Existe diferença entre acreditar e estar certo?

        Por que você acredita no que você acredita? Como se formaram as crenças que você tem? Existe diferença entre acreditar e estar certo? O que é uma crença? Como formamos uma crença?

        Uma crença é certo estado mental onde não existe uma garantia de verdade para todos. Uma crença é um sentimento subjetivo que pode ser compartilhado e apoiado por outros.  Se creio, não tenho certeza, mas creio que estou certo.

        Crer, então, é algo que se fundamenta na minha opinião. Portanto, a sua crença implica algo em que você acredita e eu posso acreditar ou não. Assim, crer é diferente de certeza, pois a crença está baseada no sentimento de algo e o saber está fundamentado no conhecimento de algo.

        Mas será que crer e saber serão mesmo diferentes? Concordar que crer e saber são diferentes é acreditar que crer e saber são modos de atividades diferentes e de origens diferentes. No entanto, essa tentativa de conhecer a diferença entre crer e saber origina-se da “sensação” de que crer e saber são diferentes. A ciência diria que a origem não seria a minha sensação, mas a hipótese do fenômeno a ser observado.

        Para a ciência, a crença é uma opinião, portanto um conhecimento menor destituído de verdade. Para os parâmetros científicos, a crença não está certa. Para a crença, a ciência é um saber destituído de fé, portanto um conhecimento menor. Para os parâmetros crentes, a ciência não está certa.

        Para a ciência, a crença explica o real a partir dos sentimentos, portanto, a crença para a ciência é um fenômeno que diz respeito ao afeto. Para a crença, a ciência explica o real a partir da reflexão, do pensamento, da razão. Portanto, a ciência para a crença é um fenômeno intelectual.

        Uma das características da crença é seu sentimento rapidamente contagioso, enquanto o saber exige um trabalho lento e paciente.

        É consenso no meio cientifico que não se constrói uma teoria a partir apenas de fatos particulares. Entretanto, é a partir de suposições particulares que se constroem as teorias. Portanto, a construção de uma teoria implica sempre como ponto de partida uma suposição, um ato de fé. Ato de fé, suposição, presunção, conjectura são termos utilizados pelo crente. Método cientifico, hipótese, observação, teoria são os termos utilizados pelo cientista.

 

        Entretanto, se pensarmos que crer é um ato racional e não sentimental, podemos examinar a natureza da crença, pesquisar como ela se funda e se produz. Por outro lado, se pensamos a crença como um sentimento, o seu conhecimento fica restrito as nossas sensações. Portanto, a crença não chega a racionalizar a sua motivação.

        Porém, uma crença também é constituída de palavras, cultos, imagens, pois uma crença precisa de uma forma para ser crível. Essas palavras, cultos e imagens que formam uma crença tem seu sentido próprio. Entretanto, a ciência, ancorada na razão, supõe que somente a racionalidade pode dar sentido à vida, à realidade, à existência.

        É mais fácil persuadir com imagens, sons, cheiros, em suma, com sensações, do que com argumentos. O pensamento é um habito, é uma outra forma de dar sentido à vida, à realidade, à existência. O pensamento não é soberano, muito pelo contrário, o pensamento está mais para subalterno das sensações.

        Portanto, todas as teorias e crenças se equivalem e nenhuma delas tem valor algum. Teorias e crenças são criações humanas. Teorias e crenças fazem parte da imaginação humana. Teorias e crenças criaram a ideia de que as coisas são constituídas por um ente que as determina. Essa teoria/crença é a base de toda uma rede de falsos conceitos nos quais os homens se fixam, se endurecem, se imobilizam. Através dessa crença/teoria os homens concretizam a realidade como uma fotografia, onde a verdade se mostra com toda a sua ignorância.

Psicologia de Rebanhos

O rebanho é os meus pensamentos

E os meus pensamentos são todos sensações.

(Fernando Pessoa)

 

        Enfim, existe diferença entre acreditar e estar certo? Durante a nossa existência afirmamos diariamente a certeza das nossas crenças e as crenças das nossas certezas. Torna-se assim, para nós, quase uma impossibilidade perceber outra realidade que não sejam as nossas crenças e certezas. A Psicologia entende que a realidade não é apenas aquela fotografia que amarelece com o tempo ou jaz esquecida num arquivo digital. A psicologia entende que a realidade é um vir-a-ser e não apenas o ser. Ser este que se eterniza num instantâneo da existência. Por isso a Psicologia acredita na transformação, pois a vida é movimento.

 

Referencias

 

NOVAES, Adauto. A invenção das crenças. São Paulo: Edições SESC SP, 2011.

