Esta é a alvorada do seu tempo, a “Era do Homem Comum”

 

Você é um “zé-ninguém”, um “homem comum”.

 

Eles o chamam de zé-ninguém ou Homem Comum. Dizem que esta é a alvorada do seu tempo, a “Era do Homem Comum”.

 

Como um homem se torna senhor de si mesmo?

 

Olhe para si mesmo.

 

        Um grande homem sabe quando e de que forma ele é um zé-ninguém. Um zé-ninguém não sabe que é pequeno e tem medo de saber. Esconde sua insignificância e estreiteza por trás de ilusões de força e grandeza, da força e da grandeza de alguma outra pessoa.

Sente orgulho dos seus grandes generais, mas não de si mesmo. Admira uma ideia que não teve, não uma ideia que teve. Quanto menos entender alguma coisa, mais firme é sua crença nela. E, quanto melhor entende uma ideia, menos acreditara nela.

 

SEU FEITOR É VOCE MESMO.

 

Eu digo: Só você mesmo pode ser seu libertador!

        Tenho medo de você quando o zé-ninguém em mim sonha “conduzi-lo a liberdade”.

        Para libera-lo, ele precisa permitir que você o idolatre como um deus inacessível. Você não teria confiança nele se ele continuasse a ser o homem simples que foi. Portanto, é você quem cria seu novo senhor. Elevado a posição de novo senhor, o grande homem perde sua grandeza.

 

Você confere mais poder aos poderosos, ou escolhe homens fracos e maus para representa-lo. E descobre tarde demais que você é sempre enganado.

 

Você pode escolher entre Nietzsche ou Hitler. E escolheu o subumano. Pode escolher entre Lênin e Stálin. Escolheu a ditadura. Pode escolher entre Jesus e Paulo. Você preferiu o celibato e a obrigatoriedade do casamento.

        Pode escolher entre Marx e o Estado. Você esqueceu a energia viva do seu trabalho. Na Revolução Francesa, você pode escolher entre Robespierre e Danton. Escolheu a crueldade. Pode escolher entre a inquisição e Galileu. Você torturou e humilhou.

 

Você tem sua vida nas mãos, não a confie a mais ninguém, menos ainda aos seus líderes eleitos. Prometem-lhe não a liberdade individual, mas a nacional. Nada dizem sobre auto respeito, mas dizem-lhe que respeite o Estado.

        Eles não amam você, zé-ninguém, eles o desprezam porque você despreza a si mesmo. E foi você quem lhes deu o poder que exercem sobre você. Você mesmo levou ao topo seus senhores e continua a lhes dar apoio, embora eles tenham arrancado todas as máscaras, ou talvez exatamente por isso.

 Tenho medo de você, zé-ninguém.

        Tenho medo de você porque seu principal objetivo na vida é fugir – de si mesmo. Você já se teria livrado dos seus opressores há muito tempo se não tivesse aprovado a opressão, e lhe dado tantas vezes apoio direto. Você e somente você é responsável pela sua vida.

 

Tenho medo de você, zé-ninguém, muito medo. No passado, seus opressores provinham das classes mais altas da sociedade, mas hoje eles provem da sua própria camada. São ainda mais zé-ninguém do que você, zé-ninguém. Precisam ser mesmo muito pequenos para conhecer sua desgraça a partir da própria experiência e, com base nesse conhecimento, oprimi-lo com mais eficácia e mais crueldade do que nunca.

        Zé-ninguém, você está sempre do lado dos perseguidores.

Você me pergunta como sei tudo isso. Vou lhe dizer.

        Eu o conheci em mim mesmo.

 

Confundir a insolência com a liberdade sempre foi a marca registrada do escravo. Invocando sua liberdade, você se recusa a evitar relatórios do seu trabalho. E agora você se sente livre… livre da cooperação e da responsabilidade.

 

        Este terrível século XX fez todas as teorias culturais desde Platão parecerem ridículas. Zé-ninguém, nunca houve uma cultura humana. Mal estamos começando a compreender o apavorante desvio e a degeneração patológica do animal humano.

 

E não dou festas para divulgar minhas ideias. Se minhas ideias forem validas, elas próprias se divulgarão. (*)

 

(*) Esse texto é uma versão abreviada de um documento escrito por Wilhelm Reich, entre 1943 e 1946, para os Arquivos do Orgone Institute, como resposta as intrigas e a calunia que um órgão do governo dos Estados Unidos da América, encarregado da preservação da saúde pública, aliado a políticos e psicanalistas desencadearam contra a sua pesquisa sobre o orgone.

 

 

Psicologia de Rebanhos

O rebanho é os meus pensamentos

E os meus pensamentos são todos sensações.

(Fernando Pessoa)

 

A Psicologia de Rebanhos traz esse texto/desabafo para enfatizar que é de fundamental importância a assunção da nossa responsabilidade pelos atos, atitudes e comportamentos que praticamos. O poder é um evento que não existe por si só, ele precisa de pelo menos duas pessoas para acontecer.

        Não existe natureza humana.  Quando se diz que alguém tem poder, significa que um outro alguém (ou alguéns) deu (ou deram) esse poder para aquele alguém. A psicologia de Rebanhos se propõe a ajuda-lo a reencontrar o seu próprio poder, a sua potência.

 

Referências

 

REICH, Wilhelm. Escute, Zé-ninguém! São Paulo: Martins Fontes, 2007.

 

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