As faltas eram julgadas de fora para dentro

        Na Grécia antiga, as faltas eram julgadas de fora para dentro. Não se julgavam intenções, mas reparações, indenizações a vítima, se fosse o caso. Quando a falta é cometida entre pais, filhos, netos, e, entre irmãos, por linha colateral, implica em parentesco sagrado (pessoas ligadas por laços de sangue). Esposos, cunhados, sobrinhos e tios não são parentes em sagrado, mas em profano ou ante os homens.

        Acreditava-se na crença da maldição familiar, a saber: qualquer falta cometida por um membro da família recai sobre o grupo familiar inteiro, isto é, sobre todos os parentes e seus descendentes “em sagrado” ou “em profano”.        Esta crença na transmissão da falta, na solidariedade familiar e na hereditariedade do castigo é uma das mais enraizadas no espirito dos homens.

        Entretanto, conta-se a boca pequena que essa tal maldição não passa de um conflito entre gerações. Esse antagonismo entre gerações, todavia, quer seja entre pai e filho, avo e neto, ou entre pai e pretendente, é sempre um combate pelo poder. E tem sempre como desfecho a vitória do mais jovem.

        Desse modo, o parricídio (homicídio do pai) e o filicídio (homicídio do filho) ou são substituídos por um simples destronamento, ou são realizados. Mas quando realizados são resultantes de um erro, embora se tenha o respaldo de um oraculo. Em ambos os caos, os poetas evitam colocar em cena o mais horrendo dos crimes aos olhos da sociedade grega.

 

        “O mérito pessoal é uma condição necessária para se subir ao trono dos antigos e a persistência da energia ativa é indispensável para conservar o poder real”. Donde se conclui que a sucessão por morte se fundamenta no princípio da incapacidade, por velhice (cessação da energia ativa), de exercer a função real. A razão é de ordem magica: quem perdeu a força física não pode transmiti-la como deveria e teria que fazer um rei.

O sacrifício do primogênito é um tema comum no mito

        Em todas as tradições encontra-se o símbolo do filho ou da filha imolados, cujo exemplo mais conhecido é o “sacrifico” de Isaac por Abraão. Nas culturas mais antigas, um tal sacrifício, não obstante seu caráter religioso, era exclusivamente um habito, um rito. No caso de Abraão é um ato de fé.

        No mundo antigo oriental, o primeiro filho era, não raro, considerado como filho de deus. É que no Oriente antigo as jovens tinham por norma passar uma noite no templo para “conceber” do deus. Esse deus era representado, evidentemente, pelo sacerdote ou por um enviado, o estrangeiro.

        Pelo sacrifico desse primeiro filho, do primogênito, restituía-se a divindade aquilo que, de fato, lhe pertencia. O sangue jovem estabelecia a energia esgotada do deus, porque as divindades da vegetação e da fertilidade exauriam-se em seu esforço. Na época histórica esses sacrifícios reais foram substituídos por uma “provação” como o de Isaac. Mas cuja execução não mais de consumava: Isaac foi substituído por um carneiro.

        Trata-se, ao que tudo faz crer, de uma repressão patriarcal: obtida a submissão, o ato se dá por cumprido e o opressor por satisfeito.

Psicologia de Rebanhos

“O rebanho é os meus pensamentos e os meus pensamentos são todos sensações” (Fernando Pessoa).

        A Psicologia dos povos muito antigos consistia na reparação dos comportamentos. Reparava-se um comportamento com um outro comportamento. Depois, passamos a sacrificar o novo para inundar de sangue novo o velho poder já exaurido. O homem tem uma “quedinha” para apoiar a tradição, para alimentar o poder instituído e alimentar-se dele. Com o advento da fé, origina-se uma nova Psicologia. O homem descobre que o poder está na fé. O antigo impede o reinado do novo por um ato de fé. O novo é reprimido e submetido e se dá por satisfeito por não ter sido extinguido. Mas a vida é movimento. E o que se move, muda ou retorna. Assim, vemos o retorno da Psicologia dos povos antigos para lidar com as repressões e submissões criadas pela ausência da reparação dos comportamentos.

Referencias

BRANDÁO, Junito de Souza. Mitologia grega: Volume I. Petrópolis: Editora Vozes, 1987.

 

Uma mudança no público consumidor da tatuagem

Saia desse corpo que não lhe pertence!

 Capitulo 8

 

        Nas décadas de 1950 e 1960 ocorre uma mudança no público consumidor da tatuagem. A tatuagem “passa também a ser utilizada por gangues e como emblema de movimentos contra culturais, como o movimento hippie e mais tarde o movimento punk” (Silva, 2010). “Passou, de forma de expressão popular através da qual os setores marginais comunicavam seus sentimentos e paixões, para converter-se numa marca ornamental de identificação grupal e de transgressão social” (Fonseca, 2003).

