Contra os que negam o livre-arbítrio nas ações humanas

Contra os que negam o livre-arbítrio nas ações humanas

Vos, crédulos mortais, alucinados

De sonhos, de quimeras, de aparências,

Colheis por uso erradas consequências

Dos acontecimentos desastrados:

Se a perdição correis precipitados

Por cegas, por fogosas impaciências,

Indo a cair, gritais que são violências

De inexoráveis céus, de negros fados:

Se um celeste poder tirano, e duro,

As vezes extorquisse as liberdades,

Que prestava, oh Razão, teu lume puro?

Não forçam corações as divindades;

Fado amigo não há, nem fado escuro:

Fados são as paixões, são as vontades.

 

* * *

 

Reprodução do antecedente, estando o autor preso

Liberdade querida, e suspirada,

Que o Despotismo acérrimo condena;

Liberdade, a meus olhos mais serena

Que o sereno clarão da madrugada!

Atende a minha voz, que geme e brada

Por ver-te, por gozar-te a face amena;

Liberdade gentil, desterra a pena

Em que esta alma infeliz jaz sepultada:

Vem, oh deusa imortal, vem, maravilha,

Vem oh consolação da humanidade,

Cujo semblante mais que os astros brilha:

Vem, solta-me o grilhão da adversidade;

Dos céus descende, pois dos céus és filha,

Mãe dos prazeres, doce Liberdade!

 

 

Epistola a Marilia

IV

Crê, pois, meu doce bem, meu doce encanto,

Que te anseiam fantásticos terrores,

Pregados pelo ardil, pelo interesse.

Só de infestos mortais na voz, na astucia,

A bem da tirania está o inferno.

Esse que pintam báratro de angustias,

Seria o galardão, seria o premio

Das suas vexações, dos seus embustes,

E não pena de amor, se inferno houvesse.

Escuta o coração, Marilia bela,

Escuta o coração, que te não mente.

 

Eis o que hás-de escutar, ó doce amada,

Se à voz do coração não fores surda.

De tuas perfeições enfeitiçado,

Às preces, que te envia, eu uno as minhas.

Ah! Faze-me ditoso e se ditosa.

Amar é um dever, além de um gosto,

Uma necessidade, não um crime,

Qual a impostura horríssona apregoa.

Céus não existem, não existe inferno:

O prêmio da virtude é a virtude,

É castigo do vicio o próprio vicio.

 

* * *

Psicologia de Rebanhos

O rebanho é os meus pensamentos

E os meus pensamentos são todos sensações.

(Fernando Pessoa)

        O homem crente de Adão inventou a escolha. Mas para que havermos de escolher? O homem crente do cristianismo inventou o livre-arbítrio. Mas para que o homem do cristianismo inventou o livre-arbítrio se Deus já tinha criado a escolha? Você sabe para que servem as suas vontades quando você está apaixonado? Quando você está apaixonado as suas vontades servem para… nada. Apaixonado, as suas vontades apenas obedecem às suas paixões. As paixões são fados, disse o poeta, as vontades também. As paixões e as vontades nos aprisionam. Pobre daquele que acredita ter a chave das celas das suas paixões e das suas vontades numa liberdade fora de si mesmo – fora do Paraiso? “Escuta o coração, Marilia bela, escuta o coração que não te mente. O prêmio da virtude é a virtude, é castigo do vicio o próprio vicio”. Fados são as paixões e as vontades. Quem poderá e saberá dizer, quando escolheu viver as suas?

BOCAGE, Manuel Maria Barbosa du. O delírio amoroso e outros poemas. Porto Alegre: L&PM, 2004.

 

Vai, Carlos! Ser gauche na vida

Alguma poesia
        A Mario de Andrade, meu amigo.
Poema de sete faces
         Quando nasci, um anjo torto
         Desses que vivem na sombra

         Disse: Vai, Carlos! Ser gauche na vida.

         As casas espiam os homens

         Que correm atrás de mulheres.

