Estudar é uma tarefa de reinvenção, de recriação

        “Estudar é, realmente, um trabalho difícil. Exige de quem o faz uma postura crítica, sistemática. Exige uma disciplina intelectual”. Aquele que estuda é desafiado pelo texto. O objetivo de quem estuda é se apropriar do significado do texto que estuda. Estudar um texto é estudar o estudo de quem o escreveu. Quem estuda percebe que o conhecimento é condicionado pelo seu momento histórico e social. Estudar é uma tarefa de reinvenção, de recriação. Estudar, nessa perspectiva, é ter uma atitude crítica em relação ao texto estudado.

        O ato de estudar é uma atitude crítica diante do mundo. Estudar é, fundamentalmente, e sobretudo, pensar a pratica frente ao mundo. Estudar é ter um diálogo com o autor do texto. “O ato de estudar demanda humildade”. Nem sempre um texto é de fácil compreensão. A compreensão de um texto pode se transformar num grande desafio. “Estudar não é um ato de consumir ideias, mas de cria-las e recria-las”.

O homem e o ambiente em que vive

        Imagine um índio caçando, com seu arco e sua flecha. Ao lado desse índio, imagine também um camponês caçando com uma espingarda. Qual desses dois caçadores pode ser analfabeto? “Não se pode dizer que o índio é analfabeto porque vive numa cultura que não conhece as letras. Para ser analfabeto é preciso viver no meio das letras e não conhecer elas”. É que o homem só existe em relação ao seu ambiente. Não existe homem sem um mundo. “Admitindo-se que todos os seres humanos morressem, mas ficassem as arvores, os pássaros, os animais, os mares, os rios, seria isto mundo”? O mundo existe porque o homem existe para nomeá-lo.

O homem reinventa o mundo

        O homem transforma o mundo através do seu trabalho. Por meio do seu trabalho o homem se expressa no mundo. É fazendo o seu trabalho que o homem transforma o mundo. Sem trabalho não existe homem. Um mundo de homens sem trabalho é um mundo que não existe. Portanto, não existe mundo fora da relação homem-mundo. A visão de mundo que vê o homem como instrumento de produção desconsidera que o homem se expressa no mundo por meio do seu trabalho.

        “Transformando a realidade natural com seu trabalho, os homens criam o seu mundo. Mundo da cultura e da história que, criado por eles, sobre eles se volta, condicionando-os. Isto é o que explica a cultura como produto, capaz ao mesmo tempo de condicionar seu criador”.

        Os homens desenvolvem as suas maneiras de pensar e de se comportar no mundo fundamentadas nas ideias culturais dominantes na sociedade em que fazem parte. Essas maneiras de pensar e de atuar no mundo condicionam o mundo para essas maneiras de pensar e de atuar no mundo. Ao mesmo tempo, os homens são condicionados por essas maneiras de pensar e de atuar no mundo.

        Esse condicionamento as maneiras de pensar e de atuar no mundo estabilizam os homens numa forma de pensar e atuar o mundo que lhes parece segura. Com isso, as inquietações que propõem mudanças trazem consigo o medo do novo, o medo da perda do seu ‘status social’. Esse medo impede a reflexão crítica das ideias e dos comportamentos instituídos.

O homem recria a si mesmo

        “É que, no momento em que os indivíduos, atuando e refletindo, são capazes de perceber o condicionamento de sua percepção pela estrutura em que se encontram, sua percepção começa a mudar, embora isso não signifique ainda a mudança da estrutura. É algo importante perceber que a realidade social é transformável; que feita pelos homens, pelos homens pode ser mudada, que não é algo intocável, um fado, uma sina, diante de que só houvesse um caminho: a acomodação a ela. Poderá dizer-se que a mudança da percepção não é possível antes da mudança da estrutura’’.

Psicologia de Rebanhos

“O rebanho é os meus pensamentos e os meus pensamentos são todos sensações” (Fernando Pessoa).

 

        Experienciando a si mesmo através da vivencia das suas emoções e sentimentos, o homem percebe como ele se usa para fazer as coisas. Percebendo como se usa, o homem pode mudar a maneira como ele se usa. Percebemos que podemos mudar o jeito que atuamos por uma nova percepção de como fazemos isso.

Referencias

FREIRE, Paulo. Ação cultural para a liberdade e outros escritos. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2011.

 

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