Todo o mundo precisa de psicoterapia?

        Do que você precisa para viver? Será que você incluiria a psicoterapia como algo imprescindível para a sua sobrevivência? Você se olha e se vê como qualquer outro bicho-animal? Sendo um bicho-animal, você só precisa, para viver, de respirar, de comer e de alguém que cuide de você, até que você adquira comportamentos que o capacitem a cuidar de si.

        Quando você se olha e se vê como bicho-homem, a coisa fica mais complexa, as suas necessidades tornam-se ilimitadas.

        Dentre algumas necessidades básicas descobertas pelo bicho-homem, destaco três perguntas que alguns desses bichos fazem: quem sou eu, de onde eu vim e para onde eu vou?

        Esses são os bichos que precisam de psicoterapia, os perguntadores, os inquietos, os curiosos, os cientistas, os adeptos de religiões. E os insatisfeitos com as suas próprias respostas e as respostas dos outros para as suas questões.

        Tem, também, aqueles bichos que são levados para a psicoterapia por alguém, por engano ou por ocasião, pois não tem a menor ideia do que está se passando com eles.

        São aqueles bichos com dificuldades de aprendizagem, com dificuldades de concentração, com dificuldades de relacionamentos, com dificuldades de lidar com as dificuldades dos outros, enfim, em dificuldades.

        Há aqueles outros bichos com indefinições profissionais, vítimas de abusos sexuais dentro da própria família e fora dela, vítimas do alcoolismo, com falta de foco, com falta de projetos de vida, com falta de amor, com falta.

Homem crocodilo

Mas também tem aqueles bichos que procuram a psicoterapia por vontade própria.

 

        Aqueles que querem entender os amores desfeitos ou que estão por se desfazer ou como fazer um. Aqueles que ainda querem entender os complicados relacionamentos com os pais ou com os filhos. Aqueles que tem sentimentos de rejeição e blá blá blá.

        Ah! Tem também aqueles bichos desenganados pela medicina. Parênteses – o médico desengana porque não tem um remédio para receitar, um procedimento novo para fazer ou uma cirurgia para indicar – Fecha parênteses. Então, eles são orientados para procurar a psicoterapia porque os motivos das suas queixas são de “fundo emocional”.

Os “amigos-bichos” dos bichos desse grupo, os bem adaptados a vida, diriam que é “frescura” deles, os bichos.

        E mais alguns tantos outros bichos precisam de psicoterapia por motivos impensáveis como a asma, gagueira, hipertensão, dores no corpo, insônia, depressão, irritabilidade e outros incômodos crônicos menos famosos.

        Os bichos buscam a psicoterapia ou são levados até ela? Algo parece comum, muitos bichos buscam a psicoterapia para encontrar respostas para a sua vida. E, por incrível que pareça, não é que eles encontram! Os bichos encontram uma pessoa em si mesmos. Alguém que sempre esteve ali com eles e eles ainda não tinham percebido.

 

Psicologia de Rebanhos

O rebanho é os meus pensamentos

E os meus pensamentos são todos sensações.

(Fernando Pessoa)

 

        A Psicoterapia é indicada para aquele que deseja mudar um comportamento, um sentimento, um pensamento. É claro que é possível proceder a essa mudança sozinho. Basta saber como proceder. A Psicologia acredita que estar acompanhado numa mudança de um jeito de ser é mais indicado do que fazer sozinho.

        É que o nosso jeito de ser se produz na relação com o outro. E, portanto, o que se pretende mudar é a forma com que nos relacionamos com o outro. Essa relação com o outro, além do comportamento explicito da interação com alguém, também se refere ao jeito como nos relacionamos conosco. Também se refere ao relacionar-se consigo mesmo.

        Esse é um dos grandes desafios da psicoterapia: compreender como se relaciona consigo mesmo. Por isso a necessidade de acompanhamento por outra pessoa.

Saia desse corpo que não lhe pertence!

“Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento”

(Clarice Lispector).

        Dou início, neste post, a investigação sobre a relação existente entre a pratica da tatuagem e a formação da subjetividade.

