Duvidar do que se tem certeza

        Platão (428-348 a.C.) viveu, na Grécia antiga, num período em que muitas tradições e dogmas eram cultuados. ”Onde existem mil crenças, tendemos a nos tornar céticos em relação a todas elas”. Assim, inspirado por Sócrates (469-399 a.C.) a duvidar do que se tem certeza, Platão pôs-se a duvidar de quase tudo, exceto do que ele acreditava que era a verdade.

        Antes de Sócrates, os pensadores se perguntavam sobre a constituição das coisas, sobre qual seria o princípio das coisas. Esses pensadores atingiram o seu apogeu quando Demócrito (460-360 a.C.) cogita que “na realidade, nada existe a não ser átomos e espaço”.

        Ensina Sócrates que o verdadeiro conhecimento consiste em duvidar do que se conhece. Dizia ele: só sei uma coisa, e é que nada sei. Sócrates nos ensina a duvidar das nossas próprias crenças, principalmente das crenças preferidas. Possivelmente, as nossas crenças preferidas se tornaram certezas para nós, a partir de algum desejo secreto revestido com o traje do pensamento. Para Sócrates, não há conhecimento verdadeiro enquanto a mente não se voltar a examinar a si mesma. Conhece-te a ti mesmo.

        Sócrates não deixou por escrito nenhuma das suas crenças. Platão, discipulo de Sócrates, foi quem partilhou conosco, por escrito, as suas crenças preferidas de Sócrates. Desconhecemos os critérios de escolha dessas crenças por Platão. Desconhecemos também se essas crenças eram mesmo do Sócrates ou eram crenças do próprio Platão.

 

Pensamentos de Platão sobre a politica

        “E quanto ao Estado, o que poderia ser mais ridículo do que a sua democracia chefiada pela populaça, dominada pela paixão.

        Não é do conhecimento de todos que os homens em multidões são mais tolos, mais violentos e mais cruéis do que separados e sozinhos? Como pode uma sociedade ser salva, ou ser forte, se não tiver a frente seus homens mais sábios?

        A democracia precisava ser destruída, para ser substituída pelo governo dos mais sábios e melhores. A preocupação de sua vida passou a ser a procura de um método pelo qual os mais sábios e melhores pudessem ser descobertos e, depois, habilitados e persuadidos a governar”. Qual seria o critério para se descobrir os homens mais sábios e melhores?

 

Platão e a ética

        Platão segue o pensamento grego da sua época, fundamentado no mito dos heróis e deuses do Olimpo, onde o direito é adquirido pela força. A justiça é constituída pelo interesse do mais forte.        A moralidade é uma invenção dos fracos para neutralizar a força dos fortes.

        A justiça, portanto, é uma relação entre indivíduos que depende da organização social onde esses indivíduos se inserem.

        “Justiça é ter e fazer o que nos compete”.

        A justiça deve ser eficiente. A justiça se baseia no funcionamento harmonioso dos elementos em um homem.

        A verdade muda de roupa com frequência (como toda mulher atraente), mas sob o novo habito continua sempre a mesma.

        Os homens não se contentam com uma vida simples. Os homens são gananciosos, ambiciosos, competitivos e invejosos. Os homens logo se cansam do que possuem e anseiam por aquilo que não tem. Os homens, raramente, desejam qualquer coisa, a menos que ela pertença a terceiros.

 

Platão e a psicologia

        Platão acredita que uma nação somente pode ser forte, caso acredite num Deus todo-poderoso. Um deus que, pelo pavor e pelo terror, incita e obriga o indivíduo a moderar a sua ganancia e a sua paixão. A essa crença num deus, também deve-se acrescentar a crença na imortalidade das almas humanas. A esperança de uma outra vida da coragem para o indivíduo suportar as opressões a que se sujeita nessa vida de carne e osso, além de ajudar a enfrentar a morte dos seus entes queridos. E alimentar o poder dos que valorizam mais essa vida do que uma suposta vida pós-morte.

 

Psicologia de Rebanhos

O rebanho é os meus pensamentos

E os meus pensamentos são todos sensações.

(Fernando Pessoa)

        Com Platão, elege-se, na civilização ocidental, o mundo das ideias como a verdadeira vida. Apesar de Sócrates ter tentado ensinar que deveríamos duvidar das nossas crenças, Platão adere firmemente a crença de que o verdadeiro mundo é o mundo das ideias. O mundo das sensações seria enganoso, inseguro, não confiável. Para Platão, deveríamos duvidar do mundo sensível pois as certezas sobre o mundo estavam nas ideias. Essa crença de que os pensamentos são a verdadeira vida se sustenta atualmente pela ideia de um valor superior dos pensamentos sobre as sensações.

 

Referencias

DURANT, Will. A história da filosofia. São Paulo: Editora Nova Cultural, 1996.

 

Tensão dos músculos no momento de sua observação

        “O tônus é o estado de contração dos músculos”. O nosso “tônus neuromuscular poderia então ser definido como o estado de contração-tensão dos músculos no momento de sua observação”. O alongamento muscular provoca respostas prolongadas no nosso cérebro. A resposta do musculo as solicitações é adaptável as exigências do momento.

        O nosso aparelho locomotor é função de múltiplas articulações. O centro de gravidade do corpo está situado um pouco acima da metade da nossa altura, “mais ou menos no nível da terceira vertebra lombar”. Somos mais compridos do que largos. A nossa área de sustentação é bem menor que nossa área corporal total. “O risco de desequilíbrio é permanente”.

        Estamos constantemente em desequilíbrio. A instabilidade é o nosso equilíbrio. Um equilibro que controlamos. “O controle da postura e do equilíbrio é considerado como uma atividade complexa baseada nas interações de processos dinâmicos, sensoriais e motores. O objetivo principal do controle postural é o alinhamento ativo da cabeça e do tronco em relação a linha de gravidade”.

