O homem é o criador dos valores, mas esquece sua própria criação

        “Apolo é o Deus da clareza, da harmonia e da ordem; Dioniso, o deus da exuberância, da desordem e da música”.

        “O homem é o criador dos valores, mas esquece sua própria criação e vê neles algo de ‘transcendente’, de ‘eterno’ e ‘verdadeiro’, quando os valores não são mais do que algo ‘humano, demasiado humano’’’.

 

O dionisíaco e o socrático

        “Nietzsche trouxe uma nova concepção da filosofia e do filosofo, não se trata mais de procurar o ideal de um conhecimento verdadeiro, mas sim de interpretar e avaliar”.

        A interpretação procura conhecer o sentido de um fenômeno. Porém, por mais alcance que tenha o pensamento, ele será sempre parcial e fragmentário. O conhecimento é uma ideia de um sujeito, e somente daquele sujeito, que pensa o sentido de um fenômeno. A avaliação tenta determinar o valor de um fenômeno. A avaliação busca entender para que o fenômeno acontece, se presta, existe.

        Assim é a busca por um ideal. A busca de um ideal é similar a arte de interpretar. É similar a coisa a ser interpretada. Assim é a verdade. A verdade é similar a arte de interpretar. Na arte de interpretar, ator e obra se avaliam e interpretam a existência.

 

O homem é o criador dos valores, mas esquece sua própria criação

        Entre os filósofos pré-socráticos existe unidade entre o pensamento e a vida. A vida “estimula” o pensamento e o pensamento “afirma” a vida. O pensamento é algo que existe porque sentimos. “Mas o desenvolvimento posterior da filosofia trouxe consigo a progressiva degeneração dessa característica, e, em lugar de uma vida ativa e de um pensamento afirmativo, a filosofia propôs como tarefa ‘julgar a vida’”.

        A filosofia se cristaliza, então, opondo a vida valores, com a pretensão de significados superiores aos sentidos. Esses valores, criados pelos filósofos e aqueles que os apoiaram, passam a ser a medida da vida. O que é certo ou errado, bom ou mau, belo ou feio. Os filósofos e aqueles que os apoiaram impuseram limites a maneira de viver de todos. Aqueles filósofos e seus apoiadores condenaram a vida a valores ideais de existência. É quando surge, então, o filosofo metafisico – o filosofo do sobrenatural.

        Nesse momento “moralista” (idealista) da vida grega, torna-se propicio a degeneração do sentimento da vida e a ascensão do pensamento sobre a vida. Então, aparece Sócrates, como o representante daqueles que apoiam a ascensão do pensamento sobre a vida. É nessa fase da vida grega que “se estabelece a distinção entre dois mundos, pela oposição entre essencial e aparente, verdadeiro e falso, inteligível e sensível”.

        Sócrates e aqueles que o apoiam descobriram ”a metafisica fazendo da vida aquilo que deve ser julgado, medido, limitado, em nome de valores ‘superiores’ como o Divino, o Verdadeiro, o Belo, o Bem”. Valores criados pelo próprio homem.

 

A invenção das palavras

        As palavras são uma invenção do homem, de qualquer classe de homem. As palavras, sejam elas quais forem, não querem dizer nada. As palavras por si só, apenas impõem uma interpretação. O que nos interessa, portanto, não é o significado de uma palavra, mas o que existe numa palavra para ser interpretado. Pois tudo é inventado, tudo é mascara, interpretação e avaliação.

 

Um poder concedido

        Todo aquele sobre quem se diz que tem poder conquistou tal poder através da violência. A violência é uma concessão de poder, dada por alguém para aquele que passa a deter o poder. Portanto, para todo aquele que detém o poder, corresponde alguém que lhe concedeu tal poder. A consequência de conceder poder a alguém é dar o direito a esse alguém de um poder sobre aquele que concede o poder. O direito, portanto, é uma concessão dada e conquistada pela violência, arrogância e usurpação.

 

Psicologia de Rebanhos

O rebanho é os meus pensamentos

E os meus pensamentos são todos sensações.

(Fernando Pessoa)

 

        O poder é exercido pela palavra. A palavra é uma invenção do homem. Entretanto, as palavras em si não querem dizer nada. As palavras são interjeições sofisticadas de sentimentos de ação e reação. O poder das palavras é conhecido desde a época dos deuses gregos. As palavras são mandamentos. As palavras são sons impostos pela violência. As palavras que formam pensamentos lógicos ou sensatos são fundamentos da ciência e da justiça. Com essas palavras pode-se dominar a maioria das pessoas. As palavras constroem imagens. Essas imagens são ainda mais poderosas que as palavras que as constroem. Com essas imagens pode-se submeter uma multidão.

        A Psicologia de Rebanhos busca compreender as imagens que as palavras tentam representar. A Psicologia de Rebanhos busca compreender como alguém detém o poder sobre outro alguém. A Psicologia de Rebanhos busca compreender como alguém concede poder para outro alguém. A Psicologia de Rebanhos busca compreender como alguém se empodera.

 

Referencias

 

NIETZSCHE, Friedrich. Obras incompletas. São Paulo: Abril Cultural, 1983.

 

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