A Natureza me está, se não te vejo, magoando

Enfim, tudo o que a rara Natureza
Com tantas variedades nos oferece,

Me está, se não te vejo, magoando.

 

Sem ti, tudo me enoja e me aborrece;

Sem ti, perpetuamente estou passando

Nas maiores alegrias maior tristeza.

 

***

 

Alma minha gentil, que te partiste

Tão cedo desta vida, descontente,

Repousa lá no Céu eternamente

E viva eu cá na Terra sempre triste.

 

Se lá no assento etéreo, onde subiste,

Memoria desta vida se consente,

Não te esqueças daquele amor ardente,

Que já nos olhos meus tão puro viste.

 

E se vires que pode merecer-te

Alguma coisa a dor que me ficou

Da magoa, sem remédio, de perder-te,

 

Roga a Deus, que teus anos encurtou,

Que tão cedo de cá me leve a ver-te,

Quão cedo de meus olhos te levou.

 

 

Amor é fogo que se arde sem se ver;

É ferida que dói e não se sente;

É um contentamento descontente;

É dor que desatina sem doer;

 

É um não querer mais que bem querer;

É solitário andar por entre a gente;

É nunca contentar-se de contente;

É cuidar que se ganha em se perder;

 

É querer estar preso por vontade;

É servir a quem vence, o vencedor;

É ter com quem nos mata lealdade.

 

Mas como causar pode seu favor

Nos corações humanos amizade,

Se tão contrário a si é mesmo Amor?

 

***

 

Quanta incerta esperança, quanto engano!

Quanto viver de falsos fundamentos,

Pois todos vão fazer seus pensamentos

Só no mesmo em que está seu próprio dano!

 

Não haja em aparências confianças;

Entende que o viver é de emprestado;

Que o de que vive o mundo são mudanças.

 

Mudai, pois o sentido e o cuidado,

Somente amando aquelas esperanças

Que duram para sempre com o amado.

 

Psicologia de Rebanhos

O rebanho é os meus pensamentos

E os meus pensamentos são todos sensações.

(Fernando Pessoa)

 

        Nessas canções de amor, o amante fala da ausência do amado. Quão sofrida e triste é a vida sem o amado! E mesmo quando o amor é vivido, por que dói tanto!? Como pode o amor ser tão contrário a si? Que sentimento é esse que não se encontra em mim, mas que dura para sempre com o amado!? Amor é sentimento? De tão idealizado, esse amor parece mais com pensamento do que com algo que se sente.

       

Soneto de Fidelidade – Duração 1:36

CAMÕES, Luiz Vaz de. 200 sonetos: Luiz Vaz de Camões. Porto Alegre: L&PM, 1998.

 

O homem é o criador dos valores, mas esquece sua própria criação

        “Apolo é o Deus da clareza, da harmonia e da ordem; Dioniso, o deus da exuberância, da desordem e da música”.

        “O homem é o criador dos valores, mas esquece sua própria criação e vê neles algo de ‘transcendente’, de ‘eterno’ e ‘verdadeiro’, quando os valores não são mais do que algo ‘humano, demasiado humano’’’.

 

O dionisíaco e o socrático

        “Nietzsche trouxe uma nova concepção da filosofia e do filosofo, não se trata mais de procurar o ideal de um conhecimento verdadeiro, mas sim de interpretar e avaliar”.

        A interpretação procura conhecer o sentido de um fenômeno. Porém, por mais alcance que tenha o pensamento, ele será sempre parcial e fragmentário. O conhecimento é uma ideia de um sujeito, e somente daquele sujeito, que pensa o sentido de um fenômeno. A avaliação tenta determinar o valor de um fenômeno. A avaliação busca entender para que o fenômeno acontece, se presta, existe.

        Assim é a busca por um ideal. A busca de um ideal é similar a arte de interpretar. É similar a coisa a ser interpretada. Assim é a verdade. A verdade é similar a arte de interpretar. Na arte de interpretar, ator e obra se avaliam e interpretam a existência.

 

O homem é o criador dos valores, mas esquece sua própria criação

        Entre os filósofos pré-socráticos existe unidade entre o pensamento e a vida. A vida “estimula” o pensamento e o pensamento “afirma” a vida. O pensamento é algo que existe porque sentimos. “Mas o desenvolvimento posterior da filosofia trouxe consigo a progressiva degeneração dessa característica, e, em lugar de uma vida ativa e de um pensamento afirmativo, a filosofia propôs como tarefa ‘julgar a vida’”.