         A tarde talvez fosse azul,

         Não houvesse tantos desejos.

         O bonde passa cheio de pernas:

         Pernas brancas pretas amarelas.

         Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.

         Porem meus olhos

         Não perguntam nada.

O homem atrás do bigode

É sério, simples e forte.

Quase não conversa.

Tem poucos, raros amigos

O homem atrás dos óculos e do bigode.

         Meu Deus, por que me abandonaste

         Se sabias que eu não era Deus

         Se sabias que eu era fraco.

         Mundo mundo vasto mundo,

         Se eu me chamasse Raimundo

         Seria uma rima, não seria uma solução.

         Mundo mundo vasto mundo,

         Mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer

Mas essa lua

Mas esse conhaque

Botam a gente comovido como o diabo.

 

* * *

 

No meio do caminho

         No meio do caminho tinha uma pedra

Tinha uma pedra no meio do caminho

Tinha uma pedra

No meio do caminho tinha uma pedra.

 

Nunca me esquecerei desse acontecimento

Na vida de minhas retinas tão fatigadas.

Nunca me esquecerei que no meio do caminho

Tinha uma pedra

Tinha uma pedra no meio do caminho

No meio do caminho tinha uma pedra.

 

* * *

 

Igreja

         E nos domingos a litania dos perdões, o murmúrio das invocações.

         O padre que fala do inferno

         Sem nunca ter ido lá.

 

* * *

 

Esperteza

Tenho vontade de

– ponhamos amar

Por esporte uma loura

O espaço de um dia.

         Certo me tornaria

         Brinquedo nas suas mãos.

         Apanharia, sorriria

         Mas acabado o jogo

         Não seria mais joguete,

         Seria eu mesmo.

 

         E ela ficaria espantada

         De ver um homem esperto.

 

* * *

 

Poesia

         Gastei uma hora pensando um verso

         Que a pena não quer escrever.

         No entanto ele está cá dentro

         Inquieto, vivo,

         Ele está cá dentro

         E não quer sair.

         Mas a poesia deste momento

         Inunda minha vida inteira.

 

Psicologia de Rebanhos

O rebanho é os meus pensamentos

E os meus pensamentos são todos sensações.

(Fernando Pessoa)

 

         Um verso é a tentativa do poeta para explicar a poesia do momento. A poesia deste momento se encontra nos sentimentos indescritíveis que nos acompanharam por toda a nossa vida. O verso do poeta é sua tentativa de compreender as suas sensações. Como os poetas, os pacientes, em psicologia, versejam na tentativa de compreender os seus sentimentos.

 

ANDRADE, Carlos Drummond de.  Nova reunião: 19 livros de poesia. Rio de Janeiro: Jose Olympio, 1983.

 

Incultas produções da mocidade

Sonetos eróticos

 

Proposição das ritmas do poeta

Incultas produções da mocidade

Exponho a vossos olhos, ó leitores:

Vede-as com magoa, vede-as com piedade,

Que elas buscam piedade, e não louvores;

Ponderai da Fortuna a variedade

Nos meus suspiros, lagrimas, e amores;

Notai dos males seus a imensidade,

A curta duração dos seus favores;

E se entre versos mil de sentimento

Encontrardes alguns, cuja aparência

Indique festival contentamento,

Crede, ó mortais, que foram com violência

Escritos pela mão do Fingimento,

Cantados pela voz da Dependência.

* * *

O autor aos seus versos

Chorosos versos meus desentoados,

Sem arte, sem beleza, e sem brandura,

Urdidos pela mão da Desventura,

Pela baça Tristeza envenenados:

Vede a luz, não busqueis desesperados,

No mudo esquecimento a sepultura;

Se os ditosos vos lerem sem ternura,

Ler-vos-ão com ternura os desgraçados:

Não vos inspire, ó versos, cobardia

Da sátira mordaz o furor louco,

Da maldizente voz a tirania:

Desculpa tendes, se valeis tão pouco;

Que não pode cantar com melodia

Um peito, de gemer cansado e rouco.

