As emoções propriamente ditas

        “Classificar é um mal necessário. A medida que os nossos conhecimentos aumentam, os rótulos e as classificações deverão melhorar e tornar-se um mal menor. A classificação básica para as emoções propriamente ditas faz uso de três categorias: emoções de fundo, emoções primarias e emoções sociais”.

        As emoções de fundo, como o nome sugere, são especialmente baixas, estão no fundo. As emoções de fundo são percebidas em manifestações sutis. Elas são percebidas nos movimentos dos membros ou do corpo inteiro, na força desses movimentos, na sua precisão, na sua frequência e amplitude. Também podem ser percebidas na melodia da voz, nos ritmos da fala, na maneira de emissão dos sons da fala, etc.  “As emoções de fundo são manifestações compostas de reações” que visam regular o funcionamento do organismo e se desenrolam e acontecem a todo instante.

        “As emoções primarias (ou básicas) são mais fáceis de definir. A lista inclui o medo, a raiva, o nojo, a surpresa, a tristeza e a felicidade”.

        “As emoções sociais incluem a simpatia, a compaixão, o embaraço, a vergonha, a culpa, o orgulho, o ciúme, a inveja, a gratidão, a admiração e o espanto, a indignação e o desprezo”.

        Muitas reações de regulagem do organismo são compostas de diversas combinações dos tipos de emoções de fundo, primarias e sociais. “Por exemplo, quando o desprezo utiliza as expressões faciais do nojo, uma emoção primaria”.

As nossas emoções promovem respostas emocionais nos outros

        “Uma emoção social está profundamente gravada no cérebro, pronta para ser utilizada quando chega o momento apropriado”. Nós já nascemos com essas emoções? Essas emoções já estão prontas para serem usadas logo após o nosso nascimento? “A resposta não é a mesma para todas as emoções. Em certos casos, as emoções são de fato inteiramente inatas. Noutros casos, requerem um grau mínimo de exposição apropriada ao ambiente”.

        “É muito provável que a existência de emoções sociais tenha tido um papel no desenvolvimento dos mecanismos culturais de regulação social”. As reações de dominância ou submissão social podem ser um exemplo desse desenvolvimento. “Por que algumas pessoas se tornam líderes e outras seguidoras, por que algumas impõem respeito e outras se acovardam, tem muitas vezes pouco a ver com os conhecimentos ou aptidões dessas pessoas, mas muitíssimo a ver com qualidades físicas que promovem certas respostas emocionais nos outros”.

A satisfação e o controle das emoções

        “A satisfação das pulsões – fome, sede e sexo – causa alegria; mas bloquear a satisfação dessas pulsões pode causar raiva, desespero e tristeza”.

        As emoções sociais não são, de forma nenhuma, exclusividade dos seres humanos. “A maior parte dos seres vivos que exibem emoções detecta a presença de certos estímulos no ambiente e responde impensadamente com emoção”.

        “Quando os seres humanos equilibram automaticamente o pH do seu meio interno, ou reagem com felicidade ou medo a certos objetos, também não estão deliberadamente escolhendo. Certos organismos podem produzir reações vantajosas que levam a bons resultados sem decidirem produzir essas reações e possivelmente mesmo sem sentirem a ocorrência dessas reações”.

        “As reações automáticas criam no organismo humano, sem dúvida, condições representadas como agradáveis ou dolorosas, e finalmente feitas conscientes. Os seres humanos conscientes da relação entre certos objetivos e certas emoções podem esforçar-se, de livre e espontânea vontade, para controlar as suas emoções, pelo menos em parte”.

 

Psicologia de Rebanhos

O rebanho é os meus pensamentos e os meus pensamentos são todos sensações (Fernando Pessoa).

        Ah! São tantas as emoções! Quando eu estou aqui, eu vivo esse momento lindo! A vida de grande parte dos organismos vivos é regida pelas emoções. Conhecer como lidar com as nossas emoções nos possibilita aprender como potencializar a nossa capacidade de regular o prazer e a dor de nossas vidas.

 

Referencias

DAMÁSIO, António. Em busca de Espinosa: prazer e dor na ciência dos sentimentos. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

Sistema de bloqueios que impede o livre fluxo de sensações

        Na terapia lidamos com emoções. A emoção tem a capacidade de mobilizar ou paralisar o organismo. Dizemos que uma pessoa se encontra “travada” emocionalmente se, em algum nível, a sua mobilidade foi afetada. Uma emoção paralisada é, então, equivalente a um sistema de bloqueios que impede o livre fluxo de sensações através do corpo. O objetivo da terapia é, assim, localizar esses bloqueios e recuperar essa fluência.

