O mundo real deixou de ser aqui e foi para onde estavam as ideias

O corpo e algo além do corpo

        Na Grécia Antiga, o corpo estava nu. O corpo nu era valorizado, contemplado e objetivado. O corpo nu exprime a beleza, a harmonia, a graça, a sensualidade, a virilidade. Mas vieram os filósofos, Sócrates, Platão e companhia, e o mundo real deixou de ser aqui e passou a ser o mundo das ideias.

        A partir de então, o corpo começa a ser visto como uma ilusão. E descobre-se a alma como a verdadeira realidade da essência do humano. O homem agora tem uma alma.

        Na pintura e na escultura religiosas que vieram a seguir, o corpo nu é rejeitado. O corpo nu precisa ser escondido. Esconder o corpo é a tentativa de negar o corpo enquanto realidade. Esse corpo, agora é frio e rígido, está asfixiado sob uma montanha de tecidos que lhe mascaram as formas.

        Mas, apesar de maltratado, penitenciado pelas vicissitudes da alma, o corpo ainda tem o seu valor, pois ele é a morada da alma. Mas, por pouco tempo, os seus anos de gloria e de cuidado estão contados. É, nessa época, que se instala em nossa cultura um dualismo fundamental: corpo e alma.

        Mas não para por aí, não. Esse foi apenas o início da indiferença pelo corpo. Ao dualismo teológico, corpo e alma, da era cristã, vai suceder, no século 16, o dualismo cartesiano, corpo e mente. “Penso, logo existo”. Existo porque penso, porque sou mente. Em lugar de existo porque tenho um corpo que sente, percebe e age.

 

A origem das terapias

       Quatro séculos se passam e nem a alma nem a mente dão conta da complexidade da existência. E retornamos ao corpo nu, levado ao status de fonte e do destino de todos os males da humanidade.

        De novo, voltamos a nos relacionar com os nossos corpos. Tornamos a cuida-los e continuamos a maltrata-los. Os nossos corpos se tornam, de novo, a realidade. Enchemos os nossos corpos de gordura, comemos somente folhas, pintamos os nossos corpos, furamos eles. Modificamos os nossos corpos com enchimentos plásticos, com escarificações, com desenhos, exercícios, cremes e cheiros. Em suma, voltamos a cuidar (?) dos nossos corpos, mas os modificando.

        Nos dias atuais, nosso foco se encontra na aparência do corpo. Cada um de nos está, isoladamente, na busca do seu corpo nu ideal. Um corpo imagem, independente da sua força muscular, seu tônus, e, distanciado do seu afeto.

 

Do mental ao relacional

“Nada pode integrar-se realmente ao ser se não passar antes pela sua organização tônico-emocional”.

A psicologia corporal coloca a ênfase sobre a primazia da relação com o outro.

        O terapeuta corporal não é neutro, bem como todos os demais tipos de terapeutas. Mesmo quando o terapeuta se relaciona num diálogo não verbal com o seu cliente não há neutralidade. O terapeuta desempenha o papel de um parceiro que tenta, por suas intervenções, provocar respostas relacionais. Ele é neutro no sentido de que não julga, não aconselha e, sobretudo, porque suas intervenções se prestam a acompanhar e a compreender como o seu cliente forma a sua existência.

        Os resultados obtidos com crianças que não tem acesso a linguagem verbal provam que é possível acessar a vida afetiva sem necessariamente passar pela interpretação verbal.

Psicologia de Rebanhos

O rebanho é os meus pensamentos

E os meus pensamentos são todos sensações.

(Fernando Pessoa)

Referencias

LAPIERRE, Andre. Da psicomotricidade relacional a analise corporal da relação. Curitiba: Ed. UFPR, 2010.

 

Eu quero amar, amar perdidamente!

O EU
 
Amar
Florbela Espanca

 

Eu quero amar, amar perdidamente!

Amar só por amar: Aqui… além…

Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente…

Amar! Amar! E não amar ninguém!

 

Traduzir-se
Ferreira Gullar

Uma parte de mim

É todo mundo:

Outra parte é ninguém:

Fundo sem fundo

Uma parte de mim

É multidão:

Outra parte estranheza

E solidão.

Uma parte de mim

É só vertigem:

Outra parte,

Linguagem.

Traduzir uma parte em outra parte

– que é uma questão

De vida ou morte –

Será arte?

