Agimos de acordo com nosso padrão mental ou nossa autoimagem

Entendendo enquanto se faz

 

         Agimos de acordo com nosso padrão mental ou nossa autoimagem. Consideramos que o nosso padrão mental seja constituído de diferentes formas por três fatores: hereditariedade, aprendizagem e autoaprendizagem.

         A nossa parte herdada é a menos mutável. A nossa herança biológica se refere a capacidade e a forma do nosso sistema nervoso, estrutura óssea, tecidos, glândulas, pele, sentidos.

        Nosso padrão mental se desenvolve no curso da nossa experiência. A nossa aprendizagem estabelece um padrão mental de conceitos e reações que variarão de acordo com o ambiente no qual vivemos.

         A nossa aprendizagem influencia na direção de nossa autoaprendizagem. A nossa autoaprendizagem influencia o modo pelo qual a nossa aprendizagem é adquirida. A nossa aprendizagem e a nossa autoaprendizagem ocorrem intermitentemente e simultaneamente.

         Desses três fatores ativos considerados aqui no estabelecimento da nossa autoimagem, somente a autoaprendizagem está em alguma medida por nossa conta. Ou seja, dos três fatores destacados na composição do nosso comportamento, somente a autoaprendizagem é possivelmente sujeita à nossa vontade.

 

A autoimagem

         Se desejamos mudar o nosso modo de agir, precisamos mudar a imagem própria que está em nós.

         Em nossa autoimagem estão envolvidos, pelo menos, quatro componentes que movem a nossa ação: o movimento, a sensação, o sentimento e o pensamento.

         O movimento, a sensação e o sentimento supõe-se que estão envolvidos também no pensamento. No decorrer de nossa vida, valorizamos um ou mais destes elementos da ação em função dos outros, o que proporciona o enrijecimento de nossas ações em uma ou mais destas áreas de ação endurecidas.

         Supõe-se que a nossa autoimagem seja constituída por um grupo de células repetitivamente estruturadas de forma a atender as nossas necessidades. Um grande grupo de células e combinações de células são desprezados em nossas atividades diárias. A nossa autoimagem é geralmente mais limitada e menor que o nosso potencial para fazer novas combinações de imagens.

         Temos a tendência de parar de aprender quando conseguimos suficiente habilidade para atingir o nosso objetivo mais imediato.

Ninguém sabe o propósito da vida.

        Aquilo que cada geração passa para a seguinte não é mais que uma continuação de hábitos da geração dominante.

         “Durante os primeiros anos, uma criança é valorizada, não por suas realizações, mas simplesmente por si mesma. Nas famílias onde isto se dá, a criança desenvolver-se-á de acordo com suas habilidades individuais. Nas famílias onde as crianças são julgadas primariamente por suas realizações, toda a espontaneidade desaparecera nos primeiros anos”.

         O nosso padrão mental é algo dinâmico. Portanto, a nossa autoimagem atual é inteiramente diferente daquela autoimagem com a qual nascemos. Acreditamos que mudar é possível e inelutável. O nosso padrão mental é o resultado da nossa própria experiência.

        “Cada padrão de ação que se torna amplamente assimilado interferira com os padrões das ações subsequentes”.

Psicologia de Rebanhos

O rebanho é os meus pensamentos

E os meus pensamentos são todos sensações.

(Fernando Pessoa)

 

        Agimos de acordo com a nossa autoimagem. A nossa autoimagem se forma na dinâmica das relações celulares que nos constitui. Essa constituição se forma nas relações entre nós e o ambiente e entre nos conosco. Nossa autoimagem é biológica e toda transformação que nela acontece, passa, necessariamente, por uma mudança na nossa dinâmica celular.

Referencias

FELDENKRAIS, Moshe. Consciência pelo movimento. São Paulo: Summus, 1977.

Incultas produções da mocidade

Sonetos eróticos

 

Proposição das ritmas do poeta

Incultas produções da mocidade

Exponho a vossos olhos, ó leitores:

Vede-as com magoa, vede-as com piedade,

Que elas buscam piedade, e não louvores;

Ponderai da Fortuna a variedade

Nos meus suspiros, lagrimas, e amores;

Notai dos males seus a imensidade,

A curta duração dos seus favores;

E se entre versos mil de sentimento

Encontrardes alguns, cuja aparência

Indique festival contentamento,

Crede, ó mortais, que foram com violência

Escritos pela mão do Fingimento,

Cantados pela voz da Dependência.