        Podemos conceituar a emoção como um “movimento para fora”, uma expressão fundamental a todas as formas de vida. Mesmo organismos unicelulares mostram uma reação de expansão e contração em resposta a estímulos.

        Um organismo cria um estado de tensão quando ocorre uma mudança em seu ambiente. Um organismo mobilizado para enfrentar uma alteração no seu ambiente, apresenta duas reações esperadas, que podem ser resumidas como “luta” ou “fuga”.

        Se o organismo consegue se livrar da ameaça, atacando-a ou fugindo dela, ele soube lidar com a situação. Porém, o organismo pode não conseguir lidar com a situação nem lutando nem fugindo. Então, ele está “encrencado”: o organismo bloqueou o sistema de livre fluxo das sensações. É assim que você se encrenca.

        Cientistas observaram que macacos, usados em experimentos, desenvolveram ulceras por serem repetidamente colocados em situações de estresse que eles, os macacos, não puderam evitar.

        Na terapia, as pessoas são ajudadas a vivenciar seus “sentimentos ocultos” (sistema de bloqueio do livre fluxo das sensações) de raiva, tristeza, alegria, nojo, ansiedade, desejo e muitos outros, e encorajadas a expressa-los.

        No nosso rosto, expressamos vários “sentimentos que julgamos ocultos” ligados a impulsos contidos de morder, sugar, chorar ou fazer caretas. Cada uma dessas expressões está ligada a um sistema de bloqueio de livre fluxo de sensações traumáticas.

        O pescoço é um dos locais preferidos de contração muscular (bloqueio de uma emoção) na estrutura do corpo. As tensões (sistema de bloqueio do livre fluxo das nossas sensações) no pescoço impedem a sensação de conexão entre a cabeça e o restante do corpo. Essa sensação pode ser uma das hipóteses que explica o fato de muitas pessoas se sentirem identificadas com a sua cabeça e não reconhecerem o seu corpo como seu corpo.

 

“A sensação de identificação de uma pessoa está diretamente ligada à sua capacidade de se conscientizar daquilo que seu corpo sente”.

 

        Em nossa garganta, “prendemos” as expressões de soluçar, berrar e gritar. Prendemos a raiva no pescoço e espalhamos as suas tensões nos músculos dos ombros, que avançam para as nossas costas. Estar com as costas rígidas e os ombros tensos pode ser resposta ao bloqueio do livre fluxo das sensações de raiva.

        Depois do pescoço, a outra área preferida para armazenar as tensões é a do tronco, onde regulamos a respiração. A respiração é indispensável a vida e a qualquer forma de expressão emocional.

        Toda pessoa que bloqueia o livre fluxo das suas sensações apresenta distúrbios respiratórios. Esses distúrbios se manifestam num peito estufado e o abdômen encolhido, ou, numa respiração na qual um mínimo de ar é levado aos pulmões.

        Outra região preferida para o bloqueio emocional é a pelve. A imobilidade da pelve acarreta, provavelmente, dificuldades sexuais. No entanto, as dificuldades sexuais não estão restritas a imobilidade da pelve. Pois, as tensões, em qualquer parte do nosso corpo, afetarão a qualidade das sensações obtidas nas nossas vivencias.

Psicologia de Rebanhos

O rebanho é os meus pensamentos

E os meus pensamentos são todos sensações.

(Fernando Pessoa)

 

        Uma emoção paralisada cria um sistema de bloqueios que impede o livre fluxo de sensações através do corpo. A contenção de uma emoção é um processo comportamental. Um comportamento para ser modificado passa pela sua compreensão.  O objetivo da terapia é, assim, localizar essas contenções e recuperar a fluência das sensações.

       

Referencias

BOADELLA, David. Correntes da vida: uma introdução a biossíntese. São Paulo: Summus, 1992.

Atores, porque agem, e espectadores, porque observam

        Vamos fazer teatro? Você pode estar se perguntando o que o teatro está fazendo aqui num blog que se propôs a falar sobre a psicologia? É que tudo que diz respeito ao humano é de interesse da psicologia. Teatro e psicologia tem tudo a ver. Todos os seres humanos são atores, porque agem, e espectadores, porque observam. Somos todos espect-atores.

        No teatro, nós temos a possibilidade de vermos a nos mesmos em ação. O teatro é a arte de nos vermos vendo. Na psicologia, nós temos a possibilidade de ver nós mesmos em ação. A psicologia é a arte de nos ver nos vendo.

        O teatro nos ajuda a conhecer a nós mesmos e ao nosso tempo. O teatro é uma forma de conhecimento e também um meio de transformação. A psicologia nos ajuda a conhecer a nós mesmos e ao nosso tempo. A psicologia é uma forma de conhecimento e também um meio de transformação.