        Junto com você, pretendo identificar alguns processos de formação da personalidade que utilizam o corpo como meio para transformações sociais.

        Também pretendo, com a sua colaboração, articular um diálogo entre os conceitos que lidam com a construção da identidade, levando em conta que a subjetividade é um processo que não se origina no corpo, mas que se realiza no corpo.

        Vamos tentar compreender se a subjetividade tem origem no corpo ou se realiza no corpo, a partir das suas vivencias, seus movimentos, suas percepções, suas expressões e suas criações.

 

Capitulo 1

 

        Convido você a um passeio pela história do corpo no mundo ocidental para investigar as participações da pratica da tatuagem na formação da subjetividade.

“Podemos dividir os adeptos das modificações corporais em dois grandes grupos.

        O primeiro é formado por indivíduos que buscam se aproximar o máximo possível do padrão de beleza determinado pela sociedade. Dentre as práticas utilizadas podemos citar as dietas, a musculação, a cirurgia plástica.

        O segundo é formado por indivíduos que se utilizam de elementos e formas que não possuem correlato com os pertencentes ao corpo humano. Vinculadas as práticas de piercing, implante estético, escarificação e tatuagem. Esse último grupo pode ser dividido em seguidores da moda e por pessoas que compartilham de ideias e ideais em relação as modificações corporais” (Pires, 2005).

Tatuagem

        Você sabia que a tatuagem é utilizada “desde o início das civilizações para as mais diferentes intenções? Ela informa, seleciona, rotula, descrimina (também discrimina), enfeita, atua como identificadora de personalidades e de intenções. De acordo com a visão de quem a observa, pode atrair ou afastar pessoas” (Simões, 2011).

        Você já percebeu como a nossa sociedade prioriza a visão como o sentido mais desenvolvido?

        “A forma primeira com que o indivíduo percebe o outro está ligada a imagem? O ato de abstrair ou alterar as próprias formas, além de permitir ao indivíduo uma visão simbólica de si e de seus semelhantes, retirou da representação do corpo o rigor do funcionamento orgânico” (Pires, 2005).

        Essas transformações me sugerem uma pergunta: o meu corpo será sempre o meu corpo?

        Habitualmente, na cultura ocidental, costuma-se dizer que se tem um corpo e não que se é corpo. Assim sendo, parece ser necessário saber a quem este corpo pertence e quem seria este eu que afirma possuí-lo. A compreensão do humano ao longo da história foi transferindo a centralidade da vida para o órgão que sedia a dinâmica do pensar, o cérebro, tornando a pessoa algo como pensamento passeando em um corpo (Machado, 2011).

 

Psicologia de Rebanhos

O rebanho é os meus pensamentos

E os meus pensamentos são todos sensações.

(Fernando Pessoa)

 

        A Psicologia de Rebanhos valoriza todas as formas de dar sentido ao mundo. Consideramos em igualdade de importância para a compreensão do sentido, tanto o cérebro quanto os demais órgãos dos sentidos e os órgãos e vísceras e músculos não considerados propriamente dos sentidos. Na Psicologia de Rebanhos consideramos que somos o corpo. Parodiando a máxima de Descartes “Penso, logo existo”, dizemos “Existo, logo penso”.

 

Referências

MACHADO, Renato Ferreira. Humanidade, saúde e crise de corporeidade na pós-modernidade. Teocomunicação, Porto Alegre, v. 41, n. 2 p. 315-324, jul/dez, 2011. Acesso em 05 de junho de 2015. Disponível em

PIRES, Beatriz Ferreira. O corpo como suporte da arte: piercing, implante, escarificação, tatuagem. São Paulo: Editora SENAC, 2005.

SIMÕES, Renan. A Comunicação não Verbal Através da Tatuagem. XIV Conferência Brasileira dos Estudos da Folkcomunicação – “O artesanato como processo comunicacional” – IX Encontro Regional de Comunicação, 2011. Acesso em 21 de julho de 2015. Disponível em

Como posso ajudar?

