Gozar do corpo da pessoa amada

Amores impuros, prazer dramático

        Era para mim doce amar e ser amado, se podia gozar do corpo da pessoa amada. Deste modo, manchava com torpe concupiscência aquela fonte de amizade. Embaciava a sua pureza com o fumo infernal da luxuria.

        Amamos, portanto, as lagrimas e as dores. Mas todo homem deseja o gozo. Ora, ainda que a ninguém apraza ser desgraçado, apraz-nos, contudo, o ser compadecidos. Não gostaremos nós dessas emoções dolorosas pelo único motivo de que a compaixão é companheira inseparável da dor?

        Porem a dor não encontra nela prazer algum. Ainda que o dever da caridade aprove que nos condoamos do infeliz.

        Mas eu, miserável, gostava então de me condoer, e buscava motivos de dor.

 

Compreensão da inteligência versus o raciocínio da carne

        Meu deus, a vos o confesso, a vos que de mim vos compadecestes quando ainda vos não conhecia, quando vos buscava não segundo a compreensão da inteligência, mas segundo o raciocínio da carne.

        Ignorava que deus é espirito e não tem membros dotados de comprimento e de largura, nem é matéria.

        Desconhecia inteiramente que princípio havia em nós segundo o qual na sagrada escritura se diz que “fomos feitos a imagem de deus”.

        Não vos supunha, ó meu Deus, sob a figura de corpo humano. Mas não me ocorria outro modo de vos conceber na imaginação!

        Esforçava-me por vos imaginar o grande, o único verdadeiro Deus. Com efeito, acreditava, com todas as fibras do coração.

 

A moral e os costumes

        Ignorava a verdadeira justiça interior, que não julga pelo costume, mas pela lei retíssima de deus onipotente.

        A obediência aos reis é um pacto geral da sociedade humana.

 

A obediência a Deus

        Vos estáveis diante de mim; porem eu apartava-me de mim e, se nem sequer me encontrava a mim mesmo, muito menos a vos.

        Vos, porém, meu Deus, já me tínheis ensinado de modos admiráveis e ocultos! Creio o que vos me ensinastes, porque é verdade, e só vos sois o Mestre da Verdade.

É Deus o autor do mal?

        Buscava a origem do mal, mas buscava-a erroneamente. E, ainda mesmo nessa indagação, não enxergava o mal que nela havia.

        Qual a sua origem, se Deus, que é bom, fez todas as coisas? Donde, pois, vem o mal?

 

A relatividade das criaturas

        Examinei todas as outras coisas que estão abaixo de vos e vi que nem existem absolutamente, nem totalmente deixam de existir. Por um lado, existem, pois provem de vos; por outro não existem, pois não são aquilo que vos sois. Ora, só existe verdadeiramente o que permanece imutável. Por isso, para mim é bom prender-me a Deus, porque, se não permanecer n’Ele, também não poderei continuar em mim.

 

Do platonismo a Sagrada Escritura

        Mas depois de ler aqueles livros dos platônicos e de ser induzido por eles a buscar a verdade incorpórea, vi que as vossas perfeiçoes invisíveis se percebem por meio das coisas criadas. Experimentei a certeza de que existíeis e éreis infinito, sem, contudo, vos estenderdes pelos espaços finitos e infinitos.

(*) Esse texto é uma versão abreviada dos Livros III, V e VII das Confissões.

 

Psicologia de Rebanhos

O rebanho é os meus pensamentos

E os meus pensamentos são todos sensações.

(Fernando Pessoa)

        Que dolorosas sensações, Agostinho vivenciaria, para repudiar as suas experiências amorosas e condena-las ao inferno? Que gozo, Agostinho sentiria na dor, para buscar motivos para doer? Ora a sua crença se encontra na inteligência, ora se encontra nas fibras do seu coração.

        Agostinho se utiliza da sua inteligência para reprimir e controlar os seus sentimentos, para evitar a vivencia das suas sensações. Incapaz de controlar as suas sensações, Agostinho se refugia na crença de uma verdade incorpórea. E como ele faz isso? Através da criação de ideias e pensamentos que lhe mantivessem distante de si mesmo.