        A filosofia se cristaliza, então, opondo a vida valores, com a pretensão de significados superiores aos sentidos. Esses valores, criados pelos filósofos e aqueles que os apoiaram, passam a ser a medida da vida. O que é certo ou errado, bom ou mau, belo ou feio. Os filósofos e aqueles que os apoiaram impuseram limites a maneira de viver de todos. Aqueles filósofos e seus apoiadores condenaram a vida a valores ideais de existência. É quando surge, então, o filosofo metafisico – o filosofo do sobrenatural.

        Nesse momento “moralista” (idealista) da vida grega, torna-se propicio a degeneração do sentimento da vida e a ascensão do pensamento sobre a vida. Então, aparece Sócrates, como o representante daqueles que apoiam a ascensão do pensamento sobre a vida. É nessa fase da vida grega que “se estabelece a distinção entre dois mundos, pela oposição entre essencial e aparente, verdadeiro e falso, inteligível e sensível”.

        Sócrates e aqueles que o apoiam descobriram ”a metafisica fazendo da vida aquilo que deve ser julgado, medido, limitado, em nome de valores ‘superiores’ como o Divino, o Verdadeiro, o Belo, o Bem”. Valores criados pelo próprio homem.

 

A invenção das palavras

        As palavras são uma invenção do homem, de qualquer classe de homem. As palavras, sejam elas quais forem, não querem dizer nada. As palavras por si só, apenas impõem uma interpretação. O que nos interessa, portanto, não é o significado de uma palavra, mas o que existe numa palavra para ser interpretado. Pois tudo é inventado, tudo é mascara, interpretação e avaliação.

 

Um poder concedido

        Todo aquele sobre quem se diz que tem poder conquistou tal poder através da violência. A violência é uma concessão de poder, dada por alguém para aquele que passa a deter o poder. Portanto, para todo aquele que detém o poder, corresponde alguém que lhe concedeu tal poder. A consequência de conceder poder a alguém é dar o direito a esse alguém de um poder sobre aquele que concede o poder. O direito, portanto, é uma concessão dada e conquistada pela violência, arrogância e usurpação.

 

Psicologia de Rebanhos

O rebanho é os meus pensamentos

E os meus pensamentos são todos sensações.

(Fernando Pessoa)

 

        O poder é exercido pela palavra. A palavra é uma invenção do homem. Entretanto, as palavras em si não querem dizer nada. As palavras são interjeições sofisticadas de sentimentos de ação e reação. O poder das palavras é conhecido desde a época dos deuses gregos. As palavras são mandamentos. As palavras são sons impostos pela violência. As palavras que formam pensamentos lógicos ou sensatos são fundamentos da ciência e da justiça. Com essas palavras pode-se dominar a maioria das pessoas. As palavras constroem imagens. Essas imagens são ainda mais poderosas que as palavras que as constroem. Com essas imagens pode-se submeter uma multidão.

        A Psicologia de Rebanhos busca compreender as imagens que as palavras tentam representar. A Psicologia de Rebanhos busca compreender como alguém detém o poder sobre outro alguém. A Psicologia de Rebanhos busca compreender como alguém concede poder para outro alguém. A Psicologia de Rebanhos busca compreender como alguém se empodera.

 

Referencias

 

NIETZSCHE, Friedrich. Obras incompletas. São Paulo: Abril Cultural, 1983.

 

Atores, porque agem, e espectadores, porque observam

        Vamos fazer teatro? Você pode estar se perguntando o que o teatro está fazendo aqui num blog que se propôs a falar sobre a psicologia? É que tudo que diz respeito ao humano é de interesse da psicologia. Teatro e psicologia tem tudo a ver. Todos os seres humanos são atores, porque agem, e espectadores, porque observam. Somos todos espect-atores.

        No teatro, nós temos a possibilidade de vermos a nos mesmos em ação. O teatro é a arte de nos vermos vendo. Na psicologia, nós temos a possibilidade de ver nós mesmos em ação. A psicologia é a arte de nos ver nos vendo.

        O teatro nos ajuda a conhecer a nós mesmos e ao nosso tempo. O teatro é uma forma de conhecimento e também um meio de transformação. A psicologia nos ajuda a conhecer a nós mesmos e ao nosso tempo. A psicologia é uma forma de conhecimento e também um meio de transformação.

 

Toda sensação é uma comparação.

        Você pode entender um som porque é capaz de escutar o silencio. Você atua sobre o ambiente e conhece a si mesmo. Você faz teatro e psicologia.