* * *

A morte de uma formosa dama

Onde há no mundo que ver, se a formosura,

Se Amor, se as Graças, se o prazer contigo

Jazem no eterno horror da sepultura?

* * *

A razão domina pela formosura

Importuna Razão, não me persigas;

Cesse a ríspida voz que em vão murmura;

Se a lei de Amor, se a força da ternura

Nem domas, nem contrastas, nem mitigas:

Se acusas os mortais, e os não abrigas,

Se (conhecendo o mal) não das a cura,

Deixa-me apreciar minha loucura,

Importuna Razão, não me persigas.

É teu fim, teu projeto encher de pejo

Esta alma, frágil vitima daquela

Que, injusta e varia, noutros laços vejo:

Queres que fuja de Marilia bela,

Que a maldiga, a desdenhe; e o meu desejo

É carpir, delirar, morrer por ela.

* * *

 Glosando o mote:

“A morte para os tristes é ventura”

Quem se vê maltratado, e combatido

Pelas cruéis angustias da indigência

Quem sofre de inimigos a violência,

Quem geme de tiranos oprimido:

Quem não pode ultrajado, e perseguido

Achar nos céus, ou nos mortais clemencia,

Quem chora finalmente a dura ausência

De um bem, que para sempre está perdido:

Folgara de viver, quando não passa

Nem um momento em paz, quando a amargura

O coração lhe arranca e despedaça?

Ah! Só deve agradar-lhe a sepultura,

Que a vida para os tristes é desgraça,

“A morte para os tristes é ventura”.

* * *

Insuficiência dos ditames da razão contra o poder de amor

Cego a meus males, surdo a teu reclamo,

Mil objetos de horror com ideia eu corro,

Solto gemidos, lagrimas derramo:

Razão, de que me serve o teu socorro?

Mandas-me não amar, eu ardo, eu amo;

Dizes-me que sossegue, eu peno, eu morro.

* * *

Notando insensibilidade da sua amada

A frouxidão no amor é uma ofensa,

Ofensa que se eleva a grau supremo;

Paixão requer paixão; fervor, e extremo;

Com extremo e fervor se recompensa.

Vê qual sou, vê qual es, vê que diferença!

Eu descoro, eu praguejo, eu ardo, eu gemo;

Eu choro, eu desespero, eu clamo, eu tremo,

Em sombras a razão se me condensa:

Tu só tens gratidão, só tens brandura,

E antes que um coração pouco amoroso

Quisera ver-te uma alma ingrata, e dura:

Talvez me enfadaria aspecto iroso;

Mas de teu peito a languida ternura

Tem-me cativo, e não me faz ditoso.

* * *

Psicologia de Rebanhos

O rebanho é os meus pensamentos

E os meus pensamentos são todos sensações.

(Fernando Pessoa)

        Os sentimentos nos paralisam e nos movem. Os sentimentos nos inundam e nos afogam em tristezas e sofrimentos.  “A vida para os tristes é desgraça. A morte para os tristes é ventura”. Mas podemos recorrer a formosa razão que nos acolhe com justificativas e explicações para tanta tristeza e sofrimento. A razão nos acolhe inventando outra vida. E não poderia ser de outro jeito, pois não ha razão que dessa vida possa dar conta. É que não há razão que não sinta. É que meus pensamentos vêm todos das minhas sensações.

BOCAGE, Manuel Maria Barbosa du. O delírio amoroso e outros poemas. Porto Alegre: L&PM, 2004.

 

E sei apenas do meu próprio mal

A rua dos cata-ventos

 
Eu nada entendo da questão social.
Eu faço parte dela, simplesmente…

E sei apenas do meu próprio mal,

Que não é bem o mal de toda a gente.

 

* * *

 

Espelho magico

 

Da observação

Não te irrites, por mais que te fizerem…

Estuda, a frio, o coração alheio.

