Esta incerteza que quer qualquer impossível calma!

Fernando Pessoa “ele mesmo”
 
Qualquer musica

Qualquer música, ah, qualquer,

Logo que me tire da alma

Esta incerteza que quer

Qualquer impossível calma!

=#=#=#=#=#=#=#=#=#=#=#=#=#=#=#=#=

Gato que brincas na rua

Como se fosse na cama,

Invejo a sorte que é tua

Porque nem sorte se chama.

Bom servo das leis fatais

Que regem pedras e gentes,

Que tens instintos gerais

E sentes só o que sentes.

És feliz porque és assim,

Todo o nada que és é teu.

Eu vejo-me e estou sem mim,

Conheço-me e não sou eu.

Auto psicografia

O poeta é um fingidor

Finge tão completamente

Que chega a fingir que é dor

A dor que deveras sente.

E os que leem o que escreve,

Na dor lida sentem bem,

Não as duas que ele teve,

Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda

Gira, a entreter a razão,

Esse comboio de corda

Que se chama o coração.

Isto

Dizem que finjo ou minto

Tudo que escrevo. Não.

Eu simplesmente sinto

Com a imaginação

Não uso o coração.

esta-incerteza-que-quer-qualquer-impossivel-calma

Por isso escrevo em meio

Do que não está ao pé.

Livre do meu enleio,

Sério do que não é,

Sentir? Sinta quem lê!

=#=#=#=#=#=#=#=#=#=#=#=#=#=#=#=#=

Dorme, que a vida é nada!

Dorme, que tudo é vão!

Se alguém achou a estrada,

Achou-a em confusão,

Com a alma enganada.

Liberdade

Ai que prazer

Não cumprir um dever,

Ter um livro para ler

E não o fazer!

Ler é maçada,

Estudar é nada.

O sol doira

Sem literatura.

O rio corre, bem, ou mal,

Sem edição original.

E a brisa, essa,

De tão naturalmente matinal,

Como tem tempo não tem pressa…

Livros são papeis pintados com tinta.

Estudar é uma coisa em que está indistinta

A distinção entre nada e coisa nenhuma.

Quanto é melhor, quando há bruma,

Esperar por dom Sebastião,

Quer venha ou não!

Grande é a poesia, a bondade e as danças…

Mas o melhor do mundo são as crianças,

Flores, música, o luar, e o sol, que peca

Só quando, em vez de criar, seca.

O mais do que isto

É Jesus Cristo,

Que não sabia nada de finanças

Nem consta que tivesse biblioteca….

 

PESSOA, Fernando. O guardador de rebanhos e outros poemas. São Paulo: Cultrix, 1997.

Criaturas que não esperam nada

A sua voz era baça e tremula, como as das criaturas que não esperam nada, porque é perfeitamente inútil esperar (Fernando Pessoa, correspondente estrangeiro, apresenta Bernardo Soares-Vicente Guedes, empregado de comercio).

 

Uma consciência de si, e uma visão da vida e do homem

 

        Para que um homem seja distintivamente e absolutamente moral, tem que ser um pouco estupido. Para que um homem possa ser absolutamente intelectual, tem que ser um pouco imoral.

        Pertenço a uma geração que herdou a descrença na fé cristã (no fato cristão) e que criou em si uma descrença em todas as outras fés. Os nossos pais tinham ainda o impulso credor, que transferiam do cristianismo para outras formas da ilusão.

        Uns eram entusiastas só da beleza, outros tinha a fé na ciência e nos seus proveitos, e havia outros que, mais cristãos ainda, iam buscar a orientes e ocidentes outras formas religiosas com que entretivessem a consciência, sem elas oca, de meramente viver.

 

        Tudo isso nós perdemos, de todas estas consolações nascemos órfãos. Cada civilização segue a linha intima de uma religião que a representa: passar para outras religiões é perder essa, e por fim perde-las a todas.

criaturas-que-nao-esperam-nada

Nós perdemos essa, e as outras também.