        A nossa mente, através da criação das ideias e pensamentos, tanto pode nos aproximar quanto nos afastar de nós mesmos. As nossas ideias e pensamentos são confiáveis ou não-confiáveis. As nossas ideias e os nossos pensamentos são o fruto das relações que manemos com as nossas sensações.

 

Referencias

AGOSTTINHO, Santo. Confissões. São Paulo: Abril Cultural, 1984.

Recordar é sentir de novo

Da nossa própria mente

        As sensações e a memória das sensações produzem todas as nossas ideias. A memória é um dos efeitos da nossa sensibilidade física. Quando sentimos, necessariamente estamos recordando sensações vividas. Recordar é sentir de novo.

        Pensamos ou produzimos ideias quando percebemos as semelhanças ou as diferenças, as concordâncias ou as discordâncias que existem entre si os objetos ou as situações diferentes. Essa capacidade de percepção é oriunda das nossas sensações. Pensar é sentir de novo.

        Dizemos que o nosso cérebro produz a nossa mente onde são produzidos os nossos pensamentos. A percepção das relações que os objetos ou as situações tem conosco formam a nossa mente.

        Mas, então, o que é os pensamentos? Os pensamentos são operações da nossa mente. Essas operações se resumem a perceber diferenças entre as coisas (objetos, situações). Então, os nossos pensamentos se reduzem ao julgamento que fazemos sobre as diferenças que percebemos entre as coisas. “Julgar não é senão sentir. Todo juízo é apenas uma sensação”.

 

Da nossa própria ignorância

        ”Prazeres físicos são os únicos prazeres reais.

        A medida que a falta de dinheiro se faça sentir num Estado acostumado ao luxo, a nação cai em descredito.

        Para evitar estas consequências, seria preciso reaproximar-se duma vida simples, mas tanto os costumes como as leis a isto se opõem. Assim, a época de maior luxo de uma nação é comumente a época mais próxima de sua queda e de seu aviltamento.

        Nas questões complicadas, e sobre as quais se julga, sem paixão, só se engana por ignorância, isto é, imaginando que o lado que se vê num objeto é tudo o que há para ver neste mesmo objeto”.

        É através das nossas sensações que compreendemos o mundo. É através das sensações que nossos prazeres e nossas dores se realizam. As nossas sensações são enganosas, exceto a dor. Por que as nossas ideias, oriundas das nossas sensações, não seriam também enganosas? A época de maior valorização das ideias de uma nação é comumente a época mais próxima da sua queda e do seu aviltamento.

        A supremacia dos pensamentos em detrimento das sensações revela uma época que julga os fatos e os objetos e as suas relações, sem paixão, e assim se engana por ignorância. Por ignorar que os pensamentos são oriundos das sensações. Essa época suprema imagina que valorizar os pensamentos por si mesmos é tudo o que há para compreender sobre os fatos e os objetos e as suas relações com cada um de nos.

 

Da nossa própria paixão

        “Para amar os homens é preciso esperar pouco deles: para ver os seus defeitos sem amargor é preciso acostumar-se a perdoa-los”. O perdão é uma espécie de justiça que os homens se sentem no direito de exigir.

        “A liberdade do homem consiste no exercício livre de seu poder”. Esse poder se restringe ao âmbito das nossas capacidades. “Porque seria ridículo tomar como uma não-liberdade a impotência que temos de atravessar a nuvem como a águia, viver sob as aguas como a baleia e fazer-nos rei, papa ou imperador.

        Não se pode, portanto, formar nenhuma ideia desse termo liberdade, aplicado à vontade”.

        É que tanto a vontade quanto a nossa liberdade de ação estão orientadas pelas sensações que sentimos das nossas relações com os fatos ou os objetos. E como as nossas sensações são enganosas, melhor ficar com o ensinamento de Jesus: “Perdoai-vos, pai. Eles não sabem o que fazem”. Por isso, o perdão é uma espécie de justiça que os homens se sentem no direito de exigir, oriundo dessa sua existência sem liberdade de escolha.

        Podemos concluir que os nossos julgamentos não são nem verdadeiros nem falsos, apesar de enganosos. Nossos julgamentos são oriundos das nossas paixões e ignorância sensível aos fatos e objetos.

 

Psicologia de Rebanhos

O rebanho é os meus pensamentos

E os meus pensamentos são todos sensações.