 

Toda sensação é uma comparação.

        Você pode entender um som porque é capaz de escutar o silencio. Você atua sobre o ambiente e conhece a si mesmo. Você faz teatro e psicologia.

        A música é a mais arcaica das artes. Ela começa quando ainda estamos no útero de nossas mães. A música é uma das formas de organizar o mundo. A psicologia nos ajuda a conhecer o mundo.

        Todas as outras artes são posteriores a música e só aparecem com os outros sentidos. A dança traduz o som em imagem, em movimento, torna o som visível, palpável. A psicologia é uma das outras formas de dar sentido ao mundo.

 

Os atores trabalham os seus corpos para melhor conhece-los e torna-los mais expressivos

        Os espectadores trabalham os seus corpos para melhor conhece-los e torna-los mais expressivos.

        Para que o teatro seja transformador é indispensável permitir que os espect-atores proponham seus temas. Para que a psicologia seja transformadora é indispensável permitir que o próprio interessado proponha os seus temas.

 

O Teatro-imagem tem por objetivo ajudar a pensar com imagens

        No teatro, debatemos um problema sem o uso da palavra, usando apenas o próprio corpo e objetos (posições corporais, expressões fisionômicas, distâncias e proximidades, etc.).

        Tal qual na psicologia, podemos vivenciar as imagens que se apresentam de um problema, sem o uso da palavra, usando apenas o próprio corpo (posições corporais, expressões fisionômicas, distâncias e proximidades, etc.).

        Quando um ator interpreta um ato, ele o faz no lugar do espectador. Quando um espect-ator executa a mesma ação, ele o faz em nome de todas as possibilidades de que é capaz de atuar na sua vida.

 

A emoção prioritária

        No teatro, valorizamos a emoção para que ela possa determinar, livremente, a forma final. É a prioridade do ator de teatro. Valorizamos a emoção, na psicologia, como ponto de partida inicial para que o espect-ator compreenda como ele atua na vida.

        Para que as emoções se expressem livremente através do corpo do ator, ele faz exercícios corporais para desmecanizar os movimentos do seu corpo, muscularmente automatizado e insensível.

        Na psicologia, para que o espect-ator acesse livremente as suas emoções, ele faz exercícios corporais para flexibilizar os movimentos do seu corpo, muscularmente automatizado e rígido.

 

O corpo fica mecanizado pela incessante repetição de gestos e expressões.

        “Cada atividade humana como, andar a pé, é uma operação extremamente complicada, que só é possível porque os sentidos são capazes de selecionar e estruturar.

        Esse processo de estruturação e seleção produzido pelos sentidos leva a mecanização, porque os sentidos selecionam sempre os mesmos estímulos da mesma maneira.

        Para desenvolver sempre os mesmos movimentos, cada pessoa mecaniza o seu corpo para melhor executa-los, privando-se então de possíveis alternativas para cada situação original”.

        O ator faz exercícios para sentir certas emoções e sensações, das quais já se desabituou, para amplificar a sua capacidade de sentir e se expressar.

        Na terapia, o espect-ator experiencia emoções e sensações, compreende como os seus sentidos mecanizaram as suas emoções e sensações, e, assim, se capacita para reorganiza-las como der ou puder ou quiser.

 

Psicologia de Rebanhos

O rebanho é os meus pensamentos

E os meus pensamentos são todos sensações.

(Fernando Pessoa)

 

        A Psicologia pode lhe ajudar compreender e lidar com as suas emoções.

Referencias

BOAL, Augusto. Jogos para atores e não atores. Rio de janeiro. Civilização brasileira, 2012.

 

Esta é a alvorada do seu tempo, a “Era do Homem Comum”

 

Você é um “zé-ninguém”, um “homem comum”.

 

Eles o chamam de zé-ninguém ou Homem Comum. Dizem que esta é a alvorada do seu tempo, a “Era do Homem Comum”.

 

Como um homem se torna senhor de si mesmo?

 

Olhe para si mesmo.

 

        Um grande homem sabe quando e de que forma ele é um zé-ninguém. Um zé-ninguém não sabe que é pequeno e tem medo de saber. Esconde sua insignificância e estreiteza por trás de ilusões de força e grandeza, da força e da grandeza de alguma outra pessoa.

Sente orgulho dos seus grandes generais, mas não de si mesmo. Admira uma ideia que não teve, não uma ideia que teve. Quanto menos entender alguma coisa, mais firme é sua crença nela. E, quanto melhor entende uma ideia, menos acreditara nela.

 

SEU FEITOR É VOCE MESMO.

 

Eu digo: Só você mesmo pode ser seu libertador!