* * *

O autor aos seus versos

Chorosos versos meus desentoados,

Sem arte, sem beleza, e sem brandura,

Urdidos pela mão da Desventura,

Pela baça Tristeza envenenados:

Vede a luz, não busqueis desesperados,

No mudo esquecimento a sepultura;

Se os ditosos vos lerem sem ternura,

Ler-vos-ão com ternura os desgraçados:

Não vos inspire, ó versos, cobardia

Da sátira mordaz o furor louco,

Da maldizente voz a tirania:

Desculpa tendes, se valeis tão pouco;

Que não pode cantar com melodia

Um peito, de gemer cansado e rouco.

* * *

A morte de uma formosa dama

Onde há no mundo que ver, se a formosura,

Se Amor, se as Graças, se o prazer contigo

Jazem no eterno horror da sepultura?

* * *

A razão domina pela formosura

Importuna Razão, não me persigas;

Cesse a ríspida voz que em vão murmura;

Se a lei de Amor, se a força da ternura

Nem domas, nem contrastas, nem mitigas:

Se acusas os mortais, e os não abrigas,

Se (conhecendo o mal) não das a cura,

Deixa-me apreciar minha loucura,

Importuna Razão, não me persigas.

É teu fim, teu projeto encher de pejo

Esta alma, frágil vitima daquela

Que, injusta e varia, noutros laços vejo:

Queres que fuja de Marilia bela,

Que a maldiga, a desdenhe; e o meu desejo

É carpir, delirar, morrer por ela.

* * *

 Glosando o mote:

“A morte para os tristes é ventura”

Quem se vê maltratado, e combatido

Pelas cruéis angustias da indigência

Quem sofre de inimigos a violência,

Quem geme de tiranos oprimido:

Quem não pode ultrajado, e perseguido

Achar nos céus, ou nos mortais clemencia,

Quem chora finalmente a dura ausência

De um bem, que para sempre está perdido:

Folgara de viver, quando não passa

Nem um momento em paz, quando a amargura

O coração lhe arranca e despedaça?

Ah! Só deve agradar-lhe a sepultura,

Que a vida para os tristes é desgraça,

“A morte para os tristes é ventura”.

* * *

Insuficiência dos ditames da razão contra o poder de amor

Cego a meus males, surdo a teu reclamo,

Mil objetos de horror com ideia eu corro,

Solto gemidos, lagrimas derramo:

Razão, de que me serve o teu socorro?

Mandas-me não amar, eu ardo, eu amo;

Dizes-me que sossegue, eu peno, eu morro.

* * *

Notando insensibilidade da sua amada

A frouxidão no amor é uma ofensa,

Ofensa que se eleva a grau supremo;

Paixão requer paixão; fervor, e extremo;

Com extremo e fervor se recompensa.

Vê qual sou, vê qual es, vê que diferença!

Eu descoro, eu praguejo, eu ardo, eu gemo;

Eu choro, eu desespero, eu clamo, eu tremo,

Em sombras a razão se me condensa:

Tu só tens gratidão, só tens brandura,

E antes que um coração pouco amoroso

Quisera ver-te uma alma ingrata, e dura:

Talvez me enfadaria aspecto iroso;

Mas de teu peito a languida ternura

Tem-me cativo, e não me faz ditoso.

* * *

Psicologia de Rebanhos

O rebanho é os meus pensamentos

E os meus pensamentos são todos sensações.

(Fernando Pessoa)

        Os sentimentos nos paralisam e nos movem. Os sentimentos nos inundam e nos afogam em tristezas e sofrimentos.  “A vida para os tristes é desgraça. A morte para os tristes é ventura”. Mas podemos recorrer a formosa razão que nos acolhe com justificativas e explicações para tanta tristeza e sofrimento. A razão nos acolhe inventando outra vida. E não poderia ser de outro jeito, pois não ha razão que dessa vida possa dar conta. É que não há razão que não sinta. É que meus pensamentos vêm todos das minhas sensações.

BOCAGE, Manuel Maria Barbosa du. O delírio amoroso e outros poemas. Porto Alegre: L&PM, 2004.