(Fernando Pessoa)

 

        Pode-se considerar a mente como a faculdade produtora dos nossos pensamentos. Nesse sentido, a mente é apenas sensações e recordações de sensações. Mas, também pode-se considerar a mente como um efeito das faculdades produtoras dos nossos pensamentos. Nesse outro sentido, a mente é apenas uma reunião de pensamentos que podem ser acessados quando sentimos.

 

Referencias

 

HELVÉTIUS, Claude-Adrien. Do espirito. São Paulo: Abril Cultural, 1984.

 

As raízes dos estigmas que a prática apresenta

Saia desse corpo que não lhe pertence!
 
Capitulo 7

        A propagação da prática da tatuagem ocorreu no convívio dos marinheiros com prostitutas e ladrões. “Dessa forma, ladrões presos levaram a prática ao contexto carcerário (ao qual é associada até hoje), enquanto prostitutas a utilizavam como fetiche. Estes usos são as raízes dos estigmas que a prática apresenta até os dias atuais, associada à marginalidade” (Carvalho, 2010).

        “No percurso do século XIX e começo do XX, a prática da tatuagem seguiu uma intrépida fase de peregrinação pelos setores marginais da sociedade, nos quais presidiários, meretrizes e soldados converteram-se nos novos protagonistas dessa prática.

        Ao converter-se em objeto de preferência dos setores marginais, a tatuagem se situava socialmente nas margens da sociedade. Essa situação gerou uma construção negativa em torno dessa prática, que transportou ao imaginário social um sentido de referência e equivalência entre tatuagem = marca marginalidade. O contexto começou a mudar notoriamente a partir da invenção da máquina elétrica, em 1891” (Fonseca, 2003).

Entre 1870 e 1880, “a cultura física passou a integrar a cultura americana, participando de um imaginário regenerador em meio a depressão” (Pires, 2005).

 

Inicia-se assim o culto ao corpo.

 

        “O estilo de vida e o desejo de obter a perfeição física levaram o homem da sociedade industrial a buscar, excessivamente, um novo padrão de beleza. Uma exigência para a sua inclusão na sociedade, onde tudo pode virar mercadoria” (Cassimiro e Galdino, 2012).

        “A insatisfação com o próprio corpo implicou a incorporação da prática do exercício físico com fins estéticos no cotidiano do indivíduo. O trabalho corporal desenvolvido pela academia obedece à lógica da máquina: a cronometrização e mecanicidade são os princípios orientadores das práticas corporais” (Pelegrini, 2005).

        No século XX, o corpo ganha “um registro intersubjetivo, através do qual o sujeito reconhece a si e aos demais”. Em decorrência, a dimensão fisiológica do corpo “foi reconhecida como indissociável das sensibilidades, afetos, racionalizações, bem como das decisões e ações, com seus contornos éticos e políticos” (Mori e Buarque, 2014).

        “A presença de inscrições no corpo, seja por intermédio de tatuagens ou de escarificações, e o aparecimento de sintomas corporais que traduzem sofrimentos eminentemente psíquicos, destaca-se cada vez mais na contemporaneidade.

        Na verdade, o corpo passa a ocupar um espaço privilegiado de manifestação e comunicação de conflitos psíquicos. O corpo foi inventado teoricamente no século XX, e seria Freud o grande responsável por sua nova percepção.

        A teoria freudiana propõe pensá-lo (o corpo) para além da carnalidade; o corpo não é apenas um organismo biológico. Ele é atravessado pela linguagem, e essa, por sua vez, faz com que o corpo exista fora da pura sensação carnal.

As oscilações psíquicas produziram efeitos no corpo e no psíquico que, por sua vez, sofrem influências do ambiente social” (Moreira, Teixeira e Nicolau, 2010).

        “A leitura do corpo é sempre sócio histórica, e a psicanálise está inserida nesta perspectiva: ‘a psicologia individual é ao mesmo tempo também psicologia social’ (Freud, 1921). A psicanálise não está fora da cultura sendo, ela mesma, fruto do trabalho de cultura” (Ceccarelli, 2011).