        Tenho medo de você quando o zé-ninguém em mim sonha “conduzi-lo a liberdade”.

        Para libera-lo, ele precisa permitir que você o idolatre como um deus inacessível. Você não teria confiança nele se ele continuasse a ser o homem simples que foi. Portanto, é você quem cria seu novo senhor. Elevado a posição de novo senhor, o grande homem perde sua grandeza.

 

Você confere mais poder aos poderosos, ou escolhe homens fracos e maus para representa-lo. E descobre tarde demais que você é sempre enganado.

 

Você pode escolher entre Nietzsche ou Hitler. E escolheu o subumano. Pode escolher entre Lênin e Stálin. Escolheu a ditadura. Pode escolher entre Jesus e Paulo. Você preferiu o celibato e a obrigatoriedade do casamento.

        Pode escolher entre Marx e o Estado. Você esqueceu a energia viva do seu trabalho. Na Revolução Francesa, você pode escolher entre Robespierre e Danton. Escolheu a crueldade. Pode escolher entre a inquisição e Galileu. Você torturou e humilhou.

 

Você tem sua vida nas mãos, não a confie a mais ninguém, menos ainda aos seus líderes eleitos. Prometem-lhe não a liberdade individual, mas a nacional. Nada dizem sobre auto respeito, mas dizem-lhe que respeite o Estado.

        Eles não amam você, zé-ninguém, eles o desprezam porque você despreza a si mesmo. E foi você quem lhes deu o poder que exercem sobre você. Você mesmo levou ao topo seus senhores e continua a lhes dar apoio, embora eles tenham arrancado todas as máscaras, ou talvez exatamente por isso.

 Tenho medo de você, zé-ninguém.

        Tenho medo de você porque seu principal objetivo na vida é fugir – de si mesmo. Você já se teria livrado dos seus opressores há muito tempo se não tivesse aprovado a opressão, e lhe dado tantas vezes apoio direto. Você e somente você é responsável pela sua vida.

 

Tenho medo de você, zé-ninguém, muito medo. No passado, seus opressores provinham das classes mais altas da sociedade, mas hoje eles provem da sua própria camada. São ainda mais zé-ninguém do que você, zé-ninguém. Precisam ser mesmo muito pequenos para conhecer sua desgraça a partir da própria experiência e, com base nesse conhecimento, oprimi-lo com mais eficácia e mais crueldade do que nunca.

        Zé-ninguém, você está sempre do lado dos perseguidores.

Você me pergunta como sei tudo isso. Vou lhe dizer.

        Eu o conheci em mim mesmo.

 

Confundir a insolência com a liberdade sempre foi a marca registrada do escravo. Invocando sua liberdade, você se recusa a evitar relatórios do seu trabalho. E agora você se sente livre… livre da cooperação e da responsabilidade.

 

        Este terrível século XX fez todas as teorias culturais desde Platão parecerem ridículas. Zé-ninguém, nunca houve uma cultura humana. Mal estamos começando a compreender o apavorante desvio e a degeneração patológica do animal humano.

 

E não dou festas para divulgar minhas ideias. Se minhas ideias forem validas, elas próprias se divulgarão. (*)

 

(*) Esse texto é uma versão abreviada de um documento escrito por Wilhelm Reich, entre 1943 e 1946, para os Arquivos do Orgone Institute, como resposta as intrigas e a calunia que um órgão do governo dos Estados Unidos da América, encarregado da preservação da saúde pública, aliado a políticos e psicanalistas desencadearam contra a sua pesquisa sobre o orgone.

 

 

Psicologia de Rebanhos

O rebanho é os meus pensamentos

E os meus pensamentos são todos sensações.

(Fernando Pessoa)

 

A Psicologia de Rebanhos traz esse texto/desabafo para enfatizar que é de fundamental importância a assunção da nossa responsabilidade pelos atos, atitudes e comportamentos que praticamos. O poder é um evento que não existe por si só, ele precisa de pelo menos duas pessoas para acontecer.

        Não existe natureza humana.  Quando se diz que alguém tem poder, significa que um outro alguém (ou alguéns) deu (ou deram) esse poder para aquele alguém. A psicologia de Rebanhos se propõe a ajuda-lo a reencontrar o seu próprio poder, a sua potência.

 

Referências

 

REICH, Wilhelm. Escute, Zé-ninguém! São Paulo: Martins Fontes, 2007.

 

As emoções são ações ou movimentos

“A parte pública do processo chamo emoção e a parte privada sentimento”.

