O mito é uma narrativa da criação das coisas que existem

        O mito conta a história de uma realidade que passou a existir. O mito é uma narrativa da criação das coisas que existem. O mito nos conta a história de como algo, que não era, começou a existir. Uma pedra, um animal, um comportamento, a gravidade, as relações entre os elementos, etc.      

        Não sabemos como essa forma de significar o mundo surgiu. Mas chegou até nos através de várias gerações e relata uma explicação de como o mundo é o que é. O mito é, então, uma explicação do mundo através da palavra.

         O mito expressa o mundo, a realidade, através da participação coletiva.

        Atualmente, o senso comum entende o mito como a expressão de uma fantasia. O senso comum entende que o mito é uma mentira. Para o senso comum, dizer que uma coisa é mito, é desvalorizar a existência dessa coisa.

        Apesar do senso comum, também se compreende que o mito expressaria, seja qual for a época e o lugar, o que foi herdado daquilo que existiu anteriormente. O mito expressaria então a história da herança genética das coisas que ora existem.

        Uma forma mais sofisticada do senso comum, compreende o mito como um símbolo. Compreensão racionalista para algo que foge ao alcance da razão.  Do mesmo jeitinho como a razão cria a loucura. (A razão é transformada pelos racionalistas em referência de valor de todas as coisas.) Os racionalistas inventam a loucura como sendo a ausência da razão – onde não há razão, há loucura.

        E os racionalistas fazem o mesmo com o mito, quando entendem o mito como símbolo. A razão transforma o mito numa fantasia. E o que vem a ser uma fantasia? Com certeza, os racionalistas explicam que a fantasia não possui uma das principais características da razão – a lógica. Mas, que logica seria esta? Ora, a lógica da razão. Ou melhor, a lógica de quem possui a razão.

        A razão, impotente para acessar o mito, tentou explicar o mito através de um conceito de equivalência, o símbolo. Assim, o mito representaria mais do que o seu significado evidente e imediato.

        O mito não é mais aquilo que é, mas aquilo que quer dizer alguma coisa além daquilo que diz.

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        O mito, portanto, não mais traduz a origem de algo que não existia – uma arvore, um habito, um gesto, uma relação. O mito não mais se refere a imagem dos princípios das coisas inexistentes. A razão transforma o mito numa grande farsa – uma mentira. Aquilo, cuja existência o mito explica, não mais existe, virou “mito”. Aqui, acontece uma inversão – o mito não mais existe.

        Aqui, a razão toma posse de uma das suas principais armaduras – a verdade. Tudo que não passa pela lógica da razão não é verdadeiro – não tem valor. O valor está na razão. Somente a razão pode dizer o que é valido.

        Eis aqui, o fundamento de toda a religião.

        A religião pode ser definida como o conjunto de atitudes e atos pelos quais o homem se liga ao divino ou aos seres invisíveis tidos como sobrenaturais. E quem faz essa ligação? A razão, é claro! Mas como acreditar numa tal tolice? Uma de milhares de outras hipóteses possíveis: ora, basta propagar a tolice repetidamente – publique. Assim, como faço nesse blog. Publicar é tornar público.

        Sabemos que a repetição autonomiza um comportamento – o habito. E aprendemos que um comportamento tende a se repetir se for reforçado. Então, criamos o ritual – uma forma de suscitar e reafirmar o mito.

        O ritual é a pratica do mito. Todas as religiões têm os seus rituais. Até mesmo aquelas que dizem que não os tem. Nenhuma razão sobrevive a ausência de repetição e de reforço.

        “O mito rememora, o rito comemora”.

        “Rememorando os mitos, reatualizando-os, renovando-os por meio de certos rituais, o homem torna-se apto a repetir o que os deuses e os heróis fazem “nas origens”, porque conhecer os mitos é aprender o segredo da origem das coisas.

        Assim a realidade se adquire exclusivamente pela repetiçao ou participação; tudo que não possui um modelo exemplar é vazio de sentido, isto é, carece de realidade”.

Mito, rito e religião

        Assim, o sobrenatural (o divino, os seres sobrenaturais) aflora através do natural (o mundo físico). Na medida que o sobrenatural ascende sobre o natural, criamos o sagrado e o profano. Mais uma característica da razão – dividir para governar.

        Agora, a razão fiel e submissa a religião não mais cria o caráter sagrado, mas, sim, é o caráter sagrado, preexistente, que cria a razão. Assim, a compreensão da origem das coisas é feita pela revelação.

        Deste ponto de vista, nenhuma pedra, nenhuma arvore, nenhum animal, nem o homem, nem um pensamento, nem uma situação e nenhum relacionamento são sagrados. Tudo é profano. O que é sagrado é aquilo que eles revelam.

Psicologia de Rebanhos

“O rebanho é os meus pensamentos e os meus pensamentos são todos sensações”

(Fernando Pessoa).

        “O mito desempenha uma função indispensável. O mito exprime, exalta e codifica a crença. O mito salvaguarda e impõe os princípios morais. O mito garante a eficácia do ritual. O mito oferece regras praticas para a orientação do homem”.

 

Mito da Caverna – por Maurício de Souza – Duração 2:54

Referencias

BRANDÃO, Junito de Souza. Mitologia grega: Volume I. Petrópolis: Editora Vozes, 1987.

 

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