Estudar é uma tarefa de reinvenção, de recriação

        “Estudar é, realmente, um trabalho difícil. Exige de quem o faz uma postura crítica, sistemática. Exige uma disciplina intelectual”. Aquele que estuda é desafiado pelo texto. O objetivo de quem estuda é se apropriar do significado do texto que estuda. Estudar um texto é estudar o estudo de quem o escreveu. Quem estuda percebe que o conhecimento é condicionado pelo seu momento histórico e social. Estudar é uma tarefa de reinvenção, de recriação. Estudar, nessa perspectiva, é ter uma atitude crítica em relação ao texto estudado.

        O ato de estudar é uma atitude crítica diante do mundo. Estudar é, fundamentalmente, e sobretudo, pensar a pratica frente ao mundo. Estudar é ter um diálogo com o autor do texto. “O ato de estudar demanda humildade”. Nem sempre um texto é de fácil compreensão. A compreensão de um texto pode se transformar num grande desafio. “Estudar não é um ato de consumir ideias, mas de cria-las e recria-las”.

O homem e o ambiente em que vive

        Imagine um índio caçando, com seu arco e sua flecha. Ao lado desse índio, imagine também um camponês caçando com uma espingarda. Qual desses dois caçadores pode ser analfabeto? “Não se pode dizer que o índio é analfabeto porque vive numa cultura que não conhece as letras. Para ser analfabeto é preciso viver no meio das letras e não conhecer elas”. É que o homem só existe em relação ao seu ambiente. Não existe homem sem um mundo. “Admitindo-se que todos os seres humanos morressem, mas ficassem as arvores, os pássaros, os animais, os mares, os rios, seria isto mundo”? O mundo existe porque o homem existe para nomeá-lo.

O homem reinventa o mundo

        O homem transforma o mundo através do seu trabalho. Por meio do seu trabalho o homem se expressa no mundo. É fazendo o seu trabalho que o homem transforma o mundo. Sem trabalho não existe homem. Um mundo de homens sem trabalho é um mundo que não existe. Portanto, não existe mundo fora da relação homem-mundo. A visão de mundo que vê o homem como instrumento de produção desconsidera que o homem se expressa no mundo por meio do seu trabalho.

        “Transformando a realidade natural com seu trabalho, os homens criam o seu mundo. Mundo da cultura e da história que, criado por eles, sobre eles se volta, condicionando-os. Isto é o que explica a cultura como produto, capaz ao mesmo tempo de condicionar seu criador”.

        Os homens desenvolvem as suas maneiras de pensar e de se comportar no mundo fundamentadas nas ideias culturais dominantes na sociedade em que fazem parte. Essas maneiras de pensar e de atuar no mundo condicionam o mundo para essas maneiras de pensar e de atuar no mundo. Ao mesmo tempo, os homens são condicionados por essas maneiras de pensar e de atuar no mundo.

        Esse condicionamento as maneiras de pensar e de atuar no mundo estabilizam os homens numa forma de pensar e atuar o mundo que lhes parece segura. Com isso, as inquietações que propõem mudanças trazem consigo o medo do novo, o medo da perda do seu ‘status social’. Esse medo impede a reflexão crítica das ideias e dos comportamentos instituídos.

O homem recria a si mesmo

        “É que, no momento em que os indivíduos, atuando e refletindo, são capazes de perceber o condicionamento de sua percepção pela estrutura em que se encontram, sua percepção começa a mudar, embora isso não signifique ainda a mudança da estrutura. É algo importante perceber que a realidade social é transformável; que feita pelos homens, pelos homens pode ser mudada, que não é algo intocável, um fado, uma sina, diante de que só houvesse um caminho: a acomodação a ela. Poderá dizer-se que a mudança da percepção não é possível antes da mudança da estrutura’’.

Psicologia de Rebanhos

“O rebanho é os meus pensamentos e os meus pensamentos são todos sensações” (Fernando Pessoa).

 

        Experienciando a si mesmo através da vivencia das suas emoções e sentimentos, o homem percebe como ele se usa para fazer as coisas. Percebendo como se usa, o homem pode mudar a maneira como ele se usa. Percebemos que podemos mudar o jeito que atuamos por uma nova percepção de como fazemos isso.

Referencias

FREIRE, Paulo. Ação cultural para a liberdade e outros escritos. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2011.

 

Uma mudança no público consumidor da tatuagem

Saia desse corpo que não lhe pertence!

 

Capitulo 8

 

        Nas décadas de 1950 e 1960 ocorre uma mudança no público consumidor da tatuagem. A tatuagem “passa também a ser utilizada por gangues e como emblema de movimentos contra culturais, como o movimento hippie e mais tarde o movimento punk” (Silva, 2010). “Passou, de forma de expressão popular através da qual os setores marginais comunicavam seus sentimentos e paixões, para converter-se numa marca ornamental de identificação grupal e de transgressão social” (Fonseca, 2003).

        “Na sociedade atual, a tatuagem perde parcialmente essa funcionalidade (identificação grupal e transgressão social), porém, segue exercendo o papel de indicativo da construção do indivíduo, expressando socialmente sua singularidade e autonomia” (Ferreira, 2012).

