Prevenir e remover as causas das moléstias que nos afligem

 

A partir da respiração, da concentração, do relaxamento e da otimização das funções metabólicas, podemos prevenir e remover as causas das moléstias que nos afligem.

 

        Os exercícios visam otimizar as funções do organismo, fazendo com que os processos respiratório, metabólico, circulatório, digestivo e eliminatório ajam sobre o sistema glandular e orgânico e muscular de forma a favorecer o seu funcionamento.

Os diferentes exercícios, acompanhados da respiração, tem determinado efeito sobre o comportamento do organismo.

 

A respiração

Fique de pé ou sentado numa cadeira ou sentado no chão com as pernas cruzadas ou mesmo deitado, o essencial é manter a coluna ereta.

        Observe a sua posição, a coluna está ereta, a cabeça levantada, as mãos na lateral do corpo, se estiver de pé; as mãos nos joelhos, se estiver sentado; e, as mãos no chão, palma para baixo, se estiver deitado. Esse exercício também pode ser feito com os olhos fechados.

Concentre-se na faringe e comece a inspirar. Inspire vagarosamente, procurando tornar audível o som da respiração. Não faça uso das narinas, elas permanecem inativas. Use a área que fica situada na parte posterior da boca, ou faringe.

Observe as suas costelas inferiores. Na inspiração elas se expandem em primeiro lugar, depois as medias, e finalmente as superiores. Quando a inspiração estiver completa, pare durante dois ou três segundos retendo o ar. Comece, então a solta-lo vagarosamente.

        Inicie contando quatro para a inspiração, dois para a retenção e novamente quatro para a expiração. Respirar com compassos iguais tem a nome de respiração rítmica.

 

Vamos respirar

        Inspire vagarosamente contando um, enchendo a parte inferior dos pulmões, dois, enchendo a parte média dos pulmões, três, a parte superior, quatro. Retendo o ar, contando um, vagarosamente, dois. Expire, contando um, esvazie a parte superior dos pulmões, dois, esvazie a parte média, três, esvazie a parte inferior, quatro. Retenha o ar, contando um, vagarosamente, dois.

Vamos repetir. Inspire contando um, enchendo a parte inferior dos pulmões, dois, a parte média, três, a parte superior, quatro. Retendo o ar, contando um, vagarosamente, dois. Expire o ar, contando um, esvazie a parte superior dos pulmões, dois, esvazie a parte média, três, esvazie a parte inferior, quatro. Retenha o ar, contando um, vagarosamente, dois.

Mais uma vez. Inspire contando um, enchendo a parte inferior dos pulmões, dois, a parte média, três, a parte superior, quatro. Retendo o ar, contando um, vagarosamente, dois. Expire o ar, contando um, esvazie a parte superior dos pulmões, dois, esvazie a parte média, três, esvazie a parte inferior, quatro. Retenha o ar, contando um, vagarosamente, dois. Desfaça a concentração. Observe seu corpo.

 

Referencias

 

DEVI, Indra. Hatha Ioga: paz e saúde. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1974.

O entendimento dos símbolos e dos rituais (simbólicos)

Mensagem
Mensagem é o único livro de poesia em língua portuguesa publicado por Fernando Pessoa, em sua vida, e por ele revisto.

 

        O entendimento dos símbolos e dos rituais (simbólicos) exige do interprete que possua cinco qualidades ou condições, sem as quais os símbolos serão para ele mortos, e ele um morto para eles.

 

A primeira é a simpatia

Não direi a primeira em tempo, mas a primeira conforme vou citando, e cito por graus de simplicidade. Tem o interprete que sentir simpatia pelo símbolo que se propõe interpretar. A atitude cauta, a irônica, a deslocada – todas elas privam o interprete da primeira condição para poder interpretar.

 

A segunda é a intuição

A simpatia pode auxilia-la, se ela já existe, porém não criá-la. Por intuição se entende aquela espécie de entendimento com que se sente o que está além do símbolo, sem que se veja.