Faras, assim, do mal que eles te querem,

Teu mais amável e sutil receio…

 

* * *

 

Dos mundos

Deus criou este mundo. O homem, todavia,

Entrou a desconfiar, cogitabundo…

Decerto não gostou lá muito do que via…

E foi logo inventando o outro mundo.

 

* * *

 

Dos milagres

O milagre não é dar vida ao corpo extinto,

Ou luz ao cego, ou eloquência ao mundo…

Nem mudar agua pura em vinho tinto…

Milagre é acreditarem nisso tudo!

 

* * *

 

Das ilusões

Meu saco de ilusões, bem cheio tive-o.

Com ele ia subindo a ladeira da vida.

E, no entretanto, após cada ilusão perdida…

Que extraordinária sensação de alivio!

 

Dos nossos males

A nós nos bastem nossos próprios ais,

Que a ninguém sua cruz é pequenina.

Por pior que seja a situação da China,

Os nossos calos doem muito mais…

 

* * *

 

Da eterna procura

Só o desejo inquieto, que não passa,

Faz o encanto da coisa desejada…

E terminamos desdenhando a caça

Pela doida aventura da caçada.

 

* * *

 

Do pranto

Não tentes consolar o desgraçado

Que chora amargamente a sorte ma.

Se o tirares por fim do seu estado,

Que outra consolação lhe restara?

 

Psicologia de Rebanhos

O rebanho é os meus pensamentos

E os meus pensamentos são todos sensações.

(Fernando Pessoa)

 

        Todos nós temos problemas, mas o problema de cada um é um problema único, de cada um. Embora não seja exatamente um problema de cada um, mas de todos. Afinal, o problema é nosso ou é dos outros? É que sem os outros, os problemas não existiriam. Os nossos problemas são gerados nas relações com os outros e com a gente mesmo.

        Aí então, desconfiados desse jeito do mundo ser, cheio de problemas, inventamos a solução para os problemas desse mundo em outro mundo. Um mundo que não é esse, nem o meu nem o seu nem o nosso. O pior é que acreditamos que esse tal outro mundo que criamos existe e tem a solução dos problemas desse mundo aqui.

        Somente quando a ilusão da solução dos problemas desaparece, aprendemos que a solução sempre esteve em nos mesmos. Aprendemos que os nossos problemas são somente os nossos problemas. E por serem os nossos doem muito mais que os problemas dos outros. Os problemas dos outros são nossa diversão. Assim, esquecemos dos nossos problemas, nos divertindo com os problemas dos outros.

        Esquecer é outra ilusão que criamos para não resolver os nossos problemas. É que existe no esquecimento um consolo, mas um consolo que não consola. Apenas adia o encontro e nos afasta de nós mesmos.

 

QUINTANA, Mario. Quintana de bolso. Porto Alegre: L&PM, 2006.

 

A Natureza me está, se não te vejo, magoando

Enfim, tudo o que a rara Natureza
Com tantas variedades nos oferece,

Me está, se não te vejo, magoando.

 

Sem ti, tudo me enoja e me aborrece;

Sem ti, perpetuamente estou passando

Nas maiores alegrias maior tristeza.

 

***

 

Alma minha gentil, que te partiste

Tão cedo desta vida, descontente,

Repousa lá no Céu eternamente

E viva eu cá na Terra sempre triste.

 

Se lá no assento etéreo, onde subiste,

Memoria desta vida se consente,

Não te esqueças daquele amor ardente,

Que já nos olhos meus tão puro viste.

 

E se vires que pode merecer-te

Alguma coisa a dor que me ficou

Da magoa, sem remédio, de perder-te,

 

Roga a Deus, que teus anos encurtou,

Que tão cedo de cá me leve a ver-te,

Quão cedo de meus olhos te levou.