 

Tatuagem e arte

        “A arte dos anos 1960 tira o corpo da dimensão do pecado, da repressão, da inacessibilidade e da alienação causada pelas restrições sociais e o coloca na dimensão de agente e receptor de sensações e prazeres”.

        Na body art, “o artista se coloca como obra viva, usando o corpo como instrumento, destacando sua ligação com o público e a relação tempo-espaço. Desde a body art, não basta uma arte que retrate o corpo, ou que seja produzida sobre o corpo, ela tem que ser produzida com o corpo.

        O happening é uma forma de expressão artística desenvolvida em grupo que valoriza a espontaneidade e o improviso”.

        No início dos anos 1970, “o coletivo cede lugar ao individual, o improviso e a espontaneidade, ao conceitual. Surge a performance, que consiste na justaposição e na colagem de imagens não relacionadas, selecionadas ao acaso, de maneira lúdica e anárquica. Difere do happening porque, em vez de um ritual, trata-se agora de um espetáculo”.

        A body modification cria uma relação do artista com o corpo totalmente diferente das estabelecidas pela body art e pela performance. Nela, a relação corpo-objeto é independente da relação tempo-espaço, conforme entendida anteriormente.

        Não há distinção entre o artista e a obra, entre o sujeito criador e o objeto criado. O sujeito é o objeto e não deixará de ser, independentemente do tempo e do espaço em que se encontre. Não vigora aqui a premissa do pensamento racional, do discurso conceitual” (Pires, 2005).

        A folk-comunicação, “desenvolvida por Luiz Beltrão, teorizando sobre as transformações tanto na forma quanto no sentido, colocam a tatuagem numa categoria rudimentar de comunicação” (Simões, 2011). “Pois é o efeito obtido que conta a partir de agora: não mais apenas a decifração do significado da obra previamente realizada” (Nascimento, 2007).

 

Tatuagem e estigma

        “O sentido estigmatizador do uso da tatuagem começa a mudar a partir dos anos 1980, com o estabelecimento de modernas lojas exclusivas (dotadas de equipamentos especializados, materiais descartáveis e diferentes meios de promoção), a profissionalização de seus praticantes, o melhoramento da técnica. E, sobretudo, as novas formas de conceber o corpo, como obra-prima de construção do sujeito e aberto às transformações. A tatuagem torna-se, assim, uma das opções estéticas procuradas pelas novas gerações” (Perez, 2006).

 

Psicologia de Rebanhos

O rebanho é os meus pensamentos

E os meus pensamentos são todos sensações.

(Fernando Pessoa)

        Podemos considerar a tatuagem como uma forma de construção da identidade daquele que se tatua. Assim, o corpo é identificado e individualizado pela tatuagem. O tatuado considera seu corpo como um corpo singular e único. O tatuado, deste modo, confere a si uma personalidade autônoma e independente.

        Dessa forma, o tatuado cumpre a determinação estética da sociedade de consumo que trata o indivíduo como objeto de consumo. A psicoterapia trabalha a construção do indivíduo pela potência do seu corpo biológico em relação com a sociedade em que ele atua.

 

Referencias

FERREIRA, Deborah Cristina. O corpo como texto: analise discursiva da escrita no corpo. Revista Eventos Pedagógicos, v. 3, n. 1 Numero Especial, p. 138 – 146, abr, 2012. Acesso em 08 de março de 2015. Disponível em

FONSECA, Andrea Lissett Perez. Tatuar e ser tatuado: etnografia da pratica contemporânea da tatuagem. Florianópolis, agosto de 2003. Acesso em 08 de março de 2015. Disponível em

NASCIMENTO, Evando. Os sentidos da i-materialidade: o pensamento estético de Gumbrecht e Oiticica. Ensaio publicado originalmente nos Estados Unidos com o título de “The Senses of I-Materiality”, em Mendes, Victor K.; Rocha, João Cezar de Castro (Org.). Producing Presences: Branching Out From Gumbrecht’s Work. Darmouth: University of Massachusetts Dartmouth Press, 2007, p. 267-286. Acesso em 09 de janeiro de 2015. Disponível em

PEREZ, Andrea Lissett. A identidade à flor da pele. Etnografia da prática da tatuagem na contemporaneidade. MANA 12(1): 179-206, 2006. Julho de 2005. Acesso em 08 de março de 2015. Disponível em

PIRES, Beatriz Ferreira. O corpo como suporte da arte: piercing, implante, escarificação, tatuagem. São Paulo: Editora SENAC, 2005.

SILVA, Bruna Cristina Daminelli. A tatuagem na contemporaneidade. Criciúma, julho de 2010. Acesso em 21 de julho de 2015. Disponível em

SIMÕES, Renan. A Comunicação não Verbal Através da Tatuagem. XIV Conferência Brasileira dos Estudos da Folkcomunicação – “O artesanato como processo comunicacional” – IX Encontro Regional de Comunicação, 2011. Acesso em 21 de julho de 2015. Disponível em

Uma espécie de sentimento religioso cósmico

        Os gênios religiosos de todas as épocas têm-se distinguidos do comum dos mortais por uma espécie de sentimento religioso cósmico, que não conhece dogmas nem concebe um Deus a imagem do homem.

