E sei apenas do meu próprio mal

A rua dos cata-ventos

 
Eu nada entendo da questão social.
Eu faço parte dela, simplesmente…

E sei apenas do meu próprio mal,

Que não é bem o mal de toda a gente.

 

* * *

 

Espelho magico

 

Da observação

Não te irrites, por mais que te fizerem…

Estuda, a frio, o coração alheio.

Faras, assim, do mal que eles te querem,

Teu mais amável e sutil receio…

 

* * *

 

Dos mundos

Deus criou este mundo. O homem, todavia,

Entrou a desconfiar, cogitabundo…

Decerto não gostou lá muito do que via…

E foi logo inventando o outro mundo.

 

* * *

 

Dos milagres

O milagre não é dar vida ao corpo extinto,

Ou luz ao cego, ou eloquência ao mundo…

Nem mudar agua pura em vinho tinto…

Milagre é acreditarem nisso tudo!

 

* * *

 

Das ilusões

Meu saco de ilusões, bem cheio tive-o.

Com ele ia subindo a ladeira da vida.

E, no entretanto, após cada ilusão perdida…

Que extraordinária sensação de alivio!

 

Dos nossos males

A nós nos bastem nossos próprios ais,

Que a ninguém sua cruz é pequenina.

Por pior que seja a situação da China,

Os nossos calos doem muito mais…

 

* * *

 

Da eterna procura

Só o desejo inquieto, que não passa,

Faz o encanto da coisa desejada…

E terminamos desdenhando a caça

Pela doida aventura da caçada.

 

* * *

 

Do pranto

Não tentes consolar o desgraçado

Que chora amargamente a sorte ma.

Se o tirares por fim do seu estado,

Que outra consolação lhe restara?

 

Psicologia de Rebanhos

O rebanho é os meus pensamentos

E os meus pensamentos são todos sensações.

(Fernando Pessoa)

 

        Todos nós temos problemas, mas o problema de cada um é um problema único, de cada um. Embora não seja exatamente um problema de cada um, mas de todos. Afinal, o problema é nosso ou é dos outros? É que sem os outros, os problemas não existiriam. Os nossos problemas são gerados nas relações com os outros e com a gente mesmo.

        Aí então, desconfiados desse jeito do mundo ser, cheio de problemas, inventamos a solução para os problemas desse mundo em outro mundo. Um mundo que não é esse, nem o meu nem o seu nem o nosso. O pior é que acreditamos que esse tal outro mundo que criamos existe e tem a solução dos problemas desse mundo aqui.

        Somente quando a ilusão da solução dos problemas desaparece, aprendemos que a solução sempre esteve em nos mesmos. Aprendemos que os nossos problemas são somente os nossos problemas. E por serem os nossos doem muito mais que os problemas dos outros. Os problemas dos outros são nossa diversão. Assim, esquecemos dos nossos problemas, nos divertindo com os problemas dos outros.

        Esquecer é outra ilusão que criamos para não resolver os nossos problemas. É que existe no esquecimento um consolo, mas um consolo que não consola. Apenas adia o encontro e nos afasta de nós mesmos.

 

QUINTANA, Mario. Quintana de bolso. Porto Alegre: L&PM, 2006.

 

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