 

Autoestima
Nicolas Bebr

Eu não preciso

Que você goste

De mim

Autoestima

É isso?

 

Orações e saudades
Domingos Pellegrini

Mas que saudade me da

Da infância, meu amigo:

Cê aventura gostoso

E nunca pensa em perigo!

Mas depois quanto mais cresço

– atualmente para os lados –

E quanto mais envelheço

Mais segurança persigo

Mais aprece perigo!

 

Bicho de 7 cabeças
Nicolas Bebr

Sou um bicho

De sete cabeças

Tenho uma pra pensar

Outra pra ver

A terceira pra cheirar

Outra pra comer

Mais uma pra pensar

Outra pra ouvir

E a sétima pra vigiar

As outras seis

 

Esquizo
Ulisses Tavares

Tem um cara dentro de mim

Que faz tudo ao contrário:

Não temo amar, ele se borra

Sou esperto, ele é otário

Não amolo ninguém, ele torra

Acredito em tudo, ele é ateu

Sou normal em sexo, ele, tarado

Agito sempre, ele fica parado

Sou bacana, ele, escroto

Quem me faz infeliz e torto

É sempre ele – nunca fui eu.

Forrest Gump

Nicolas Bebr

Mudo de canal

Mudo de estação

Mudo de pagina

Se ainda não mudei de vida

Foi porque nem a televisão

Nem o rádio nem o jornal

Me aconselharam a faze-lo

 

Ultimo poema
Cairo de Assis Trindade

Esta noite eu tomaria todas as drogas do mundo,

Beberia todos os oceanos

E transaria homens e mulheres

Até morrer, dilacerado de dor.

Esta noite eu faria qualquer coisa

Por mais louca e absurda que fosse,

Pra não sentir esse vazio broxante

E esta puta angustia, velha e avassaladora.

 

Diferença
Leila Miccolis

 

Meu mundo é violento e com razão:

Na rua, se eu apanho, é covardia;

Em casa, se eu apanho, é educação.

 

Inconstante
Lauro Esteves

Dia sim, feliz da vida,

Passo carmim, vou pra varanda.

Dia não, bem deprimida,

Deito no chão, tudo desanda.

Dia sim?

Transo com todo mundo.

Dia não?

Também e a todo instante.

É que em matéria de sacanagem

Eu já sou bem constante.

 

Pensamento
Arnaldo Antunes

Pensamento vem de fora

E pensa que vem de dentro,

Pensamento que expectora

O que no meio peito penso.

Por que é que eu penso agora

Sem o meu consentimento?

 

O OUTRO
 
Exilio
Cario de Assis Trindade

 

Aos apaixonados não faz falta o mundo…

 

A um apaixonado não faz falta nada.

A não ser o outro. Junto.

 

O CORPO
 
Toque
Ulisses Tavares

Alguma coisa estranha acontece

Quando se toca em gente.

Experimente.

 

Psicologia de Rebanhos

O rebanho é os meus pensamentos

E os meus pensamentos são todos sensações.

(Fernando Pessoa)

 

        Os poetas nos convidam a viver as sensações que já vivemos, as sensações que não vivemos e as sensações que nunca viveríamos se não fosse por eles. A Psicologia de Rebanhos nos convida a viver como lidamos com as sensações que já vivemos e a experimentar novas formas de viver as sensações que já vivemos.

 

Referencias

 

TAVARES, Ulisses. Quando nem Freud explica, tente a poesia! São Paulo: Francis, 2007.

A cristianização se confirma nas ideias de Aristóteles

        Se com Agostinho assistimos à conciliação do pensamento de Platão com o cristianismo, é com Tomás de Aquino que a cristianização se confirma nas ideias de Aristóteles.

 

A perfeição divina

        “Para Aristóteles, uma definição não implica jamais a existência, logica ou empírica” de algo. “Assim, em Aristóteles, a distinção entre essência e existência é puramente conceitual, logica”. Essência e existência são apenas palavras, nada mais do que palavras.

        Enquanto isso, “Tomás de Aquino conclui que a definição da essência das criaturas não implica” na existência das criaturas. Para ele, algo pode ser sem existir. Essa ideia faz com que ele conclua que as criaturas “não existem por si mesmas, e sim devido a uma outra realidade”.