        A música é a mais arcaica das artes. Ela começa quando ainda estamos no útero de nossas mães. A música é uma das formas de organizar o mundo. A psicologia nos ajuda a conhecer o mundo.

        Todas as outras artes são posteriores a música e só aparecem com os outros sentidos. A dança traduz o som em imagem, em movimento, torna o som visível, palpável. A psicologia é uma das outras formas de dar sentido ao mundo.

 

Os atores trabalham os seus corpos para melhor conhece-los e torna-los mais expressivos

        Os espectadores trabalham os seus corpos para melhor conhece-los e torna-los mais expressivos.

        Para que o teatro seja transformador é indispensável permitir que os espect-atores proponham seus temas. Para que a psicologia seja transformadora é indispensável permitir que o próprio interessado proponha os seus temas.

 

O Teatro-imagem tem por objetivo ajudar a pensar com imagens

        No teatro, debatemos um problema sem o uso da palavra, usando apenas o próprio corpo e objetos (posições corporais, expressões fisionômicas, distâncias e proximidades, etc.).

        Tal qual na psicologia, podemos vivenciar as imagens que se apresentam de um problema, sem o uso da palavra, usando apenas o próprio corpo (posições corporais, expressões fisionômicas, distâncias e proximidades, etc.).

        Quando um ator interpreta um ato, ele o faz no lugar do espectador. Quando um espect-ator executa a mesma ação, ele o faz em nome de todas as possibilidades de que é capaz de atuar na sua vida.

 

A emoção prioritária

        No teatro, valorizamos a emoção para que ela possa determinar, livremente, a forma final. É a prioridade do ator de teatro. Valorizamos a emoção, na psicologia, como ponto de partida inicial para que o espect-ator compreenda como ele atua na vida.

        Para que as emoções se expressem livremente através do corpo do ator, ele faz exercícios corporais para desmecanizar os movimentos do seu corpo, muscularmente automatizado e insensível.

        Na psicologia, para que o espect-ator acesse livremente as suas emoções, ele faz exercícios corporais para flexibilizar os movimentos do seu corpo, muscularmente automatizado e rígido.

 

O corpo fica mecanizado pela incessante repetição de gestos e expressões.

        “Cada atividade humana como, andar a pé, é uma operação extremamente complicada, que só é possível porque os sentidos são capazes de selecionar e estruturar.

        Esse processo de estruturação e seleção produzido pelos sentidos leva a mecanização, porque os sentidos selecionam sempre os mesmos estímulos da mesma maneira.

        Para desenvolver sempre os mesmos movimentos, cada pessoa mecaniza o seu corpo para melhor executa-los, privando-se então de possíveis alternativas para cada situação original”.

        O ator faz exercícios para sentir certas emoções e sensações, das quais já se desabituou, para amplificar a sua capacidade de sentir e se expressar.

        Na terapia, o espect-ator experiencia emoções e sensações, compreende como os seus sentidos mecanizaram as suas emoções e sensações, e, assim, se capacita para reorganiza-las como der ou puder ou quiser.

 

Psicologia de Rebanhos

O rebanho é os meus pensamentos

E os meus pensamentos são todos sensações.

(Fernando Pessoa)

 

        A Psicologia pode lhe ajudar compreender e lidar com as suas emoções.

Referencias

BOAL, Augusto. Jogos para atores e não atores. Rio de janeiro. Civilização brasileira, 2012.

 

Como é possível que o universo seja infinito?

        “Como é possível que o universo seja infinito? Como é possível que o universo seja finito? Se o mundo é finito, onde termina o mundo? Se o mundo é finito, onde se encontra o mundo? Onde o universo”?

        “O mundo que existe neste espaço finito possui todas as coisas finitas que existem neste espaço”.

        “Eu considero o universo ‘todo infinito’ porque não possui limite, nem termo, nem superfície; digo não ser o universo ‘totalmente infinito’ porque cada parte que dele possamos pegar é finita, e cada um dos inúmeros mundos que contem é finito”.

        “Considerar o mundo ilimitado não traz consigo inconveniente algum, e até nos liberta de inúmeras angustias que nos envolvem se afirmamos o contrário. Por que frustrar a capacidade infinita, defraudar a possiblidade de mundos infinitos que podem existir? Por que deveríamos afirmar algo que, uma vez admitido, traz consigo tantos inconvenientes, e que, sem favorecer, de forma alguma, leis, religiões, fé ou moralidade, destrói tantos princípios de filosofia”?

