Arte, inimiga do povo

Corrigindo ideias equivocadas sobre arte e cultura

        Nossa sociedade capitalista é como o Rei Midas, tudo o que toca, transforma em ouro. Tudo é vendável. Tudo é para consumo. A sociedade produziu a arte como um produto para poucos consumidores. A sociedade de consumo transforma em produto quaisquer processos sociais de expressão da vida. Assim fez com a arte, transformando-a em um produto industrial e em negócio comercial. Arte, inimiga do povo.

        É somente nos séculos 17 e 18 que surge esse sistema de arte como algo privilegiado de uma classe social, naquela época a burguesia. Assim, o conceito de arte como uma questão de gosto se assenta na sociedade em detrimento da ideia de arte como uma expressão de um processo social.

        Com a sua ascensão econômica, a burguesia assimila e transforma o estilo de vida da aristocracia. As atividades burguesas de pintar, escrever, esculpir e compor músicas, produzidas com o desenvolvimento da vida social burguesa, passam a ser consideradas como arte. Assim, o desenvolvimento da arte fica amarrado ao desenvolvimento econômico da burguesia.

        Por isso que a música, por exemplo, produzida pela aristocracia ou pelas massas não é mais considerada como arte, somente a música produzida pela burguesia é arte. A arte torna-se um produto de um grupo social. Somente os gostos e as preferencias burguesas são considerados arte. A arte, como ainda, atualmente, é concebida, tornou-se uma produção da classe dominante.

        Disso decorre que para que algo seja considerado arte deva ser aceito dentro de uma área social adequada. Os motivos e as explicações para que algo seja considerado arte está submetido aos gostos e as preferencias dessa área social. Porém, os critérios para que algo seja aceito em uma área social estão sujeitos a livre preferência dessa área social. O critério é o arbítrio. A arte é algo arbitrado pelas preferencias de uma área social.

        A arte, portanto, transformou-se na deliberação de uma área social, surgida com a burguesia, e atualmente sujeita as preferencias das classes dominantes.

O status fraudulento da arte no marxismo

        As revoluções sociais ocorrem em momentos de depressão econômica. As sociedades sob o impacto de revoluções sociais podem ser reconstruídas pela derrubada violenta e revolucionaria das estruturas de poder existentes. As ideias revolucionarias pressupõem que exista uma resistência na sociedade constituída para qualquer tentativa de mudança na estrutura do poder. Será mesmo que existe tal resistência ou essa resistência existiria apenas nos ideais revolucionários?

        Os ideólogos revolucionários bradam que as modificações que pretendem fazer nas produções sociais dominantes são revolucionarias e, portanto, libertarias das formas de vida da sociedade dominante. Entretanto, essa libertação da sociedade dominante é falsa, pois o que se modificou é mantido como referência e alicerce do revolucionário.

        “A libertação depende de não ter mis nada a ver com esse código moral”.

        Muito se fala sobre a ética na atualidade. Enquanto alguns falam, aqueles que a praticam, submetem aqueles que falam, aos seus interesses de poder. Na visão do marxismo, a nossa sociedade está constituída pelo trabalho. O trabalho é a ética da nossa sociedade. Se não há trabalho, não pode haver ética. Se o trabalho é exploração, a ética é uma imposição. É através do trabalho que cada um de nós contribui para todos. Sem trabalho não tem ética.

        O trabalho é uma coisa que eu faço para alguém que não sabe como fazer tal coisa. E esse alguém me retribui, o que eu faço para ele, indiretamente, com o seu trabalho e, diretamente, com o ganho que ele tem com o seu próprio trabalho. Assim, o trabalho é a nossa contribuição para todos. O trabalho é a ética da nossa sociedade. Se não há trabalho, não pode haver ética numa sociedade.

        As áreas dominantes de uma sociedade protegem e preservam as suas produções sociais consagradas como arte. Quando os grupos dominados começam a absorver os produtos sociais oriundos das áreas dominantes, as áreas dominantes estacam o desenvolvimento das suas produções sociais e as transformam em arte.  Assim, as formas de vida e produções sociais das classes dominantes são preservadas e protegidas como sagradas.

A influência corruptora da arte na cultura popular

        Com a supremacia econômica burguesa sobre a aristocracia, a arte passa para o conjunto de processos sociais produzidos pela burguesia. A partir da ascensão econômica da burguesia a arte deixa de ser uma orientação humana básica. Assim decorre que para se ter o status de arte, uma atividade depende da sua inserção nos processos sociais dominantes. Portanto, as práticas de pinturas, escritos, esculturas e músicas consideradas como arte, somente assim o são, por serem mantidas pelas classes dominantes da sociedade.

        “O jazz é mal interpretado porque é visto através da função ideológica do conceito de arte, quando na verdade só entrou para essa categoria porque essa visão se tornou socialmente aceita”.

        Inicialmente, as ditas manifestações artísticas como pinturas, escritos, esculturas e músicas surgem de todas as áreas sociais. O desenvolvimento dessas práticas evolui para exigências comerciais. Fazer essas práticas significa trabalho, uma forma de ganhar dinheiro. Toda arte atual foi inicialmente uma atividade comercial da sua época.

        Ainda como um conceito generalizado, a arte do trabalho é uma identificação social especifica de um valor. A arte então é uma presença que recorrentemente emerge das várias formas da pratica comercial da sua época. É uma efervescência subterrânea, impensável, que se revela por meio de sua clandestinidade. A arte emerge como produto de consumo de um mercado que desabrocha.

