Criaturas que não esperam nada

A sua voz era baça e tremula, como as das criaturas que não esperam nada, porque é perfeitamente inútil esperar (Fernando Pessoa, correspondente estrangeiro, apresenta Bernardo Soares-Vicente Guedes, empregado de comercio).

 

Uma consciência de si, e uma visão da vida e do homem

 

        Para que um homem seja distintivamente e absolutamente moral, tem que ser um pouco estupido. Para que um homem possa ser absolutamente intelectual, tem que ser um pouco imoral.

        Pertenço a uma geração que herdou a descrença na fé cristã (no fato cristão) e que criou em si uma descrença em todas as outras fés. Os nossos pais tinham ainda o impulso credor, que transferiam do cristianismo para outras formas da ilusão.

        Uns eram entusiastas só da beleza, outros tinha a fé na ciência e nos seus proveitos, e havia outros que, mais cristãos ainda, iam buscar a orientes e ocidentes outras formas religiosas com que entretivessem a consciência, sem elas oca, de meramente viver.

 

        Tudo isso nós perdemos, de todas estas consolações nascemos órfãos. Cada civilização segue a linha intima de uma religião que a representa: passar para outras religiões é perder essa, e por fim perde-las a todas.

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Nós perdemos essa, e as outras também.

Ficamos, pois, cada um entregue a si próprio, na desolação de se sentir viver. Um barco parece ser um objeto cujo fim é navegar; mas o seu fim não é navegar, senão chegar a um porto. Nós encontramo-nos navegando, sem a ideia do porto a que nos deveríamos acolher.

 

Reproduzimos assim, na espécie dolorosa, a formula aventureira dos argonautas: navegar é preciso, viver não é preciso.

 

Sem ilusões, vivemos apenas do sonho, que é a ilusão de quem não pode ter ilusões. Vivendo de nós próprios, diminuímo-nos, porque o homem completo é o homem que se ignora.

 

Também há universo na rua dos Douradores …

 

        Amanhã também eu – a alma que sente e pensa, o universo que sou para mim -, sim, amanhã eu também serei o que deixou de passar nessas ruas, o que outros vagamente evocarão com um “o que será dele?” E tudo quanto faço, tudo quanto sinto, tudo quanto vivo, não será mais que um transeunte a menos na quotidianidade de ruas de uma cidade qualquer “ (Soares, 1914). *

* Esse texto é uma versão abreviada de um “Livro do Desassossego” composto por Bernardo Soares, ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa.

 

SOARES, Bernardo. Livro do desassossego. In PESSOA, Fernando. Obra poética. Rio de Janeiro: Companhia José Aguilar Editora, 1974.

2 respostas para “Criaturas que não esperam nada”

  1. Mto bom o extrato do texto do “Livro do Desassossego”!
    Passo a passo o rebanho vai trazendo à boca de cena o que de fato importa, ou seja, as singularidades.
    gd abç
    Plínio

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