        “Na sociedade atual, a tatuagem perde parcialmente essa funcionalidade (identificação grupal e transgressão social), porém, segue exercendo o papel de indicativo da construção do indivíduo, expressando socialmente sua singularidade e autonomia” (Ferreira, 2012).

Tatuagem e arte

        “A arte dos anos 1960 tira o corpo da dimensão do pecado, da repressão, da inacessibilidade e da alienação causada pelas restrições sociais e o coloca na dimensão de agente e receptor de sensações e prazeres”.

        Na body art, “o artista se coloca como obra viva, usando o corpo como instrumento, destacando sua ligação com o público e a relação tempo-espaço. Desde a body art, não basta uma arte que retrate o corpo, ou que seja produzida sobre o corpo, ela tem que ser produzida com o corpo.

        O happening é uma forma de expressão artística desenvolvida em grupo que valoriza a espontaneidade e o improviso”.

        No início dos anos 1970, “o coletivo cede lugar ao individual, o improviso e a espontaneidade, ao conceitual. Surge a performance, que consiste na justaposição e na colagem de imagens não relacionadas, selecionadas ao acaso, de maneira lúdica e anárquica. Difere do happening porque, em vez de um ritual, trata-se agora de um espetáculo”.

        A body modification cria uma relação do artista com o corpo totalmente diferente das estabelecidas pela body art e pela performance. Nela, a relação corpo-objeto é independente da relação tempo-espaço, conforme entendida anteriormente.

        Não há distinção entre o artista e a obra, entre o sujeito criador e o objeto criado. O sujeito é o objeto e não deixará de ser, independentemente do tempo e do espaço em que se encontre. Não vigora aqui a premissa do pensamento racional, do discurso conceitual” (Pires, 2005).

        A folk-comunicação, “desenvolvida por Luiz Beltrão, teorizando sobre as transformações tanto na forma quanto no sentido, colocam a tatuagem numa categoria rudimentar de comunicação” (Simões, 2011). “Pois é o efeito obtido que conta a partir de agora: não mais apenas a decifração do significado da obra previamente realizada” (Nascimento, 2007).

Tatuagem e estigma

        “O sentido estigmatizador do uso da tatuagem começa a mudar a partir dos anos 1980, com o estabelecimento de modernas lojas exclusivas (dotadas de equipamentos especializados, materiais descartáveis e diferentes meios de promoção), a profissionalização de seus praticantes, o melhoramento da técnica. E, sobretudo, as novas formas de conceber o corpo, como obra-prima de construção do sujeito e aberto às transformações. A tatuagem torna-se, assim, uma das opções estéticas procuradas pelas novas gerações” (Perez, 2006).

Psicologia de Rebanhos

“O rebanho é os meus pensamentos e os meus pensamentos são todos sensações” (Fernando Pessoa).

        Podemos considerar a tatuagem como uma forma de construção da identidade daquele que se tatua. Assim, o corpo é identificado e individualizado pela tatuagem. O tatuado considera seu corpo como um corpo singular e único. O tatuado, deste modo, confere a si uma personalidade autônoma e independente.

        Dessa forma, o tatuado cumpre a determinação estética da sociedade de consumo que trata o indivíduo como objeto de consumo. A psicoterapia trabalha a construção do indivíduo pela potência do seu corpo biológico em relação com a sociedade em que ele atua.

Referencias

FERREIRA, Deborah Cristina. O corpo como texto: analise discursiva da escrita no corpo. Revista Eventos Pedagógicos, v. 3, n. 1 Numero Especial, p. 138 – 146, abr, 2012. Acesso em 08 de março de 2015. Disponível em

FONSECA, Andrea Lissett Perez. Tatuar e ser tatuado: etnografia da pratica contemporânea da tatuagem. Florianópolis, agosto de 2003. Acesso em 08 de março de 2015. Disponível em

NASCIMENTO, Evando. Os sentidos da i-materialidade: o pensamento estético de Gumbrecht e Oiticica. Ensaio publicado originalmente nos Estados Unidos com o título de “The Senses of I-Materiality”, em Mendes, Victor K.; Rocha, João Cezar de Castro (Org.). Producing Presences: Branching Out From Gumbrecht’s Work. Darmouth: University of Massachusetts Dartmouth Press, 2007, p. 267-286. Acesso em 09 de janeiro de 2015. Disponível em

PEREZ, Andrea Lissett. A identidade à flor da pele. Etnografia da prática da tatuagem na contemporaneidade. MANA 12(1): 179-206, 2006. Julho de 2005. Acesso em 08 de março de 2015. Disponível em

PIRES, Beatriz Ferreira. O corpo como suporte da arte: piercing, implante, escarificação, tatuagem. São Paulo: Editora SENAC, 2005.