        A partir do momento que uma arte é incorporada pelas áreas dominantes na sociedade, a arte não se desenvolve mais. A arte deixa de ser trabalho. A arte deixa de ser uma atividade comercial e passa para uma atividade sagrada oriunda de uma classe dominante, acessível a poucos, como o trabalho.

        A contemporaneidade coloca a arte no seu lugar de origem: uma pratica comercial.

Psicologia de Rebanhos

“O rebanho é os meus pensamentos e os meus pensamentos são todos sensações” (Fernando Pessoa).

 

        O trabalho é uma expressão cultural que disseminado numa sociedade se torna uma necessidade para os seus indivíduos. O trabalho é uma necessidade que se populariza. A arte é as criações oriundas das manipulações dos recursos naturais efetuadas pelo homem. O homem é o único animal no planeta Terra capaz dessa pratica, a arte. A arte e o trabalho são a contribuição de cada indivíduo para viver numa sociedade – o mercado de consumo. Arte e trabalho são práticas adaptativas ligadas a evolução da espécie humana nesse planeta. A psicoterapia é uma dessas práticas.

Referencias

TAYLOR, Roger. Arte, inimiga do povo. São Paulo: Conrad Editora do Brasil, 2005.

 

Estudar é uma tarefa de reinvenção, de recriação

        “Estudar é, realmente, um trabalho difícil. Exige de quem o faz uma postura crítica, sistemática. Exige uma disciplina intelectual”. Aquele que estuda é desafiado pelo texto. O objetivo de quem estuda é se apropriar do significado do texto que estuda. Estudar um texto é estudar o estudo de quem o escreveu. Quem estuda percebe que o conhecimento é condicionado pelo seu momento histórico e social. Estudar é uma tarefa de reinvenção, de recriação. Estudar, nessa perspectiva, é ter uma atitude crítica em relação ao texto estudado.

        O ato de estudar é uma atitude crítica diante do mundo. Estudar é, fundamentalmente, e sobretudo, pensar a pratica frente ao mundo. Estudar é ter um diálogo com o autor do texto. “O ato de estudar demanda humildade”. Nem sempre um texto é de fácil compreensão. A compreensão de um texto pode se transformar num grande desafio. “Estudar não é um ato de consumir ideias, mas de cria-las e recria-las”.

O homem e o ambiente em que vive

        Imagine um índio caçando, com seu arco e sua flecha. Ao lado desse índio, imagine também um camponês caçando com uma espingarda. Qual desses dois caçadores pode ser analfabeto? “Não se pode dizer que o índio é analfabeto porque vive numa cultura que não conhece as letras. Para ser analfabeto é preciso viver no meio das letras e não conhecer elas”. É que o homem só existe em relação ao seu ambiente. Não existe homem sem um mundo. “Admitindo-se que todos os seres humanos morressem, mas ficassem as arvores, os pássaros, os animais, os mares, os rios, seria isto mundo”? O mundo existe porque o homem existe para nomeá-lo.

O homem reinventa o mundo

        O homem transforma o mundo através do seu trabalho. Por meio do seu trabalho o homem se expressa no mundo. É fazendo o seu trabalho que o homem transforma o mundo. Sem trabalho não existe homem. Um mundo de homens sem trabalho é um mundo que não existe. Portanto, não existe mundo fora da relação homem-mundo. A visão de mundo que vê o homem como instrumento de produção desconsidera que o homem se expressa no mundo por meio do seu trabalho.

        “Transformando a realidade natural com seu trabalho, os homens criam o seu mundo. Mundo da cultura e da história que, criado por eles, sobre eles se volta, condicionando-os. Isto é o que explica a cultura como produto, capaz ao mesmo tempo de condicionar seu criador”.

        Os homens desenvolvem as suas maneiras de pensar e de se comportar no mundo fundamentadas nas ideias culturais dominantes na sociedade em que fazem parte. Essas maneiras de pensar e de atuar no mundo condicionam o mundo para essas maneiras de pensar e de atuar no mundo. Ao mesmo tempo, os homens são condicionados por essas maneiras de pensar e de atuar no mundo.

        Esse condicionamento as maneiras de pensar e de atuar no mundo estabilizam os homens numa forma de pensar e atuar o mundo que lhes parece segura. Com isso, as inquietações que propõem mudanças trazem consigo o medo do novo, o medo da perda do seu ‘status social’. Esse medo impede a reflexão crítica das ideias e dos comportamentos instituídos.

O homem recria a si mesmo

        “É que, no momento em que os indivíduos, atuando e refletindo, são capazes de perceber o condicionamento de sua percepção pela estrutura em que se encontram, sua percepção começa a mudar, embora isso não signifique ainda a mudança da estrutura. É algo importante perceber que a realidade social é transformável; que feita pelos homens, pelos homens pode ser mudada, que não é algo intocável, um fado, uma sina, diante de que só houvesse um caminho: a acomodação a ela. Poderá dizer-se que a mudança da percepção não é possível antes da mudança da estrutura’’.

Psicologia de Rebanhos

“O rebanho é os meus pensamentos e os meus pensamentos são todos sensações” (Fernando Pessoa).

 

        Experienciando a si mesmo através da vivencia das suas emoções e sentimentos, o homem percebe como ele se usa para fazer as coisas. Percebendo como se usa, o homem pode mudar a maneira como ele se usa. Percebemos que podemos mudar o jeito que atuamos por uma nova percepção de como fazemos isso.

Referencias

FREIRE, Paulo. Ação cultural para a liberdade e outros escritos. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2011.