        Para a solução desse impasse, vamos “primeiro considerar que, sendo o universo infinito e imóvel, não é necessário procurar o motor dele. Segundo, se infinitos são os mundos contidos nele, tais como as terras, os fogos e outras espécies de corpos chamados astros, todos se movem pelo princípio interno, que é a própria alma, sendo assim, é inútil investigar acerca de seu motor extrínseco”.

        “O movimento de todas as coisas, portanto, não seria de natureza mecânica, cujo deslocamento e cujos entrechoques resultariam de um movimento inicial comunicado por um ser superior. O movimento seria da natureza dos seres vivos e todas as coisas possuiriam um princípio anímico, que as faz transformarem-se permanentemente.

        O princípio anímico não se distingue da própria matéria animada. Não existem duas substancias (matéria e espirito) distintas. Tudo o que existe estaria reduzido a uma única essência material provida de animação espiritual”.

        Portanto, Deus é “imanente ao Universo e idêntico a ele. Deus não seria um ser que tivesse criado o Universo, mas seria o próprio mundo”.

        “Finalmente, pelo que se passa a nossa vista, cada objeto parece limitar outro objeto: o ar limita as colinas, os montes limitam o ar, e a terra o mar, e, por seu turno, o mar termina todas as terras; mas na verdade, nada há, para além do todo, que lhe sirva de limite.

        Efetivamente, por todo o lado, abre-se as coisas, em toda direção, um espaço sem limites”.

        “É, pois, um só o céu, um o espaço imenso, uma a abobada, um o continente universal, uma a região etérea pela qual tudo passa e tudo se movimenta. Aí podem ser observados sensivelmente inúmeras estrelas, astros, globos, sois e terras e, com razão, chega-se a conjeturar que são infinitos. O universo imenso e infinito é o composto que resulta de tal espaço e de tantos corpos nele contidos”.

        “Esse espaço nós o chamamos infinito, porque não existe razão, conveniência, possiblidade, sentido ou natureza que deva limita-lo”.

        “Mesmo que isto seja verdade, eu não quero acreditar; porque este infinito não pode ser compreendido pelo meu raciocínio, nem digerido pelo meu estomago. Com certeza, se nós quisermos colocar os sentidos como juiz ou dar-lhes a função que lhes é própria, isto é, ser o veículo originário de toda a informação, acharemos então muito difícil.

        Não são os sentidos que percebem o infinito; não é pelos sentidos que chegamos a esta conclusão, porque o infinito não pode ser objeto dos sentidos.

        Para que então servem os sentidos?

        Servem somente para excitar a razão, para tomar conhecimento, indicar e dar testemunho parcial, não para testemunhar sobre tudo, nem para julgar, nem para condenar. Porque nunca, mesmo perfeitos, são isentos de alguma perturbação. Por isso a verdade, em pequena parte, brota desse fraco princípio que são os sentidos, mas não reside neles.

        A inconstância dos sentidos demonstra que eles não são princípio de certeza e não a determinam senão por certa comparação e conferencia de um objeto sensível com outro e de uma sensação com outra. Daí se infere que a verdade é relativa nos diversos sujeitos.

        Nenhum dos sentidos nega o infinito, visto que não o podemos negar, pelo fato de não compreendermos o infinito com os sentidos; mas, como os sentidos são compreendidos por ele e a razão vem confirma-lo, somos obrigados a admiti-lo”.

Psicologia de Rebanhos

O rebanho é os meus pensamentos

E os meus pensamentos são todos sensações.

(Fernando Pessoa)

        A Psicologia de Rebanhos está fundamentada no trabalho com as sensações. Não é por conta da inconstância dos sentidos que eles não são princípio de certeza. É, exatamente, por sua incerteza que as sensações são a nossa medida do universo. Nossa medida do universo é parcial, singular e única.

        A verdade (palavra que sugere a definição de algo que apenas tem existência verbal), então, é relativa e diversa para cada um de nos. “Porque eu sou do tamanho do que vejo e não do tamanho da minha altura” (Caeiro, 1974).

TAMANHO DO UNIVERSO – Duração 3:11

Referencias

BRUNO, Giordano. Sobre o infinito, o universo e os mundos. São Paulo: Abril Cultural, 1983.

CAEIRO, Alberto. O guardador de rebanhos. In PESSOA, Fernando. Obra poética. Rio de Janeiro: Companhia José Aguilar Editora, 1974.