        Por isso não pode haver igrejas cujos ensinamentos centrais se apoiem nesse sentir. Será, portanto, entre os heréticos de todas as épocas que vamos encontrar homens impregnados do mais elevado sentimento religioso, considerados por seus contemporâneos, ora como ateus, ora como santos.

        Através desse prisma, homens como Demócrito, Francisco de Assis e Spinoza estão muito próximos uns dos outros.

* * *

        Pessoalmente, sinto-me capaz de atingir o mais alto grau de felicidade possível, através das grandes obras de arte. Delas recebo dons espirituais de tal força que coisa alguma poderia proporcionar-me idênticas sensações. Em minha vida, as visões artísticas têm desmedida influência. Afinal, o trabalho de pesquisadores e cientistas germina no campo da imaginação e da intuição.

* * *

        Não posso imaginar um Deus a recompensar e a castigar o objeto de sua criação. Não posso fazer ideia de um ser que sobreviva após a morte do corpo. Se semelhantes ideias germinam em um espirito, para mim é ele um fraco, medroso e estupidamente egoísta.

* * *

        O espirito cientifico, fortemente armado com seu método, não existe sem a religiosidade cósmica. Ela se distingue da crença das multidões ingênuas que consideram Deus um ser de quem esperam benignidade e do qual temem o castigo.

* * *

        Não basta ensinar ao homem uma especialidade. Porque se tornara assim uma máquina utilizável e não uma personalidade. É necessário que adquira um sentimento, um senso prático daquilo que vale a pena ser empreendido, daquilo que é belo, do que é moralmente correto.

* * *

        A religião do futuro será cósmica e transcendera um Deus Pessoal evitando os dogmas e a teologia.

* * *

        O valor do homem é determinado, em primeira linha, pelo grau e pelo sentido em que ele se libertou do seu ego.

* * *

        Deus é inexorável no oferecimento de dons: Deu-me apenas a teimosia de uma mula. Não! Deu-me também um agudo sentido de dor.

* * *

        O homem pode encontrar significado na vida, curta e perigosa como é, somente através de seu devotamento a sociedade.

* * *

        Evidentemente, nos existimos para nossos semelhantes – em primeiro lugar, para as pessoas queridas de cujo bem-estar e sorrisos depende nossa felicidade; depois, para todos esses seres que não conhecemos pessoalmente, aos quais, entretanto, estamos ligados pelos laços de simpatia e fraternidade humanas.

* * *

        Sem esta fé eu não poderia ter uma convicção firme e inabalável acerca do valor independente do conhecimento.

 

Psicologia de Rebanhos

O rebanho é os meus pensamentos

E os meus pensamentos são todos sensações.

(Fernando Pessoa)

 

        Quem lê as histórias da civilização humana, encontra em diversas narrativas a existência de um sentimento de religiosidade que liga o homem a algo que ele desconhece. A esse algo desconhecido, a que o homem se submete por ignorância, se dá diferentes nomes, desde o início da história conhecida – deuses, cosmos, deus, nada, liberdade, ciência, ética. Esse rebanho de nomes cunhados pelos pensamentos se sustenta na enganosa compreensão das suas sensações.

 

Referencias

EINSTEIN, Albert. O pensamento vivo de Einstein. São Paulo: Martin Claret Editores, 1986.

Recordar é sentir de novo

Da nossa própria mente

        As sensações e a memória das sensações produzem todas as nossas ideias. A memória é um dos efeitos da nossa sensibilidade física. Quando sentimos, necessariamente estamos recordando sensações vividas. Recordar é sentir de novo.

        Pensamos ou produzimos ideias quando percebemos as semelhanças ou as diferenças, as concordâncias ou as discordâncias que existem entre si os objetos ou as situações diferentes. Essa capacidade de percepção é oriunda das nossas sensações. Pensar é sentir de novo.

        Dizemos que o nosso cérebro produz a nossa mente onde são produzidos os nossos pensamentos. A percepção das relações que os objetos ou as situações tem conosco formam a nossa mente.

        Mas, então, o que é os pensamentos? Os pensamentos são operações da nossa mente. Essas operações se resumem a perceber diferenças entre as coisas (objetos, situações). Então, os nossos pensamentos se reduzem ao julgamento que fazemos sobre as diferenças que percebemos entre as coisas. “Julgar não é senão sentir. Todo juízo é apenas uma sensação”.

 

Da nossa própria ignorância

        ”Prazeres físicos são os únicos prazeres reais.

        A medida que a falta de dinheiro se faça sentir num Estado acostumado ao luxo, a nação cai em descredito.

        Para evitar estas consequências, seria preciso reaproximar-se duma vida simples, mas tanto os costumes como as leis a isto se opõem. Assim, a época de maior luxo de uma nação é comumente a época mais próxima de sua queda e de seu aviltamento.

        Nas questões complicadas, e sobre as quais se julga, sem paixão, só se engana por ignorância, isto é, imaginando que o lado que se vê num objeto é tudo o que há para ver neste mesmo objeto”.

