De cada vez que me mataram

Da vez primeira em que me assassinaram

Da vez primeira em que me assassinaram

Perdi um jeito de sorrir que eu tinha.

Depois, de cada vez que me mataram,

Foram levando qualquer coisa minha…

* * *

 Da contradição

Se te contradisseste e acusam-te… sorri.

Pois nada houve, em realidade.

Teu pensamento é que chegou, por si,

Ao outro polo da verdade…

* * *

Cruel amor

Um dia, da ponta daquela mesa comum de hospedes,

Dona Glorinha me interpelou:

– Seu Mario, o senhor ainda não leu o CRUEL AMOR?

Não, eu nunca tinha lido o CRUEL AMOR…

Pois tudo que falta a minha vida

Toda a imperfeição em que ainda me debato

Vem de eu nunca ter lido o CRUEL AMOR…

De ter achado ridículo o título…

De ter achado ridícula a transcendental pergunta de Dona Glorinha!

* * *

Liberdade condicional

Poderás ir até a esquina

Comprar cigarros e voltar

Ou mudar-te para a China

– Só não podes sair de onde tu estas.

* * *

Poema

O grilo procura

No escuro

O mais puro diamante perdido.

 

O grilo

Com as suas frágeis britadeiras de vidro

Perfura

As implacáveis solidões noturnas.

 

E se isso que tanto buscas só existe

Em tua límpida loucura

 

– que importa? –

 

Exatamente isto

É o teu diamante mais puro!

* * *

Descobertas

Descobrir Continentes é tão fácil como esbarrar com um elefante:

Poeta é o que encontra uma moedinha perdida…

* * *

O ovo sapiens

o homem pensa para dentro, e disto orgulha-se porque

na sua cabeça cabe o universo

como num ovo.

Na sua cabeça está o universo

– aprisionado –

 

O homem tem a pobre, a estreita cabeça

Fechada…

* * *

Do sobrenatural

Vozes ciciando nas frinchas… vozes de afogados soluçando nas ondas… vozes noturnas, chamando… pancadas no quarto ao lado, por detrás dos moveis, debaixo da cama… gritos de assassinados ecoando ainda nos corredores malditos… qual nada! O que mais amedronta é o pranto dos recém-nascidos aí é que está a verdadeira voz do outro mundo.

* * *

Psicologia de Rebanhos

“O rebanho é os meus pensamentos e os meus pensamentos são todos sensações” (Fernando Pessoa).

        Viver é morrer a cada instante, a cada experiencia nova, a cada despertar. E quando não morremos por nós mesmos, os outros nos matam. Os outros estão sempre prontos para nos dar aquele empurrãozinho para o precipício. A queda é inevitável e só dá para contar consigo mesmo, pois aonde quer que a gente vá, sempre ira junto esse sentimento de sermos um eu.

QUINTANA, Mario. Antologia poética. Rio de Janeiro: Objetiva, 2015.

 

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