 

 

Amor é fogo que se arde sem se ver;

É ferida que dói e não se sente;

É um contentamento descontente;

É dor que desatina sem doer;

 

É um não querer mais que bem querer;

É solitário andar por entre a gente;

É nunca contentar-se de contente;

É cuidar que se ganha em se perder;

 

É querer estar preso por vontade;

É servir a quem vence, o vencedor;

É ter com quem nos mata lealdade.

 

Mas como causar pode seu favor

Nos corações humanos amizade,

Se tão contrário a si é mesmo Amor?

 

***

 

Quanta incerta esperança, quanto engano!

Quanto viver de falsos fundamentos,

Pois todos vão fazer seus pensamentos

Só no mesmo em que está seu próprio dano!

 

Não haja em aparências confianças;

Entende que o viver é de emprestado;

Que o de que vive o mundo são mudanças.

 

Mudai, pois o sentido e o cuidado,

Somente amando aquelas esperanças

Que duram para sempre com o amado.

 

Psicologia de Rebanhos

O rebanho é os meus pensamentos

E os meus pensamentos são todos sensações.

(Fernando Pessoa)

 

        Nessas canções de amor, o amante fala da ausência do amado. Quão sofrida e triste é a vida sem o amado! E mesmo quando o amor é vivido, por que dói tanto!? Como pode o amor ser tão contrário a si? Que sentimento é esse que não se encontra em mim, mas que dura para sempre com o amado!? Amor é sentimento? De tão idealizado, esse amor parece mais com pensamento do que com algo que se sente.

       

Soneto de Fidelidade – Duração 1:36

CAMÕES, Luiz Vaz de. 200 sonetos: Luiz Vaz de Camões. Porto Alegre: L&PM, 1998.

 

Eu quero amar, amar perdidamente!

O EU
 
Amar
Florbela Espanca

 

Eu quero amar, amar perdidamente!

Amar só por amar: Aqui… além…

Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente…

Amar! Amar! E não amar ninguém!

 

Traduzir-se
Ferreira Gullar

Uma parte de mim

É todo mundo:

Outra parte é ninguém:

Fundo sem fundo

Uma parte de mim

É multidão:

Outra parte estranheza

E solidão.

Uma parte de mim

É só vertigem:

Outra parte,

Linguagem.

Traduzir uma parte em outra parte

– que é uma questão

De vida ou morte –

Será arte?

 

Autoestima
Nicolas Bebr

Eu não preciso

Que você goste

De mim

Autoestima

É isso?

 

Orações e saudades
Domingos Pellegrini

Mas que saudade me da

Da infância, meu amigo:

Cê aventura gostoso

E nunca pensa em perigo!

Mas depois quanto mais cresço

– atualmente para os lados –

E quanto mais envelheço

Mais segurança persigo

Mais aprece perigo!

 

Bicho de 7 cabeças
Nicolas Bebr

Sou um bicho

De sete cabeças

Tenho uma pra pensar

Outra pra ver

A terceira pra cheirar

Outra pra comer

Mais uma pra pensar

Outra pra ouvir

E a sétima pra vigiar

As outras seis

 

Esquizo
Ulisses Tavares

Tem um cara dentro de mim

Que faz tudo ao contrário:

Não temo amar, ele se borra

Sou esperto, ele é otário

Não amolo ninguém, ele torra

Acredito em tudo, ele é ateu

Sou normal em sexo, ele, tarado

Agito sempre, ele fica parado

Sou bacana, ele, escroto

Quem me faz infeliz e torto

É sempre ele – nunca fui eu.

Forrest Gump

Nicolas Bebr

Mudo de canal

Mudo de estação

Mudo de pagina

Se ainda não mudei de vida

Foi porque nem a televisão

Nem o rádio nem o jornal

Me aconselharam a faze-lo

 

Ultimo poema
Cairo de Assis Trindade

Esta noite eu tomaria todas as drogas do mundo,

Beberia todos os oceanos

E transaria homens e mulheres

Até morrer, dilacerado de dor.

Esta noite eu faria qualquer coisa

Por mais louca e absurda que fosse,

Pra não sentir esse vazio broxante

E esta puta angustia, velha e avassaladora.