Ficamos, pois, cada um entregue a si próprio, na desolação de se sentir viver. Um barco parece ser um objeto cujo fim é navegar; mas o seu fim não é navegar, senão chegar a um porto. Nós encontramo-nos navegando, sem a ideia do porto a que nos deveríamos acolher.

 

Reproduzimos assim, na espécie dolorosa, a formula aventureira dos argonautas: navegar é preciso, viver não é preciso.

 

Sem ilusões, vivemos apenas do sonho, que é a ilusão de quem não pode ter ilusões. Vivendo de nós próprios, diminuímo-nos, porque o homem completo é o homem que se ignora.

 

Também há universo na rua dos Douradores …

 

        Amanhã também eu – a alma que sente e pensa, o universo que sou para mim -, sim, amanhã eu também serei o que deixou de passar nessas ruas, o que outros vagamente evocarão com um “o que será dele?” E tudo quanto faço, tudo quanto sinto, tudo quanto vivo, não será mais que um transeunte a menos na quotidianidade de ruas de uma cidade qualquer “ (Soares, 1914). *

* Esse texto é uma versão abreviada de um “Livro do Desassossego” composto por Bernardo Soares, ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa.

 

SOARES, Bernardo. Livro do desassossego. In PESSOA, Fernando. Obra poética. Rio de Janeiro: Companhia José Aguilar Editora, 1974.

O espirito humano tende naturalmente para criticar

        “Nasci em um tempo em que a maioria dos jovens haviam perdido a crença em Deus, pela mesma razão que os seus maiores a haviam tido – sem saber porque. E então, porque o espirito humano tende naturalmente para criticar porque sente, e não porque pensa, a maioria desses jovens escolheu a Humanidade para sucedâneo de Deus.

        Pertenço, porém, aquela espécie de homens que estão sempre na margem daquilo a que pertencem […]. Por isso nem abandonei Deus tão amplamente como eles, nem aceitei nunca a Humanidade.

        Considerei que Deus, sendo improvável, poderia ser, podendo, pois, dever ser adorado;. Mas que a Humanidade, sendo uma mera ideia biológica, e não significando mais que a espécie animal humana, não era mais digna de adoração do que qualquer outra espécie animal.

        Este culto da Humanidade, com seus ritos de Liberdade e Igualdade, pareceu-me sempre uma revivescência dos cultos antigos, em que animais eram como deuses, ou os deuses tinham cabeças de animais.

        Assim, não sabendo crer em Deus, e não podendo crer numa soma de animais, fiquei, como outros da orla das gentes, naquela distância de tudo a que comumente se chama a Decadência.

        A Decadência é a perda total da inconsciência; porque a inconsciência é o fundamento da vida. O coração, se pudesse pensar, pararia.

Pedi tão pouco a vida e esse mesmo pouco a vida me negou

        Uma réstia de parte do sol, um campo próximo, um bocado de sossego com um bocado de pão, não me pesar muito o conhecer que existo. E não exigir nada dos outros nem exigirem eles nada de mim.

        Isto mesmo me foi negado, como quem nega a esmola não por falta de boa alma, mas para não ter que desabotoar o casaco.

o-espirito-humano-tende-naturalmente-para-criticar

        Considerando que eu ganhava pouco. Disse-me o outro dia um amigo, sócio de uma firma que é prospera por negócios com todo o Estado: “você é explorado, Soares”.

        Recordou-me isso de que o sou. Mas como na vida temos todos que ser explorados. Pergunto se valera menos a pena ser explorado pelo Vasques das fazendas do que pela vaidade, pela gloria, pelo despeito, pela inveja ou pelo impossível.

Há os que Deus mesmo explora, e são profetas e santos na vacuidade do mundo

        Ah, compreendo! O patrão Vasques é a Vida. A Vida, monótona e necessária, mandante e desconhecida. Este homem banal representa a banalidade da Vida. Ele é tudo para mim, por fora, porque a Vida é tudo para mim por fora.

