As faltas eram julgadas de fora para dentro

        Na Grécia antiga, as faltas eram julgadas de fora para dentro. Não se julgavam intenções, mas reparações, indenizações a vítima, se fosse o caso. Quando a falta é cometida entre pais, filhos, netos, e, entre irmãos, por linha colateral, implica em parentesco sagrado (pessoas ligadas por laços de sangue). Esposos, cunhados, sobrinhos e tios não são parentes em sagrado, mas em profano ou ante os homens.

        Acreditava-se na crença da maldição familiar, a saber: qualquer falta cometida por um membro da família recai sobre o grupo familiar inteiro, isto é, sobre todos os parentes e seus descendentes “em sagrado” ou “em profano”.        Esta crença na transmissão da falta, na solidariedade familiar e na hereditariedade do castigo é uma das mais enraizadas no espirito dos homens.

        Entretanto, conta-se a boca pequena que essa tal maldição não passa de um conflito entre gerações. Esse antagonismo entre gerações, todavia, quer seja entre pai e filho, avo e neto, ou entre pai e pretendente, é sempre um combate pelo poder. E tem sempre como desfecho a vitória do mais jovem.

        Desse modo, o parricídio (homicídio do pai) e o filicídio (homicídio do filho) ou são substituídos por um simples destronamento, ou são realizados. Mas quando realizados são resultantes de um erro, embora se tenha o respaldo de um oraculo. Em ambos os caos, os poetas evitam colocar em cena o mais horrendo dos crimes aos olhos da sociedade grega.

 

        “O mérito pessoal é uma condição necessária para se subir ao trono dos antigos e a persistência da energia ativa é indispensável para conservar o poder real”. Donde se conclui que a sucessão por morte se fundamenta no princípio da incapacidade, por velhice (cessação da energia ativa), de exercer a função real. A razão é de ordem magica: quem perdeu a força física não pode transmiti-la como deveria e teria que fazer um rei.

O sacrifício do primogênito é um tema comum no mito

        Em todas as tradições encontra-se o símbolo do filho ou da filha imolados, cujo exemplo mais conhecido é o “sacrifico” de Isaac por Abraão. Nas culturas mais antigas, um tal sacrifício, não obstante seu caráter religioso, era exclusivamente um habito, um rito. No caso de Abraão é um ato de fé.

        No mundo antigo oriental, o primeiro filho era, não raro, considerado como filho de deus. É que no Oriente antigo as jovens tinham por norma passar uma noite no templo para “conceber” do deus. Esse deus era representado, evidentemente, pelo sacerdote ou por um enviado, o estrangeiro.

        Pelo sacrifico desse primeiro filho, do primogênito, restituía-se a divindade aquilo que, de fato, lhe pertencia. O sangue jovem estabelecia a energia esgotada do deus, porque as divindades da vegetação e da fertilidade exauriam-se em seu esforço. Na época histórica esses sacrifícios reais foram substituídos por uma “provação” como o de Isaac. Mas cuja execução não mais de consumava: Isaac foi substituído por um carneiro.

        Trata-se, ao que tudo faz crer, de uma repressão patriarcal: obtida a submissão, o ato se dá por cumprido e o opressor por satisfeito.

Psicologia de Rebanhos

“O rebanho é os meus pensamentos e os meus pensamentos são todos sensações” (Fernando Pessoa).

        A Psicologia dos povos muito antigos consistia na reparação dos comportamentos. Reparava-se um comportamento com um outro comportamento. Depois, passamos a sacrificar o novo para inundar de sangue novo o velho poder já exaurido. O homem tem uma “quedinha” para apoiar a tradição, para alimentar o poder instituído e alimentar-se dele. Com o advento da fé, origina-se uma nova Psicologia. O homem descobre que o poder está na fé. O antigo impede o reinado do novo por um ato de fé. O novo é reprimido e submetido e se dá por satisfeito por não ter sido extinguido. Mas a vida é movimento. E o que se move, muda ou retorna. Assim, vemos o retorno da Psicologia dos povos antigos para lidar com as repressões e submissões criadas pela ausência da reparação dos comportamentos.

Referencias

BRANDÁO, Junito de Souza. Mitologia grega: Volume I. Petrópolis: Editora Vozes, 1987.

 

Fertilizar o solo e tornar fecundos os rebanhos e os homens

        Entre os séculos 31 a.C. e 27 a.C., na Grécia, a divindade soberana é a Terra-Mãe,. A Grande Mãe, cujas estatuetas, muito semelhantes as cretenses, representam deusas de formas volumosas e traseiro grande. A função dessas divindades, representantes da Terra-Mãe, é fertilizar o solo e tornar fecundos os rebanhos e os homens.

