Jovens, tão falsos, tão inconstantes

No Sul
(Das Canções do Príncipe Livrepássaro.)
Eis-me suspenso a um galho torto
E balançando aqui meu cansaço.
Sou convidado de um passarinho
E aqui repouso, onde está seu ninho.
Mas onde estou? Ai, longe, no espaço.
Sul da inocência, me acolhe nela!
Razão! Trabalho pesado e ingrato!
Que vai ao alvo e chega tão cedo!
Quem pensa a sós, de sábio eu trato,
Cantar a sós – já é para os parvos!
Estou cantando em vosso louvor:
Fazei um círculo e, ao meu redor,
Malvados pássaros, vinde sentar-vos!

 

Jovens, tão falsos, tão inconstantes,

Pareceis feitos bem para amantes

E em passatempos vos entreter …

No Norte amei – e confesso a custo –

Uma mulher, velha de dar susto:

“Verdade”, o nome dessa mulher.

 

Da pobreza do riquíssimo

(Dos Ditirambos de Dioniso, 1888: “Estas são as canções de Zaratustra, que ele cantava para si mesmo, para suportar sua última solidão”.)

 

Dez anos já –

E nenhuma gota me alcançou,

Nem úmido vento nem orvalho do amor

– uma terra sem chuva …

Agora peço a minha sabedoria

Que não se torne avara nessa aridez:

Corra ela própria, goteje orvalho;

 

Um dia mandei as nuvens

Embora de minhas montanhas –

Um dia eu disse, “mais luz, obscuras!”

Agora as chamo, que venham:

Fazei escuro ao meu redor com vossos ubres!

– quero ordenhar-vos,

Vacas das alturas!

Leite quente, sabedoria, doce orvalho do amor

Derramo por sobre a terra.

 

De olhar sombrio!

Não quero ver em minhas montanhas

Acres verdades impacientes.

Dourada de sorriso,

De mim se acerca hoje a verdade,

Adoçada de sol, bronzeada de amor –

Só uma verdade madura eu tiro da arvore.

 

– Quietos!

Uma verdade passa por sobre mim

Igual a uma nuvem –

Com relâmpagos invisíveis ela me atinge.

Por largas lentas escadas

Sobe até mim sua felicidade:

Vem, vem, querida verdade!

 

– Quietos!

É minha verdade! –

De olhos esquivos,

De arrepios aveludados

Me atinge seu olhar,

Amável, mau, um olhar de moça …

Ela advinha o fundo de minha felicidade,

Ela me advinha – ah! O que ela inventa?

Purpúreo espreita um dragão

No sem-fundo de um olhar de moça.

 

Fátima Guedes – Vaca profana (A MPB calada) – Duração 3:30

 

Quietos! Minha verdade fala!

 

Dez anos já –

E nenhuma gota te alcançou?

Nem úmido vento? Nem orvalho do amor?

Mas quem haveria de te amar,

Ó mais que rico?

Tua felicidade faz secar em torno,

Torna pobre de amor

– uma terra sem chuva …

 

Nisso te reconheço,

Ó mais que rico,

Ó mais pobre de todos os ricos!

Tens de tornar-te mais pobre,

Sábio insensato!

Queres ser amado.

Ama-se somente aos sofredores,

Só se dá amor aos que tem fome:

 

– Eu sou tua verdade …

 

NIETZSCHE, Friedrich. Quatro poemas. In Obras incompletas. São Paulo: Abril Cultural, 1983.

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