        É através das nossas sensações que compreendemos o mundo. É através das sensações que nossos prazeres e nossas dores se realizam. As nossas sensações são enganosas, exceto a dor. Por que as nossas ideias, oriundas das nossas sensações, não seriam também enganosas? A época de maior valorização das ideias de uma nação é comumente a época mais próxima da sua queda e do seu aviltamento.

        A supremacia dos pensamentos em detrimento das sensações revela uma época que julga os fatos e os objetos e as suas relações, sem paixão, e assim se engana por ignorância. Por ignorar que os pensamentos são oriundos das sensações. Essa época suprema imagina que valorizar os pensamentos por si mesmos é tudo o que há para compreender sobre os fatos e os objetos e as suas relações com cada um de nos.

 

Da nossa própria paixão

        “Para amar os homens é preciso esperar pouco deles: para ver os seus defeitos sem amargor é preciso acostumar-se a perdoa-los”. O perdão é uma espécie de justiça que os homens se sentem no direito de exigir.

        “A liberdade do homem consiste no exercício livre de seu poder”. Esse poder se restringe ao âmbito das nossas capacidades. “Porque seria ridículo tomar como uma não-liberdade a impotência que temos de atravessar a nuvem como a águia, viver sob as aguas como a baleia e fazer-nos rei, papa ou imperador.

        Não se pode, portanto, formar nenhuma ideia desse termo liberdade, aplicado à vontade”.

        É que tanto a vontade quanto a nossa liberdade de ação estão orientadas pelas sensações que sentimos das nossas relações com os fatos ou os objetos. E como as nossas sensações são enganosas, melhor ficar com o ensinamento de Jesus: “Perdoai-vos, pai. Eles não sabem o que fazem”. Por isso, o perdão é uma espécie de justiça que os homens se sentem no direito de exigir, oriundo dessa sua existência sem liberdade de escolha.

        Podemos concluir que os nossos julgamentos não são nem verdadeiros nem falsos, apesar de enganosos. Nossos julgamentos são oriundos das nossas paixões e ignorância sensível aos fatos e objetos.

 

Psicologia de Rebanhos

O rebanho é os meus pensamentos

E os meus pensamentos são todos sensações.

(Fernando Pessoa)

 

        Pode-se considerar a mente como a faculdade produtora dos nossos pensamentos. Nesse sentido, a mente é apenas sensações e recordações de sensações. Mas, também pode-se considerar a mente como um efeito das faculdades produtoras dos nossos pensamentos. Nesse outro sentido, a mente é apenas uma reunião de pensamentos que podem ser acessados quando sentimos.

 

Referencias

 

HELVÉTIUS, Claude-Adrien. Do espirito. São Paulo: Abril Cultural, 1984.

 

Como é possível que o universo seja infinito?

        “Como é possível que o universo seja infinito? Como é possível que o universo seja finito? Se o mundo é finito, onde termina o mundo? Se o mundo é finito, onde se encontra o mundo? Onde o universo”?

        “O mundo que existe neste espaço finito possui todas as coisas finitas que existem neste espaço”.

        “Eu considero o universo ‘todo infinito’ porque não possui limite, nem termo, nem superfície; digo não ser o universo ‘totalmente infinito’ porque cada parte que dele possamos pegar é finita, e cada um dos inúmeros mundos que contem é finito”.

        “Considerar o mundo ilimitado não traz consigo inconveniente algum, e até nos liberta de inúmeras angustias que nos envolvem se afirmamos o contrário. Por que frustrar a capacidade infinita, defraudar a possiblidade de mundos infinitos que podem existir? Por que deveríamos afirmar algo que, uma vez admitido, traz consigo tantos inconvenientes, e que, sem favorecer, de forma alguma, leis, religiões, fé ou moralidade, destrói tantos princípios de filosofia”?

        Para a solução desse impasse, vamos “primeiro considerar que, sendo o universo infinito e imóvel, não é necessário procurar o motor dele. Segundo, se infinitos são os mundos contidos nele, tais como as terras, os fogos e outras espécies de corpos chamados astros, todos se movem pelo princípio interno, que é a própria alma, sendo assim, é inútil investigar acerca de seu motor extrínseco”.

        “O movimento de todas as coisas, portanto, não seria de natureza mecânica, cujo deslocamento e cujos entrechoques resultariam de um movimento inicial comunicado por um ser superior. O movimento seria da natureza dos seres vivos e todas as coisas possuiriam um princípio anímico, que as faz transformarem-se permanentemente.

        O princípio anímico não se distingue da própria matéria animada. Não existem duas substancias (matéria e espirito) distintas. Tudo o que existe estaria reduzido a uma única essência material provida de animação espiritual”.

        Portanto, Deus é “imanente ao Universo e idêntico a ele. Deus não seria um ser que tivesse criado o Universo, mas seria o próprio mundo”.

        “Finalmente, pelo que se passa a nossa vista, cada objeto parece limitar outro objeto: o ar limita as colinas, os montes limitam o ar, e a terra o mar, e, por seu turno, o mar termina todas as terras; mas na verdade, nada há, para além do todo, que lhe sirva de limite.

        Efetivamente, por todo o lado, abre-se as coisas, em toda direção, um espaço sem limites”.