 

        É somente a partir dos séculos 27 a.C. e 16 a.C. que montes, rios e cidades gregas recebem nome.

 

        Já existia a ideia de um mundo ordenado – Cosmogonia – criado e organizado por Zeus, o deus do alto, o soberano, “o criador”. Ordem e paternidade, os seus dois grandes atributos.

 

        Na Ilha de Minos a mulher não governava, mas reinava.

 

        Em todas as culturas primitivas. A descida a uma caverna, gruta ou labirinto simboliza a morte ritual, do tipo iniciatico. A ideia de caverna está associada o labirinto.

        No seu conjunto, o mito do Minotauro simboliza, a luta espiritual contra a repressão.

        Dédalo é a engenhosidade, o talento, a sutileza. Construiu tanto o labirinto, onde a pessoa se perde, quanto as asas artificiais de Ícaro, que lhe permitiram escapar e voar. Mas que lhe causaram a ruina e a morte.

        Ícaro é o símbolo da temeridade, da volúpia “das alturas”, em síntese: a personificação da megalomania.

        Com efeito, a cultura e a religião gregas são resultado da simbiose entre a vida no mundo mediterrâneo e os conquistadores indo-europeus, descidos do Norte.

        As fontes básicas para um estudo da civilização grega são a arqueologia e os poemas de Homero, Ilíada e Odisseia.

        Como “fonte histórica”, é preciso levar em consideração que Homero é antes de tudo um poeta e que os seus poemas não se referem, muitas vezes, a relatos históricos.

        Além do mais, os poemas de Homero foram “compostos” ou ao menos reunidos, após existirem como tradição oral, vários séculos após os acontecimentos neles relatados. Sujeitos, portanto, a inúmeras alterações.

        A Ilíada e a Odisseia foram elaboradas a partir do século 9 a.C. e contam uma mitologia que remonta ao surgimento da linguística. Considera-se que a linguística surge entre os séculos 27 a.C. e 16 a.C.. Portanto, a Ilíada e a Odisseia contam uma mitologia que já vinha, pelo menos, de sete séculos, em relação a civilização creto-micênica. De outro, sofreram, sem dúvida alguma, adições posteriores.

        De seu mundo indo-europeu os gregos trouxeram para a Grécia antiga um tipo de religião essencialmente celeste, urânica, olímpica, com nítido predomínio do masculino, que irá se encontrar com as divindades advindas do oriente, de Creta, de caráter subterrâneo e agrícola, e, portanto, de feição tipicamente feminina.

        Dioniso e Afrodite são seguramente divindades asiáticas.

        O sincretismo creto-micênico faz que as divindades gregas tivessem um caráter essencialmente composto, miscigenado e heterogêneo, o que explica a multiplicidade de funções e um entrelaçamento de mitos em relação a uma mesma divindade.

 

Referencias

 

BRANDÁO, Junito de Souza. Mitologia grega: Volume I. Petrópolis: Editora Vozes, 1987.

Eu fico com essa dor ou essa dor tem que morrer

Eu fico com essa dor ou essa dor tem que morrer

 

Dores de amores

 

Eu fico com essa dor

Ou essa dor tem que morrer

A dor que nos ensina

E a vontade de não ter

Sofrer de mais que fruto

Nós precisamos aprender

 

Eu grito e me solto

Eu preciso aprender

 

Curo esse rasgo

Ou ignoro qualquer ser

Sigo enganado

Ou enganando meu viver

Pois quando estou amando

É parecido com sofrer

 

Eu morro de amores

Eu preciso aprender

 

MELODIA, Luiz. Dores de amores. 1978.

 

LUIZ MELODIA E ZEZÉ MOTTA – DORES DE AMORES – Duração 2:33
Eu fico com essa dor ou essa dor tem que morrer

O mito é uma narrativa da criação das coisas que existem

        O mito conta a história de uma realidade que passou a existir. O mito é uma narrativa da criação das coisas que existem. O mito nos conta a história de como algo, que não era, começou a existir. Uma pedra, um animal, um comportamento, a gravidade, as relações entre os elementos, etc.      

        Não sabemos como essa forma de significar o mundo surgiu. Mas chegou até nos através de várias gerações e relata uma explicação de como o mundo é o que é. O mito é, então, uma explicação do mundo através da palavra.

 

O mito expressa o mundo, a realidade, através da participação coletiva.

Atualmente, o senso comum entende o mito como a expressão de uma fantasia. O senso comum entende que o mito é uma mentira. Para o senso comum, dizer que uma coisa é mito, é desvalorizar a existência dessa coisa.