 

A terceira é a inteligência

A inteligência analisa, decompõe, reconstrói noutro nível o símbolo; tem, porém, que fazê-lo depois que, no fundo, é tudo o mesmo.

 

A quarta é a compreensão

Entendendo por esta palavra o conhecimento de outras matérias, que permitam que o símbolo seja iluminado por várias luzes, relacionado com vários outros símbolos, pois que, no fundo, é tudo o mesmo. Assim, certos símbolos não podem ser bem entendidos se não houver antes, ou no mesmo tempo, o entendimento de símbolos diferentes.

 

A quinta é menos definível

 

 

Mensagem
 
Primeira parte / Brasão
  1. Os campos
Segundo / O das quinas

 

        Baste a quem baste o que lhe basta

        O bastante de lhe bastar!

        A vida é breve, a alma é vasta:

        Ter é tardar.

 

Segunda parte / Mar português
  1. Mar português

 

        Valeu a pena? Tudo vale a pena

        Se a alma não é pequena.

 

PESSOA, Fernando. Mensagem. In PESSOA, Fernando. Obra poética. Rio de Janeiro: Companhia José Aguilar Editora, 1974.

 

Jovens, tão falsos, tão inconstantes

No Sul
(Das Canções do Príncipe Livrepássaro.)
Eis-me suspenso a um galho torto
E balançando aqui meu cansaço.
Sou convidado de um passarinho
E aqui repouso, onde está seu ninho.
Mas onde estou? Ai, longe, no espaço.
Sul da inocência, me acolhe nela!
Razão! Trabalho pesado e ingrato!
Que vai ao alvo e chega tão cedo!
Quem pensa a sós, de sábio eu trato,
Cantar a sós – já é para os parvos!
Estou cantando em vosso louvor:
Fazei um círculo e, ao meu redor,
Malvados pássaros, vinde sentar-vos!

 

Jovens, tão falsos, tão inconstantes,

Pareceis feitos bem para amantes

E em passatempos vos entreter …

No Norte amei – e confesso a custo –

Uma mulher, velha de dar susto:

“Verdade”, o nome dessa mulher.

 

Da pobreza do riquíssimo

(Dos Ditirambos de Dioniso, 1888: “Estas são as canções de Zaratustra, que ele cantava para si mesmo, para suportar sua última solidão”.)

 

Dez anos já –

E nenhuma gota me alcançou,

Nem úmido vento nem orvalho do amor

– uma terra sem chuva …

Agora peço a minha sabedoria

Que não se torne avara nessa aridez:

Corra ela própria, goteje orvalho;

 

Um dia mandei as nuvens

Embora de minhas montanhas –

Um dia eu disse, “mais luz, obscuras!”

Agora as chamo, que venham:

Fazei escuro ao meu redor com vossos ubres!

– quero ordenhar-vos,

Vacas das alturas!

Leite quente, sabedoria, doce orvalho do amor

Derramo por sobre a terra.

 

De olhar sombrio!

Não quero ver em minhas montanhas

Acres verdades impacientes.

Dourada de sorriso,

De mim se acerca hoje a verdade,

Adoçada de sol, bronzeada de amor –

Só uma verdade madura eu tiro da arvore.

 

– Quietos!

Uma verdade passa por sobre mim

Igual a uma nuvem –

Com relâmpagos invisíveis ela me atinge.

Por largas lentas escadas

Sobe até mim sua felicidade:

Vem, vem, querida verdade!

 

– Quietos!

É minha verdade! –

De olhos esquivos,

De arrepios aveludados

Me atinge seu olhar,

Amável, mau, um olhar de moça …

Ela advinha o fundo de minha felicidade,

Ela me advinha – ah! O que ela inventa?

Purpúreo espreita um dragão

No sem-fundo de um olhar de moça.

 

Fátima Guedes – Vaca profana (A MPB calada) – Duração 3:30

 

Quietos! Minha verdade fala!

 

Dez anos já –

E nenhuma gota te alcançou?