        “É, pois, um só o céu, um o espaço imenso, uma a abobada, um o continente universal, uma a região etérea pela qual tudo passa e tudo se movimenta. Aí podem ser observados sensivelmente inúmeras estrelas, astros, globos, sois e terras e, com razão, chega-se a conjeturar que são infinitos. O universo imenso e infinito é o composto que resulta de tal espaço e de tantos corpos nele contidos”.

        “Esse espaço nós o chamamos infinito, porque não existe razão, conveniência, possiblidade, sentido ou natureza que deva limita-lo”.

        “Mesmo que isto seja verdade, eu não quero acreditar; porque este infinito não pode ser compreendido pelo meu raciocínio, nem digerido pelo meu estomago. Com certeza, se nós quisermos colocar os sentidos como juiz ou dar-lhes a função que lhes é própria, isto é, ser o veículo originário de toda a informação, acharemos então muito difícil.

        Não são os sentidos que percebem o infinito; não é pelos sentidos que chegamos a esta conclusão, porque o infinito não pode ser objeto dos sentidos.

        Para que então servem os sentidos?

        Servem somente para excitar a razão, para tomar conhecimento, indicar e dar testemunho parcial, não para testemunhar sobre tudo, nem para julgar, nem para condenar. Porque nunca, mesmo perfeitos, são isentos de alguma perturbação. Por isso a verdade, em pequena parte, brota desse fraco princípio que são os sentidos, mas não reside neles.

        A inconstância dos sentidos demonstra que eles não são princípio de certeza e não a determinam senão por certa comparação e conferencia de um objeto sensível com outro e de uma sensação com outra. Daí se infere que a verdade é relativa nos diversos sujeitos.

        Nenhum dos sentidos nega o infinito, visto que não o podemos negar, pelo fato de não compreendermos o infinito com os sentidos; mas, como os sentidos são compreendidos por ele e a razão vem confirma-lo, somos obrigados a admiti-lo”.

Psicologia de Rebanhos

O rebanho é os meus pensamentos

E os meus pensamentos são todos sensações.

(Fernando Pessoa)

        A Psicologia de Rebanhos está fundamentada no trabalho com as sensações. Não é por conta da inconstância dos sentidos que eles não são princípio de certeza. É, exatamente, por sua incerteza que as sensações são a nossa medida do universo. Nossa medida do universo é parcial, singular e única.

        A verdade (palavra que sugere a definição de algo que apenas tem existência verbal), então, é relativa e diversa para cada um de nos. “Porque eu sou do tamanho do que vejo e não do tamanho da minha altura” (Caeiro, 1974).

TAMANHO DO UNIVERSO – Duração 3:11

Referencias

BRUNO, Giordano. Sobre o infinito, o universo e os mundos. São Paulo: Abril Cultural, 1983.

CAEIRO, Alberto. O guardador de rebanhos. In PESSOA, Fernando. Obra poética. Rio de Janeiro: Companhia José Aguilar Editora, 1974.

 

Se andássemos de quatro pés não seriamos humanos

         Como fazemos para nos manter de pé? Quando estamos na posição em pé, estamos equilibrados? O que faz com que nos movamos? Se andássemos de quatro pés não seriamos humanos, seriamos um outro animal. O nosso aparelho locomotor constitui o suporte primordial de todas as outras estruturas próprias ao humano.

Que o corpo de cada um de nós é marcado por nossas experiências, não se discute. Mas, o que dizer de a nossa maneira de marcar o nosso corpo ser um projeto de vida para esse corpo? Para ser humano, o nosso aparelho locomotor se comporta como um “órgão do sentido”.

 

Isto é, o nosso corpo do sentido, a nossa humanidade.

 

         A maneira como sentamos, andamos, abraçamos ou brigamos está relacionada a nossa vida afetiva. Nossos movimentos refletem nossos afetos. Nossos afetos refletem nossos movimentos. Nossos comportamentos ou atitudes podem ser explicados pela nossa coordenação motora.

A forma como nos movemos no espaço está relacionada à maneira como vivemos o nosso corpo. Deixemos, pois, os antigos conceitos do corpo como maquina, como órgão executor ou como objeto de propriedade.

 

Todos os homens fazem os mesmos gestos, mas cada um os faz à sua maneira.

 

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Há uma forma de movimento própria a uma atitude? É preciso usar grande força muscular para ficar em pé, estável, ou apenas é preciso um equilíbrio adequado? É possível, com a sua participação, modificar a imagem que você tem de seu corpo e fazer com que você adquira uma nova maneira de utiliza-lo.

         Assim, por trás da variedade dos seus movimentos, podemos encontrar, inscrito na sua anatomia, um movimento básico, independente do objeto e do meio externo, porem adaptado a cada objeto e finalidade.

         Um movimento, percebido por uma criança de menos de um ano, pode, pois, ser gravado e será sempre executado em função dessa imagem percebida.

 

Todo gesto está carregado de afeto.

 

Todo afeto está investido em motricidade. A coordenação motora nos permite compreender como um movimento se organiza, paralelamente ao afeto que lhe corresponde. Assim, podemos estudar o afeto em função do movimento e o movimento em função do afeto.

