Tensão dos músculos no momento de sua observação

        “O tônus é o estado de contração dos músculos”. O nosso “tônus neuromuscular poderia então ser definido como o estado de contração-tensão dos músculos no momento de sua observação”. O alongamento muscular provoca respostas prolongadas no nosso cérebro. A resposta do musculo as solicitações é adaptável as exigências do momento.

        O nosso aparelho locomotor é função de múltiplas articulações. O centro de gravidade do corpo está situado um pouco acima da metade da nossa altura, “mais ou menos no nível da terceira vertebra lombar”. Somos mais compridos do que largos. A nossa área de sustentação é bem menor que nossa área corporal total. “O risco de desequilíbrio é permanente”.

        Estamos constantemente em desequilíbrio. A instabilidade é o nosso equilíbrio. Um equilibro que controlamos. “O controle da postura e do equilíbrio é considerado como uma atividade complexa baseada nas interações de processos dinâmicos, sensoriais e motores. O objetivo principal do controle postural é o alinhamento ativo da cabeça e do tronco em relação a linha de gravidade”.

        Sofremos, intermitentemente, a ação da gravidade. Ficar em equilíbrio, mesmo sentado, exige um trabalho constante de nossa musculatura.

        Ainda bem que não vivemos somente por conta da nossa consciência. Se tivéssemos que viver conscientes de todos os nossos desequilíbrios, não passaríamos de um pendulo de relógio. “Os desequilíbrios podem chegar a consciência, mas os principais responsáveis pela gestão das informações relativas a postura e das respostas” ao nosso estado de equilíbrio “são subcorticais”.

        “A medula espinhal é o primeiro nível de controle do equilíbrio”. Após aprendermos a nos comportar contra a força gravitacional, passamos a opor-nos por reflexo (sem pensar) aos deslocamentos e restabelecemos “a estabilidade postural em face do menor desequilíbrio”.

A respiração

        “A inspiração marca a passagem a vida extrauterina. O motor fundamental disso é o diafragma, responsável pela respiração de pequena amplitude”. “A expiração, por sua vez, pode ser obtida pelo simples relaxamento dos (músculos) inspiratórios”. Os músculos inspiratórios “agem no sentido da gravidade. Sua função essencial é dinâmica”. Os músculos “inspiratórios são numerosos e de vocação preferencialmente estática”. Os músculos “expiratórios são pouco numerosos e dinâmicos”.

O desenvolvimento motor

        Grande parte da atividade do nosso sistema nervoso dedica-se ao controle da nossa postura. “O movimento se organiza em função das tarefas a cumprir. A coordenação é inseparável dos objetivos a atingir”.

        Os movimentos de um recém-nascido “vêm de reflexos primitivos sem implicação cortical”. Os reflexos primitivos são “progressivamente inibidos e controlados pelo sistema subcortical, para chegar a um controle gestual voluntario”. Esses reflexos primitivos “dão lugar aos reflexos posturais, controlados em grande parte pelo tronco cerebral”. Os reflexos posturais “são basicamente de controle do equilíbrio”.

        “O apoio do pé no solo marca uma etapa fundamental no plano sensitivo-reflexo e motor”. O recém-nascido recorre a uma função estática para passar da sua posição deitada para a posição estável de pé quando criança. Essa função estática está instalada “nos músculos do pescoço, da coluna vertebral, dos membros inferiores e dos adutores-rotadores internos da raiz dos membros”.

As cadeias de coordenação neuromuscular

        Quando adquirimos a postura bípede “definitiva, estável e econômica, joelhos em extensão e fixação da lordose lombar”, recorremos aos “músculos da estática numerosos e potentes” das nossas costas, responsáveis diretos pela nossa “luta contra a gravidade”.

        Essa postura bípede exige constante e intensa tonicidade dos músculos. O movimento da postura bípede inicia-se “no nível do masseter, dos músculos do pescoço e da nuca, para estender-se ao tronco, aos membros superiores e aos membros inferiores”. Essa atividade constante e intensa é responsável pela rigidez muscular que formamos ao longo da vida.

        “A atividade neuromuscular está na base de uma coordenação motora controlando duas funções, estática e dinâmica, decerto absolutamente complementares, mas de imperativos distintos”.