 

A emoção fundamental que está na raiz de toda ciência e arte

A coisa mais bela que o homem pode experimentar é o misterioso. É esta a emoção fundamental que está na raiz de toda ciência e arte.

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Não existe nenhum caminho logico para a descoberta das leis elementares do Universo – o único caminho é o da intuição.

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Penso noventa e nove vezes e nada descubro; deixo de pensar, mergulho em profundo silencio – e eis que a verdade se me revela.

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A imaginação é mais importante que o conhecimento.

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A maioria de nós prefere olhar para fora e não para dentro de si mesmo.

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Talvez algum dia a solidão venha a ser adequadamente reconhecida e apreciada como mestra da personalidade. O indivíduo que teve experiência da solidão não se torna vitima fácil da sugestão das massas.

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Na verdade, você nunca entende uma nova teoria. Você simplesmente a utiliza.

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O homem vem a terra para uma permanência muito curta, para um fim que ele mesmo ignora, embora, às vezes, julgue sabe-lo.

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O homem, como qualquer outro animal, é por natureza indolente. Se nada o estimula, mal se dedica a pensar e se comporta guiado apenas pelo habito, como um autômato.

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Sem a convicção de uma harmonia intima do Universo, não poderia haver ciência.

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        Às vezes me pergunto como pode ter acontecido de eu ter sido o único a desenvolver a Teoria da Relatividade. A razão, creio eu, é que um adulto normal nunca para para pensar sobre problemas de espaço e tempo. Isso são coisas que ele pensou quando criança.

        Mas o meu desenvolvimento intelectual foi retardado, motivo pelo qual comecei a questionar sobre espaço e tempo somente quando já era adulto. Naturalmente, pude ir muito mais fundo no problema do que uma criança com suas habilidades normais.

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O universo é finito, mas ilimitado.

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        – Quando um homem se senta ao lado de uma moça bonita, durante uma hora, tem a impressão de que se passou apenas um minuto. Deixe-o sentar-se sobre um fogão quente durante um minuto somente – e esse minuto lhe parecera mais comprido do que uma hora.

        – Isto é a relatividade.

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O tempo é relativo e não pode ser medido exatamente do mesmo modo e por toda a parte.

 

Psicologia de Rebanhos

O rebanho é os meus pensamentos

E os meus pensamentos são todos sensações.

(Fernando Pessoa)

 

        É através das nossas sensações que compreendemos o mundo. A Psicologia é a ciência que compreende o mundo estudando os nossos sentimentos com relação ao mundo. Essa necessidade de dar sentido ao mundo parece algo constitutivo do ser humano. Seja esse sentido dado pelas sensações, emoções, ciências, artes, imaginação, intuição, pensamentos. A vida é movimento.

 

Referencias

EINSTEIN, Albert. O pensamento vivo de Einstein. São Paulo: Martin Claret Editores, 1986.

 

A tatuagem era uma prática tradicional

Saia desse corpo que não lhe pertence!
 
Capitulo 6

 

        A tatuagem foi redescoberta no Ocidente na época das “grandes expedições marítimas que se realizaram durante o século XVIII. E, em especial, às ilhas do Pacífico, onde foi observado que a tatuagem era uma prática tradicional, bastante expandida e com importantes funções sociais” (Fonseca, 2003).

        Considerado um dos primeiros registros literários do qual se tem notícia, James Cook, quando esteve no Taiti, na Polinésia, relatou em seu diário, no ano de 1769: “os nativos usavam espinhas de peixe muito finas ou ossos de pássaros para perfurar a pele e injetar um pigmento feito à base de carvão e ferrugem.

        A palavra tatuagem tem origem na palavra tattow, escrita por Cook em seu diário, também conhecida como tatau” (Ferreira, 2012), “A origem do nome tatuagem como o conhecemos tem uma história curiosa: ‘Tatau’ como era chamada inicialmente pelos nativos taitianos, era a forma como se referiam à onomatopeia do som emitido durante a execução da tatuagem” (Simões, 2011).

        “Somente quando os marinheiros e viajantes talharam suas peles foi que se estabeleceu uma ponte através da qual o Ocidente se aproximou e iniciou sua trajetória na tatuagem” (Fonseca, 2003).

        “Os desenhos na pele não eram exclusivos para ritos de passagem, celebrações de eventos sociais ou proteção, eram muito usados também para amedrontar os inimigos. São chamadas de pinturas de guerra e, dependendo da cor, servia também como camuflagem na floresta” (Silva, 2010).