Diversas terapias ressaltam:

        . O crescimento pessoal – como se você estivesse na vida para evoluir, que nem passistas num desfile de escola de samba;

        . A sensibilização – você precisa colocar para fora os seus sentimentos e as suas emoções – como se você fosse uma pessoa iradamente descontrolada, sem noção de que a vida não é um palco iluminado;

        . O encontro – o encontro consigo mesmo e com os outros, o tal do contato consigo mesmo, a tomada de consciência dos seus sentimentos e blá, blá, blá. Vai um “baseado” aí, amizade?

 

Algumas terapias transformam a vida das pessoas:

        . Com novas expectativas – a partir de agora você será uma pessoa diferente;

        . Com regras – se você fizer de tal maneira obterá tal resultado;

        . Com palavras de ordens – ame-se, seja feliz, relaxe.

        Essas terapias afastam você das suas próprias experiências. Dizem para que você seja uma pessoa aberta, amorosa e alegre. Assim você não presta a atenção no seu próprio processo, nos seus desejos e nas suas necessidades.

        Outras terapias constroem uma história da sua vida através da interpretação de tudo que você faz: você se atrasa para a sessão e o terapeuta quer saber o significado do seu atraso e não aceita a sua explicação por conta do transito caótico. Ele traduz a sua experiência para o sistema de crenças dele.

        Se o terapeuta tem intenção ou meta de não ser o que ele é, isso afeta a relação com você. Qualquer tentativa de modifica-lo, é uma afirmação de sua não-aceitação, tal como você é. A única meta do terapeuta é ressaltar a sua experiência de modo que você possa ser visto por você mesmo, razão de ser do processo terapêutico.

        Mas admita, a tentação para ser um ajudante capaz, eficaz e eficiente é imensa! É que você está convencido de que é incapaz ou impotente de resolver as suas dificuldades por si mesmo, pois você acha que precisa de uma força de vontade, de uma pílula, de uma cirurgia ou de uma magia que o modifique.

 

Psicologia de Rebanhos

O rebanho é os meus pensamentos

E os meus pensamentos são todos sensações.

(Fernando Pessoa)

 

        Você é o único responsável pela sua vida. Ajudar não é fazer por alguém. A ajuda é para o ajudado e não para quem ajuda. Oferecer ajuda é diferente de fazer por alguém. Aquele que quer, pede ou precisa de ajuda é quem orienta onde, o que, quanto ou como ser ajudado. Por mais empático que o ajudador possa ser, ele nunca sentira o que sente o ajudado.

        As nossas sensações são singulares e intransferíveis, são as nossas sensações. As suas sensações são somente as suas sensações, de mais ninguém. É assim que a Psicologia de Rebanhos propõe ajudar. Ajuda para você vivenciar as suas próprias sensações.

Vídeo

POSSO AJUDAR? – Duração: 3:04

O guardador de rebanhos

SOU UM guardador de rebanhos.

O rebanho é os meus pensamentos

E os meus pensamentos são todos sensações.

Penso com os olhos e com os ouvidos

E com as mãos e os pés

E com o nariz e a boca

 

O guardador de rebanhos 7

Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la

E comer um fruto é saber-lhe o sentido.

 

Por isso quando num dia de calor

        Me sinto triste de gozá-lo tanto,

      E me deito no comprido da erva,

E fecho os olhos quentes,

Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,

Sei a verdade e sou feliz.

 

Psicologia de Rebanhos

“O rebanho é os meus pensamentos e os meus pensamentos são todos sensações” (Fernando Pessoa).

 

        O desenvolvimento da linguagem proporciona ao homem criar uma enormidade de ideias de significados para as suas vivencias. Essa capacidade diversificada de criação linguística desqualifica as nossas outras formas de dar sentido a vida.

        Venho me juntar ao poeta para mostrar que é suficiente compreender uma flor vendo-a e cheirando-a. As nossas sensações criam os nossos pensamentos. As sensações têm o seu jeito próprio de dar sentido ao mundo. A Psicologia trabalha com a compreensão do como formamos as nossas sensações.

 

 

CAEIRO, Alberto. O guardador de rebanhos. In PESSOA, Fernando. Obra poética. . Rio de Janeiro: Companhia José Aguilar Editora, 1974.