Nem úmido vento? Nem orvalho do amor?

Mas quem haveria de te amar,

Ó mais que rico?

Tua felicidade faz secar em torno,

Torna pobre de amor

– uma terra sem chuva …

 

Nisso te reconheço,

Ó mais que rico,

Ó mais pobre de todos os ricos!

Tens de tornar-te mais pobre,

Sábio insensato!

Queres ser amado.

Ama-se somente aos sofredores,

Só se dá amor aos que tem fome:

 

– Eu sou tua verdade …

 

NIETZSCHE, Friedrich. Quatro poemas. In Obras incompletas. São Paulo: Abril Cultural, 1983.

Eu fico com essa dor ou essa dor tem que morrer

Eu fico com essa dor ou essa dor tem que morrer

 

Dores de amores

 

Eu fico com essa dor

Ou essa dor tem que morrer

A dor que nos ensina

E a vontade de não ter

Sofrer de mais que fruto

Nós precisamos aprender

 

Eu grito e me solto

Eu preciso aprender

 

Curo esse rasgo

Ou ignoro qualquer ser

Sigo enganado

Ou enganando meu viver

Pois quando estou amando

É parecido com sofrer

 

Eu morro de amores

Eu preciso aprender

 

MELODIA, Luiz. Dores de amores. 1978.

 

LUIZ MELODIA E ZEZÉ MOTTA – DORES DE AMORES – Duração 2:33
Eu fico com essa dor ou essa dor tem que morrer

Como é que você sabe que você é você e não uma coisa ou outra pessoa?

Minha alma é uma orquestra oculta; não sei que instrumentos tangem e rangem, cordas e harpas, timbales e tambores, dentro de mim. Só me conheço como sinfonia.
Fernando Pessoa, Livro do desassossego
O que não consigo construir, não consigo entender.
Richard Feynman

 

O que é a consciência? Como é que você sabe que você existe? Como é que você sabe que você é você e não uma coisa ou outra pessoa? O que lhe permite saber que você pensa?

Bem, primeiro é preciso ter uma mente, mas apenas ter uma mente não é suficiente, pois muitos outros animais também têm mente. Porém, nós temos algo que os demais animais não têm, de acordo com nossos conhecimentos atuais – nos humanos temos uma mente dotada de subjetividade (a subjetividade é uma produção da mente?).

Mas a subjetividade ainda não explica o que vem a ser a consciência. Porém, sabemos que na ausência da consciência, nós não temos um ponto de vista pessoal. Sem a consciência nós não sabemos que existimos, nem que outras coisas existem. Sem a consciência, nós não sabemos.

Duas questões básicas sem repostas

Primeira: como o cérebro constrói a mente?

Segunda: como o cérebro torna essa mente consciente?

        A mente consciente surge quando um algo chamado de eu é adicionado a um processo mental básico. Quando não ocorre esse algo chamado de eu na mente, essa mente não é consciente.

        Uma enorme quantidade de atividades mentais ocorre sem que sejamos conscientes de que elas acontecem. A consciência é um processo e não uma coisa e presumivelmente encontra-se presente, mesmo que dela não estejamos conscientes.

Podemos considerar o processo do eu de duas perspectivas.

Uma é a do eu que observa os funcionamentos da mente.

A outra perspectiva é a do eu que conhece – aquilo que nos diz que estamos vivendo tal coisa e que nos permite refletir sobre essa vivencia.

Ora percebemos que percebemos, ora não, mas sempre o sentimos.

        Tudo o que um homem chama de seu supõe a existência de um eu que se percebe como objeto – meu corpo, minhas ideias, minhas lembranças, minhas dores, meus desejos, etc. existimos para nós como um objeto – eu-objeto.

Mas também podemos supor a existência de algo que permite que a sua mente saiba que esses eu-objetos existem e pertencem a seu dono que é você mesmo.

O que faria essa separação entre o que pertence e o que não pertence a mim? O que faz com que eu discrimine o que é meu do que que não é meu? O que faz com que eu faça a diferença entre o meu desejo e o meu carro novo?

