O espirito humano tende naturalmente para criticar

        “Nasci em um tempo em que a maioria dos jovens haviam perdido a crença em Deus, pela mesma razão que os seus maiores a haviam tido – sem saber porque. E então, porque o espirito humano tende naturalmente para criticar porque sente, e não porque pensa, a maioria desses jovens escolheu a Humanidade para sucedâneo de Deus.

        Pertenço, porém, aquela espécie de homens que estão sempre na margem daquilo a que pertencem […]. Por isso nem abandonei Deus tão amplamente como eles, nem aceitei nunca a Humanidade.

        Considerei que Deus, sendo improvável, poderia ser, podendo, pois, dever ser adorado;. Mas que a Humanidade, sendo uma mera ideia biológica, e não significando mais que a espécie animal humana, não era mais digna de adoração do que qualquer outra espécie animal.

        Este culto da Humanidade, com seus ritos de Liberdade e Igualdade, pareceu-me sempre uma revivescência dos cultos antigos, em que animais eram como deuses, ou os deuses tinham cabeças de animais.

        Assim, não sabendo crer em Deus, e não podendo crer numa soma de animais, fiquei, como outros da orla das gentes, naquela distância de tudo a que comumente se chama a Decadência.

        A Decadência é a perda total da inconsciência; porque a inconsciência é o fundamento da vida. O coração, se pudesse pensar, pararia.

Pedi tão pouco a vida e esse mesmo pouco a vida me negou

        Uma réstia de parte do sol, um campo próximo, um bocado de sossego com um bocado de pão, não me pesar muito o conhecer que existo. E não exigir nada dos outros nem exigirem eles nada de mim.

        Isto mesmo me foi negado, como quem nega a esmola não por falta de boa alma, mas para não ter que desabotoar o casaco.

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        Considerando que eu ganhava pouco. Disse-me o outro dia um amigo, sócio de uma firma que é prospera por negócios com todo o Estado: “você é explorado, Soares”.

        Recordou-me isso de que o sou. Mas como na vida temos todos que ser explorados. Pergunto se valera menos a pena ser explorado pelo Vasques das fazendas do que pela vaidade, pela gloria, pelo despeito, pela inveja ou pelo impossível.

Há os que Deus mesmo explora, e são profetas e santos na vacuidade do mundo

        Ah, compreendo! O patrão Vasques é a Vida. A Vida, monótona e necessária, mandante e desconhecida. Este homem banal representa a banalidade da Vida. Ele é tudo para mim, por fora, porque a Vida é tudo para mim por fora.

        E, se o escritório da Rua dos Douradores representa para mim a vida, este meu segundo andar, onde moro, na mesma Rua dos Douradores, representa para mim a Arte. Sim, a Arte, que mora na mesma rua que a Vida. Porem num lugar diferente, a Arte que alivia da vida sem aliviar de viver, que é tão monótona como a mesma vida, mas só em lugar diferente.

        E assim sou, fútil e sensível, capaz de impulsos violentos e absorventes, maus e bons, nobres e vis. Mas nunca de um sentimento que subsista, nunca de uma emoção que continue, e entre para a substancia da alma”. (*)

Psicologia de Rebanhos

“O rebanho é os meus pensamentos e os meus pensamentos são todos sensações” (Fernando Pessoa).

        “Tudo em mim é a tendência para ser a seguir outra coisa. Uma impaciência da alma consigo mesma, como com uma criança inoportuna. Um desassossego sempre crescente e sempre igual. Tudo me interessa e nada me prende”. (*)

(*) PESSOA, Fernando. Livro do desassossego: composto por Bernardo Soares, ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

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