Uma espécie de sentimento religioso cósmico

        Os gênios religiosos de todas as épocas têm-se distinguidos do comum dos mortais por uma espécie de sentimento religioso cósmico, que não conhece dogmas nem concebe um Deus a imagem do homem.

        Por isso não pode haver igrejas cujos ensinamentos centrais se apoiem nesse sentir. Será, portanto, entre os heréticos de todas as épocas que vamos encontrar homens impregnados do mais elevado sentimento religioso, considerados por seus contemporâneos, ora como ateus, ora como santos.

        Através desse prisma, homens como Demócrito, Francisco de Assis e Spinoza estão muito próximos uns dos outros.

* * *

        Pessoalmente, sinto-me capaz de atingir o mais alto grau de felicidade possível, através das grandes obras de arte. Delas recebo dons espirituais de tal força que coisa alguma poderia proporcionar-me idênticas sensações. Em minha vida, as visões artísticas têm desmedida influência. Afinal, o trabalho de pesquisadores e cientistas germina no campo da imaginação e da intuição.

* * *

        Não posso imaginar um Deus a recompensar e a castigar o objeto de sua criação. Não posso fazer ideia de um ser que sobreviva após a morte do corpo. Se semelhantes ideias germinam em um espirito, para mim é ele um fraco, medroso e estupidamente egoísta.

* * *

        O espirito cientifico, fortemente armado com seu método, não existe sem a religiosidade cósmica. Ela se distingue da crença das multidões ingênuas que consideram Deus um ser de quem esperam benignidade e do qual temem o castigo.

* * *

        Não basta ensinar ao homem uma especialidade. Porque se tornara assim uma máquina utilizável e não uma personalidade. É necessário que adquira um sentimento, um senso prático daquilo que vale a pena ser empreendido, daquilo que é belo, do que é moralmente correto.

* * *

        A religião do futuro será cósmica e transcendera um Deus Pessoal evitando os dogmas e a teologia.

* * *

        O valor do homem é determinado, em primeira linha, pelo grau e pelo sentido em que ele se libertou do seu ego.

* * *

        Deus é inexorável no oferecimento de dons: Deu-me apenas a teimosia de uma mula. Não! Deu-me também um agudo sentido de dor.

* * *

        O homem pode encontrar significado na vida, curta e perigosa como é, somente através de seu devotamento a sociedade.

* * *

        Evidentemente, nos existimos para nossos semelhantes – em primeiro lugar, para as pessoas queridas de cujo bem-estar e sorrisos depende nossa felicidade; depois, para todos esses seres que não conhecemos pessoalmente, aos quais, entretanto, estamos ligados pelos laços de simpatia e fraternidade humanas.

* * *

        Sem esta fé eu não poderia ter uma convicção firme e inabalável acerca do valor independente do conhecimento.

 

Psicologia de Rebanhos

O rebanho é os meus pensamentos

E os meus pensamentos são todos sensações.

(Fernando Pessoa)

 

        Quem lê as histórias da civilização humana, encontra em diversas narrativas a existência de um sentimento de religiosidade que liga o homem a algo que ele desconhece. A esse algo desconhecido, a que o homem se submete por ignorância, se dá diferentes nomes, desde o início da história conhecida – deuses, cosmos, deus, nada, liberdade, ciência, ética. Esse rebanho de nomes cunhados pelos pensamentos se sustenta na enganosa compreensão das suas sensações.

 

Referencias

EINSTEIN, Albert. O pensamento vivo de Einstein. São Paulo: Martin Claret Editores, 1986.

Dificuldade de acesso a mente possibilita a criação de uma alma

        “Nossa visão direta da mente depende de uma parte dessa própria mente”. Essa dificuldade de acesso a mente possibilita a criação de uma alma, de um espirito, de uma mente, que habitaria o corpo e dele se desataria quando o corpo deixasse de funcionar. Essa dificuldade de conhecer como nossa mente funciona, usando da nossa própria mente, possibilita a criação de um deus que explica tudo. O acesso a nossa mente, apenas por uma parte da nossa própria mente, não pode permitir uma apreciação abrangente e fidedigna do que está acontecendo.

        Pode parecer uma ingratidão e mesmo paradoxal, questionar a nossa confiabilidade em nossa capacidade de conhecimento. Afinal, já comprovamos que temos algo que nos faz conhecer que nós somos um nós, que nós somos um eu, essa parte da mente que nos dá acesso ao conhecimento, inclusive de nós mesmos.

        “No entanto, essa é a situação. Com exceção da janela direta que o eu nos abre para nossas dores e prazeres, as informações que ele fornece tem de ser questionadas, sobretudo quando dizem respeito a” sua própria natureza.

 

A superação de uma intuição enganosa

        Quando nós observamos, nós adotamos duas posturas:

– uma postura quando observamos a mente, nós nos voltamos para dentro;

– outra postura quando observamos os nossos tecidos biológicos, nossos olhos estão voltados para fora.

        “Nessas circunstancias, não é de surpreender que a mente de a impressão de não possuir uma natureza física e que seus fenômenos pareçam pertencer a outra categoria. Ver a mente como um fenômeno não físico, separado da biologia que a cria e a sustenta, é a razão pela qual certos autores apartam a mente das leis da física, uma discriminação a qual outros fenômenos cerebrais geralmente não estão sujeitos”.

 

A estrutura

        “Os organismos produzem mentes a partir da atividade de células especiais conhecidas como neurônios. Os neurônios têm muitas das características de outras células do nosso corpo, mas seu funcionamento é distinto. Eles são sensíveis a mudanças ao redor, são excitáveis (uma propriedade interessante que tem em comum com as células musculares)”.

Uma perspectiva integrada

        Aquilo que chamamos de mente é o resultado de padrões neurais de funcionamento do nosso cérebro. Os neurônios são as células mais famosas que frequentam o nosso sistema nervoso. Através de múltiplas e diversificadas relações constituídas entre os neurônios, o cérebro forma os padrões neurais que determinam os nossos comportamentos. Uma imensa quantidade de informações chega e parte do nosso sistema nervoso a todo instante. Entretanto, alguns padrões neurais geram um processo de eu, quer dizer, de consciência de padrões neurais.

        “Há milhões de anos que inúmeros seres possuem mentes ativas no cérebro”. Somente quando o cérebro foi capaz de desenvolver um processo que lhe permitiu observar a si mesmo, é que surge a consciência. Mas a consciência, como definimos hoje, somente se tornou conhecida depois que o cérebro desenvolveu a linguagem. Somente pela linguagem podemos conhecer a existência de mentes.

        “Entender como o cérebro produz esse algo mais, o protagonista que carregamos para todo lado e chamamos […] de eu, é um objetivo importante da neurobiologia da consciência”.

 

Psicologia de Rebanhos

O rebanho é os meus pensamentos

E os meus pensamentos são todos sensações.

(Fernando Pessoa)

 

        Também é o objetivo da Psicologia entender como o nosso cérebro produz a nossa consciência. Porém, acreditamos que não é somente através da linguagem que podemos conhecer a consciência. Nosso entendimento da formação dos nossos padrões neurais considera a existência de uma consciência anterior a linguagem. Essa consciência tem raízes nos nossos demais sentidos. Todas as nossas formas de sentir contribuem para damos sentido ao mundo.

 

Referencias

DAMÁSIO, António R. E o cérebro criou o homem. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.