        Até o século XVIII, “o corpo foi reprimido e punido, mas, a partir do século XXI, tornou-se objeto do Capitalismo”. O processo de transformação do corpo, da Grécia Antiga até os dias atuais, “sempre ocorreu por motivações políticas, econômicas e religiosas das classes que detinham o poder em cada período. Assim, o corpo exerceu papéis diferentes em cada sociedade”. (Cassimiro e Galdino, 2012).

Psicologia de Rebanhos

O rebanho é os meus pensamentos

E os meus pensamentos são todos sensações.

(Fernando Pessoa)

        A Psicologia de Rebanhos compreende que o nosso corpo é uma construção sócio histórica. Ou seja, os nossos corpos são construídos pelas ideias políticas, sociais, morais, religiosas, econômicas de cada sociedade em determinada época. Atualmente, nossos corpos são considerados os depositários de nossos afetos, sensações e pensamentos. Portanto, cabe a nós a responsabilidade pela guarda e conservação dos afetos neles depositados.

 

Referencias

 

CARVALHO, Eric de. TATTOO – Incorporações de produtos midiáticos por meio de tatuagens. São Paulo, 2010. Acesso em 21 de outubro de 2015. Disponível em

CASSIMIRO, Érica Silva; GALDINO, Francisco Flávio Sales. As concepções de corpo construídas ao longo da história ocidental: da Grécia antiga à contemporaneidade. Revista Eletrônica Print by. Μετάνοια, São João del-Rei/MG, n.14, 2012. Acesso em 05 de junho de 2015. Disponível em

CECCARELLI, Paulo Roberto. Uma breve história do corpo. In Corpo, Alteridade e Sintoma: diversidade e compreensão. Lange & Tardivo (org.). São Paulo: Vetor, p. 15-34, 2011. Acesso em 05 de junho de 2015. Disponível em

FONSECA, Andrea Lissett Perez. Tatuar e ser tatuado: etnografia da pratica contemporânea da tatuagem. Florianópolis, agosto de 2003. Acesso em 08 de março de 2015. Disponível em

FREUD, Sigmund. Psicologia das massas e analise do eu. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

MOREIRA, Jacqueline de Oliveira; TEIXEIRA, Leônia Cavalcante; NICOLAU, Roseane de Freitas. Inscrições corporais: tatuagens, piercings e escarificações à luz da psicanalise. Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental. São Paulo, v. 13, n. 4, p. 585-598, dezembro 2010. Acesso em 27 de fevereiro de 2015. Disponível em

MORI, Geraldo De; BUARQUE, Virgínia. Corporeidade-encarnação: teologia em diálogo interdisciplinar. Perspectiva Teologia, Belo Horizonte, v. 46, n. 129, p. 187-214, mai/ago, 2014. Acesso em 05 de junho de 2015. Disponível em

PELEGRINI, Thiago. Imagens do corpo: reflexões sobre as acepções corporais construídas pelas sociedades ocidentais. Revista Urutágua – revista acadêmica multidisciplinar –  Quadrimestral – Nº 08 – Dez/Jan/Fev/Mar de 2005/6 – Maringá – Paraná – Brasil – ISSN 1519.6178. Centro de Estudos Sobre Intolerância – Maurício Tragtenberg, Departamento de Ciências Sociais – Universidade Estadual de Maringá (DCS/UEM). Acesso em 20 de julho de 2015. Disponível em

PIRES, Beatriz Ferreira. O corpo como suporte da arte: piercing, implante, escarificação, tatuagem. São Paulo: Editora SENAC,2005.

 

E sei apenas do meu próprio mal

A rua dos cata-ventos

 
Eu nada entendo da questão social.
Eu faço parte dela, simplesmente…

E sei apenas do meu próprio mal,

Que não é bem o mal de toda a gente.

 

* * *

 

Espelho magico

 

Da observação

Não te irrites, por mais que te fizerem…

Estuda, a frio, o coração alheio.

Faras, assim, do mal que eles te querem,

Teu mais amável e sutil receio…

 

* * *

 

Dos mundos

Deus criou este mundo. O homem, todavia,

Entrou a desconfiar, cogitabundo…

Decerto não gostou lá muito do que via…

E foi logo inventando o outro mundo.

 

* * *

 

Dos milagres

O milagre não é dar vida ao corpo extinto,

Ou luz ao cego, ou eloquência ao mundo…

Nem mudar agua pura em vinho tinto…

Milagre é acreditarem nisso tudo!

