Algo completamente distinto da alma

Saia desse corpo que não lhe pertence!
 
Capitulo 5

 

René Descartes (1596-1650) “parece ter instalado definitivamente a divisão corpo-mente. O homem era constituído por duas substâncias: uma pensante, a alma, a razão e outra material, o corpo, como algo completamente distinto da alma.

Mesmo se já se pensasse o ser humano como constituído por um corpo físico e uma outra parte subjetiva, a partir de Descartes essa divisão foi realmente instituída e o físico passou a estar ao serviço da razão” (Barbosa, Matos e Costa, 2009).

 

Eis que durante o século 18 concretiza-se na Europa, notadamente na França, o movimento cultural denominado Iluminismo, cujas principais características estão resumidas e simbolizadas nas cores da bandeira francesa: liberdade (azul), igualdade (branca), fraternidade (vermelha).

O Iluminismo busca o conhecimento da natureza através da razão, com o objetivo de torná-la útil ao homem. O Iluminismo alardeia maior liberdade econômica e política do estado; promove o intercâmbio intelectual e o desenvolvimento da ciência; é contrário a intolerância da Igreja e do Estado.

O nome Iluminismo deriva de que a razão, que é luz, ilumina, em contraposição a séculos de trevas de domínio das crenças dogmáticas católicas.

O Iluminismo promove mudanças políticas, econômicas e sociais, baseadas nos ideais de liberdade, igualdade e fraternidade.

 

 “Cabe lembrar que os ideais iluministas (século XVIII) acabaram por acentuar a depreciação do corpo, dissociando-o da alma, retomando a dicotomia corpo-alma, arquitetada na antiguidade clássica” (Pelegrini, 2005).

 

A ideia do “corpo como algo separado da pessoa só é pensável, portanto, em sociedades individualistas em que as pessoas são separadas umas das outras”. Essa ideia pode ser imputada “aos primeiros anatomistas e à filosofia mecanicista, tendo, portanto, uma demarcação histórica localizada entre os séculos XV e XVII” (Rauter, 2013).

 

Diante desse estado de coisas “percebe-se que é apenas na passagem do século XVII ao XVIII que o sujeito se torna “indivíduo”, e é apenas no final do XIX que este indivíduo ganha uma subjetividade.

Não há, portanto, simetria entre sujeito e subjetividade, não existe naturalmente esta unidade e esta fidelidade a si mesmo – esta relação, esta colagem das características subjetivas em um sujeito.

Esta individualização da subjetividade, é resultado dos jogos de normalização e de marcação da identidade, característicos das sociedades Ocidentais modernas” (Prado Filho e Martins, 2007).

 

“O sentimento de individualidade que os historiadores identificam como a emergência do eu no século XVIII irá, a partir da segunda metade do século XX, privilegiar a identidade corporal.

Assistiremos a uma identificação do indivíduo com o seu corpo” (Moreira).

 

Referencias

 

BARBOSA, M. R.; MATOS, P. M.; COSTA, M. E. Um olhar sobre o corpo: o corpo ontem e hoje. Psicologia & Sociedade; 23 (1): 24-34, 2011. Outubro de 2009. Acesso em 05 de junho de 2015. Disponível em 

 

MOREIRA, Jacqueline de Oliveira. O corpo como um acessório: um lugar possível para os tatoos e piercings. Acesso em 27 de fevereiro de 2015. Disponível em

 

PELEGRINI, Thiago. Imagens do corpo: reflexões sobre as acepções corporais construídas pelas sociedades ocidentais. Revista Urutágua – revista acadêmica multidisciplinar –  – Quadrimestral – Nº 08 – Dez/Jan/Fev/Mar de 2005/6 – Maringá – Paraná – Brasil – ISSN 1519.6178. Centro de Estudos Sobre Intolerância – Maurício Tragtenberg, Departamento de Ciências Sociais – Universidade Estadual de Maringá (DCS/UEM). Acesso em 20 de julho de 2015. Disponível em 

 

PRADO FILHO, Kleber; MARTINS, Simone. A subjetividade como objeto da (s) Psicologia (s). Psicologia & Sociedade; 19 (3): 14-19, 2007. Acesso em 07 de setembro de 2013. Disponível em

 

RAUTER, Raíssa Völker. A Relação Do Sujeito Contemporâneo Com O Corpo: Uma reflexão à luz da psicologia analítica. 2013. Acesso em 20 de julho de 2015. Disponível em

 

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