        Sofremos, intermitentemente, a ação da gravidade. Ficar em equilíbrio, mesmo sentado, exige um trabalho constante de nossa musculatura.

        Ainda bem que não vivemos somente por conta da nossa consciência. Se tivéssemos que viver conscientes de todos os nossos desequilíbrios, não passaríamos de um pendulo de relógio. “Os desequilíbrios podem chegar a consciência, mas os principais responsáveis pela gestão das informações relativas a postura e das respostas” ao nosso estado de equilíbrio “são subcorticais”.

        “A medula espinhal é o primeiro nível de controle do equilíbrio”. Após aprendermos a nos comportar contra a força gravitacional, passamos a opor-nos por reflexo (sem pensar) aos deslocamentos e restabelecemos “a estabilidade postural em face do menor desequilíbrio”.

A respiração

        “A inspiração marca a passagem a vida extrauterina. O motor fundamental disso é o diafragma, responsável pela respiração de pequena amplitude”. “A expiração, por sua vez, pode ser obtida pelo simples relaxamento dos (músculos) inspiratórios”. Os músculos inspiratórios “agem no sentido da gravidade. Sua função essencial é dinâmica”. Os músculos “inspiratórios são numerosos e de vocação preferencialmente estática”. Os músculos “expiratórios são pouco numerosos e dinâmicos”.

O desenvolvimento motor

        Grande parte da atividade do nosso sistema nervoso dedica-se ao controle da nossa postura. “O movimento se organiza em função das tarefas a cumprir. A coordenação é inseparável dos objetivos a atingir”.

        Os movimentos de um recém-nascido “vêm de reflexos primitivos sem implicação cortical”. Os reflexos primitivos são “progressivamente inibidos e controlados pelo sistema subcortical, para chegar a um controle gestual voluntario”. Esses reflexos primitivos “dão lugar aos reflexos posturais, controlados em grande parte pelo tronco cerebral”. Os reflexos posturais “são basicamente de controle do equilíbrio”.

        “O apoio do pé no solo marca uma etapa fundamental no plano sensitivo-reflexo e motor”. O recém-nascido recorre a uma função estática para passar da sua posição deitada para a posição estável de pé quando criança. Essa função estática está instalada “nos músculos do pescoço, da coluna vertebral, dos membros inferiores e dos adutores-rotadores internos da raiz dos membros”.

As cadeias de coordenação neuromuscular

        Quando adquirimos a postura bípede “definitiva, estável e econômica, joelhos em extensão e fixação da lordose lombar”, recorremos aos “músculos da estática numerosos e potentes” das nossas costas, responsáveis diretos pela nossa “luta contra a gravidade”.

        Essa postura bípede exige constante e intensa tonicidade dos músculos. O movimento da postura bípede inicia-se “no nível do masseter, dos músculos do pescoço e da nuca, para estender-se ao tronco, aos membros superiores e aos membros inferiores”. Essa atividade constante e intensa é responsável pela rigidez muscular que formamos ao longo da vida.

        “A atividade neuromuscular está na base de uma coordenação motora controlando duas funções, estática e dinâmica, decerto absolutamente complementares, mas de imperativos distintos”.

 

Psicologia de Rebanhos

O rebanho é os meus pensamentos

E os meus pensamentos são todos sensações.

(Fernando Pessoa)

 

        A nossa postura tem tudo a ver com a maneira como lidamos com o nosso equilíbrio-desequilíbrio. Sofremos, ininterruptamente, a ação da força da gravidade. Somos constantemente testados quanto a nossa forma de estar no mundo. Embora não tenhamos consciência das nossas posturas, as solicitações e respostas as atividades musculares chegam ao nosso cérebro e nele são organizadas.

Referencias

SOUCHARD, Philippe E. RPG, reeducação postural global: o método. Rio de Janeiro: Elsevier, 2011.

 

Crescem o erro, a ignorância e a cegueira

        São muitos os que dizem, atualmente, que nunca conhecemos tanto o funcionamento das coisas. Entretanto, lado a lado com esse progresso das ideias e das tecnologias, crescem o erro, a ignorância e a cegueira.

        A causa do crescimento do erro está no modo ideológico de organização das ideias: doutrinário e dogmático. Jamais tivemos tantos sistemas teóricos sobre o funcionamento disso ou daquilo.

        A causa da ignorância é o próprio jeito de conhecer. A nossa ciência é simplista e burocrática e especializada e tecnocrata.

        A causa do crescimento da cegueira está no uso esquemático da razão. A razão é o novo soberano de fato. Essa razão endeusada e infalível e sensata e coerente que a todos encanta e mata com a produção descontrolada de armas de destruição.

        A incapacidade de reconhecer e de aprender a complexidade do real é a característica resultante de um modo de pensar separatista da organização do conhecimento.

 

A organização do conhecimento

        “Qualquer conhecimento opera por seleção de dados significativos e rejeição de dados não significativos”. Todo conhecimento separa e associa, hierarquiza e centraliza em função de uma ideia comum. Você dirá que não encontramos outra maneira de conhecer. Você dirá que essas operações de separação e associação e seleção são oriundas da lógica, portanto, sustentam racionalmente a obtenção do conhecimento.

        Porém, essas operações utilizadas pela lógica, já foram organizadas por um princípio de organização do pensamento. Ou seja, essas operações já passaram pelo crivo de um conhecimento anterior. Essas operações logicas foram anteriormente separadas e associadas e selecionadas por princípios que orientaram a nossa consciência para um conhecimento especifico. Esses princípios, por sua vez, foram separados e associados e selecionados por um conhecimento anterior. E, assim, organizamos pensamento sobre pensamento, até um infinito. E excluímos outros infinitos.