 

Diferença
Leila Miccolis

 

Meu mundo é violento e com razão:

Na rua, se eu apanho, é covardia;

Em casa, se eu apanho, é educação.

 

Inconstante
Lauro Esteves

Dia sim, feliz da vida,

Passo carmim, vou pra varanda.

Dia não, bem deprimida,

Deito no chão, tudo desanda.

Dia sim?

Transo com todo mundo.

Dia não?

Também e a todo instante.

É que em matéria de sacanagem

Eu já sou bem constante.

 

Pensamento
Arnaldo Antunes

Pensamento vem de fora

E pensa que vem de dentro,

Pensamento que expectora

O que no meio peito penso.

Por que é que eu penso agora

Sem o meu consentimento?

 

O OUTRO
 
Exilio
Cario de Assis Trindade

 

Aos apaixonados não faz falta o mundo…

 

A um apaixonado não faz falta nada.

A não ser o outro. Junto.

 

O CORPO
 
Toque
Ulisses Tavares

Alguma coisa estranha acontece

Quando se toca em gente.

Experimente.

 

Psicologia de Rebanhos

O rebanho é os meus pensamentos

E os meus pensamentos são todos sensações.

(Fernando Pessoa)

 

        Os poetas nos convidam a viver as sensações que já vivemos, as sensações que não vivemos e as sensações que nunca viveríamos se não fosse por eles. A Psicologia de Rebanhos nos convida a viver como lidamos com as sensações que já vivemos e a experimentar novas formas de viver as sensações que já vivemos.

 

Referencias

 

TAVARES, Ulisses. Quando nem Freud explica, tente a poesia! São Paulo: Francis, 2007.

Eu nunca guardei rebanhos, mas é como se os guardasse

 

O guardador de rebanhos

 

Eu nunca guardei rebanhos,

Mas é como se os guardasse.

 

Pensar incomoda como andar a chuva

Quando o vento cresce e parece que chove mais.

 

Não tenho ambições nem desejos

Ser poeta não é uma ambição minha

É a minha maneira de estar sozinho.

 

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Sinto-me nascido a cada momento

Para a eterna novidade do mundo…

 

Creio no mundo como num malmequer,

Porque o vejo. Mas não penso nele

Porque pensar é não compreender…

 

O mundo não se fez para pensarmos nele

(Pensar é estar doente dos olhos)

Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo.

 

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos

Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,

Mas porque a amo, e amo-a por isso,

Porque quem ama nunca sabe o que ama

Nem sabe por que ama, nem o que é amar.

 

Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar …

 

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Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver do universo

Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer,

Porque eu sou do tamanho do que vejo

E não do tamanho da minha altura…

 

Nas cidades a vida é mais pequena

Que aqui na minha casa no cimo desse outeiro.

Na cidade as grandes casas fecham a vista a chave,

Escondem o horizonte, empurram o nosso olhar para longe de todo o céu,

Tornam-nos pequenos porque nos tiram o que os nossos olhos nos podem dar,

E tornam-nos pobres porque a nossa única riqueza é ver.

 

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Sou um guardador de rebanhos,

O rebanho é os meus pensamentos

E os meus pensamentos são todos sensações.

Penso com os olhos e com os ouvidos

E com as mãos e os pés

E com o nariz e a boca.

 

Pensar uma flor é vê-la e cheira-la

E comer um fruto é saber-lhe o sentido.

 

Por isso quando num dia de calor

Me sinto triste de goza-lo tanto,

E me deito ao comprido na erva,

E fecho os olhos quentes,

Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,

Sei a verdade e sou feliz.

 

 

CAEIRO, Alberto. O guardador de rebanhos. In PESSOA, Fernando. O guardador de rebanhos e outros poemas. São Paulo: Cultrix, 1997.

 

O entendimento dos símbolos e dos rituais (simbólicos)

Mensagem
Mensagem é o único livro de poesia em língua portuguesa publicado por Fernando Pessoa, em sua vida, e por ele revisto.