 

Psicologia de Rebanhos

O rebanho é os meus pensamentos

E os meus pensamentos são todos sensações.

(Fernando Pessoa)

 

        A nossa postura tem tudo a ver com a maneira como lidamos com o nosso equilíbrio-desequilíbrio. Sofremos, ininterruptamente, a ação da força da gravidade. Somos constantemente testados quanto a nossa forma de estar no mundo. Embora não tenhamos consciência das nossas posturas, as solicitações e respostas as atividades musculares chegam ao nosso cérebro e nele são organizadas.

Referencias

SOUCHARD, Philippe E. RPG, reeducação postural global: o método. Rio de Janeiro: Elsevier, 2011.

 

Vai, Carlos! Ser gauche na vida

Alguma poesia
        A Mario de Andrade, meu amigo.
Poema de sete faces
         Quando nasci, um anjo torto
         Desses que vivem na sombra

         Disse: Vai, Carlos! Ser gauche na vida.

         As casas espiam os homens

         Que correm atrás de mulheres.

         A tarde talvez fosse azul,

         Não houvesse tantos desejos.

         O bonde passa cheio de pernas:

         Pernas brancas pretas amarelas.

         Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.

         Porem meus olhos

         Não perguntam nada.

O homem atrás do bigode

É sério, simples e forte.

Quase não conversa.

Tem poucos, raros amigos

O homem atrás dos óculos e do bigode.

         Meu Deus, por que me abandonaste

         Se sabias que eu não era Deus

         Se sabias que eu era fraco.

         Mundo mundo vasto mundo,

         Se eu me chamasse Raimundo

         Seria uma rima, não seria uma solução.

         Mundo mundo vasto mundo,

         Mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer

Mas essa lua

Mas esse conhaque

Botam a gente comovido como o diabo.

 

* * *

 

No meio do caminho

         No meio do caminho tinha uma pedra

Tinha uma pedra no meio do caminho

Tinha uma pedra

No meio do caminho tinha uma pedra.

 

Nunca me esquecerei desse acontecimento

Na vida de minhas retinas tão fatigadas.

Nunca me esquecerei que no meio do caminho

Tinha uma pedra

Tinha uma pedra no meio do caminho

No meio do caminho tinha uma pedra.

 

* * *

 

Igreja

         E nos domingos a litania dos perdões, o murmúrio das invocações.

         O padre que fala do inferno

         Sem nunca ter ido lá.

 

* * *

 

Esperteza

Tenho vontade de

– ponhamos amar

Por esporte uma loura

O espaço de um dia.

         Certo me tornaria

         Brinquedo nas suas mãos.

         Apanharia, sorriria

         Mas acabado o jogo

         Não seria mais joguete,

         Seria eu mesmo.

 

         E ela ficaria espantada

         De ver um homem esperto.

 

* * *

 

Poesia

         Gastei uma hora pensando um verso

         Que a pena não quer escrever.

         No entanto ele está cá dentro

         Inquieto, vivo,

         Ele está cá dentro

         E não quer sair.

         Mas a poesia deste momento

         Inunda minha vida inteira.

 

Psicologia de Rebanhos

O rebanho é os meus pensamentos

E os meus pensamentos são todos sensações.

(Fernando Pessoa)

 

         Um verso é a tentativa do poeta para explicar a poesia do momento. A poesia deste momento se encontra nos sentimentos indescritíveis que nos acompanharam por toda a nossa vida. O verso do poeta é sua tentativa de compreender as suas sensações. Como os poetas, os pacientes, em psicologia, versejam na tentativa de compreender os seus sentimentos.

 

ANDRADE, Carlos Drummond de.  Nova reunião: 19 livros de poesia. Rio de Janeiro: Jose Olympio, 1983.

 

Crescem o erro, a ignorância e a cegueira

        São muitos os que dizem, atualmente, que nunca conhecemos tanto o funcionamento das coisas. Entretanto, lado a lado com esse progresso das ideias e das tecnologias, crescem o erro, a ignorância e a cegueira.

        A causa do crescimento do erro está no modo ideológico de organização das ideias: doutrinário e dogmático. Jamais tivemos tantos sistemas teóricos sobre o funcionamento disso ou daquilo.

        A causa da ignorância é o próprio jeito de conhecer. A nossa ciência é simplista e burocrática e especializada e tecnocrata.

