O meu instinto de perfeição deveria inibir-me de acabar

 

        “Pasmo sempre quando acabo qualquer coisa. Pasmo e desolo-me. O meu instinto de perfeição deveria inibir-me de acabar; deveria inibir-me até de dar começo. Mas distraio-me e faço.

        O que consigo é um produto, em mim, não de uma aplicação de vontade, mas de uma cedência dela. Começo porque não tenho força para pensar; acabo porque não tenho alma para suspender. Este livro é a minha cobardia” (Pessoa, 1999).

 

        “’Fernando Pessoa não existe, propriamente falando’. Quem nos disse foi Álvaro de Campos, um dos personagens inventados por Pessoa para lhe poupar o esforço e o incomodo de viver.

             Dúvida e hesitação são os dois absurdos pilares mestres do mundo segundo Pessoa e do Livro do Desassossego, que é seu microcosmo.

        Explicando o seu próprio mal e o do livro numa carta a Armando Cortes-Rodrigues datada de 19 de novembro de 1914, o jovem Pessoa diz: ‘O meu estado de espirito obriga-me agora a trabalhar bastante, sem querer, no Livro do Desassossego.

        Mas tudo fragmentos, fragmentos, fragmentos’. E numa carta escrita um mês antes ao mesmo amigo, fala ‘de uma depressão profunda e calma’, que só lhe permitia escrever ‘pequenas coisas’ e ‘quebrados e desconexos pedaços do Livro do Desassossego’.

 

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        A ficção de Soares (a quase-realidade de Pessoa), mais do que uma mera justificação ou explicação deste desconexo Livro, é proposta como modelo de vida para todas as pessoas que não se adaptam a vida real normal e cotidiana, e não só.

        Pessoa sustentava que para viver bem era preciso manter sempre vivo o sonho, sem nunca o realizar, dado que a realização seria sempre inferior ao sonhado. E deu-nos Bernardo Soares para mostrar como se faz.

       

Como se faz então? Não fazendo. Sonhando.

        Cumprindo os nossos deveres cotidianos, mas vivendo, simultaneamente, na imaginação. Viajando imenso, na imaginação. Conquistando como Cesar, na imaginação. Gozando sexualmente, na imaginação. Sentindo tudo de todas as maneiras, não na carne, que sempre cansa, mas na imaginação.

        Viver sonhando, sonhar imaginando, imaginar sentindo – era este o credo que ressoava em quase todos os cantos do universo de Fernando Pessoa, mas Soares era o exemplo mais prático disto” (Zenith, 1997).

 

“A sonhar eu venci mundos,

Minha vida um sonho foi.

Cerra teus olhos profundos

Para a verdade que dói.

A Ilusão é mãe da vida:

Fui doido e tudo por Deus.

Só a loucura incompreendida

Vai avante para os céus” (Pessoa, 1974).

Psicologia de Rebanhos

“O rebanho é os meus pensamentos e os meus pensamentos são todos sensações” (Fernando Pessoa).

        A vida real é uma sensação. O sonho é uma sensação. A ilusão é uma sensação.

Referencias

PESSOA, Fernando. Obra poética. Rio de Janeiro: Companhia José Aguilar Editora, 1974.

PESSOA, Fernando. Livro do desassossego: composto por Bernardo Soares, ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

ZENITH, Richard. Introdução. In PESSOA, Fernando. Livro do desassossego: composto por Bernardo Soares, ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

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