 

        “As emoções são ações ou movimentos, muitos deles públicos, que ocorrem no rosto, na voz ou em comportamentos específicos. Alguns comportamentos da emoção não são perceptíveis a olho nu. Mas podem se tornar “visíveis” com sondas cientificas modernas, tais como a determinação de níveis hormonais sanguíneos ou de padrões de ondas eletrofisiológicas.

        Os sentimentos, pelo contrário, são necessariamente invisíveis para o público, como é o caso com todas as outras imagens mentais, escondidas de quem quer que seja exceto do seu devido proprietário,. A propriedade mais privada do organismo em cujo cérebro ocorrem”.

        “As emoções ocorrem no teatro do corpo. Os sentimentos ocorrem no teatro da mente”.

 

As emoções precedem os sentimentos

        Todos os processos, que trazemos desde o nascimento para manter a nossa vida, não existem somente para produzir um estado neutro, equilibrado, a meio caminho entre a vida e a morte. Pelo contrário, a finalidade do esforço homeostático (processo de regulação do equilíbrio fisiológico) é produzir um estado de vida mais satisfatório do que neutro.

        Nós nos utilizamos de diversos processos para a sobrevivência, tais como a regulação metabólica, reflexos, respostas imunológicas, comportamentos de dor e prazer, pulsões e motivações, emoções e sentimentos.

 

        “Os sentimentos são a expressão mental de todos os outros níveis da regulação homeostática”.

 

As emoções dos organismos simples    

        Há provas abundantes de que os organismos simples exibem reações emocionais. Basta pensar no solitário paramécio, um organismo unicelular, todo feito de corpo, nada de cérebro e menos ainda de mente.

        Esse organismo simples está preparado para detectar certos sinais de perigo – variações rápidas de temperatura, vibrações excessivas ou contato com um objeto capaz de romper a sua membrana – e reagir de forma a encontrar rapidamente um local mais calmo, seguro e temperado.

 

As emoções são ações ou movimentos

        E da mesma forma, o paramécio, depois de detectar a presença do tipo de molécula de que necessita para sobreviver, nadara para o local onde houver mais rico pasto.

        Nessa criatura sem cérebro contem já a essência do processo de emoção presente nos seres humanos. A detecção de objetos ou situações que recomendam circunspecção ou evasão, ou, por outro lado, bom acolhimento e aproximação.

        A capacidade de reagir dessa forma não foi ensinada. Não há pedagogia alguma na escola dos paramécios.

        Tudo isso nos mostra como a natureza sempre se preocupou em proporcionar aos organismos vivos os meios para regularem e manterem a vida, automaticamente. Sem que seja necessária qualquer espécie de consciência, raciocínio ou decisão”.

 

Psicologia de Rebanhos

O rebanho é os meus pensamentos e os meus pensamentos são todos sensações (Fernando Pessoa).

        A psicoterapia que prioriza o trabalho com as emoções, primeiro, explora a forma como vivenciamos os nossos movimentos. Posteriormente, compreendemos a maneira como funcionamos no mundo. Essa compreensão potencializa ainda mais as nossas sensações. Assim, nos capacitamos para uma nova maneira de direcionar os nossos comportamentos, atitudes e ações. As emoções são o princípio, o meio e o fim do “como” vivemos a nossa vida.

 

Referências

 

 DAMÁSIO, António. Em busca de Espinosa: prazer e dor na ciência dos sentimentos. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

Por meio da expressão das emoções

Soltar e desbloquear

         Houve uma geração que foi educada para “engolir” o choro. Reprima-se, era a palavra da ordem. A partir da geração “Menudo”, não se reprima era cantado, dançado e gritado em coro. Em ambas as gerações e nas intermediarias, tentava-se adquirir um controle de si por meio da expressão das emoções. Na imensa maioria das vezes, porém, isso acontecia e ainda acontece às custas do caos muscular.

 

Relaxamento e alongamento

         Tanto a repressão quanto a não-repressão usadas em excesso, levam a falta de limites. Uma sugere “engolirmos” nos mesmos enquanto a outra nos incentiva ao “derrame” das emoções. Paralisia ou relaxamento das emoções – expressões de uma mesma desordem. O conceito de organização motora pede distribuição de tônus, e não relaxamento.

         Nem repressão nem não-repressão em excesso. Nem autocontrole nem “deixa a vida me levar”. A autonomia tem um custo. O preço da liberdade é a eterna vigilância. Tanto a autonomia quanto a liberdade precisam de uma preparação, de uma “ação consciente”. A reorganização motora não acontece sem darmos alguma informação aos músculos.

         Tanto a repressão quanto a não-repressão bloqueiam regiões do corpo, encurtando ou estendendo a musculatura. Os músculos precisam de comprimento adequado e tensão apropriada para redimensionar esses bloqueios na globalidade do corpo.