 

        O entendimento dos símbolos e dos rituais (simbólicos) exige do interprete que possua cinco qualidades ou condições, sem as quais os símbolos serão para ele mortos, e ele um morto para eles.

 

A primeira é a simpatia

Não direi a primeira em tempo, mas a primeira conforme vou citando, e cito por graus de simplicidade. Tem o interprete que sentir simpatia pelo símbolo que se propõe interpretar. A atitude cauta, a irônica, a deslocada – todas elas privam o interprete da primeira condição para poder interpretar.

 

A segunda é a intuição

A simpatia pode auxilia-la, se ela já existe, porém não criá-la. Por intuição se entende aquela espécie de entendimento com que se sente o que está além do símbolo, sem que se veja.

 

A terceira é a inteligência

A inteligência analisa, decompõe, reconstrói noutro nível o símbolo; tem, porém, que fazê-lo depois que, no fundo, é tudo o mesmo.

 

A quarta é a compreensão

Entendendo por esta palavra o conhecimento de outras matérias, que permitam que o símbolo seja iluminado por várias luzes, relacionado com vários outros símbolos, pois que, no fundo, é tudo o mesmo. Assim, certos símbolos não podem ser bem entendidos se não houver antes, ou no mesmo tempo, o entendimento de símbolos diferentes.

 

A quinta é menos definível

 

 

Mensagem
 
Primeira parte / Brasão
  1. Os campos
Segundo / O das quinas

 

        Baste a quem baste o que lhe basta

        O bastante de lhe bastar!

        A vida é breve, a alma é vasta:

        Ter é tardar.

 

Segunda parte / Mar português
  1. Mar português

 

        Valeu a pena? Tudo vale a pena

        Se a alma não é pequena.

 

PESSOA, Fernando. Mensagem. In PESSOA, Fernando. Obra poética. Rio de Janeiro: Companhia José Aguilar Editora, 1974.

 

Jovens, tão falsos, tão inconstantes

No Sul
(Das Canções do Príncipe Livrepássaro.)
Eis-me suspenso a um galho torto
E balançando aqui meu cansaço.
Sou convidado de um passarinho
E aqui repouso, onde está seu ninho.
Mas onde estou? Ai, longe, no espaço.
Sul da inocência, me acolhe nela!
Razão! Trabalho pesado e ingrato!
Que vai ao alvo e chega tão cedo!
Quem pensa a sós, de sábio eu trato,
Cantar a sós – já é para os parvos!
Estou cantando em vosso louvor:
Fazei um círculo e, ao meu redor,
Malvados pássaros, vinde sentar-vos!

 

Jovens, tão falsos, tão inconstantes,

Pareceis feitos bem para amantes

E em passatempos vos entreter …

No Norte amei – e confesso a custo –

Uma mulher, velha de dar susto:

“Verdade”, o nome dessa mulher.

 

Da pobreza do riquíssimo

(Dos Ditirambos de Dioniso, 1888: “Estas são as canções de Zaratustra, que ele cantava para si mesmo, para suportar sua última solidão”.)

 

Dez anos já –

E nenhuma gota me alcançou,

Nem úmido vento nem orvalho do amor

– uma terra sem chuva …

Agora peço a minha sabedoria

Que não se torne avara nessa aridez:

Corra ela própria, goteje orvalho;

 

Um dia mandei as nuvens

Embora de minhas montanhas –

Um dia eu disse, “mais luz, obscuras!”

Agora as chamo, que venham:

Fazei escuro ao meu redor com vossos ubres!

– quero ordenhar-vos,

Vacas das alturas!

Leite quente, sabedoria, doce orvalho do amor

Derramo por sobre a terra.

 

De olhar sombrio!

Não quero ver em minhas montanhas

Acres verdades impacientes.

Dourada de sorriso,

De mim se acerca hoje a verdade,

Adoçada de sol, bronzeada de amor –

Só uma verdade madura eu tiro da arvore.