 

* * *

 

Das ilusões

Meu saco de ilusões, bem cheio tive-o.

Com ele ia subindo a ladeira da vida.

E, no entretanto, após cada ilusão perdida…

Que extraordinária sensação de alivio!

 

Dos nossos males

A nós nos bastem nossos próprios ais,

Que a ninguém sua cruz é pequenina.

Por pior que seja a situação da China,

Os nossos calos doem muito mais…

 

* * *

 

Da eterna procura

Só o desejo inquieto, que não passa,

Faz o encanto da coisa desejada…

E terminamos desdenhando a caça

Pela doida aventura da caçada.

 

* * *

 

Do pranto

Não tentes consolar o desgraçado

Que chora amargamente a sorte ma.

Se o tirares por fim do seu estado,

Que outra consolação lhe restara?

 

Psicologia de Rebanhos

O rebanho é os meus pensamentos

E os meus pensamentos são todos sensações.

(Fernando Pessoa)

 

        Todos nós temos problemas, mas o problema de cada um é um problema único, de cada um. Embora não seja exatamente um problema de cada um, mas de todos. Afinal, o problema é nosso ou é dos outros? É que sem os outros, os problemas não existiriam. Os nossos problemas são gerados nas relações com os outros e com a gente mesmo.

        Aí então, desconfiados desse jeito do mundo ser, cheio de problemas, inventamos a solução para os problemas desse mundo em outro mundo. Um mundo que não é esse, nem o meu nem o seu nem o nosso. O pior é que acreditamos que esse tal outro mundo que criamos existe e tem a solução dos problemas desse mundo aqui.

        Somente quando a ilusão da solução dos problemas desaparece, aprendemos que a solução sempre esteve em nos mesmos. Aprendemos que os nossos problemas são somente os nossos problemas. E por serem os nossos doem muito mais que os problemas dos outros. Os problemas dos outros são nossa diversão. Assim, esquecemos dos nossos problemas, nos divertindo com os problemas dos outros.

        Esquecer é outra ilusão que criamos para não resolver os nossos problemas. É que existe no esquecimento um consolo, mas um consolo que não consola. Apenas adia o encontro e nos afasta de nós mesmos.

 

QUINTANA, Mario. Quintana de bolso. Porto Alegre: L&PM, 2006.

 

Os indivíduos que formam uma multidão não agem pela sua consciência

        Uma multidão “constitui uma alma coletiva poderosa, mas momentânea”. Uma característica da época atual é evidente quando vemos uma multidão em ação, os indivíduos que formam uma multidão não agem pela sua consciência, mas pela “consciência” da multidão.

        “As grandes convulsões que precedem as mudanças de civilização parecem determinadas por transformações políticas consideráveis, invasões de povos ou derrubadas de dinastias”. Mas não é bem assim que ocorre. “As únicas mudanças importantes, aquelas das quais provem a renovação das civilizações, produzem-se nas opiniões, concepções e crenças”.

 

A idade em que entramos será verdadeiramente a era das multidões

 

      “Hoje as reivindicações das multidões tornam-se cada vez mais claras e tendem a destruir completamente a sociedade atual para reconduzi-la ao comunismo primitivo, que era o estado normal de todos os grupos humanos antes da aurora da civilização.

        Pouco aptas ao raciocínio, as multidões mostram-se, ao contrário, muito aptas a ação. A história ensina que no momento em que as forças morais, base de uma sociedade, perdem seu vigor, a dissolução final é efetuada pelas multidões inconscientes e brutais adequadamente qualificadas como barbaras.

        Até aqui as civilizações foram criadas e guiadas por uma pequena aristocracia intelectual, nunca pelas multidões. Estas tem poder apenas para destruir. Seu domínio sempre representa uma fase de desordem. Quando o edifício de uma civilização está carcomido, as multidões levam-no ao desmoronamento. É quando seu papel aparece”.