 

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Consciência do aparelho locomotor

         Como se consegue a consciência da ação? Fazendo exercícios. Quando você conhece como faz determinado gesto, você pode fazê-lo de outra maneira. É através do exercício que nós conseguimos nos conscientizar de cada etapa do desenvolvimento de um movimento.

 

Gesto e consciência

         Os gestos e movimentos de que hoje utilizamos são o resultado de decisões conscientes ou não tomadas ao longo da existência. Os seus gestos e movimentos são construções tanto da experiência coletiva quanto das diversas etapas de sua experiência individual. As transformações ocorridas no processo de formação de sua identidade estão expressas nos seus gestos e movimentos atuais.

         Podemos dizer que o gesto é uma expressão de nossos estados mentais, conscientes ou inconscientes. O gesto promove modificações em nossas articulações e em nossas estruturas musculares. A nossa sensibilidade se modela com a sua expressão.

 

Referencias

BERTAZZO, Ivaldo. Cidadão corpo: identidade e autonomia do movimento. São Paulo: Summus, 1998.

As criaturas não humanas também têm emoções

        Você acredita que criaturas não humanas tenham emoção? Como o seu cachorrinho que você diz sentir saudades da sua presença ou ficar feliz com a sua alegria! É mesmo, as criaturas não humanas também têm emoções. Mas cuidado quando qualificar as emoções do seu bichinho como se fossem as suas.

        Quem diz que seu bichinho sente saudades suas e fica alegre por vê-lo, é você. É que dentre os bichinhos com os quais convivemos, somente nos humanos vinculamos ideias, valores, princípios e juízos as emoções. Os cachorrinhos, não!

        O estado que você chama de saudade e alegria do seu cachorrinho não implica, necessariamente, que o seu bichinho tenha ou possa ter consciência da emoção e do sentimento que estão acontecendo.

        É que um estado de emoção pode ser desencadeado e executado sem ser percebido pelo organismo. Um estado de sentimento também pode ser representado ou imaginado sem ser percebido pelo organismo. E um estado de sentimento pode ser percebido, isto é, é conhecido pelo organismo que está tendo emoção e sentimento.

        Em suma, você precisa estar consciente ou a sua consciência precisa estar presente para que os seus sentimentos tenham influência sobre você.

        “Minha suposição é que, assim como a emoção, a consciência relaciona-se a sobrevivência do indivíduo e que, tal como emoção, a consciência está alicerçada na representação do corpo” (Damásio, 1999).

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As emoções são parte integrante da regulação do equilíbrio de um organismo e essenciais para a biologia da consciência.

 

O cérebro conhece mais do que a mente consciente revela.

        Você faz distinção entre emoção e sentimento? Provavelmente, não, pois, na pratica, ou dói ou satisfaz, mais que isso, é puro requinte.

        Porém, Damásio, usa o procedimento cientifico de separar e classificar para tentar compreender a emoção. Como todo soberano divide para governar! Disseca o fenômeno da emoção em partes e propõe que:

        “O termo sentimento fosse reservado para a experiência mental privada de uma emoção, enquanto o termo emoção seria usado para designar o conjunto de reações, muitas delas publicamente observáveis”.

        Na pratica, isso significa que não é possível observar um sentimento em outra pessoa, isto, é, não é possível você dizer o que uma pessoa sente. Embora você afirme enfaticamente que sabe o que alguém está sentindo! O seu namorado (a), por exemplo, você sempre sabe o que ele (a) está sentindo!

        No entanto, é possível você observar um sentimento em si mesmo. Pois, como uma criatura que pode ter consciência daquilo que lhe acontece ou faz, você pode perceber os seus próprios estados emocionais. Apesar de os mecanismos básicos subjacentes à emoção não requererem a consciência para acontecer.

        Alguns aspectos das emoções que originam os sentimentos podem ser observáveis por outras pessoas. Portanto, caro amigo e parceiro, aceite, pois dói menos ou nem dói. Pois nem você nem ninguém pode observar os sentimentos que um outro organismo vivencia, nem mesmo o seu esperto cachorrinho.

 

Referencias

DAMÁSIO, António. O mistério da consciência: do corpo e das emoções ao conhecimento de si. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.

Alguma maneira sua de se mover ou de se comportar

         Você já pensou que pode existir uma associação entre o seu jeito de ser ou de estar com alguma maneira sua de se mover ou de se comportar? Você consegue imaginar os seus comportamentos associados a uma disposição particular das suas articulações e das suas flexibilidades musculares?

         Você gostaria de vivenciar toda a variedade de movimentos de que sendo humano você é capaz? Você está cansado de ficar repetindo um repertorio limitado de formas corporais? Você não suporta mais tanto sofrimento concreto do corpo e de tanta restrição de movimentos?