         Um gesto não é um movimento aleatório. Existe uma finalidade que organiza o movimento. Há um fundamento nos seus gestos baseados nos movimentos de expansão e retração motora.  Um movimento é constituído de diversos fatores – tensão, orientação, complexidade, equilíbrio, unidade – em uma síntese essencialmente humana.

Erguer a cabeça, passar a posição sentada e, depois, a ereta, permite ao homem ver as suas mãos, relaciona-las e estabelecer aquela relação cabeça-mãos, que está na base de toda sua atividade de observação, manipulação e criação.

 

Referencias

BÈZIERS, Marie Madeleine e PIRET, Suzanne. A coordenação motora: aspecto mecânico da organização psicomotora do homem. São Paulo: Summus, 1992.

Quem eu sou faz uma diferença

        Não é possível libertar um povo, sem antes, livrar-se da escravidão de si mesmo. A única revolução possível é dentro de nós. Sem esta, qualquer outra será insignificante, efêmera e ilusória, quando não um retrocesso. Quem eu sou faz uma diferença.

        Cada pessoa tem sua caminhada própria. Faça o melhor que puder. Seja o melhor que puder. O resultado virá na mesma proporção de seu esforço. Compreenda que, se não veio, cumpre a você (a mim e a todos) modificar suas (nossas) técnicas, visões, verdades, etc.

 

Pensamentos de Mahatma Gandhi

        O desejo sincero e profundo do coração é sempre realizado; em minha própria vida tenho sempre verificado a certeza disto.

        Acho que vai certo método através das minhas incoerências. Creio que há uma coerência que passa por todas as minhas incoerências assim como há na natureza uma unidade que permeia as aparentes diversidades.

 

        As enfermidades são os resultados não só dos nossos atos como também dos nossos pensamentos.

 

        É o sofrimento, e só o sofrimento, que abre no homem a compreensão interior.

quem-eu-sou-faz-a-diferenca

        Não pode haver nenhuma paz interior sem verdadeiro conhecimento.

        Quem venceu o medo da morte venceu todos os outros medos.

 

        Aquele que não é capaz de governar a si mesmo, não será capaz de governar os outros.

        Quem sabe concentrar-se numa coisa e insistir nela como único objetivo, obtém, ao cabo, a capacidade de fazer qualquer coisa.

        Nas questões de consciência a lei da maioria não conta.

        Acredito na essencial unidade do homem, e, portanto, na unidade de tudo o que vive. Por conseguinte, se um homem progredir espiritualmente, o mundo inteiro progride com ele, e se um homem cai, o mundo inteiro cai em igual medida.

 

Quem sou faz uma diferença – Duração 5:41


 

Referencias

GANDHI, Mahatma. A única revolução possível é dentro de nós. Edição Projeto Periferia, 2004. Acesso em 08 de novembro de 2016. Disponível em

Os nossos sentimentos de dor e de prazer formam o nosso jeito de ser

Dar a palavra aos sentimentos

        O que é dor? O que é prazer? Como você sabe que sente dor e não prazer ou vice-versa? Você já pensou que o seu jeito de sentir dor ou de sentir prazer tem a ver com a maneira como você lida com as coisas da sua vida? Os nossos sentimentos de dor e de prazer formam o nosso jeito de ser. Os sentimentos de dor ou prazer constituem os nossos padrões mentais.

        “Dentre todos os fenômenos mentais que podemos descrever, os sentimentos e os seus ingredientes essenciais – a dor e o prazer – são de longe os menos compreendidos no que diz respeito a sua biologia e em particular a neurobiologia”.

        Algum dia você já se perguntou para que serve ter sentimentos? Você, uma vez, não, algumas vezes, pensou que preferia levar a vida do seu animalzinho de estimação? Afinal, ele tem comida na hora certa, dorme quando quer e ainda tem o seu carinho e o seu cuidado!

        E quanto a você? Esse animalzinho que sente, nem sempre estimado, o que lhe provoca dor? Outras vezes, muito amado e bem cuidado, transborda de prazer; prazer que passa tão rápido! Talvez o melhor mesmo fosse não sentir. Melhor do que ficar nessa gangorra de ajustes e correções para atingir um equilíbrio entre a dor e o prazer.

 

A emoção e os sentimentos humanos, os nossos afetos

Dor e prazer talvez sejam dois conceitos fundamentais na tentativa de compreender os seres humanos e as suas maneiras de viver.

        Tomemos por exemplo que você pode pensar que o amor é um estado agradável causado por algo exterior a você. Bem, então essa é uma ideia que você tem sobre algo exterior a você que lhe causa um estado agradável. A essa ideia você chama de amor.

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        Então, o que você faz é separar o processo de sentir do processo de ter uma ideia sobre algo exterior que lhe pode causar uma emoção. No exemplo acima, o amor, um estado agradável. Quando você desloca a sua emoção para uma ideia, você evita lidar com a dor ou o prazer que essa emoção possa lhe proporcionar.

        Apreciemos agora o fato de como você faz para evitar sentir dor ou prazer ou sentir mais dor e mais prazer. Suponha que você está sentindo uma emoção que lhe provoca dor. Você pode querer sentir mais dor ou deixar de sentir a dor. O que você faz?