Então, temos um eu que me autoriza a dizer que há coisas em mim que me pertencem e temos um outro eu que me diz que eu sou aquele a quem essas coisas pertencem.

Existe, então, um eu-sujeito, como um eu que conhece.

        “A mera presença de imagens organizadas transitando em um fluxo mental produz uma mente, porém, a menos que algum processo suplementar seja adicionado, a mente permanece inconsciente. O que falta nessa mente inconsciente é um eu”.

        De acordo com essa ideia, o passo decisivo para o surgimento da consciência não é a produção de imagens. O passo decisivo é tornar nossas essas imagens.

        De acordo com essas hipóteses sobre a existência de um eu-sujeito, aquele que conhece, nos encaminhamos para assegurar a existência de um eu concebido em bases biológicas. Isto é, o eu não deve ser confundido com uma entidade metafisica conhecedora.

 

Referencias

 

DAMÁSIO, António R. E o cérebro criou o homem. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

Se andássemos de quatro pés não seriamos humanos

         Como fazemos para nos manter de pé? Quando estamos na posição em pé, estamos equilibrados? O que faz com que nos movamos? Se andássemos de quatro pés não seriamos humanos, seriamos um outro animal. O nosso aparelho locomotor constitui o suporte primordial de todas as outras estruturas próprias ao humano.

Que o corpo de cada um de nós é marcado por nossas experiências, não se discute. Mas, o que dizer de a nossa maneira de marcar o nosso corpo ser um projeto de vida para esse corpo? Para ser humano, o nosso aparelho locomotor se comporta como um “órgão do sentido”.

 

Isto é, o nosso corpo do sentido, a nossa humanidade.

 

         A maneira como sentamos, andamos, abraçamos ou brigamos está relacionada a nossa vida afetiva. Nossos movimentos refletem nossos afetos. Nossos afetos refletem nossos movimentos. Nossos comportamentos ou atitudes podem ser explicados pela nossa coordenação motora.

A forma como nos movemos no espaço está relacionada à maneira como vivemos o nosso corpo. Deixemos, pois, os antigos conceitos do corpo como maquina, como órgão executor ou como objeto de propriedade.

 

Todos os homens fazem os mesmos gestos, mas cada um os faz à sua maneira.

 

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Há uma forma de movimento própria a uma atitude? É preciso usar grande força muscular para ficar em pé, estável, ou apenas é preciso um equilíbrio adequado? É possível, com a sua participação, modificar a imagem que você tem de seu corpo e fazer com que você adquira uma nova maneira de utiliza-lo.

         Assim, por trás da variedade dos seus movimentos, podemos encontrar, inscrito na sua anatomia, um movimento básico, independente do objeto e do meio externo, porem adaptado a cada objeto e finalidade.

         Um movimento, percebido por uma criança de menos de um ano, pode, pois, ser gravado e será sempre executado em função dessa imagem percebida.

 

Todo gesto está carregado de afeto.

 

Todo afeto está investido em motricidade. A coordenação motora nos permite compreender como um movimento se organiza, paralelamente ao afeto que lhe corresponde. Assim, podemos estudar o afeto em função do movimento e o movimento em função do afeto.

         Um gesto não é um movimento aleatório. Existe uma finalidade que organiza o movimento. Há um fundamento nos seus gestos baseados nos movimentos de expansão e retração motora.  Um movimento é constituído de diversos fatores – tensão, orientação, complexidade, equilíbrio, unidade – em uma síntese essencialmente humana.

Erguer a cabeça, passar a posição sentada e, depois, a ereta, permite ao homem ver as suas mãos, relaciona-las e estabelecer aquela relação cabeça-mãos, que está na base de toda sua atividade de observação, manipulação e criação.

 

Referencias

BÈZIERS, Marie Madeleine e PIRET, Suzanne. A coordenação motora: aspecto mecânico da organização psicomotora do homem. São Paulo: Summus, 1992.