 

A patologia do saber

        Vivemos na época da hegemonia das ideias, da simplificação e da separação. Platão sustenta que o mundo sensível é um mundo irreal, que o verdadeiro mundo é o mundo dos pensamentos. Descartes separou o sujeito pensante da coisa pensada. Tanto o pensamento de Platão como o de Descartes são produtos do pensamento separatista, simplificado e reducionista.

        Esse pensamento separatista e reducionista não consegue conceber o singular e o múltiplo como um conjunto. Essa razão idolatrada racionaliza o real. Para o pensamento racional, o real é apenas um detalhe. Para o pensamento racional, as ideias são a verdadeira realidade.

        A ciência isola um fenômeno do seu ambiente e faz conclusões de laboratório sobre o fenômeno, com validade para o funcionamento do fenômeno no seu ambiente real. A ciência brada a imparcialidade do seu método, entretanto, não admite a impossibilidade de separação entre o observador e a coisa observada. Até mesmo as disciplinas que buscam conhecer o homem já concluíram que não precisam do homem para conhece-lo. Constatam assim a inexistência do homem. Transformam a existência humana numa contingencia ilusória.

 

A necessidade do pensamento complexo

        Essa simplificação é compreensível, pois a complexidade do real é uma desordem para a nossa razão imatura. Estudar um fenômeno no laboratório é simplista, é fugir da dificuldade do pensamento complexo, é fugir da desordem do real, é escapar das infinitas inter-relações entre os fenômenos.

        É difícil associar sem identificar ou reduzir. Desde tempos remotos aprendemos a conhecer identificando (separando) e reduzindo (selecionando). A ciência enganosamente constrói uma simplificação do fenômeno no laboratório e conclui leis e propriedades validas para o fenômeno em situações complexas – reais.

        O pensamento contemporâneo é o da simplificação, que não deixa ver a complexidade do real. O pensamento mitológico criou uma vida ideológica de deuses com características humanas. O pensamento oculta a realidade. A ideia torna a realidade ilusória. Os sistemas teóricos se fecham em si mesmos e dogmatizam o conhecimento. A razão imatura racionaliza e encerra o real num sistema de ideias coerente, mas parcial e unilateral.

        Uma parte do real é irracionalizável, mas estamos na era da barbárie das ideias.

 

Psicologia de Rebanhos

O rebanho é os meus pensamentos

E os meus pensamentos são todos sensações.

(Fernando Pessoa)

 

        As nossas sensações são enganosas. Como produtos das nossas sensações, os nossos pensamentos são enganosos. Essa é uma associação oriunda da lógica. A lógica é uma construção dos nossos pensamentos enganosos. Portanto, a nossa lógica, que sustenta a nossa forma de conhecer, é também enganosa. Resta-nos aprender a lidar com essa complexidade.

 

Referencias

MORIN, Edgar. Introdução ao pensamento complexo. Porto Alegre: Sulina, 2015.

 

Dificuldade de acesso a mente possibilita a criação de uma alma

        “Nossa visão direta da mente depende de uma parte dessa própria mente”. Essa dificuldade de acesso a mente possibilita a criação de uma alma, de um espirito, de uma mente, que habitaria o corpo e dele se desataria quando o corpo deixasse de funcionar. Essa dificuldade de conhecer como nossa mente funciona, usando da nossa própria mente, possibilita a criação de um deus que explica tudo. O acesso a nossa mente, apenas por uma parte da nossa própria mente, não pode permitir uma apreciação abrangente e fidedigna do que está acontecendo.

        Pode parecer uma ingratidão e mesmo paradoxal, questionar a nossa confiabilidade em nossa capacidade de conhecimento. Afinal, já comprovamos que temos algo que nos faz conhecer que nós somos um nós, que nós somos um eu, essa parte da mente que nos dá acesso ao conhecimento, inclusive de nós mesmos.

        “No entanto, essa é a situação. Com exceção da janela direta que o eu nos abre para nossas dores e prazeres, as informações que ele fornece tem de ser questionadas, sobretudo quando dizem respeito a” sua própria natureza.

 

A superação de uma intuição enganosa

        Quando nós observamos, nós adotamos duas posturas:

– uma postura quando observamos a mente, nós nos voltamos para dentro;

– outra postura quando observamos os nossos tecidos biológicos, nossos olhos estão voltados para fora.

        “Nessas circunstancias, não é de surpreender que a mente de a impressão de não possuir uma natureza física e que seus fenômenos pareçam pertencer a outra categoria. Ver a mente como um fenômeno não físico, separado da biologia que a cria e a sustenta, é a razão pela qual certos autores apartam a mente das leis da física, uma discriminação a qual outros fenômenos cerebrais geralmente não estão sujeitos”.

 

A estrutura

        “Os organismos produzem mentes a partir da atividade de células especiais conhecidas como neurônios. Os neurônios têm muitas das características de outras células do nosso corpo, mas seu funcionamento é distinto. Eles são sensíveis a mudanças ao redor, são excitáveis (uma propriedade interessante que tem em comum com as células musculares)”.

Uma perspectiva integrada

        Aquilo que chamamos de mente é o resultado de padrões neurais de funcionamento do nosso cérebro. Os neurônios são as células mais famosas que frequentam o nosso sistema nervoso. Através de múltiplas e diversificadas relações constituídas entre os neurônios, o cérebro forma os padrões neurais que determinam os nossos comportamentos. Uma imensa quantidade de informações chega e parte do nosso sistema nervoso a todo instante. Entretanto, alguns padrões neurais geram um processo de eu, quer dizer, de consciência de padrões neurais.

        “Há milhões de anos que inúmeros seres possuem mentes ativas no cérebro”. Somente quando o cérebro foi capaz de desenvolver um processo que lhe permitiu observar a si mesmo, é que surge a consciência. Mas a consciência, como definimos hoje, somente se tornou conhecida depois que o cérebro desenvolveu a linguagem. Somente pela linguagem podemos conhecer a existência de mentes.