        A causa do crescimento da cegueira está no uso esquemático da razão. A razão é o novo soberano de fato. Essa razão endeusada e infalível e sensata e coerente que a todos encanta e mata com a produção descontrolada de armas de destruição.

        A incapacidade de reconhecer e de aprender a complexidade do real é a característica resultante de um modo de pensar separatista da organização do conhecimento.

 

A organização do conhecimento

        “Qualquer conhecimento opera por seleção de dados significativos e rejeição de dados não significativos”. Todo conhecimento separa e associa, hierarquiza e centraliza em função de uma ideia comum. Você dirá que não encontramos outra maneira de conhecer. Você dirá que essas operações de separação e associação e seleção são oriundas da lógica, portanto, sustentam racionalmente a obtenção do conhecimento.

        Porém, essas operações utilizadas pela lógica, já foram organizadas por um princípio de organização do pensamento. Ou seja, essas operações já passaram pelo crivo de um conhecimento anterior. Essas operações logicas foram anteriormente separadas e associadas e selecionadas por princípios que orientaram a nossa consciência para um conhecimento especifico. Esses princípios, por sua vez, foram separados e associados e selecionados por um conhecimento anterior. E, assim, organizamos pensamento sobre pensamento, até um infinito. E excluímos outros infinitos.

 

A patologia do saber

        Vivemos na época da hegemonia das ideias, da simplificação e da separação. Platão sustenta que o mundo sensível é um mundo irreal, que o verdadeiro mundo é o mundo dos pensamentos. Descartes separou o sujeito pensante da coisa pensada. Tanto o pensamento de Platão como o de Descartes são produtos do pensamento separatista, simplificado e reducionista.

        Esse pensamento separatista e reducionista não consegue conceber o singular e o múltiplo como um conjunto. Essa razão idolatrada racionaliza o real. Para o pensamento racional, o real é apenas um detalhe. Para o pensamento racional, as ideias são a verdadeira realidade.

        A ciência isola um fenômeno do seu ambiente e faz conclusões de laboratório sobre o fenômeno, com validade para o funcionamento do fenômeno no seu ambiente real. A ciência brada a imparcialidade do seu método, entretanto, não admite a impossibilidade de separação entre o observador e a coisa observada. Até mesmo as disciplinas que buscam conhecer o homem já concluíram que não precisam do homem para conhece-lo. Constatam assim a inexistência do homem. Transformam a existência humana numa contingencia ilusória.

 

A necessidade do pensamento complexo

        Essa simplificação é compreensível, pois a complexidade do real é uma desordem para a nossa razão imatura. Estudar um fenômeno no laboratório é simplista, é fugir da dificuldade do pensamento complexo, é fugir da desordem do real, é escapar das infinitas inter-relações entre os fenômenos.

        É difícil associar sem identificar ou reduzir. Desde tempos remotos aprendemos a conhecer identificando (separando) e reduzindo (selecionando). A ciência enganosamente constrói uma simplificação do fenômeno no laboratório e conclui leis e propriedades validas para o fenômeno em situações complexas – reais.

        O pensamento contemporâneo é o da simplificação, que não deixa ver a complexidade do real. O pensamento mitológico criou uma vida ideológica de deuses com características humanas. O pensamento oculta a realidade. A ideia torna a realidade ilusória. Os sistemas teóricos se fecham em si mesmos e dogmatizam o conhecimento. A razão imatura racionaliza e encerra o real num sistema de ideias coerente, mas parcial e unilateral.

        Uma parte do real é irracionalizável, mas estamos na era da barbárie das ideias.

 

Psicologia de Rebanhos

O rebanho é os meus pensamentos

E os meus pensamentos são todos sensações.

(Fernando Pessoa)

 

        As nossas sensações são enganosas. Como produtos das nossas sensações, os nossos pensamentos são enganosos. Essa é uma associação oriunda da lógica. A lógica é uma construção dos nossos pensamentos enganosos. Portanto, a nossa lógica, que sustenta a nossa forma de conhecer, é também enganosa. Resta-nos aprender a lidar com essa complexidade.

 

Referencias

MORIN, Edgar. Introdução ao pensamento complexo. Porto Alegre: Sulina, 2015.