        Tomás de Aquino foi “agraciado” pelo seu “espirito analítico, a capacidade de ordenação metódica e a habilidade dialética que ele aliava a um profundo sentimento de fé cristã”.

        Quando Tomás de Aquino faz uma distinção real, não meramente conceitual, entre a essência e a existência, ele inaugura o fundamento metafisico da possibilidade ou não-possibilidade da existência das criaturas. Ele introduz no pensamento de Aristóteles, sem a autorização daquele, a ideia de criação. O ambiente em que vive Tomás de Aquino propicia a criação de Deus.

“Apenas em Deus haveria identidade entre essência e existência”.

 

As vias que levam a Deus

        Com a premissa de que existe uma essência responsável pela existência de todas as demais criaturas, Tomás de Aquino prova a existência de Deus através de cinco vias estritamente apoiadas na razão.

“A primeira fundamenta-se na constatação de que no universo existe movimento. Todo movimento tem uma causa, que deve ser exterior ao próprio ser que está em movimento, pois não se pode admitir que uma mesma coisa possa ser ela mesma a coisa movida e o princípio motor que a faz movimentar-se”. Somente Deus.

“A segunda via diz respeito a ideia de causa em geral. Todas as coisas ou são causas ou são efeitos, não se podendo conceber que alguma coisa seja causa de si mesma”. Somente Deus.

“A terceira via refere-se aos conceitos de necessidade e possiblidade”. Se alguma coisa pode ou não existir, então ela não possui uma existência necessária e sim possível. “Assim, o possível não teria em si razão suficiente de existência. Para que o possível exista é necessário, portanto, que algo o faça existir”. Somente Deus para fazer algo existir.

“A quarta baseia-se nos graus hierárquicos de perfeição observados nas coisas”. Todas as criaturas existentes são diferentes entre si com diversos graus de capacidade, potencialidade, função, extensão, duração, etc. “Devera existir, portanto, uma verdade e um bem em si: Deus”.

A quinta via fundamenta-se na ordem das coisas. Todas as operações dos corpos materiais tenderiam a um fim. Deus.

 

        Com o pensamento de Tomás de Aquino, todas as provas da existência de Deus estão contidas nas cinco vias explicativas da realidade apresentadas anteriormente.

        “Torna-se perfeitamente concebível pela razão que o mundo seja um conjunto de criaturas contingentes, cuja existência é dada por Deus, criadas a partir do nada e escalonadas segundo graus diversos de perfeição e participação na essência e existência divinas”.

Assim, Tomás de Aquino, comprova pela razão que Deus existe.

 

Psicologia de Rebanhos

O rebanho é os meus pensamentos

E os meus pensamentos são todos sensações.

(Fernando Pessoa)

 

        A Psicologia de Rebanhos traz esse pensamento de Tomás de Aquino para questionar essas possibilidades “infinitas e ilimitadas” que a razão nos proporciona. Bem como, chamar a atenção para a desvalorização que essa mesma capacidade da nossa mente, de pensar infinita e ilimitadamente, faz dos nossos outros sentidos. Afinal, os nossos pensamentos são apenas as nossas próprias sensações do mundo aferidas biologicamente.

 

Referencias

 

DE AQUINO, Santo Tomás. O ente e a essência. São Paulo: Abril Cultural, 1985.

Esta é a alvorada do seu tempo, a “Era do Homem Comum”

 

Você é um “zé-ninguém”, um “homem comum”.

 

Eles o chamam de zé-ninguém ou Homem Comum. Dizem que esta é a alvorada do seu tempo, a “Era do Homem Comum”.

 

Como um homem se torna senhor de si mesmo?

 

Olhe para si mesmo.

 

        Um grande homem sabe quando e de que forma ele é um zé-ninguém. Um zé-ninguém não sabe que é pequeno e tem medo de saber. Esconde sua insignificância e estreiteza por trás de ilusões de força e grandeza, da força e da grandeza de alguma outra pessoa.

Sente orgulho dos seus grandes generais, mas não de si mesmo. Admira uma ideia que não teve, não uma ideia que teve. Quanto menos entender alguma coisa, mais firme é sua crença nela. E, quanto melhor entende uma ideia, menos acreditara nela.

 

SEU FEITOR É VOCE MESMO.

 

Eu digo: Só você mesmo pode ser seu libertador!

        Tenho medo de você quando o zé-ninguém em mim sonha “conduzi-lo a liberdade”.