Então, preste atenção

1º) na sua postura, nos seus gestos e nas formas do seu corpo;

         A sua forma de ser e de estar constitui uma intenção da sua maneira de se expressar no mundo.

2º) no seu corpo, fazendo exercícios de conscientização;

         Fazer um trabalho de conscientização da sua estrutura articular lhe ajudara a viver como um organismo solidamente estruturado. Essa consciência lhe ajudara a modificar as imagens prejudiciais que você tem do seu próprio corpo e do seu funcionamento.

3º) no seu cuidado de si, na sua modelagem, no seu ajustamento articular e regularização das suas tensões musculares.

         O funcionamento harmonioso do seu corpo é uma questão de construção, estruturação lenta, não ocorre ao deus dará.

         “Desfazer é um passo, mas é preciso consolidar para obter resultados”.


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Proponha-se a possiblidade de cuidar de si mesmo

         Pelas vias do corpo, cada um pode aprender a gerir, aprender a desenvolver uma estratégia de cuidados de si.

. Em primeiro lugar:

         O seu corpo é um lugar unificado e solidário da cabeça as mãos e aos pés. Uma dor, por exemplo, pode estar localizada, mas ela não existe isolada do corpo. A dor é uma função solidaria dos seus hormônios e anticorpos, órgãos e vísceras, músculos e ossos.

. Em segundo lugar:

         Essa solidariedade não se limita ao sistema locomotor ou muscular, mas abrange a unidade da estrutura humana e aquilo que a anima. Essa unidade forma conjuntos neuromusculares que se fazem e se desfazem conforme a sua expressão corporal ou postural ou gestual.

. Em terceiro lugar:

         Alguns processos de que você tem se utilizado para viver podem, de certa maneira, estar aprisionando a sua expressão. Esse aprisionamento aponta para expressões corporais que se fixaram.

        Aponta para as suas contradições, tensões decorrentes das suas escolhas de um comportamento. Esse aprisionamento é o mensageiro que revela os seus traumatismos, os seus excessos, as suas disfunções, os seus desconfortos, lentamente gravados em seus tecidos por longo tempo.

         Compreender os processos como formamos nosso corpo, nos aponta para uma gestão mais eficiente dos nossos modos de funcionamento, para um modo de usar nossas articulações com alguma gerencia sobre elas.

. Em quarto lugar:

         As suas expressões são as formas de comunicação e de trocas no interior do seu próprio corpo e no corpo do mundo exterior.

         Atualmente, nós ampliamos, facilitamos e até mesmo favorecemos as trocas por meio de maquinas e instrumentos. Os nossos corpos são delineados, preenchidos e esculpidos por próteses, escarificações, piercings, tatuagens e outras modificações corporais. Os nossos corpos não mais se comunicam com o corpo, de pessoa para pessoa.

 

Psicologia de Rebanhos

O rebanho é os meus pensamentos

E os meus pensamentos são todos sensações.

(Fernando Pessoa)

 

        Como a Psicologia pode ajudar, para você ter uma gestão satisfatória sobre o seu corpo? A Psicologia busca compreender como nos comportamos. O que nos acontece para que escolhamos nos comportar dessa e não daquela outra maneira? Compreender como nos comportamos é o primeiro passo para uma gestão consciente das nossas praticas. E qual é o papel da psicoterapia nesse processo? A psicoterapia é a técnica utilizada pelo psicólogo para facilitar a sua compreensão dos processos que ocorrem em você.

 

Referencias

DENYS-STRUYF, Godelieve. Cadeias musculares e articulares: o método G.D.S. São Paulo: Summus, 1995.

Vivemos numa época de insegurança externa e interna

        “Vivemos numa época de tamanha insegurança externa e interna, e de tamanha carência de objetivos firmes, que a simples confissão de nossas convicções pode ser importante, mesmo que essas convicções, como todo julgamento de valor, não possam ser provadas por deduções logicas.

        Surge imediatamente a pergunta: podemos considerar a busca da verdade […] como um objetivo autônomo de nosso trabalho? Ou nossa busca da verdade deve ser subordinada a algum outro objetivo, de caráter pratico por exemplo?

        Essa questão não pode ser resolvida em bases logicas.

        A decisão, contudo, terá considerável influência sobre nosso pensamento e nosso julgamento moral, desde que se origine numa convicção profunda e inabalável.

        Permitam-me fazer uma confissão: para mim, o esforço no sentido de obter maior percepção e compreensão é um dos objetivos independentes sem os quais nenhum ser pensante é capaz de adotar uma atitude consciente e positiva ante a vida.