        “Entender como o cérebro produz esse algo mais, o protagonista que carregamos para todo lado e chamamos […] de eu, é um objetivo importante da neurobiologia da consciência”.

 

Psicologia de Rebanhos

O rebanho é os meus pensamentos

E os meus pensamentos são todos sensações.

(Fernando Pessoa)

 

        Também é o objetivo da Psicologia entender como o nosso cérebro produz a nossa consciência. Porém, acreditamos que não é somente através da linguagem que podemos conhecer a consciência. Nosso entendimento da formação dos nossos padrões neurais considera a existência de uma consciência anterior a linguagem. Essa consciência tem raízes nos nossos demais sentidos. Todas as nossas formas de sentir contribuem para damos sentido ao mundo.

 

Referencias

DAMÁSIO, António R. E o cérebro criou o homem. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

Agimos de acordo com nosso padrão mental ou nossa autoimagem

Entendendo enquanto se faz

 

         Agimos de acordo com nosso padrão mental ou nossa autoimagem. Consideramos que o nosso padrão mental seja constituído de diferentes formas por três fatores: hereditariedade, aprendizagem e autoaprendizagem.

         A nossa parte herdada é a menos mutável. A nossa herança biológica se refere a capacidade e a forma do nosso sistema nervoso, estrutura óssea, tecidos, glândulas, pele, sentidos.

        Nosso padrão mental se desenvolve no curso da nossa experiência. A nossa aprendizagem estabelece um padrão mental de conceitos e reações que variarão de acordo com o ambiente no qual vivemos.

         A nossa aprendizagem influencia na direção de nossa autoaprendizagem. A nossa autoaprendizagem influencia o modo pelo qual a nossa aprendizagem é adquirida. A nossa aprendizagem e a nossa autoaprendizagem ocorrem intermitentemente e simultaneamente.

         Desses três fatores ativos considerados aqui no estabelecimento da nossa autoimagem, somente a autoaprendizagem está em alguma medida por nossa conta. Ou seja, dos três fatores destacados na composição do nosso comportamento, somente a autoaprendizagem é possivelmente sujeita à nossa vontade.

 

A autoimagem

         Se desejamos mudar o nosso modo de agir, precisamos mudar a imagem própria que está em nós.

         Em nossa autoimagem estão envolvidos, pelo menos, quatro componentes que movem a nossa ação: o movimento, a sensação, o sentimento e o pensamento.

         O movimento, a sensação e o sentimento supõe-se que estão envolvidos também no pensamento. No decorrer de nossa vida, valorizamos um ou mais destes elementos da ação em função dos outros, o que proporciona o enrijecimento de nossas ações em uma ou mais destas áreas de ação endurecidas.

         Supõe-se que a nossa autoimagem seja constituída por um grupo de células repetitivamente estruturadas de forma a atender as nossas necessidades. Um grande grupo de células e combinações de células são desprezados em nossas atividades diárias. A nossa autoimagem é geralmente mais limitada e menor que o nosso potencial para fazer novas combinações de imagens.

         Temos a tendência de parar de aprender quando conseguimos suficiente habilidade para atingir o nosso objetivo mais imediato.

Ninguém sabe o propósito da vida.

        Aquilo que cada geração passa para a seguinte não é mais que uma continuação de hábitos da geração dominante.

         “Durante os primeiros anos, uma criança é valorizada, não por suas realizações, mas simplesmente por si mesma. Nas famílias onde isto se dá, a criança desenvolver-se-á de acordo com suas habilidades individuais. Nas famílias onde as crianças são julgadas primariamente por suas realizações, toda a espontaneidade desaparecera nos primeiros anos”.

         O nosso padrão mental é algo dinâmico. Portanto, a nossa autoimagem atual é inteiramente diferente daquela autoimagem com a qual nascemos. Acreditamos que mudar é possível e inelutável. O nosso padrão mental é o resultado da nossa própria experiência.

        “Cada padrão de ação que se torna amplamente assimilado interferira com os padrões das ações subsequentes”.

Psicologia de Rebanhos

O rebanho é os meus pensamentos

E os meus pensamentos são todos sensações.

(Fernando Pessoa)

 

        Agimos de acordo com a nossa autoimagem. A nossa autoimagem se forma na dinâmica das relações celulares que nos constitui. Essa constituição se forma nas relações entre nós e o ambiente e entre nos conosco. Nossa autoimagem é biológica e toda transformação que nela acontece, passa, necessariamente, por uma mudança na nossa dinâmica celular.

Referencias

FELDENKRAIS, Moshe. Consciência pelo movimento. São Paulo: Summus, 1977.

Gozar do corpo da pessoa amada

Amores impuros, prazer dramático

        Era para mim doce amar e ser amado, se podia gozar do corpo da pessoa amada. Deste modo, manchava com torpe concupiscência aquela fonte de amizade. Embaciava a sua pureza com o fumo infernal da luxuria.

        Amamos, portanto, as lagrimas e as dores. Mas todo homem deseja o gozo. Ora, ainda que a ninguém apraza ser desgraçado, apraz-nos, contudo, o ser compadecidos. Não gostaremos nós dessas emoções dolorosas pelo único motivo de que a compaixão é companheira inseparável da dor?

        Porem a dor não encontra nela prazer algum. Ainda que o dever da caridade aprove que nos condoamos do infeliz.

        Mas eu, miserável, gostava então de me condoer, e buscava motivos de dor.

 

Compreensão da inteligência versus o raciocínio da carne

        Meu deus, a vos o confesso, a vos que de mim vos compadecestes quando ainda vos não conhecia, quando vos buscava não segundo a compreensão da inteligência, mas segundo o raciocínio da carne.

        Ignorava que deus é espirito e não tem membros dotados de comprimento e de largura, nem é matéria.