        Vamos supor, por exemplo, que o seu estado emocional, no momento, é uma saudade. Essa saudade lhe provoca um estado desagradável que chamaremos de dor. Você, então, busca lembrar de mais coisas que lhe aumentam o nível do seu estado desagradável de dor. Então, você sente mais saudade, mais dor.

        Agora, você não suporta mais esse estado desagradável de dor, por sentir saudade, em que você se encontra. O que você faz para parar de sentir essa dor? Como você faz para parar de sentir essa saudade?

        O poder dos afetos é tal que a única possiblidade de, no nosso caso, deixar de sentir dor é sentir um afeto contrário ainda mais forte do que esse que estamos sentindo.

        “Um afeto não pode ser controlado ou neutralizado exceto por um afeto contrário mais forte do que o afeto que necessita ser controlado”.

Referencias

DAMÁSIO, António. Em busca de Espinosa: prazer e dor na ciência dos sentimentos. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

 

Modernidade ou pós-modernidade ou hipermodernidade?

        Você já ouviu falar de modernidade ou pós-modernidade ou hipermodernidade? Você sabe que diferença faz, para a sua vida, saber ou não sobre isso? Pois bem, no final do século 20, a partir dos anos 1980, as pessoas ainda se preocupavam em ser modernas. Você se considera uma pessoa moderna? Você sabe o que é ser moderno?

        O moderno tem como principal característica valorizar o agora, o momento presente. Para uma pessoa moderna, o próprio moderno já é antigo. Ser moderno, então, poderia ser qualquer outra coisa que você ainda não tinha sido antes. Apenas para deixar de ser aquilo que é para ser outra coisa.

        O moderno surge como um movimento de ruptura. O moderno é um movimento que serve para desvalorizar o que passou, o antigo. E destacar a efemeridade do presente. Mas também para fazer do futuro o lugar da felicidade da existência.

        Ora, mas o que há de moderno acreditar que é numa vida futura que está a felicidade? Rola de boca em boca, desde a muito tempo atrás, lá pelas terras do atual oriente médio, que um cara de cabelos compridos e barbas longas (está na moda, de novo) já havia dito isso no início desses últimos dois mil anos!

        Bem, mas havia a primazia da razão que se seguiu nos anos que se passaram. A razão reinava sobre a vida e criaria um novo mundo de paz, de equidade e de justiça. É, mas como tudo que é moderno, dura pouco …. e passa.

        Esse otimismo, foi característico do século 19, legitimado pelo advento da ciência e da filosofia das Luzes – movimento conhecido pelo nome de Iluminismo. Tanto o Cientismo e o Iluminismo da época não existem mais. Isto é moderno!

         Culpa das guerras do século 20? Onde estava a razão que reinaria sobre as tragédias humanas? A razão havia se tornado instrumento de dominação e escrava da burocracia. Mas, como tudo que é moderno, a dominação e a burocracia também passaram. E a modernidade passou.

Da modernidade a pós modernidade

        “Más línguas” dizem que a modernidade não conseguiu concretizar os ideais das Luzes que objetivava alcançar. Mas deu lugar a uma dinâmica de subjugação burocrática e disciplinar da convivência.

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        “Foucault foi sem dúvida o pensador que mais insistiu neste aspecto corrompido da modernidade que é a disciplina, cuja finalidade consiste mais em controlar os homens que em liberta-los”.

        Mas nem tudo são desgraças ou beneficências. A modernidade possibilitou a desqualificação do passado e a valorização do novo. A modernidade afirmou a primazia do individual sobre o coletivo – valorizando o gosto subjetivo e entronizando o efêmero.

Da pós-modernidade a hipermodernidade

        Bem, mas que diferença isso faz para nós, animais ainda mortais, necessitados, diariamente, de pão com manteiga ou arroz com feijão para sobreviver? Dizem as tais “línguas malignas” que o reinado do descartável seria uma característica da pós-modernidade.

        Portanto, caso você não tenha percebido, mas a modernidade já acabou. Se você foi moderno ou não … já foi. E vivemos a pós-modernidade. Leia esse “vivemos”, não como presente do indicativo, mas como pretérito perfeito, isto é, a pós modernidade também já foi.

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Hipermodernidade

        Uma sociedade caracterizada pela libertinagem – vale tudo! Pelo movimento – a gente corre atrás! Pela fluidez – a fila anda! Pela flexibilidade – ideologia, eu quero uma para viver! Indiferença pelas instituições – governo? Igreja? Escola? Família?

        Uma época de crianças maduras, responsáveis, organizadas, eficientes e tolerantes. As nossas crianças pós-modernas – donas dos seus narizes (cada uma do seu?), egocêntricas e contestadoras – dão lugar as crianças responsivas (malcriadas, respondonas?) e resilientes (elásticas?) e assertivas (realistas, dogmáticas?) dos tempos hipermodernos.

        Outra característica da hipermodernidade seria a passagem do capitalismo de produção da pós-modernidade para uma economia de consumo e de comunicação de massa.

A sociedade hipermoderna

        Você está cansado das cobranças e exigências de resultados a curto prazo? Você está cansado de ter que fazer mais no menor tempo possível? Você sempre tem de agir sem demora? Tudo é feito às pressas? Isto cansa a beça! Isto é ser hipermoderno!