Apesar do senso comum, também se compreende que o mito expressaria, seja qual for a época e o lugar, o que foi herdado daquilo que existiu anteriormente. O mito expressaria então a história da herança genética das coisas que ora existem.

Uma forma mais sofisticada do senso comum, compreende o mito como um símbolo. Compreensão racionalista para algo que foge ao alcance da razão. Do mesmo jeitinho como a razão cria a loucura. (A razão é transformada pelos racionalistas em referência de valor de todas as coisas.) Os racionalistas inventam a loucura como sendo a ausência da razão – onde não há razão, há loucura.

E os racionalistas fazem o mesmo com o mito, quando entendem o mito como símbolo. A razão transforma o mito numa fantasia. E o que vem a ser uma fantasia? Com certeza, os racionalistas explicam que a fantasia não possui uma das principais características da razão – a lógica. Mas, que logica seria esta? Ora, a lógica da razão. Ou melhor, a lógica de quem possui a razão.

A razão, impotente para acessar o mito, tentou explicar o mito através de um conceito de equivalência, o símbolo. Assim, o mito representaria mais do que o seu significado evidente e imediato.

 

O mito não é mais aquilo que é, mas aquilo que quer dizer alguma coisa além daquilo que diz.

o-mito-e-uma-narrativa-da-criacao-das-coisas-que-existem

O mito, portanto, não mais traduz a origem de algo que não existia – uma arvore, um habito, um gesto, uma relação. O mito não mais se refere a imagem dos princípios das coisas inexistentes. A razão transforma o mito numa grande farsa – uma mentira. Aquilo, cuja existência o mito explica, não mais existe, virou “mito”. Aqui, acontece uma inversão – o mito não mais existe.

Aqui, a razão toma posse de uma das suas principais armaduras – a verdade. Tudo que não passa pela lógica da razão não é verdadeiro – não tem valor. O valor está na razão. Somente a razão pode dizer o que é valido.

Eis aqui, o fundamento de toda a religião.

A religião pode ser definida como o conjunto de atitudes e atos pelos quais o homem se liga ao divino ou aos seres invisíveis tidos como sobrenaturais. E quem faz essa ligação? A razão, é claro! Mas como acreditar numa tal tolice? Uma de milhares de outras hipóteses possíveis: ora, basta propagar a tolice repetidamente – publique. Assim, como faço nesse blog. Publicar é tornar público.

Sabemos que a repetição autonomiza um comportamento – o habito. E aprendemos que um comportamento tende a se repetir se for reforçado. Então, criamos o ritual – uma forma de suscitar e reafirmar o mito.

O ritual é a pratica do mito. Todas as religiões têm os seus rituais. Até mesmo aquelas que dizem que não os tem. Nenhuma razão sobrevive a ausência de repetição e de reforço.

“O mito rememora, o rito comemora”.

“Rememorando os mitos, reatualizando-os, renovando-os por meio de certos rituais, o homem torna-se apto a repetir o que os deuses e os heróis fazem “nas origens”, porque conhecer os mitos é aprender o segredo da origem das coisas.

Assim a realidade se adquire exclusivamente pela repetiçao ou participação; tudo que não possui um modelo exemplar é vazio de sentido, isto é, carece de realidade”.

Mito, rito e religião

Assim, o sobrenatural (o divino, os seres sobrenaturais) aflora através do natural (o mundo físico). Na medida que o sobrenatural ascende sobre o natural, criamos o sagrado e o profano. Mais uma característica da razão – dividir para governar.

Agora, a razão fiel e submissa a religião não mais cria o caráter sagrado, mas, sim, é o caráter sagrado, preexistente, que cria a razão. Assim, a compreensão da origem das coisas é feita pela revelação.

Deste ponto de vista, nenhuma pedra, nenhuma arvore, nenhum animal, nem o homem, nem um pensamento, nem uma situação e nenhum relacionamento são sagrados. Tudo é profano. O que é sagrado é aquilo que eles revelam.

“O mito desempenha uma função indispensável. O mito exprime, exalta e codifica a crença. O mito salvaguarda e impõe os princípios morais. O mito garante a eficácia do ritual. O mito oferece regras praticas para a orientação do homem”.

 

Mito da Caverna – por Maurício de Souza – Duração 2:54

Referencias

BRANDÃO, Junito de Souza. Mitologia grega: Volume I. Petrópolis: Editora Vozes, 1987.