        Desconhecia inteiramente que princípio havia em nós segundo o qual na sagrada escritura se diz que “fomos feitos a imagem de deus”.

        Não vos supunha, ó meu Deus, sob a figura de corpo humano. Mas não me ocorria outro modo de vos conceber na imaginação!

        Esforçava-me por vos imaginar o grande, o único verdadeiro Deus. Com efeito, acreditava, com todas as fibras do coração.

 

A moral e os costumes

        Ignorava a verdadeira justiça interior, que não julga pelo costume, mas pela lei retíssima de deus onipotente.

        A obediência aos reis é um pacto geral da sociedade humana.

 

A obediência a Deus

        Vos estáveis diante de mim; porem eu apartava-me de mim e, se nem sequer me encontrava a mim mesmo, muito menos a vos.

        Vos, porém, meu Deus, já me tínheis ensinado de modos admiráveis e ocultos! Creio o que vos me ensinastes, porque é verdade, e só vos sois o Mestre da Verdade.

É Deus o autor do mal?

        Buscava a origem do mal, mas buscava-a erroneamente. E, ainda mesmo nessa indagação, não enxergava o mal que nela havia.

        Qual a sua origem, se Deus, que é bom, fez todas as coisas? Donde, pois, vem o mal?

 

A relatividade das criaturas

        Examinei todas as outras coisas que estão abaixo de vos e vi que nem existem absolutamente, nem totalmente deixam de existir. Por um lado, existem, pois provem de vos; por outro não existem, pois não são aquilo que vos sois. Ora, só existe verdadeiramente o que permanece imutável. Por isso, para mim é bom prender-me a Deus, porque, se não permanecer n’Ele, também não poderei continuar em mim.

 

Do platonismo a Sagrada Escritura

        Mas depois de ler aqueles livros dos platônicos e de ser induzido por eles a buscar a verdade incorpórea, vi que as vossas perfeiçoes invisíveis se percebem por meio das coisas criadas. Experimentei a certeza de que existíeis e éreis infinito, sem, contudo, vos estenderdes pelos espaços finitos e infinitos.

(*) Esse texto é uma versão abreviada dos Livros III, V e VII das Confissões.

 

Psicologia de Rebanhos

O rebanho é os meus pensamentos

E os meus pensamentos são todos sensações.

(Fernando Pessoa)

        Que dolorosas sensações, Agostinho vivenciaria, para repudiar as suas experiências amorosas e condena-las ao inferno? Que gozo, Agostinho sentiria na dor, para buscar motivos para doer? Ora a sua crença se encontra na inteligência, ora se encontra nas fibras do seu coração.

        Agostinho se utiliza da sua inteligência para reprimir e controlar os seus sentimentos, para evitar a vivencia das suas sensações. Incapaz de controlar as suas sensações, Agostinho se refugia na crença de uma verdade incorpórea. E como ele faz isso? Através da criação de ideias e pensamentos que lhe mantivessem distante de si mesmo.

        A nossa mente, através da criação das ideias e pensamentos, tanto pode nos aproximar quanto nos afastar de nós mesmos. As nossas ideias e pensamentos são confiáveis ou não-confiáveis. As nossas ideias e os nossos pensamentos são o fruto das relações que manemos com as nossas sensações.

 

Referencias

AGOSTTINHO, Santo. Confissões. São Paulo: Abril Cultural, 1984.

As raízes dos estigmas que a prática apresenta

Saia desse corpo que não lhe pertence!
 
Capitulo 7

        A propagação da prática da tatuagem ocorreu no convívio dos marinheiros com prostitutas e ladrões. “Dessa forma, ladrões presos levaram a prática ao contexto carcerário (ao qual é associada até hoje), enquanto prostitutas a utilizavam como fetiche. Estes usos são as raízes dos estigmas que a prática apresenta até os dias atuais, associada à marginalidade” (Carvalho, 2010).

        “No percurso do século XIX e começo do XX, a prática da tatuagem seguiu uma intrépida fase de peregrinação pelos setores marginais da sociedade, nos quais presidiários, meretrizes e soldados converteram-se nos novos protagonistas dessa prática.

        Ao converter-se em objeto de preferência dos setores marginais, a tatuagem se situava socialmente nas margens da sociedade. Essa situação gerou uma construção negativa em torno dessa prática, que transportou ao imaginário social um sentido de referência e equivalência entre tatuagem = marca marginalidade. O contexto começou a mudar notoriamente a partir da invenção da máquina elétrica, em 1891” (Fonseca, 2003).

Entre 1870 e 1880, “a cultura física passou a integrar a cultura americana, participando de um imaginário regenerador em meio a depressão” (Pires, 2005).

 

Inicia-se assim o culto ao corpo.

 

        “O estilo de vida e o desejo de obter a perfeição física levaram o homem da sociedade industrial a buscar, excessivamente, um novo padrão de beleza. Uma exigência para a sua inclusão na sociedade, onde tudo pode virar mercadoria” (Cassimiro e Galdino, 2012).

        “A insatisfação com o próprio corpo implicou a incorporação da prática do exercício físico com fins estéticos no cotidiano do indivíduo. O trabalho corporal desenvolvido pela academia obedece à lógica da máquina: a cronometrização e mecanicidade são os princípios orientadores das práticas corporais” (Pelegrini, 2005).

        No século XX, o corpo ganha “um registro intersubjetivo, através do qual o sujeito reconhece a si e aos demais”. Em decorrência, a dimensão fisiológica do corpo “foi reconhecida como indissociável das sensibilidades, afetos, racionalizações, bem como das decisões e ações, com seus contornos éticos e políticos” (Mori e Buarque, 2014).

        “A presença de inscrições no corpo, seja por intermédio de tatuagens ou de escarificações, e o aparecimento de sintomas corporais que traduzem sofrimentos eminentemente psíquicos, destaca-se cada vez mais na contemporaneidade.