 

– Quietos!

Uma verdade passa por sobre mim

Igual a uma nuvem –

Com relâmpagos invisíveis ela me atinge.

Por largas lentas escadas

Sobe até mim sua felicidade:

Vem, vem, querida verdade!

 

– Quietos!

É minha verdade! –

De olhos esquivos,

De arrepios aveludados

Me atinge seu olhar,

Amável, mau, um olhar de moça …

Ela advinha o fundo de minha felicidade,

Ela me advinha – ah! O que ela inventa?

Purpúreo espreita um dragão

No sem-fundo de um olhar de moça.

 

Fátima Guedes – Vaca profana (A MPB calada) – Duração 3:30

 

Quietos! Minha verdade fala!

 

Dez anos já –

E nenhuma gota te alcançou?

Nem úmido vento? Nem orvalho do amor?

Mas quem haveria de te amar,

Ó mais que rico?

Tua felicidade faz secar em torno,

Torna pobre de amor

– uma terra sem chuva …

 

Nisso te reconheço,

Ó mais que rico,

Ó mais pobre de todos os ricos!

Tens de tornar-te mais pobre,

Sábio insensato!

Queres ser amado.

Ama-se somente aos sofredores,

Só se dá amor aos que tem fome:

 

– Eu sou tua verdade …

 

NIETZSCHE, Friedrich. Quatro poemas. In Obras incompletas. São Paulo: Abril Cultural, 1983.

Esta incerteza que quer qualquer impossível calma!

Fernando Pessoa “ele mesmo”
 
Qualquer musica

Qualquer música, ah, qualquer,

Logo que me tire da alma

Esta incerteza que quer

Qualquer impossível calma!

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Gato que brincas na rua

Como se fosse na cama,

Invejo a sorte que é tua

Porque nem sorte se chama.

Bom servo das leis fatais

Que regem pedras e gentes,

Que tens instintos gerais

E sentes só o que sentes.

És feliz porque és assim,

Todo o nada que és é teu.

Eu vejo-me e estou sem mim,

Conheço-me e não sou eu.

Auto psicografia

O poeta é um fingidor

Finge tão completamente

Que chega a fingir que é dor

A dor que deveras sente.

E os que leem o que escreve,

Na dor lida sentem bem,

Não as duas que ele teve,

Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda

Gira, a entreter a razão,

Esse comboio de corda

Que se chama o coração.

Isto

Dizem que finjo ou minto

Tudo que escrevo. Não.

Eu simplesmente sinto

Com a imaginação

Não uso o coração.

esta-incerteza-que-quer-qualquer-impossivel-calma

Por isso escrevo em meio

Do que não está ao pé.

Livre do meu enleio,

Sério do que não é,

Sentir? Sinta quem lê!

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Dorme, que a vida é nada!

Dorme, que tudo é vão!

Se alguém achou a estrada,

Achou-a em confusão,

Com a alma enganada.

Liberdade

Ai que prazer

Não cumprir um dever,

Ter um livro para ler

E não o fazer!

Ler é maçada,

Estudar é nada.

O sol doira

Sem literatura.

O rio corre, bem, ou mal,

Sem edição original.

E a brisa, essa,

De tão naturalmente matinal,

Como tem tempo não tem pressa…

Livros são papeis pintados com tinta.

Estudar é uma coisa em que está indistinta

A distinção entre nada e coisa nenhuma.

Quanto é melhor, quando há bruma,

Esperar por dom Sebastião,

Quer venha ou não!

Grande é a poesia, a bondade e as danças…

Mas o melhor do mundo são as crianças,

Flores, música, o luar, e o sol, que peca

Só quando, em vez de criar, seca.

O mais do que isto

É Jesus Cristo,

Que não sabia nada de finanças

Nem consta que tivesse biblioteca….

 

PESSOA, Fernando. O guardador de rebanhos e outros poemas. São Paulo: Cultrix, 1997.