 

 

“As mudanças econômicas e sociais causadas pelo capitalismo e pela industrialização tiram do corpo a dimensão humana e o transformam num instrumento de trabalho, que deve ter seus instintos dominados, educados e disciplinados” (Pires, 2005).

        “A disciplina e controle corporais eram preceitos básicos. Todas as atividades físicas eram prescritas por um sistema de regras rígidas, visando a saúde corporal” (Barbosa, Matos e Costa, 2009).

        “A obtenção do corpo sadio circundava a dominação do indivíduo: a prática física domava a vontade, contribuindo para tornar o praticante subserviente ao Estado.

        Na lógica de produção capitalista o corpo mostrou-se tanto oprimido, quanto manipulável. Era percebido como uma ‘máquina’ de acúmulo de capital. Deste modo, os movimentos corporais passaram a ser regidos por uma nova forma de poder: o poder disciplinar.

        As novas tecnologias de produção em massa desencadearam um processo de homogeneização de gestos e hábitos que se estendeu a outras esferas sociais, entre elas a educação do corpo, que passou a identificar-se não só com as técnicas, mas também com os interesses da produção.

        A padronização dos conceitos de beleza, fundada no corpo magro ou musculoso, ancorada pela necessidade de consumo, criada pelas novas tecnologias e homogeneizada pela lógica da produção, foi responsável por uma diminuição significativa na quantidade e na qualidade das vivências corporais do homem contemporâneo” (Pelegrini, 2005).

        No século 19, se referiam a sociedade como “uma sociedade anónima, uma vasta população de gente que não se conhece. O trabalho, o lazer, o convívio com a família são atividades separadas, vividas em compartimentos a ela destinados. O homem procura proteger-se do olhar dos outros…

        Disciplinamos o corpo para que consigamos reconhecimento social e aprovação, estando o prazer associado ao esforço, o sucesso à determinação e a intensidade do esforço será proporcional à angústia provocada pelo olhar do outro” (Barbosa, Matos e Costa, 2009).

Psicologia de Rebanhos

O rebanho é os meus pensamentos

E os meus pensamentos são todos sensações.

(Fernando Pessoa)

        A Psicologia de Rebanhos parte da hipótese de que somos o nosso corpo. E que o corpo de cada um de nós é função das nossas relações sociais e pessoais. Cada sociedade se compõe de corpos específicos que cumprem determinada finalidade. Cada sociedade necessita de corpos com habilidades especificas para manter a sua hegemonia cultural.

        Nossos corpos são instrumentos sociais que cumprem uma função especifica na sociedade. Conhecer como nós agimos socialmente e como esse nosso agir social afeta nossa vida pessoal é a nossa tarefa. Aprender a lidar com o que a sociedade quer de nós e o que nós queremos da vida é o nosso limite. Atuar fora desse espaço entre o social e o pessoal é penetrar num mundo de indeterminação.

 

Referencias

BARBOSA, M. R.; MATOS, P. M.; COSTA, M. E. Um olhar sobre o corpo: o corpo ontem e hoje. Psicologia & Sociedade; 23 (1): 24-34, 2011. Outubro de 2009. Acesso em 05 de junho de 2015. Disponível em

FERREIRA, Deborah Cristina. O corpo como texto: analise discursiva da escrita no corpo. Revista Eventos Pedagógicos, v. 3, n. 1 Numero Especial, p. 138 – 146, abr, 2012. Acesso em 08 de março de 2015. Disponível em

FONSECA, Andrea Lissett Perez. Tatuar e ser tatuado: etnografia da pratica contemporânea da tatuagem. Florianópolis, agosto de 2003. Acesso em 08 de março de 2015. Disponível em

PELEGRINI, Thiago. Imagens do corpo: reflexões sobre as acepções corporais construídas pelas sociedades ocidentais. Revista Urutágua – revista acadêmica multidisciplinar  – Quadrimestral – Nº 08 – Dez/Jan/Fev/Mar de 2005/6 – Maringá – Paraná – Brasil – ISSN 1519.6178. Centro de Estudos Sobre Intolerância – Maurício Tragtenberg, Departamento de Ciências Sociais – Universidade Estadual de Maringá (DCS/UEM). Acesso em 20 de julho de 2015. Disponível em

PIRES, Beatriz Ferreira. O corpo como suporte da arte: piercing, implante, escarificação, tatuagem. São Paulo: Editora SENAC, 2005.