        Na verdade, o corpo passa a ocupar um espaço privilegiado de manifestação e comunicação de conflitos psíquicos. O corpo foi inventado teoricamente no século XX, e seria Freud o grande responsável por sua nova percepção.

        A teoria freudiana propõe pensá-lo (o corpo) para além da carnalidade; o corpo não é apenas um organismo biológico. Ele é atravessado pela linguagem, e essa, por sua vez, faz com que o corpo exista fora da pura sensação carnal.

As oscilações psíquicas produziram efeitos no corpo e no psíquico que, por sua vez, sofrem influências do ambiente social” (Moreira, Teixeira e Nicolau, 2010).

        “A leitura do corpo é sempre sócio histórica, e a psicanálise está inserida nesta perspectiva: ‘a psicologia individual é ao mesmo tempo também psicologia social’ (Freud, 1921). A psicanálise não está fora da cultura sendo, ela mesma, fruto do trabalho de cultura” (Ceccarelli, 2011).

        Até o século XVIII, “o corpo foi reprimido e punido, mas, a partir do século XXI, tornou-se objeto do Capitalismo”. O processo de transformação do corpo, da Grécia Antiga até os dias atuais, “sempre ocorreu por motivações políticas, econômicas e religiosas das classes que detinham o poder em cada período. Assim, o corpo exerceu papéis diferentes em cada sociedade”. (Cassimiro e Galdino, 2012).

Psicologia de Rebanhos

O rebanho é os meus pensamentos

E os meus pensamentos são todos sensações.

(Fernando Pessoa)

        A Psicologia de Rebanhos compreende que o nosso corpo é uma construção sócio histórica. Ou seja, os nossos corpos são construídos pelas ideias políticas, sociais, morais, religiosas, econômicas de cada sociedade em determinada época. Atualmente, nossos corpos são considerados os depositários de nossos afetos, sensações e pensamentos. Portanto, cabe a nós a responsabilidade pela guarda e conservação dos afetos neles depositados.

 

Referencias

 

CARVALHO, Eric de. TATTOO – Incorporações de produtos midiáticos por meio de tatuagens. São Paulo, 2010. Acesso em 21 de outubro de 2015. Disponível em

CASSIMIRO, Érica Silva; GALDINO, Francisco Flávio Sales. As concepções de corpo construídas ao longo da história ocidental: da Grécia antiga à contemporaneidade. Revista Eletrônica Print by. Μετάνοια, São João del-Rei/MG, n.14, 2012. Acesso em 05 de junho de 2015. Disponível em

CECCARELLI, Paulo Roberto. Uma breve história do corpo. In Corpo, Alteridade e Sintoma: diversidade e compreensão. Lange & Tardivo (org.). São Paulo: Vetor, p. 15-34, 2011. Acesso em 05 de junho de 2015. Disponível em

FONSECA, Andrea Lissett Perez. Tatuar e ser tatuado: etnografia da pratica contemporânea da tatuagem. Florianópolis, agosto de 2003. Acesso em 08 de março de 2015. Disponível em

FREUD, Sigmund. Psicologia das massas e analise do eu. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

MOREIRA, Jacqueline de Oliveira; TEIXEIRA, Leônia Cavalcante; NICOLAU, Roseane de Freitas. Inscrições corporais: tatuagens, piercings e escarificações à luz da psicanalise. Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental. São Paulo, v. 13, n. 4, p. 585-598, dezembro 2010. Acesso em 27 de fevereiro de 2015. Disponível em

MORI, Geraldo De; BUARQUE, Virgínia. Corporeidade-encarnação: teologia em diálogo interdisciplinar. Perspectiva Teologia, Belo Horizonte, v. 46, n. 129, p. 187-214, mai/ago, 2014. Acesso em 05 de junho de 2015. Disponível em

PELEGRINI, Thiago. Imagens do corpo: reflexões sobre as acepções corporais construídas pelas sociedades ocidentais. Revista Urutágua – revista acadêmica multidisciplinar –  Quadrimestral – Nº 08 – Dez/Jan/Fev/Mar de 2005/6 – Maringá – Paraná – Brasil – ISSN 1519.6178. Centro de Estudos Sobre Intolerância – Maurício Tragtenberg, Departamento de Ciências Sociais – Universidade Estadual de Maringá (DCS/UEM). Acesso em 20 de julho de 2015. Disponível em

PIRES, Beatriz Ferreira. O corpo como suporte da arte: piercing, implante, escarificação, tatuagem. São Paulo: Editora SENAC,2005.

 

Existe diferença entre acreditar e estar certo?

        Por que você acredita no que você acredita? Como se formaram as crenças que você tem? Existe diferença entre acreditar e estar certo? O que é uma crença? Como formamos uma crença?

        Uma crença é certo estado mental onde não existe uma garantia de verdade para todos. Uma crença é um sentimento subjetivo que pode ser compartilhado e apoiado por outros.  Se creio, não tenho certeza, mas creio que estou certo.

        Crer, então, é algo que se fundamenta na minha opinião. Portanto, a sua crença implica algo em que você acredita e eu posso acreditar ou não. Assim, crer é diferente de certeza, pois a crença está baseada no sentimento de algo e o saber está fundamentado no conhecimento de algo.

        Mas será que crer e saber serão mesmo diferentes? Concordar que crer e saber são diferentes é acreditar que crer e saber são modos de atividades diferentes e de origens diferentes. No entanto, essa tentativa de conhecer a diferença entre crer e saber origina-se da “sensação” de que crer e saber são diferentes. A ciência diria que a origem não seria a minha sensação, mas a hipótese do fenômeno a ser observado.

        Para a ciência, a crença é uma opinião, portanto um conhecimento menor destituído de verdade. Para os parâmetros científicos, a crença não está certa. Para a crença, a ciência é um saber destituído de fé, portanto um conhecimento menor. Para os parâmetros crentes, a ciência não está certa.

