Contra os que negam o livre-arbítrio nas ações humanas

Contra os que negam o livre-arbítrio nas ações humanas

Vos, crédulos mortais, alucinados

De sonhos, de quimeras, de aparências,

Colheis por uso erradas consequências

Dos acontecimentos desastrados:

Se a perdição correis precipitados

Por cegas, por fogosas impaciências,

Indo a cair, gritais que são violências

De inexoráveis céus, de negros fados:

Se um celeste poder tirano, e duro,

As vezes extorquisse as liberdades,

Que prestava, oh Razão, teu lume puro?

Não forçam corações as divindades;

Fado amigo não há, nem fado escuro:

Fados são as paixões, são as vontades.

 

* * *

 

Reprodução do antecedente, estando o autor preso

Liberdade querida, e suspirada,

Que o Despotismo acérrimo condena;

Liberdade, a meus olhos mais serena

Que o sereno clarão da madrugada!

Atende a minha voz, que geme e brada

Por ver-te, por gozar-te a face amena;

Liberdade gentil, desterra a pena

Em que esta alma infeliz jaz sepultada:

Vem, oh deusa imortal, vem, maravilha,

Vem oh consolação da humanidade,

Cujo semblante mais que os astros brilha:

Vem, solta-me o grilhão da adversidade;

Dos céus descende, pois dos céus és filha,

Mãe dos prazeres, doce Liberdade!

 

 

Epistola a Marilia

IV

Crê, pois, meu doce bem, meu doce encanto,

Que te anseiam fantásticos terrores,

Pregados pelo ardil, pelo interesse.

Só de infestos mortais na voz, na astucia,

A bem da tirania está o inferno.

Esse que pintam báratro de angustias,

Seria o galardão, seria o premio

Das suas vexações, dos seus embustes,

E não pena de amor, se inferno houvesse.

Escuta o coração, Marilia bela,

Escuta o coração, que te não mente.

 

Eis o que hás-de escutar, ó doce amada,

Se à voz do coração não fores surda.

De tuas perfeições enfeitiçado,

Às preces, que te envia, eu uno as minhas.

Ah! Faze-me ditoso e se ditosa.

Amar é um dever, além de um gosto,

Uma necessidade, não um crime,

Qual a impostura horríssona apregoa.

Céus não existem, não existe inferno:

O prêmio da virtude é a virtude,

É castigo do vicio o próprio vicio.

 

* * *

Psicologia de Rebanhos

O rebanho é os meus pensamentos

E os meus pensamentos são todos sensações.

(Fernando Pessoa)

        O homem crente de Adão inventou a escolha. Mas para que havermos de escolher? O homem crente do cristianismo inventou o livre-arbítrio. Mas para que o homem do cristianismo inventou o livre-arbítrio se Deus já tinha criado a escolha? Você sabe para que servem as suas vontades quando você está apaixonado? Quando você está apaixonado as suas vontades servem para… nada. Apaixonado, as suas vontades apenas obedecem às suas paixões. As paixões são fados, disse o poeta, as vontades também. As paixões e as vontades nos aprisionam. Pobre daquele que acredita ter a chave das celas das suas paixões e das suas vontades numa liberdade fora de si mesmo – fora do Paraiso? “Escuta o coração, Marilia bela, escuta o coração que não te mente. O prêmio da virtude é a virtude, é castigo do vicio o próprio vicio”. Fados são as paixões e as vontades. Quem poderá e saberá dizer, quando escolheu viver as suas?

BOCAGE, Manuel Maria Barbosa du. O delírio amoroso e outros poemas. Porto Alegre: L&PM, 2004.

 

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