SILVA, Bruna Cristina Daminelli. A tatuagem na contemporaneidade. Criciúma, julho de 2010. Acesso em 21 de julho de 2015. Disponível em

SIMÕES, Renan. A Comunicação não Verbal Através da Tatuagem. XIV Conferência Brasileira dos Estudos da Folkcomunicação – “O artesanato como processo comunicacional” – IX Encontro Regional de Comunicação, 2011. Acesso em 21 de julho de 2015. Disponível em

 

Sistema de bloqueios que impede o livre fluxo de sensações

        Na terapia lidamos com emoções. A emoção tem a capacidade de mobilizar ou paralisar o organismo. Dizemos que uma pessoa se encontra “travada” emocionalmente se, em algum nível, a sua mobilidade foi afetada. Uma emoção paralisada é, então, equivalente a um sistema de bloqueios que impede o livre fluxo de sensações através do corpo. O objetivo da terapia é, assim, localizar esses bloqueios e recuperar essa fluência.

        Podemos conceituar a emoção como um “movimento para fora”, uma expressão fundamental a todas as formas de vida. Mesmo organismos unicelulares mostram uma reação de expansão e contração em resposta a estímulos.

        Um organismo cria um estado de tensão quando ocorre uma mudança em seu ambiente. Um organismo mobilizado para enfrentar uma alteração no seu ambiente, apresenta duas reações esperadas, que podem ser resumidas como “luta” ou “fuga”.

        Se o organismo consegue se livrar da ameaça, atacando-a ou fugindo dela, ele soube lidar com a situação. Porém, o organismo pode não conseguir lidar com a situação nem lutando nem fugindo. Então, ele está “encrencado”: o organismo bloqueou o sistema de livre fluxo das sensações. É assim que você se encrenca.

        Cientistas observaram que macacos, usados em experimentos, desenvolveram ulceras por serem repetidamente colocados em situações de estresse que eles, os macacos, não puderam evitar.

        Na terapia, as pessoas são ajudadas a vivenciar seus “sentimentos ocultos” (sistema de bloqueio do livre fluxo das sensações) de raiva, tristeza, alegria, nojo, ansiedade, desejo e muitos outros, e encorajadas a expressa-los.

        No nosso rosto, expressamos vários “sentimentos que julgamos ocultos” ligados a impulsos contidos de morder, sugar, chorar ou fazer caretas. Cada uma dessas expressões está ligada a um sistema de bloqueio de livre fluxo de sensações traumáticas.

        O pescoço é um dos locais preferidos de contração muscular (bloqueio de uma emoção) na estrutura do corpo. As tensões (sistema de bloqueio do livre fluxo das nossas sensações) no pescoço impedem a sensação de conexão entre a cabeça e o restante do corpo. Essa sensação pode ser uma das hipóteses que explica o fato de muitas pessoas se sentirem identificadas com a sua cabeça e não reconhecerem o seu corpo como seu corpo.

 

“A sensação de identificação de uma pessoa está diretamente ligada à sua capacidade de se conscientizar daquilo que seu corpo sente”.

 

        Em nossa garganta, “prendemos” as expressões de soluçar, berrar e gritar. Prendemos a raiva no pescoço e espalhamos as suas tensões nos músculos dos ombros, que avançam para as nossas costas. Estar com as costas rígidas e os ombros tensos pode ser resposta ao bloqueio do livre fluxo das sensações de raiva.

        Depois do pescoço, a outra área preferida para armazenar as tensões é a do tronco, onde regulamos a respiração. A respiração é indispensável a vida e a qualquer forma de expressão emocional.

        Toda pessoa que bloqueia o livre fluxo das suas sensações apresenta distúrbios respiratórios. Esses distúrbios se manifestam num peito estufado e o abdômen encolhido, ou, numa respiração na qual um mínimo de ar é levado aos pulmões.

        Outra região preferida para o bloqueio emocional é a pelve. A imobilidade da pelve acarreta, provavelmente, dificuldades sexuais. No entanto, as dificuldades sexuais não estão restritas a imobilidade da pelve. Pois, as tensões, em qualquer parte do nosso corpo, afetarão a qualidade das sensações obtidas nas nossas vivencias.

Psicologia de Rebanhos

O rebanho é os meus pensamentos

E os meus pensamentos são todos sensações.

(Fernando Pessoa)

 

        Uma emoção paralisada cria um sistema de bloqueios que impede o livre fluxo de sensações através do corpo. A contenção de uma emoção é um processo comportamental. Um comportamento para ser modificado passa pela sua compreensão.  O objetivo da terapia é, assim, localizar essas contenções e recuperar a fluência das sensações.

       

Referencias

BOADELLA, David. Correntes da vida: uma introdução a biossíntese. São Paulo: Summus, 1992.