Como é possível que o universo seja infinito?

        “Como é possível que o universo seja infinito? Como é possível que o universo seja finito? Se o mundo é finito, onde termina o mundo? Se o mundo é finito, onde se encontra o mundo? Onde o universo”?

        “O mundo que existe neste espaço finito possui todas as coisas finitas que existem neste espaço”.

        “Eu considero o universo ‘todo infinito’ porque não possui limite, nem termo, nem superfície; digo não ser o universo ‘totalmente infinito’ porque cada parte que dele possamos pegar é finita, e cada um dos inúmeros mundos que contem é finito”.

        “Considerar o mundo ilimitado não traz consigo inconveniente algum, e até nos liberta de inúmeras angustias que nos envolvem se afirmamos o contrário. Por que frustrar a capacidade infinita, defraudar a possiblidade de mundos infinitos que podem existir? Por que deveríamos afirmar algo que, uma vez admitido, traz consigo tantos inconvenientes, e que, sem favorecer, de forma alguma, leis, religiões, fé ou moralidade, destrói tantos princípios de filosofia”?

        Para a solução desse impasse, vamos “primeiro considerar que, sendo o universo infinito e imóvel, não é necessário procurar o motor dele. Segundo, se infinitos são os mundos contidos nele, tais como as terras, os fogos e outras espécies de corpos chamados astros, todos se movem pelo princípio interno, que é a própria alma, sendo assim, é inútil investigar acerca de seu motor extrínseco”.

        “O movimento de todas as coisas, portanto, não seria de natureza mecânica, cujo deslocamento e cujos entrechoques resultariam de um movimento inicial comunicado por um ser superior. O movimento seria da natureza dos seres vivos e todas as coisas possuiriam um princípio anímico, que as faz transformarem-se permanentemente.

        O princípio anímico não se distingue da própria matéria animada. Não existem duas substancias (matéria e espirito) distintas. Tudo o que existe estaria reduzido a uma única essência material provida de animação espiritual”.

        Portanto, Deus é “imanente ao Universo e idêntico a ele. Deus não seria um ser que tivesse criado o Universo, mas seria o próprio mundo”.

        “Finalmente, pelo que se passa a nossa vista, cada objeto parece limitar outro objeto: o ar limita as colinas, os montes limitam o ar, e a terra o mar, e, por seu turno, o mar termina todas as terras; mas na verdade, nada há, para além do todo, que lhe sirva de limite.

        Efetivamente, por todo o lado, abre-se as coisas, em toda direção, um espaço sem limites”.

        “É, pois, um só o céu, um o espaço imenso, uma a abobada, um o continente universal, uma a região etérea pela qual tudo passa e tudo se movimenta. Aí podem ser observados sensivelmente inúmeras estrelas, astros, globos, sois e terras e, com razão, chega-se a conjeturar que são infinitos. O universo imenso e infinito é o composto que resulta de tal espaço e de tantos corpos nele contidos”.

        “Esse espaço nós o chamamos infinito, porque não existe razão, conveniência, possiblidade, sentido ou natureza que deva limita-lo”.

        “Mesmo que isto seja verdade, eu não quero acreditar; porque este infinito não pode ser compreendido pelo meu raciocínio, nem digerido pelo meu estomago. Com certeza, se nós quisermos colocar os sentidos como juiz ou dar-lhes a função que lhes é própria, isto é, ser o veículo originário de toda a informação, acharemos então muito difícil.

        Não são os sentidos que percebem o infinito; não é pelos sentidos que chegamos a esta conclusão, porque o infinito não pode ser objeto dos sentidos.

        Para que então servem os sentidos?

        Servem somente para excitar a razão, para tomar conhecimento, indicar e dar testemunho parcial, não para testemunhar sobre tudo, nem para julgar, nem para condenar. Porque nunca, mesmo perfeitos, são isentos de alguma perturbação. Por isso a verdade, em pequena parte, brota desse fraco princípio que são os sentidos, mas não reside neles.

        A inconstância dos sentidos demonstra que eles não são princípio de certeza e não a determinam senão por certa comparação e conferencia de um objeto sensível com outro e de uma sensação com outra. Daí se infere que a verdade é relativa nos diversos sujeitos.

        Nenhum dos sentidos nega o infinito, visto que não o podemos negar, pelo fato de não compreendermos o infinito com os sentidos; mas, como os sentidos são compreendidos por ele e a razão vem confirma-lo, somos obrigados a admiti-lo”.

Psicologia de Rebanhos

O rebanho é os meus pensamentos

E os meus pensamentos são todos sensações.

(Fernando Pessoa)

        A Psicologia de Rebanhos está fundamentada no trabalho com as sensações. Não é por conta da inconstância dos sentidos que eles não são princípio de certeza. É, exatamente, por sua incerteza que as sensações são a nossa medida do universo. Nossa medida do universo é parcial, singular e única.

        A verdade (palavra que sugere a definição de algo que apenas tem existência verbal), então, é relativa e diversa para cada um de nos. “Porque eu sou do tamanho do que vejo e não do tamanho da minha altura” (Caeiro, 1974).

TAMANHO DO UNIVERSO – Duração 3:11

Referencias

BRUNO, Giordano. Sobre o infinito, o universo e os mundos. São Paulo: Abril Cultural, 1983.

CAEIRO, Alberto. O guardador de rebanhos. In PESSOA, Fernando. Obra poética. Rio de Janeiro: Companhia José Aguilar Editora, 1974.

 

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