        E, se o escritório da Rua dos Douradores representa para mim a vida, este meu segundo andar, onde moro, na mesma Rua dos Douradores, representa para mim a Arte. Sim, a Arte, que mora na mesma rua que a Vida. Porem num lugar diferente, a Arte que alivia da vida sem aliviar de viver, que é tão monótona como a mesma vida, mas só em lugar diferente.

        E assim sou, fútil e sensível, capaz de impulsos violentos e absorventes, maus e bons, nobres e vis. Mas nunca de um sentimento que subsista, nunca de uma emoção que continue, e entre para a substancia da alma”. (*)

Psicologia de Rebanhos

“O rebanho é os meus pensamentos e os meus pensamentos são todos sensações” (Fernando Pessoa).

        “Tudo em mim é a tendência para ser a seguir outra coisa. Uma impaciência da alma consigo mesma, como com uma criança inoportuna. Um desassossego sempre crescente e sempre igual. Tudo me interessa e nada me prende”. (*)

(*) PESSOA, Fernando. Livro do desassossego: composto por Bernardo Soares, ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

O meu instinto de perfeição deveria inibir-me de acabar

 

        “Pasmo sempre quando acabo qualquer coisa. Pasmo e desolo-me. O meu instinto de perfeição deveria inibir-me de acabar; deveria inibir-me até de dar começo. Mas distraio-me e faço.

        O que consigo é um produto, em mim, não de uma aplicação de vontade, mas de uma cedência dela. Começo porque não tenho força para pensar; acabo porque não tenho alma para suspender. Este livro é a minha cobardia” (Pessoa, 1999).

 

        “’Fernando Pessoa não existe, propriamente falando’. Quem nos disse foi Álvaro de Campos, um dos personagens inventados por Pessoa para lhe poupar o esforço e o incomodo de viver.

             Dúvida e hesitação são os dois absurdos pilares mestres do mundo segundo Pessoa e do Livro do Desassossego, que é seu microcosmo.

        Explicando o seu próprio mal e o do livro numa carta a Armando Cortes-Rodrigues datada de 19 de novembro de 1914, o jovem Pessoa diz: ‘O meu estado de espirito obriga-me agora a trabalhar bastante, sem querer, no Livro do Desassossego.

        Mas tudo fragmentos, fragmentos, fragmentos’. E numa carta escrita um mês antes ao mesmo amigo, fala ‘de uma depressão profunda e calma’, que só lhe permitia escrever ‘pequenas coisas’ e ‘quebrados e desconexos pedaços do Livro do Desassossego’.

 

o-meu-instinto-de-perfeicao-deveria-inibir-me-de-acabar

        A ficção de Soares (a quase-realidade de Pessoa), mais do que uma mera justificação ou explicação deste desconexo Livro, é proposta como modelo de vida para todas as pessoas que não se adaptam a vida real normal e cotidiana, e não só.

        Pessoa sustentava que para viver bem era preciso manter sempre vivo o sonho, sem nunca o realizar, dado que a realização seria sempre inferior ao sonhado. E deu-nos Bernardo Soares para mostrar como se faz.

       

Como se faz então? Não fazendo. Sonhando.

        Cumprindo os nossos deveres cotidianos, mas vivendo, simultaneamente, na imaginação. Viajando imenso, na imaginação. Conquistando como Cesar, na imaginação. Gozando sexualmente, na imaginação. Sentindo tudo de todas as maneiras, não na carne, que sempre cansa, mas na imaginação.

        Viver sonhando, sonhar imaginando, imaginar sentindo – era este o credo que ressoava em quase todos os cantos do universo de Fernando Pessoa, mas Soares era o exemplo mais prático disto” (Zenith, 1997).

 

“A sonhar eu venci mundos,

Minha vida um sonho foi.

Cerra teus olhos profundos

Para a verdade que dói.

A Ilusão é mãe da vida:

Fui doido e tudo por Deus.