        Para a ciência, a crença explica o real a partir dos sentimentos, portanto, a crença para a ciência é um fenômeno que diz respeito ao afeto. Para a crença, a ciência explica o real a partir da reflexão, do pensamento, da razão. Portanto, a ciência para a crença é um fenômeno intelectual.

        Uma das características da crença é seu sentimento rapidamente contagioso, enquanto o saber exige um trabalho lento e paciente.

        É consenso no meio cientifico que não se constrói uma teoria a partir apenas de fatos particulares. Entretanto, é a partir de suposições particulares que se constroem as teorias. Portanto, a construção de uma teoria implica sempre como ponto de partida uma suposição, um ato de fé. Ato de fé, suposição, presunção, conjectura são termos utilizados pelo crente. Método cientifico, hipótese, observação, teoria são os termos utilizados pelo cientista.

 

        Entretanto, se pensarmos que crer é um ato racional e não sentimental, podemos examinar a natureza da crença, pesquisar como ela se funda e se produz. Por outro lado, se pensamos a crença como um sentimento, o seu conhecimento fica restrito as nossas sensações. Portanto, a crença não chega a racionalizar a sua motivação.

        Porém, uma crença também é constituída de palavras, cultos, imagens, pois uma crença precisa de uma forma para ser crível. Essas palavras, cultos e imagens que formam uma crença tem seu sentido próprio. Entretanto, a ciência, ancorada na razão, supõe que somente a racionalidade pode dar sentido à vida, à realidade, à existência.

        É mais fácil persuadir com imagens, sons, cheiros, em suma, com sensações, do que com argumentos. O pensamento é um habito, é uma outra forma de dar sentido à vida, à realidade, à existência. O pensamento não é soberano, muito pelo contrário, o pensamento está mais para subalterno das sensações.

        Portanto, todas as teorias e crenças se equivalem e nenhuma delas tem valor algum. Teorias e crenças são criações humanas. Teorias e crenças fazem parte da imaginação humana. Teorias e crenças criaram a ideia de que as coisas são constituídas por um ente que as determina. Essa teoria/crença é a base de toda uma rede de falsos conceitos nos quais os homens se fixam, se endurecem, se imobilizam. Através dessa crença/teoria os homens concretizam a realidade como uma fotografia, onde a verdade se mostra com toda a sua ignorância.

Psicologia de Rebanhos

O rebanho é os meus pensamentos

E os meus pensamentos são todos sensações.

(Fernando Pessoa)

 

        Enfim, existe diferença entre acreditar e estar certo? Durante a nossa existência afirmamos diariamente a certeza das nossas crenças e as crenças das nossas certezas. Torna-se assim, para nós, quase uma impossibilidade perceber outra realidade que não sejam as nossas crenças e certezas. A Psicologia entende que a realidade não é apenas aquela fotografia que amarelece com o tempo ou jaz esquecida num arquivo digital. A psicologia entende que a realidade é um vir-a-ser e não apenas o ser. Ser este que se eterniza num instantâneo da existência. Por isso a Psicologia acredita na transformação, pois a vida é movimento.

 

Referencias

 

NOVAES, Adauto. A invenção das crenças. São Paulo: Edições SESC SP, 2011.

 

A cristianização se confirma nas ideias de Aristóteles

        Se com Agostinho assistimos à conciliação do pensamento de Platão com o cristianismo, é com Tomás de Aquino que a cristianização se confirma nas ideias de Aristóteles.

 

A perfeição divina

        “Para Aristóteles, uma definição não implica jamais a existência, logica ou empírica” de algo. “Assim, em Aristóteles, a distinção entre essência e existência é puramente conceitual, logica”. Essência e existência são apenas palavras, nada mais do que palavras.

        Enquanto isso, “Tomás de Aquino conclui que a definição da essência das criaturas não implica” na existência das criaturas. Para ele, algo pode ser sem existir. Essa ideia faz com que ele conclua que as criaturas “não existem por si mesmas, e sim devido a uma outra realidade”.

        Tomás de Aquino foi “agraciado” pelo seu “espirito analítico, a capacidade de ordenação metódica e a habilidade dialética que ele aliava a um profundo sentimento de fé cristã”.

        Quando Tomás de Aquino faz uma distinção real, não meramente conceitual, entre a essência e a existência, ele inaugura o fundamento metafisico da possibilidade ou não-possibilidade da existência das criaturas. Ele introduz no pensamento de Aristóteles, sem a autorização daquele, a ideia de criação. O ambiente em que vive Tomás de Aquino propicia a criação de Deus.

“Apenas em Deus haveria identidade entre essência e existência”.

 

As vias que levam a Deus

        Com a premissa de que existe uma essência responsável pela existência de todas as demais criaturas, Tomás de Aquino prova a existência de Deus através de cinco vias estritamente apoiadas na razão.

“A primeira fundamenta-se na constatação de que no universo existe movimento. Todo movimento tem uma causa, que deve ser exterior ao próprio ser que está em movimento, pois não se pode admitir que uma mesma coisa possa ser ela mesma a coisa movida e o princípio motor que a faz movimentar-se”. Somente Deus.

“A segunda via diz respeito a ideia de causa em geral. Todas as coisas ou são causas ou são efeitos, não se podendo conceber que alguma coisa seja causa de si mesma”. Somente Deus.

“A terceira via refere-se aos conceitos de necessidade e possiblidade”. Se alguma coisa pode ou não existir, então ela não possui uma existência necessária e sim possível. “Assim, o possível não teria em si razão suficiente de existência. Para que o possível exista é necessário, portanto, que algo o faça existir”. Somente Deus para fazer algo existir.

“A quarta baseia-se nos graus hierárquicos de perfeição observados nas coisas”. Todas as criaturas existentes são diferentes entre si com diversos graus de capacidade, potencialidade, função, extensão, duração, etc. “Devera existir, portanto, uma verdade e um bem em si: Deus”.

