas. O pensamento oculta a realidade. A ideia torna a realidade ilusória. Os sistemas teóricos se fecham em si mesmos e dogmatizam o conhecimento. A razão imatura racionaliza e encerra o real num sistema de ideias coerente, mas parcial e unilateral.

        Uma parte do real é irracionalizável, mas estamos na era da barbárie das ideias.

 

Psicologia de Rebanhos

O rebanho é os meus pensamentos

E os meus pensamentos são todos sensações.

(Fernando Pessoa)

 

        As nossas sensações são enganosas. Como produtos das nossas sensações, os nossos pensamentos são enganosos. Essa é uma associação oriunda da lógica. A lógica é uma construção dos nossos pensamentos enganosos. Portanto, a nossa lógica, que sustenta a nossa forma de conhecer, é também enganosa. Resta-nos aprender a lidar com essa complexidade.

 

Referencias

MORIN, Edgar. Introdução ao pensamento complexo. Porto Alegre: Sulina, 2015.