        Para libera-lo, ele precisa permitir que você o idolatre como um deus inacessível. Você não teria confiança nele se ele continuasse a ser o homem simples que foi. Portanto, é você quem cria seu novo senhor. Elevado a posição de novo senhor, o grande homem perde sua grandeza.

 

Você confere mais poder aos poderosos, ou escolhe homens fracos e maus para representa-lo. E descobre tarde demais que você é sempre enganado.

 

Você pode escolher entre Nietzsche ou Hitler. E escolheu o subumano. Pode escolher entre Lênin e Stálin. Escolheu a ditadura. Pode escolher entre Jesus e Paulo. Você preferiu o celibato e a obrigatoriedade do casamento.

        Pode escolher entre Marx e o Estado. Você esqueceu a energia viva do seu trabalho. Na Revolução Francesa, você pode escolher entre Robespierre e Danton. Escolheu a crueldade. Pode escolher entre a inquisição e Galileu. Você torturou e humilhou.

 

Você tem sua vida nas mãos, não a confie a mais ninguém, menos ainda aos seus líderes eleitos. Prometem-lhe não a liberdade individual, mas a nacional. Nada dizem sobre auto respeito, mas dizem-lhe que respeite o Estado.

        Eles não amam você, zé-ninguém, eles o desprezam porque você despreza a si mesmo. E foi você quem lhes deu o poder que exercem sobre você. Você mesmo levou ao topo seus senhores e continua a lhes dar apoio, embora eles tenham arrancado todas as máscaras, ou talvez exatamente por isso.

 Tenho medo de você, zé-ninguém.

        Tenho medo de você porque seu principal objetivo na vida é fugir – de si mesmo. Você já se teria livrado dos seus opressores há muito tempo se não tivesse aprovado a opressão, e lhe dado tantas vezes apoio direto. Você e somente você é responsável pela sua vida.

 

Tenho medo de você, zé-ninguém, muito medo. No passado, seus opressores provinham das classes mais altas da sociedade, mas hoje eles provem da sua própria camada. São ainda mais zé-ninguém do que você, zé-ninguém. Precisam ser mesmo muito pequenos para conhecer sua desgraça a partir da própria experiência e, com base nesse conhecimento, oprimi-lo com mais eficácia e mais crueldade do que nunca.

        Zé-ninguém, você está sempre do lado dos perseguidores.

Você me pergunta como sei tudo isso. Vou lhe dizer.

        Eu o conheci em mim mesmo.

 

Confundir a insolência com a liberdade sempre foi a marca registrada do escravo. Invocando sua liberdade, você se recusa a evitar relatórios do seu trabalho. E agora você se sente livre… livre da cooperação e da responsabilidade.

 

        Este terrível século XX fez todas as teorias culturais desde Platão parecerem ridículas. Zé-ninguém, nunca houve uma cultura humana. Mal estamos começando a compreender o apavorante desvio e a degeneração patológica do animal humano.

 

E não dou festas para divulgar minhas ideias. Se minhas ideias forem validas, elas próprias se divulgarão. (*)

 

(*) Esse texto é uma versão abreviada de um documento escrito por Wilhelm Reich, entre 1943 e 1946, para os Arquivos do Orgone Institute, como resposta as intrigas e a calunia que um órgão do governo dos Estados Unidos da América, encarregado da preservação da saúde pública, aliado a políticos e psicanalistas desencadearam contra a sua pesquisa sobre o orgone.

 

 

Psicologia de Rebanhos

O rebanho é os meus pensamentos

E os meus pensamentos são todos sensações.

(Fernando Pessoa)

 

A Psicologia de Rebanhos traz esse texto/desabafo para enfatizar que é de fundamental importância a assunção da nossa responsabilidade pelos atos, atitudes e comportamentos que praticamos. O poder é um evento que não existe por si só, ele precisa de pelo menos duas pessoas para acontecer.

        Não existe natureza humana.  Quando se diz que alguém tem poder, significa que um outro alguém (ou alguéns) deu (ou deram) esse poder para aquele alguém. A psicologia de Rebanhos se propõe a ajuda-lo a reencontrar o seu próprio poder, a sua potência.

 

Referências

 

REICH, Wilhelm. Escute, Zé-ninguém! São Paulo: Martins Fontes, 2007.