        […] Além do conhecimento proveniente da experiência acumulada, e além das regras do pensamento logico, não existe, em princípio, nenhuma autoridade cujas decisões e declarações possam ser consideradas “Verdade” pelo cientista.

        Isso leva a uma situação paradoxal: uma pessoa que devota todo seu esforço a objetivos materiais se tornara, do ponto de vista social, alguém extremamente individualista, que, em princípio, só tem fé em seu próprio julgamento, e em nada mais.

        É possível afirmar que o individualismo intelectual e a sede de conhecimento cientifico apareceram simultaneamente na história e permaneceram inseparáveis desde então […].

        Qual é, pois, a posição do cientista de hoje como membro da sociedade?

        Evidentemente, ele tem orgulho de que o trabalho dos cientistas tenha contribuído para mudar radicalmente a vida econômica dos homens, pela eliminação quase completa do trabalho muscular.

Vivemos uma epoca de inseguranca interna e externa

        Ele sofre pelo fato de que os resultados do trabalho cientifico se tenham transformado numa ameaça a humanidade, por terem caído em mãos dos expoentes moralmente cegos do poder político.

        Ele tem consciência de que os métodos tecnológicos, que seu trabalho tornou possíveis, acarretam uma concentração de poder econômico e também político nas mãos de pequenas minorias que passaram a dominar completamente a vida de grandes massas humanas, cada vez mais amorfas.

        E o que é pior: a concentração do poder econômico e politico nas mãos de poucos não só tornou os cientistas economicamente dependentes, como também ameaça sua independência interior.

        O emprego de métodos de influência intelectual e psíquica evita o desenvolvimento de personalidades independentes.

        Assim, o cientista, como podemos ver com nossos próprios olhos, padece de um destino realmente trágico […] forjou os instrumentos que estão sendo usados para escraviza-lo e destrui-lo até interiormente […]. Tem plena consciência do fato de que a destruição universal é inevitável, pois o desenvolvimento histórico levou a concentração de todo o poder econômico, político e militar em mãos do Estado […].

        Não haverá nenhuma escapatória para o cientista?

        […]. Terão passado para sempre os tempos em que, guiado por sua liberdade interior e pela independência de seu pensamento e de seu trabalho, o cientista tinha a possiblidade de iluminar e enriquecer as vidas de seus semelhantes?

        Ao colocar demasiadamente seu trabalho em bases intelectuais, não terá esquecido sua responsabilidade e sua dignidade?

        Minha resposta é esta: pode-se destruir uma pessoa intrinsecamente livre e escrupulosa, mas esta pessoa jamais pode ser escravizada ou usada como um instrumento cego” (Einstein, 1950). *

* Esse texto é uma versão abreviada de uma mensagem que Albert Einstein dirigiu em 1950 ao 43º Congresso da Sociedade Italiana para o Progresso da Ciência.

Referências

EINSTEIN, Albert. O pensamento vivo de Einstein. São Paulo: Martin Claret Editores, 1986.

Como se forma um paradigma?

        Bem, como não podia deixar de ser, o termo paradigma tem origem no grego e significa modelo ou padrão. Como se forma um paradigma? Então, paradigma corresponde a algo que vai servir de modelo ou exemplo a ser seguido em determinada situação.

        Lá pelos anos 1900 e bolinhas, o conceito de paradigma era específico da gramática. Saussure (1857-1913), utiliza o termo paradigma para se referir a uma relação estrutural entre elementos da linguagem que assim forma o significado das coisas… cri, cri, cri…

        Thomas Kuhn (1922-1996) designou que as práticas realizadas nas pesquisas cientificas geram um paradigma. Esse paradigma leva em conta aquilo que tem que ser observado, como deve ser observado e como valorizar o resultado de uma pesquisa específica. Portanto, originalmente, o paradigma é uma escolha de procedimentos.

Como se forma um paradigma

        Você entende então que paradigma é um modelo que você escolhe para ser seguido? Você é capaz de entender como um paradigma pode afetar a sua vida? Você compreende a visão que você tem sobre ela, a sua vida?

 

        Qual é o entendimento que você tem a respeito do seu comportamento e da sociedade em que você vive?

 

Psicologia de Rebanhos

O rebanho é os meus pensamentos

E os meus pensamentos são todos sensações.

(Fernando Pessoa)

        Iniciamos os nossos hábitos com a nossa primeira respiração. Do mesmo jeito que a respiração, os hábitos são comportamentos que fazemos sem mesmo nos dar conta que praticamos.

Vídeo – Como se forma um paradigma? – Duração 3:22.

Referencias

Wikipédia. Paradigma. Acesso em 04 de junho de 2016. Disponível em