 

Mito, um sistema que tenta explicar o mundo e o homem

        Você sabe o que é mito? O dicionário Michaelis.UOL nos apresenta oito significados diferentes para a palavra mito. Neste texto, selecionei o significado de mito como um sistema que tenta explicar o mundo e o homem.

        Assim apresentado, o mito é um sistema que tenta explicar o mundo e o homem tão legitimo quanto o método das ciências ou o das religiões ou de outras crenças.

        Se você se der ao trabalho de ler os significados apresentados no dicionário citado (acesse o link aqui) concluirá que

“o mito atrai, em torno de si, toda a parte do irracional no pensamento humano, sendo, por sua própria, natureza, aparentado a arte, em todas as suas criações”.

 

O mito é um modo de significação, uma forma, um símbolo

        “A mitologia grega chegou até nós através da poesia, da arte figurativa e da literatura erudita”

        Os gregos que buscaram compreender o mundo e o homem, valorizando o racional em detrimento do irracional, subestimaram as explicações do mundo e do homem oriundas do mito. Os gregos “racionais”, cujo expoente mais celebre foi Sócrates (469-399 a.C.), via Platão (428-348 a.C.), nos legaram o significado de ficção para o mito.

        Os gregos racionalistas criticavam o mito porque tinham “uma ideia cada vez mais elevada de Deus”. Pois justificavam que “um Deus verdadeiro jamais poderia ser concebido como injusto, vingativo, adultero e ciumento”. Originava-se, assim, a ideia hegemônica de Deus dos nossos dias.

        Xenófanes (576-480 a.C.) considerava a ideia de Deus como algo “sério”, portanto, subjugando o mito como algo menor para a compreensão do mundo e do homem. Dando início a uma nova forma de poder sobre-humano. “Há um deus acima de todos os deuses e homens: nem sua forma nem seu pensamento se assemelham aos dos mortais”.

        Demócrito (520-440 a.C.) radicaliza com seu cientificismo quando afirma que “por necessidade da natureza, os átomos movem-se no vácuo infinito com movimento retilíneo de cima para baixo e com desigual velocidade. Daí entrechoques atômicos e formação de imensos vórtices ou turbilhoes de que se originam os mundos”, os seres, a alma, os deuses, mas tudo, porque tudo é matéria, está sujeito a lei da morte.

Mito, um sistema que tenta explicar o mundo e o homem

 
 

        Assim, para Demócrito, os deuses vulgares e a mitologia nasceram da fantasia popular. “Deus verdadeiro e natureza imortal não existem”.

A morte do mito

        Com Píndaro (521-441 a.C.), passa a ter voz o que já se encontrava em cena como cenário. “O homem não deve atribuir aos deuses a não ser belas ações. Este é o caminho mais seguro”. Assim, Píndaro, considerado o maior dos líricos da Grécia antiga, quantas vezes truncou, podou e alterou o mito, para torna-lo compatível com suas exigências morais.

        Também Esquilo (525-456 a.C.), o pai da tragédia, fez as suas modificações no mito para dele extrair tão-somente a variante sadia. “O dever do poeta, diz Esquilo a respeito do mito de Fedra, é ocultar o vício e não propagá-lo e traze-lo a cena”.

        Outra exigência do mito era a peregrinação como uma característica típica dos heróis, “mas eleger Atenas como ponto obrigatório de convergência dos mesmos, só se pode atribuir a intenções políticas”.

 

Mito, aquilo que diz outra coisa

        Assim, após o século 5 a.C., “os mitos não eram mais compreendidos literalmente”. Os mitos deixaram de ser os fenômenos que explicavam o mundo e o homem. Desde então, os mitos passaram a ser suposições, significações ocultas, subentendidos que imploravam compreensão.

        A partir do século 1, “os nomes dos deuses representavam sobretudo fenômenos naturais”. Os mitos não diziam mais o que diziam. Os mitos diziam outra coisa. Os mitos seriam, desde então, “uma máscara aplicada pelo autor a ideia que se propunha explicar”.

        Entretanto, quem diz que algo não diz o que quer dizer, abre espaço para que se diga o que se queira do que se diz que não diz. Assim, os mitos puderam também ser usados como uma alternativa para explicar o processo de apoteose de homens ilustres.

        E foi justamente essa mais recente representação do significado dos mitos que muito contribuiu para que a mitologia pudesse ter chegado até os nossos dias. Por ter “apimentado” os mitos com uma dose de caráter “histórico” e humano.

 

Referencias

BRANDÃO, Junito de Souza. Mitologia grega: Volume I. Petrópolis: Editora Vozes, 1987.

DICIONÁRIO MICHAELIS.UOL. Mito. Acesso em 26 de agosto de 2016. Disponível em