Como o que você vive chega no seu cérebro e como você sabe que é você quem vive o que lá chega?

        Você sabe o que é a consciência? Você pode encontrar a seguinte definição nos dicionários – a consciência é a percepção que um organismo tem de si mesmo e do que o cerca. Como o que você vive chega no seu cérebro e como você sabe que é você quem vive o que lá chega?

 

O cérebro e a consciência

        Você sabe como o seu cérebro forma as imagens das coisas que você vivencia? As coisas que você vivencia são muito diversas. Podem ser uma pessoa, um lugar, uma melodia, uma dor de dente, um estado de êxtase. Qualquer imagem em qualquer modalidade sensorial forma um padrão mental.

        Então, o cérebro forma padrões mentais para o que a gente vivencia. E, ao mesmo tempo em que o cérebro forma esses padrões mentais, o cérebro também forma um sentido de que é você quem pratica esse ato de vivenciar as coisas?

        Então, além dessas imagens existe também essa outra presença que significa você, como observador das coisas que você vivencia. O que você pode concluir que você está presente naquilo que você vivencia, pois se não houvesse essa presença, como seus pensamentos lhe pertenceriam?

        A neurobiologia da consciência defronta-se com dois problemas. Como as imagens do que você vivencia são geradas no cérebro e como o cérebro também gera o senso de que existe você que é o proprietário e observador dessas imagens.

 

Como o que você vive chega no seu cérebro e como você sabe que é você quem vive o que lá chega?

        A ciência já descobriu que alguns aspectos dos processos da consciência podem ser relacionados a operação de regiões e sistemas cerebrais específicos. Por exemplo: a consciência e o estado de vigília, assim como a consciência e a atenção básica, utilizam regiões cerebrais distintas.

        Consciência e emoção não são separáveis, pois quando a consciência está comprometida, o mesmo se dá com a emoção. Isso quer dizer, por exemplo, que a sua atenção varia de acordo com o seu estado emocional.

        Os “danados” dos cientistas também já descobriram que a consciência tem mais de um nível de organização. Num primeiro nível, a consciência é estável no decorrer da vida, não é exclusivamente humana e não depende da memória, do raciocínio ou da linguagem.

        Por outro lado, há também um segundo nível de consciência que eles chamam de consciência ampliada. A consciência ampliada é um fenômeno biológico complexo, conta com vários níveis de organização e evolui no decorrer da vida do organismo. Ela depende da memória convencional e da memória operacional. No seu caso e no meu, os humanos, também é intensificada pela linguagem.

         Você sabia que o comprometimento do primeiro nível da consciência destrói todo o edifício da consciência. E que a consciência ampliada não se sustenta separadamente sem aquele primeiro nível da consciência?

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        Você está geneticamente projetado para manter um conjunto reduzido de estados corporais e ativa-los em todos os momentos, sem precisar pensar nisso.

        O seu cérebro contém dentro de si uma espécie de modelo do todo de você, do seu corpo. “O modelo do corpo no cérebro” é uma coleção de mecanismos cerebrais cuja principal tarefa é a gestão automatizada da vida do organismo. Por isso você pode fazer tantas coisas involuntariamente, como, por exemplo, respirar, circular o sangue, salivar, ouvir, fazer xixi, etc.

        Você, o seu corpo, está representado no cérebro, de maneira abundante e variada, e essa representação está vinculada à manutenção do processo da sua vida.

 

Como acontece a consciência?

        Mas quando é que você se torna consciente? Primeiramente, é um conhecimento sem palavras. Você percebe que o seu próprio estado foi alterado por uma vivencia. E então esse conhecimento ocorre juntamente com uma representação do que foi vivido.

        A sua consciência começa como o sentimento do que acontece quando vemos, ouvimos ou tocamos – eu vi um passarinho, estou ouvindo música, gosto quando você me toca. É um sentimento que acompanha a produção de qualquer tipo de imagem.

        A forma mais simples na qual o conhecimento sem palavras emerge mentalmente é o sentimento de conhecer. O sentimento do que acontece quando você está empenhado em processar uma coisa que lhe acontece – isso está me acontecendo.

 

Esconde-esconde

        Você já sabe que muito daquilo que acontece em seu corpo é mantido, por você, de forma involuntária. E agora também já sabe que isso propicia que você priorize perceber as coisas que você vivencia.

        Essas coisas vivenciadas, na mais das vezes, fazem parte do que nos é exterior. Essa ocupação em coisas que não pertencem a você, a seu corpo, parece uma lei de sobrevivência. Porém, essa escolha encobre ou mascara a sua percepção dos estados do seu próprio corpo.

        Talvez, por isso, você perceba as emoções e os sentimentos como algo vago, impreciso e difícil de definir. E valorize tanto a consciência, a ponto de faze-la prevalecer na sua existência.

        Por que conhecer os sentimentos causados pelas emoções parece indispensável para a arte de viver, e por que a arte de viver faz um tremendo sucesso na história da natureza?

Psicologia de Rebanhos

“O rebanho é os meus pensamentos e os meus pensamentos são todos sensações” (Fernando Pessoa).

 Referências

DAMÁSIO, António. O mistério da consciência: do corpo e das emoções ao conhecimento de si. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.

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