Os indivíduos que formam uma multidão não agem pela sua consciência

        Uma multidão “constitui uma alma coletiva poderosa, mas momentânea”. Uma característica da época atual é evidente quando vemos uma multidão em ação, os indivíduos que formam uma multidão não agem pela sua consciência, mas pela “consciência” da multidão.

        “As grandes convulsões que precedem as mudanças de civilização parecem determinadas por transformações políticas consideráveis, invasões de povos ou derrubadas de dinastias”. Mas não é bem assim que ocorre. “As únicas mudanças importantes, aquelas das quais provem a renovação das civilizações, produzem-se nas opiniões, concepções e crenças”.

 

A idade em que entramos será verdadeiramente a era das multidões

 

      “Hoje as reivindicações das multidões tornam-se cada vez mais claras e tendem a destruir completamente a sociedade atual para reconduzi-la ao comunismo primitivo, que era o estado normal de todos os grupos humanos antes da aurora da civilização.

        Pouco aptas ao raciocínio, as multidões mostram-se, ao contrário, muito aptas a ação. A história ensina que no momento em que as forças morais, base de uma sociedade, perdem seu vigor, a dissolução final é efetuada pelas multidões inconscientes e brutais adequadamente qualificadas como barbaras.

        Até aqui as civilizações foram criadas e guiadas por uma pequena aristocracia intelectual, nunca pelas multidões. Estas tem poder apenas para destruir. Seu domínio sempre representa uma fase de desordem. Quando o edifício de uma civilização está carcomido, as multidões levam-no ao desmoronamento. É quando seu papel aparece”.

 

O papel das multidões é destruir

 

        A qualidade da razão, o bom senso da lógica ou o raciocínio bem conduzido, poucas influências exercem sobre as multidões. As teorias metafisicas são rapidamente ignoradas pelas multidões. “Somente as impressões que se fazem surgir em sua alma podem seduzi-las”

        “O mais injusto poderá ser na pratica o melhor para as multidões, se for o menos visível e aparentemente o menos pesado. Por isso um imposto indireto, mesmo exorbitante, sempre será aceito pela multidão. Sendo diariamente recolhido nos objetos de consumo, por frações de centavos, não atrapalha seus hábitos e pouco a impressiona. Os homens nunca se comportam seguindo as prescrições da razão pura”.

 

Um indivíduo numa multidão faz parte de uma unidade mental

 

        Quando dizemos multidão estamos nos referindo a uma reunião de indivíduos quaisquer. A multidão pode mesmo ser formada por quaisquer indivíduos, pois uma multidão é “uma aglomeração de homens que possui características novas muito diferentes daquelas de cada indivíduo que a compõe”.

        O que caracteriza um indivíduo numa multidão é o desaparecimento da sua personalidade e a orientação dos seus sentimentos e dos seus pensamentos em um mesmo sentido. No sentido dado pela multidão.

 

 

        “O fato mais surpreendente apresentado por uma multidão é o seguinte: quaisquer que sejam os indivíduos que a compõem, o mero fato de se haverem transformado em multidão dota-os de uma espécie de alma coletiva. Essa alma os faz sentir, pensar e agir de um modo completamente diferente daquele como sentiria, pensaria e agiria cada um deles isoladamente”.

        “Na alma coletiva, apagam-se as aptidões intelectuais dos homens e consequentemente sua individualidade”. Numa multidão não é possível realizar atos que exijam “uma inteligência elevada”. Nas multidões imperam “não a inteligência, mas a mediocridade”.

 

Características especificas das multidões

 

Primeira característica é que “o indivíduo na multidão adquire, exclusivamente por causa do número, um sentimento de poder invencível que lhe permite ceder a instintos que, sozinho, teria forçosamente refreado”. A multidão garante o anonimato, por isso um indivíduo na multidão cede facilmente a comportamentos mais “instintivos”. Numa multidão, o sentimento de responsabilidade de um indivíduo desaparece.

Segunda característica, o contagio mental. “Em uma multidão, todo sentimento, todo ato é contagioso, e contagioso ao ponto de que o indivíduo sacrifique muito facilmente seu interesse pessoal ao interesse coletivo”. Sacrificar o seu interesse pessoal é um comportamento que se encontra em desacordo com a propensão de quaisquer espécies de indivíduos. Entretanto, o homem, quando faz parte de uma multidão, torna-se capaz de sacrificar o seu interesse pessoal.

Terceira característica, os indivíduos na multidão possuem características especificas as vezes muito opostas as do indivíduo isolado.

        “Esse é aproximadamente o estado do indivíduo que faz parte de uma multidão. Ele já não tem consciência de seus atos.

        Portanto, o desaparecimento da personalidade consciente, predomínio da personalidade inconsciente, orientação por meio de sugestão e de contagio dos sentimentos e das ideias num mesmo sentido, tendência a transformar imediatamente em ato as ideias sugeridas são as principais características do indivíduo na multidão. Ele já não é ele mesmo, é um autômato cuja vontade tornou-se impotente”.

        O homem que faz parte de uma multidão possui a “faculdade em se deixar impressionar por palavras, imagens e conduzir a atos que lesam seus mais evidentes interesses”. Mas não é apenas pelo seu comportamento que o indivíduo na multidão difere de si mesmo. “Antes mesmo de ter perdido toda independência, suas ideias e seus sentimentos se transformaram”.

Psicologia de Rebanhos

O rebanho é os meus pensamentos

E os meus pensamentos são todos sensações.

(Fernando Pessoa)

 

        A pratica terapêutica pretende acompanhar o indivíduo na transformação de seus sentimentos, em direção a sua autonomia e a sua responsabilidade pelos seus atos. Se é possível deixar-se levar, também é possível conter-se. Experimentar as instancias que separam os opostos é uma das técnicas utilizadas na psicoterapia. O entendimento de uma sensação passa pela compreensão da sua sensação simétrica oposta. Para perceber uma emoção como tristeza é necessário percorrer as instancias da alegria. A vida é movimento.

 

Referencias

LE BON, Gustave. Psicologia das multidões. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2008.

 

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