Só a loucura incompreendida

Vai avante para os céus” (Pessoa, 1974).

Psicologia de Rebanhos

“O rebanho é os meus pensamentos e os meus pensamentos são todos sensações” (Fernando Pessoa).

        A vida real é uma sensação. O sonho é uma sensação. A ilusão é uma sensação.

Referencias

PESSOA, Fernando. Obra poética. Rio de Janeiro: Companhia José Aguilar Editora, 1974.

PESSOA, Fernando. Livro do desassossego: composto por Bernardo Soares, ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

ZENITH, Richard. Introdução. In PESSOA, Fernando. Livro do desassossego: composto por Bernardo Soares, ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

Louco, sim, louco, porque quis grandeza

D. Sebastião, Rei de Portugal

 

Louco, sim, louco, porque quis grandeza

Qual a Sorte a não da.

Não coube em mim minha certeza;

Por isso onde o areal esta

Ficou meu ser que houve, não o que há.

 

Minha loucura, outros que me a tomem

Com o que nela ia.

Sem a loucura que é o homem

Mais que a besta sadia,

Cadáver adiado que procria?

* * *

Mar português

 

Valeu a pena? Tudo vale a pena

Se a alma não é pequena.

 Louco, sim, louco, porque quis grandeza

 * * *

 Auto psicografia

 

O poeta é um fingidor.

Finge tão completamente

Que chega a fingir que é dor

A dor que deveras sente.

 

E os que leem o que escreve,

Na dor lida sentem bem,

Não as duas que ele teve,

Mas só a que eles não têm.

 

E assim nas calhas de roda

Gira, a entreter a razão,

Esse comboio de corda

Que se chama o coração.

* * *

 Isto

 

Dizem que finjo ou minto

Tudo que escrevo. Não.

 Eu simplesmente sinto

Com a imaginação.

Não uso o coração.

 

Por isso escrevo em meio

Do que não está ao pé,

Livre do meu enleio,

Sério do que não é.

Sentir? Sinta quem lê!

* * *

 “Conversação entre João e Maria” e “A Sonhar Eu Venci Mundos” – Duração 2:28.

Psicologia de Rebanhos

“O rebanho é os meus pensamentos e os meus pensamentos são todos sensações” (Fernando Pessoa).

        O que alguém sente somente ela/ele sente. Somente a ela/ele é possível dizer o que deveras sente. Se é loucura, se é fantasia, realidade ou imaginação, os outros que a tomem. Para ela/ele é o que houve, é o que há. É.

PESSOA, Fernando. Poesias. Porto Alegre: L&PM, 1996.

O guardador de rebanhos

SOU UM guardador de rebanhos.

O rebanho é os meus pensamentos

E os meus pensamentos são todos sensações.

Penso com os olhos e com os ouvidos

E com as mãos e os pés

E com o nariz e a boca

 

O guardador de rebanhos 7

Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la

E comer um fruto é saber-lhe o sentido.

 

Por isso quando num dia de calor

        Me sinto triste de gozá-lo tanto,

      E me deito no comprido da erva,

E fecho os olhos quentes,

Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,

Sei a verdade e sou feliz.

 

Psicologia de Rebanhos

“O rebanho é os meus pensamentos e os meus pensamentos são todos sensações” (Fernando Pessoa).

 

        O desenvolvimento da linguagem proporciona ao homem criar uma enormidade de ideias de significados para as suas vivencias. Essa capacidade diversificada de criação linguística desqualifica as nossas outras formas de dar sentido a vida.

        Venho me juntar ao poeta para mostrar que é suficiente compreender uma flor vendo-a e cheirando-a. As nossas sensações criam os nossos pensamentos. As sensações têm o seu jeito próprio de dar sentido ao mundo. A Psicologia trabalha com a compreensão do como formamos as nossas sensações.

 

 

CAEIRO, Alberto. O guardador de rebanhos. In PESSOA, Fernando. Obra poética. . Rio de Janeiro: Companhia José Aguilar Editora, 1974.