A quinta via fundamenta-se na ordem das coisas. Todas as operações dos corpos materiais tenderiam a um fim. Deus.

 

        Com o pensamento de Tomás de Aquino, todas as provas da existência de Deus estão contidas nas cinco vias explicativas da realidade apresentadas anteriormente.

        “Torna-se perfeitamente concebível pela razão que o mundo seja um conjunto de criaturas contingentes, cuja existência é dada por Deus, criadas a partir do nada e escalonadas segundo graus diversos de perfeição e participação na essência e existência divinas”.

Assim, Tomás de Aquino, comprova pela razão que Deus existe.

 

Psicologia de Rebanhos

O rebanho é os meus pensamentos

E os meus pensamentos são todos sensações.

(Fernando Pessoa)

 

        A Psicologia de Rebanhos traz esse pensamento de Tomás de Aquino para questionar essas possibilidades “infinitas e ilimitadas” que a razão nos proporciona. Bem como, chamar a atenção para a desvalorização que essa mesma capacidade da nossa mente, de pensar infinita e ilimitadamente, faz dos nossos outros sentidos. Afinal, os nossos pensamentos são apenas as nossas próprias sensações do mundo aferidas biologicamente.

 

Referencias

 

DE AQUINO, Santo Tomás. O ente e a essência. São Paulo: Abril Cultural, 1985.

Algo completamente distinto da alma

Saia desse corpo que não lhe pertence!
 
Capitulo 5

 

René Descartes (1596-1650) “parece ter instalado definitivamente a divisão corpo-mente. O homem era constituído por duas substâncias: uma pensante, a alma, a razão e outra material, o corpo, como algo completamente distinto da alma.

Mesmo se já se pensasse o ser humano como constituído por um corpo físico e uma outra parte subjetiva, a partir de Descartes essa divisão foi realmente instituída e o físico passou a estar ao serviço da razão” (Barbosa, Matos e Costa, 2009).

 

Eis que durante o século 18 concretiza-se na Europa, notadamente na França, o movimento cultural denominado Iluminismo, cujas principais características estão resumidas e simbolizadas nas cores da bandeira francesa: liberdade (azul), igualdade (branca), fraternidade (vermelha).

O Iluminismo busca o conhecimento da natureza através da razão, com o objetivo de torná-la útil ao homem. O Iluminismo alardeia maior liberdade econômica e política do estado; promove o intercâmbio intelectual e o desenvolvimento da ciência; é contrário a intolerância da Igreja e do Estado.

O nome Iluminismo deriva de que a razão, que é luz, ilumina, em contraposição a séculos de trevas de domínio das crenças dogmáticas católicas.

O Iluminismo promove mudanças políticas, econômicas e sociais, baseadas nos ideais de liberdade, igualdade e fraternidade.

 

 “Cabe lembrar que os ideais iluministas (século XVIII) acabaram por acentuar a depreciação do corpo, dissociando-o da alma, retomando a dicotomia corpo-alma, arquitetada na antiguidade clássica” (Pelegrini, 2005).

 

A ideia do “corpo como algo separado da pessoa só é pensável, portanto, em sociedades individualistas em que as pessoas são separadas umas das outras”. Essa ideia pode ser imputada “aos primeiros anatomistas e à filosofia mecanicista, tendo, portanto, uma demarcação histórica localizada entre os séculos XV e XVII” (Rauter, 2013).

 

Diante desse estado de coisas “percebe-se que é apenas na passagem do século XVII ao XVIII que o sujeito se torna “indivíduo”, e é apenas no final do XIX que este indivíduo ganha uma subjetividade.

Não há, portanto, simetria entre sujeito e subjetividade, não existe naturalmente esta unidade e esta fidelidade a si mesmo – esta relação, esta colagem das características subjetivas em um sujeito.

Esta individualização da subjetividade, é resultado dos jogos de normalização e de marcação da identidade, característicos das sociedades Ocidentais modernas” (Prado Filho e Martins, 2007).

 

“O sentimento de individualidade que os historiadores identificam como a emergência do eu no século XVIII irá, a partir da segunda metade do século XX, privilegiar a identidade corporal.

Assistiremos a uma identificação do indivíduo com o seu corpo” (Moreira).

 

Referencias

 

BARBOSA, M. R.; MATOS, P. M.; COSTA, M. E. Um olhar sobre o corpo: o corpo ontem e hoje. Psicologia & Sociedade; 23 (1): 24-34, 2011. Outubro de 2009. Acesso em 05 de junho de 2015. Disponível em 

 

MOREIRA, Jacqueline de Oliveira. O corpo como um acessório: um lugar possível para os tatoos e piercings. Acesso em 27 de fevereiro de 2015. Disponível em

 

PELEGRINI, Thiago. Imagens do corpo: reflexões sobre as acepções corporais construídas pelas sociedades ocidentais. Revista Urutágua – revista acadêmica multidisciplinar –  – Quadrimestral – Nº 08 – Dez/Jan/Fev/Mar de 2005/6 – Maringá – Paraná – Brasil – ISSN 1519.6178. Centro de Estudos Sobre Intolerância – Maurício Tragtenberg, Departamento de Ciências Sociais – Universidade Estadual de Maringá (DCS/UEM). Acesso em 20 de julho de 2015. Disponível em 

 

PRADO FILHO, Kleber; MARTINS, Simone. A subjetividade como objeto da (s) Psicologia (s). Psicologia & Sociedade; 19 (3): 14-19, 2007. Acesso em 07 de setembro de 2013. Disponível em

 

RAUTER, Raíssa Völker. A Relação Do Sujeito Contemporâneo Com O Corpo: Uma reflexão à luz da psicologia analítica. 2013. Acesso em 20 de julho de 2015. Disponível em