Eu nunca guardei rebanhos, mas é como se os guardasse

 

O guardador de rebanhos

 

Eu nunca guardei rebanhos,

Mas é como se os guardasse.

 

Pensar incomoda como andar a chuva

Quando o vento cresce e parece que chove mais.

 

Não tenho ambições nem desejos

Ser poeta não é uma ambição minha

É a minha maneira de estar sozinho.

 

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Sinto-me nascido a cada momento

Para a eterna novidade do mundo…

 

Creio no mundo como num malmequer,

Porque o vejo. Mas não penso nele

Porque pensar é não compreender…

 

O mundo não se fez para pensarmos nele

(Pensar é estar doente dos olhos)

Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo.

 

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos

Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,

Mas porque a amo, e amo-a por isso,

Porque quem ama nunca sabe o que ama

Nem sabe por que ama, nem o que é amar.

 

Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar …

 

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Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver do universo

Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer,

Porque eu sou do tamanho do que vejo

E não do tamanho da minha altura…

 

Nas cidades a vida é mais pequena

Que aqui na minha casa no cimo desse outeiro.

Na cidade as grandes casas fecham a vista a chave,

Escondem o horizonte, empurram o nosso olhar para longe de todo o céu,

Tornam-nos pequenos porque nos tiram o que os nossos olhos nos podem dar,

E tornam-nos pobres porque a nossa única riqueza é ver.

 

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Sou um guardador de rebanhos,

O rebanho é os meus pensamentos

E os meus pensamentos são todos sensações.

Penso com os olhos e com os ouvidos

E com as mãos e os pés

E com o nariz e a boca.

 

Pensar uma flor é vê-la e cheira-la

E comer um fruto é saber-lhe o sentido.

 

Por isso quando num dia de calor

Me sinto triste de goza-lo tanto,

E me deito ao comprido na erva,

E fecho os olhos quentes,

Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,

Sei a verdade e sou feliz.

 

 

CAEIRO, Alberto. O guardador de rebanhos. In PESSOA, Fernando. O guardador de rebanhos e outros poemas. São Paulo: Cultrix, 1997.

 

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