        Você percebe que a corrida da competição faz priorizar o urgente à custa do importante? A meta é a ação imediata à custa da reflexão – primeiro você atira depois pergunta? Você percebe que o acessório é preferido à custa do essencial? Isto é hipermodernidade!

Desempenho hipermoderno

        Ainda dando ouvido as “mas línguas”, escutamos que a pressa tem substituído o vínculo humano pela rapidez – fui! Você tem confundido qualidade de vida com eficiência – milhões de “amigos” no Facebook! Você acredita que as normas e as cobranças obstruem o desempenho. Não se admire de você estar assim – tão cansado!

        Para “celebrar o sempre novo e os gozos do aqui-agora, a civilização consumista opera continuamente para enfraquecer a memória coletiva, acelerando o declínio da continuidade e da repetição ancestral”.

        Você sente que foi deixado a sua própria sorte? Você se sente desinserido da sociedade? Bem-vindo a hipermodernidade!

Hipermodernidade – Duração 3:46

Referencias

LIPOVETSKY, Gilles. Os tempos hipermodernos. São Paulo: Editora Barcarolla, 2004.

A grande morte é semelhante a pequena morte em termos de sentimentos

        Você tem medo de morrer? E viver, do que se trata? Nós estamos sempre perdendo e descobrindo coisas, sempre rompendo com o velho e estabelecendo o novo. A isto chamamos de uma pequena morte. Perder e ganhar. A última, a grande morte é semelhante a pequena morte em termos de sentimentos.

Você sabe definir o que é estar vivo? E morrer, você tem medo?

        O que pode ser estar vivo? Difícil responder, né? São tantas as possibilidades … E morrer? Ah, morrer é mais fácil, não é? Morrer é mais fácil do que viver? Morrer poderia ser aprender como abrir mão daquilo que encorpamos. Morrer poderia ser abrir mão da forma, é estar num corpo e estar sem corpo, é ter limites e não os ter.

Você sabe qual é o seu estilo de morrer?

        Parece haver dois ciclos no processo de viver – expansivo e contido. Seria o mesmo que respirar. Encher e esvaziar. Você dissemina sua experiência no mundo na fase expansiva. Você junta suas experiências em si mesmo na fase contida.

        Atualmente, nós tratamos os nossos corpos como uma ferramenta, um escravo, um instrumento. Forçamos o corpo a viver a vida que a nossa mente quer viver e morrer pelos ideais da nossa mente. E a sua mente vive a vida da sociedade, então você morre dentro do estilo de morrer da sociedade.

       Quando você experiencia a você mesmo enquanto você mesmo, você experiencia o corpo e a mente como uma coisa só. Você experiencia uma coisa diferente do estilo de vida que a sociedade diz para você viver. Qual é o seu estilo?

Morrer é encarar o desconhecido

        Será por isso que o sentimento de morrer provoca medo? Você percebe que o sentimento de morrer evoca o desamparo? O inesperado? O desafio do conhecido? Quando você morre, estabelece novas direções, você ganha novos poderes e perde outros. Você sabe que morrer é abrir mão de padrões de ação, é abrir mão de padrões de pensamento.

        Morrer é ficar inseguro. Morrer é ficar excitado. Morrer é saber que algo está emergindo. Morrer é não saber para onde se está indo. Morrer é um lugar de transição. Morrer é encarar o desconhecido.

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Morrer é sair de si

        Sair de si, mas sem medo, pois após a morte o medo acaba. E você gostaria mesmo é deixar acontecer. Sem se perder, sem controlar. E deixar acontecer é o desejo de experienciar incondicionalmente. Quando você deixa acontecer significa que você cedeu ao corpo, é como ceder ao sono.

        Mas deixar acontecer mobiliza o sentimento de desamparo. Ficamos sem o controle, sem saber o que fazer. Esse desamparo evoca dor. A dor da perda. E a dor da perda intensifica o desamparo. Intensifica o descontrole. Benvindo, a isso o que é viver.

E o seu medo de ficar só?

        Esse é um dos receios mais consistentes que as pessoas têm. Você tem tanto medo de ficar só que é capaz de ficar num relacionamento destrutivo ou desagradável ou inconveniente ou improprio e outros desastres, apenas para não se sentir desamparado. Estou dizendo que muita gente prefere uma relação de desventuras a ficar só.

        Então, você oscila entre os sentimentos de medo e de raiva. Ora sente medo, ora sente raiva. Medo e raiva são as reações básicas de defesa na vida. O medo é uma resposta de preservação, a raiva é uma resposta de expansão. Medo e raiva – recuo e ataque. Recolhe e expande. Inspira e expira.

 

O desamparo ainda é a dor básica da vida

        Na atualidade, ensinamos as nossas criancinhas que os seus desejos são direitos. Mesmo assim elas ainda se enrijecem e se contraem como os seus pais. E localizam o que está acontecendo com elas como uma derrota na vida. Afinal de contas, hoje, apenas encontramos gente vencedora no mundo – essa gente que não vai morrer nunca. Essa gente que não morrera nunca, por medo de ficar só.

Referências

KELEMAN, Stanley. Viver o seu morrer. São Paulo: Summus, 1997.