Mito, um sistema que tenta explicar o mundo e o homem

        Você sabe o que é mito? O dicionário Aulete Digital nos apresenta oito significados diferentes para a palavra mito. Neste texto, selecionei o significado de mito como um sistema que tenta explicar o mundo e o homem.

        Assim apresentado, o mito é um sistema que tenta explicar o mundo e o homem. Um sistema tão legitimo quanto o método das ciências ou o das religiões ou de outras crenças.

        Se você se der ao trabalho de ler os significados apresentados no dicionário citado (acesse o link aqui) poderá concluir que “o mito atrai, em torno de si, toda a parte do irracional no pensamento humano, sendo, por sua própria, natureza, aparentado a arte, em todas as suas criações”.

O mito é um modo de significação, uma forma, um símbolo

        “A mitologia grega chegou até nós através da poesia, da arte figurativa e da literatura erudita”

        Os gregos que buscaram compreender o mundo e o homem, valorizando o racional em detrimento do irracional, subestimaram as explicações do mundo e do homem oriundas do mito. Os gregos “racionais”, cujo expoente mais celebre foi Sócrates (469-399 a.C.), via Platão (428-348 a.C.), nos legaram o significado de ficção para o mito.

        Os gregos racionalistas criticavam o mito porque tinham “uma ideia cada vez mais elevada de Deus”. Pois justificavam que “um Deus verdadeiro jamais poderia ser concebido como injusto, vingativo, adultero e ciumento”. Originava-se, assim, a ideia hegemônica de Deus dos nossos dias.

        Xenófanes (576-480 a.C.) considerava a ideia de Deus como algo “sério”, portanto, subjugando o mito como algo menor para a compreensão do mundo e do homem. Dando início a uma nova forma de poder sobre-humano. “Há um deus acima de todos os deuses e homens: nem sua forma nem seu pensamento se assemelham aos dos mortais”.

        Demócrito (520-440 a.C.) radicaliza com seu cientificismo quando afirma que “por necessidade da natureza, os átomos movem-se no vácuo infinito com movimento retilíneo de cima para baixo e com desigual velocidade. Daí entrechoques atômicos e formação de imensos vórtices ou turbilhoes de que se originam os mundos”, os seres, a alma, os deuses, mas tudo, porque tudo é matéria, está sujeito a lei da morte.

Mito, um sistema que tenta explicar o mundo e o homem

 

        Assim, para Demócrito, os deuses vulgares e a mitologia nasceram da fantasia popular. “Deus verdadeiro e natureza imortal não existem”.

A morte do mito

        Com Píndaro (521-441 a.C.), passa a ter voz o que já se encontrava em cena. “O homem não deve atribuir aos deuses a não ser belas ações. Este é o caminho mais seguro”. Assim, Píndaro, considerado o maior dos líricos da Grécia antiga, quantas vezes truncou, podou e alterou o mito, para torna-lo compatível com suas exigências morais.

        Também Esquilo (525-456 a.C.), o pai da tragédia, fez as suas modificações no mito para dele extrair tão-somente a variante sadia. “O dever do poeta, diz Esquilo a respeito do mito de Fedra, é ocultar o vício e não propagá-lo e traze-lo a cena”.

        Outra exigência do mito era a peregrinação como uma característica típica dos heróis, “mas eleger Atenas como ponto obrigatório de convergência dos mesmos, só se pode atribuir a intenções políticas”.

 

Mito, aquilo que diz outra coisa

        Assim, após o século 5 a.C., “os mitos não eram mais compreendidos literalmente”. Os mitos deixaram de ser os fenômenos que explicavam o mundo e o homem. Desde então, os mitos passaram a ser suposições, significações ocultas, subentendidos que imploravam compreensão.

        A partir do século 1, “os nomes dos deuses representavam sobretudo fenômenos naturais”. Os mitos não diziam mais o que diziam. Os mitos diziam outra coisa. Os mitos seriam, desde então, “uma máscara aplicada pelo autor a ideia que se propunha explicar”.

        Entretanto, quem diz que algo não diz o que quer dizer, abre espaço para que se diga o que se queira do que se diz que não diz. Assim, os mitos puderam também ser usados como uma alternativa para explicar o processo de apoteose de homens ilustres.

        E foi justamente essa mais recente representação do significado dos mitos que muito contribuiu para que a mitologia pudesse ter chegado até os nossos dias. Por ter “apimentado” os mitos com uma dose de caráter “histórico” e humano.

Psicologia de Rebanhos

“O rebanho é os meus pensamentos e os meus pensamentos são todos sensações” (Fernando Pessoa).

        Todo mito é uma invenção humana. Todo mito é criado por meio de palavras. As palavras são uma criação humana. Todo mito visa exercer o poder humano pela palavra. Nomear as coisas é uma tentativa humana de se apoderar do conhecimento das coisas. Devido ao seu caráter inventado, as palavras mais atrapalham do que esclarecem. As palavras são usadas como uma forma de poder de um homem para outro homem.

Referencias

BRANDÃO, Junito de Souza. Mitologia grega: Volume I. Petrópolis: Editora Vozes, 1987.

DICIONÁRIO AULETE DIGITAL. Mito. Acesso em 26 de agosto de 2016. Disponível em

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