 

O papel das multidões é destruir

 

        A qualidade da razão, o bom senso da lógica ou o raciocínio bem conduzido, poucas influências exercem sobre as multidões. As teorias metafisicas são rapidamente ignoradas pelas multidões. “Somente as impressões que se fazem surgir em sua alma podem seduzi-las”

        “O mais injusto poderá ser na pratica o melhor para as multidões, se for o menos visível e aparentemente o menos pesado. Por isso um imposto indireto, mesmo exorbitante, sempre será aceito pela multidão. Sendo diariamente recolhido nos objetos de consumo, por frações de centavos, não atrapalha seus hábitos e pouco a impressiona. Os homens nunca se comportam seguindo as prescrições da razão pura”.

 

Um indivíduo numa multidão faz parte de uma unidade mental

 

        Quando dizemos multidão estamos nos referindo a uma reunião de indivíduos quaisquer. A multidão pode mesmo ser formada por quaisquer indivíduos, pois uma multidão é “uma aglomeração de homens que possui características novas muito diferentes daquelas de cada indivíduo que a compõe”.

        O que caracteriza um indivíduo numa multidão é o desaparecimento da sua personalidade e a orientação dos seus sentimentos e dos seus pensamentos em um mesmo sentido. No sentido dado pela multidão.

 

 

        “O fato mais surpreendente apresentado por uma multidão é o seguinte: quaisquer que sejam os indivíduos que a compõem, o mero fato de se haverem transformado em multidão dota-os de uma espécie de alma coletiva. Essa alma os faz sentir, pensar e agir de um modo completamente diferente daquele como sentiria, pensaria e agiria cada um deles isoladamente”.

        “Na alma coletiva, apagam-se as aptidões intelectuais dos homens e consequentemente sua individualidade”. Numa multidão não é possível realizar atos que exijam “uma inteligência elevada”. Nas multidões imperam “não a inteligência, mas a mediocridade”.

 

Características especificas das multidões

 

Primeira característica é que “o indivíduo na multidão adquire, exclusivamente por causa do número, um sentimento de poder invencível que lhe permite ceder a instintos que, sozinho, teria forçosamente refreado”. A multidão garante o anonimato, por isso um indivíduo na multidão cede facilmente a comportamentos mais “instintivos”. Numa multidão, o sentimento de responsabilidade de um indivíduo desaparece.

Segunda característica, o contagio mental. “Em uma multidão, todo sentimento, todo ato é contagioso, e contagioso ao ponto de que o indivíduo sacrifique muito facilmente seu interesse pessoal ao interesse coletivo”. Sacrificar o seu interesse pessoal é um comportamento que se encontra em desacordo com a propensão de quaisquer espécies de indivíduos. Entretanto, o homem, quando faz parte de uma multidão, torna-se capaz de sacrificar o seu interesse pessoal.

Terceira característica, os indivíduos na multidão possuem características especificas as vezes muito opostas as do indivíduo isolado.

        “Esse é aproximadamente o estado do indivíduo que faz parte de uma multidão. Ele já não tem consciência de seus atos.

        Portanto, o desaparecimento da personalidade consciente, predomínio da personalidade inconsciente, orientação por meio de sugestão e de contagio dos sentimentos e das ideias num mesmo sentido, tendência a transformar imediatamente em ato as ideias sugeridas são as principais características do indivíduo na multidão. Ele já não é ele mesmo, é um autômato cuja vontade tornou-se impotente”.

        O homem que faz parte de uma multidão possui a “faculdade em se deixar impressionar por palavras, imagens e conduzir a atos que lesam seus mais evidentes interesses”. Mas não é apenas pelo seu comportamento que o indivíduo na multidão difere de si mesmo. “Antes mesmo de ter perdido toda independência, suas ideias e seus sentimentos se transformaram”.

Psicologia de Rebanhos

O rebanho é os meus pensamentos

E os meus pensamentos são todos sensações.

(Fernando Pessoa)

 

        A pratica terapêutica pretende acompanhar o indivíduo na transformação de seus sentimentos, em direção a sua autonomia e a sua responsabilidade pelos seus atos. Se é possível deixar-se levar, também é possível conter-se. Experimentar as instancias que separam os opostos é uma das técnicas utilizadas na psicoterapia. O entendimento de uma sensação passa pela compreensão da sua sensação simétrica oposta. Para perceber uma emoção como tristeza é necessário percorrer as instancias da alegria. A vida é movimento.

 

Referencias

LE BON, Gustave. Psicologia das multidões. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2008.