Duvidar do que se tem certeza

        Platão (428-348 a.C.) viveu, na Grécia antiga, num período em que muitas tradições e dogmas eram cultuados. ”Onde existem mil crenças, tendemos a nos tornar céticos em relação a todas elas”. Assim, inspirado por Sócrates (469-399 a.C.) a duvidar do que se tem certeza, Platão pôs-se a duvidar de quase tudo, exceto do que ele acreditava que era a verdade.

        Antes de Sócrates, os pensadores se perguntavam sobre a constituição das coisas, sobre qual seria o princípio das coisas. Esses pensadores atingiram o seu apogeu quando Demócrito (460-360 a.C.) cogita que “na realidade, nada existe a não ser átomos e espaço”.

        Ensina Sócrates que o verdadeiro conhecimento consiste em duvidar do que se conhece. Dizia ele: só sei uma coisa, e é que nada sei. Sócrates nos ensina a duvidar das nossas próprias crenças, principalmente das crenças preferidas. Possivelmente, as nossas crenças preferidas se tornaram certezas para nós, a partir de algum desejo secreto revestido com o traje do pensamento. Para Sócrates, não há conhecimento verdadeiro enquanto a mente não se voltar a examinar a si mesma. Conhece-te a ti mesmo.

        Sócrates não deixou por escrito nenhuma das suas crenças. Platão, discipulo de Sócrates, foi quem partilhou conosco, por escrito, as suas crenças preferidas de Sócrates. Desconhecemos os critérios de escolha dessas crenças por Platão. Desconhecemos também se essas crenças eram mesmo do Sócrates ou eram crenças do próprio Platão.

 

Pensamentos de Platão sobre a politica

        “E quanto ao Estado, o que poderia ser mais ridículo do que a sua democracia chefiada pela populaça, dominada pela paixão.

        Não é do conhecimento de todos que os homens em multidões são mais tolos, mais violentos e mais cruéis do que separados e sozinhos? Como pode uma sociedade ser salva, ou ser forte, se não tiver a frente seus homens mais sábios?

        A democracia precisava ser destruída, para ser substituída pelo governo dos mais sábios e melhores. A preocupação de sua vida passou a ser a procura de um método pelo qual os mais sábios e melhores pudessem ser descobertos e, depois, habilitados e persuadidos a governar”. Qual seria o critério para se descobrir os homens mais sábios e melhores?

 

Platão e a ética

        Platão segue o pensamento grego da sua época, fundamentado no mito dos heróis e deuses do Olimpo, onde o direito é adquirido pela força. A justiça é constituída pelo interesse do mais forte.        A moralidade é uma invenção dos fracos para neutralizar a força dos fortes.

        A justiça, portanto, é uma relação entre indivíduos que depende da organização social onde esses indivíduos se inserem.

        “Justiça é ter e fazer o que nos compete”.

        A justiça deve ser eficiente. A justiça se baseia no funcionamento harmonioso dos elementos em um homem.

        A verdade muda de roupa com frequência (como toda mulher atraente), mas sob o novo habito continua sempre a mesma.

        Os homens não se contentam com uma vida simples. Os homens são gananciosos, ambiciosos, competitivos e invejosos. Os homens logo se cansam do que possuem e anseiam por aquilo que não tem. Os homens, raramente, desejam qualquer coisa, a menos que ela pertença a terceiros.

 

Platão e a psicologia

        Platão acredita que uma nação somente pode ser forte, caso acredite num Deus todo-poderoso. Um deus que, pelo pavor e pelo terror, incita e obriga o indivíduo a moderar a sua ganancia e a sua paixão. A essa crença num deus, também deve-se acrescentar a crença na imortalidade das almas humanas. A esperança de uma outra vida da coragem para o indivíduo suportar as opressões a que se sujeita nessa vida de carne e osso, além de ajudar a enfrentar a morte dos seus entes queridos. E alimentar o poder dos que valorizam mais essa vida do que uma suposta vida pós-morte.

 

Psicologia de Rebanhos

O rebanho é os meus pensamentos

E os meus pensamentos são todos sensações.

(Fernando Pessoa)

        Com Platão, elege-se, na civilização ocidental, o mundo das ideias como a verdadeira vida. Apesar de Sócrates ter tentado ensinar que deveríamos duvidar das nossas crenças, Platão adere firmemente a crença de que o verdadeiro mundo é o mundo das ideias. O mundo das sensações seria enganoso, inseguro, não confiável. Para Platão, deveríamos duvidar do mundo sensível pois as certezas sobre o mundo estavam nas ideias. Essa crença de que os pensamentos são a verdadeira vida se sustenta atualmente pela ideia de um valor superior dos pensamentos sobre as sensações.

 

Referencias

DURANT, Will. A história da filosofia. São Paulo: Editora Nova Cultural, 1996.

 

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