SILVA, Bruna Cristina Daminelli. A tatuagem na contemporaneidade. Criciúma, julho de 2010. Acesso em 21 de julho de 2015. Disponível em

SIMÕES, Renan. A Comunicação não Verbal Através da Tatuagem. XIV Conferência Brasileira dos Estudos da Folkcomunicação – “O artesanato como processo comunicacional” – IX Encontro Regional de Comunicação, 2011. Acesso em 21 de julho de 2015. Disponível em

Tensão dos músculos no momento de sua observação

        “O tônus é o estado de contração dos músculos”. O nosso “tônus neuromuscular poderia então ser definido como o estado de contração-tensão dos músculos no momento de sua observação”. O alongamento muscular provoca respostas prolongadas no nosso cérebro. A resposta do musculo as solicitações é adaptável as exigências do momento.

        O nosso aparelho locomotor é função de múltiplas articulações. O centro de gravidade do corpo está situado um pouco acima da metade da nossa altura, “mais ou menos no nível da terceira vertebra lombar”. Somos mais compridos do que largos. A nossa área de sustentação é bem menor que nossa área corporal total. “O risco de desequilíbrio é permanente”.

        Estamos constantemente em desequilíbrio. A instabilidade é o nosso equilíbrio. Um equilibro que controlamos. “O controle da postura e do equilíbrio é considerado como uma atividade complexa baseada nas interações de processos dinâmicos, sensoriais e motores. O objetivo principal do controle postural é o alinhamento ativo da cabeça e do tronco em relação a linha de gravidade”.

        Sofremos, intermitentemente, a ação da gravidade. Ficar em equilíbrio, mesmo sentado, exige um trabalho constante de nossa musculatura.

        Ainda bem que não vivemos somente por conta da nossa consciência. Se tivéssemos que viver conscientes de todos os nossos desequilíbrios, não passaríamos de um pendulo de relógio. “Os desequilíbrios podem chegar a consciência, mas os principais responsáveis pela gestão das informações relativas a postura e das respostas” ao nosso estado de equilíbrio “são subcorticais”.

        “A medula espinhal é o primeiro nível de controle do equilíbrio”. Após aprendermos a nos comportar contra a força gravitacional, passamos a opor-nos por reflexo (sem pensar) aos deslocamentos e restabelecemos “a estabilidade postural em face do menor desequilíbrio”.

A respiração

        “A inspiração marca a passagem a vida extrauterina. O motor fundamental disso é o diafragma, responsável pela respiração de pequena amplitude”. “A expiração, por sua vez, pode ser obtida pelo simples relaxamento dos (músculos) inspiratórios”. Os músculos inspiratórios “agem no sentido da gravidade. Sua função essencial é dinâmica”. Os músculos “inspiratórios são numerosos e de vocação preferencialmente estática”. Os músculos “expiratórios são pouco numerosos e dinâmicos”.

O desenvolvimento motor

        Grande parte da atividade do nosso sistema nervoso dedica-se ao controle da nossa postura. “O movimento se organiza em função das tarefas a cumprir. A coordenação é inseparável dos objetivos a atingir”.

        Os movimentos de um recém-nascido “vêm de reflexos primitivos sem implicação cortical”. Os reflexos primitivos são “progressivamente inibidos e controlados pelo sistema subcortical, para chegar a um controle gestual voluntario”. Esses reflexos primitivos “dão lugar aos reflexos posturais, controlados em grande parte pelo tronco cerebral”. Os reflexos posturais “são basicamente de controle do equilíbrio”.

        “O apoio do pé no solo marca uma etapa fundamental no plano sensitivo-reflexo e motor”. O recém-nascido recorre a uma função estática para passar da sua posição deitada para a posição estável de pé quando criança. Essa função estática está instalada “nos músculos do pescoço, da coluna vertebral, dos membros inferiores e dos adutores-rotadores internos da raiz dos membros”.

As cadeias de coordenação neuromuscular

        Quando adquirimos a postura bípede “definitiva, estável e econômica, joelhos em extensão e fixação da lordose lombar”, recorremos aos “músculos da estática numerosos e potentes” das nossas costas, responsáveis diretos pela nossa “luta contra a gravidade”.

        Essa postura bípede exige constante e intensa tonicidade dos músculos. O movimento da postura bípede inicia-se “no nível do masseter, dos músculos do pescoço e da nuca, para estender-se ao tronco, aos membros superiores e aos membros inferiores”. Essa atividade constante e intensa é responsável pela rigidez muscular que formamos ao longo da vida.

        “A atividade neuromuscular está na base de uma coordenação motora controlando duas funções, estática e dinâmica, decerto absolutamente complementares, mas de imperativos distintos”.

 

Psicologia de Rebanhos

O rebanho é os meus pensamentos

E os meus pensamentos são todos sensações.

(Fernando Pessoa)

 

        A nossa postura tem tudo a ver com a maneira como lidamos com o nosso equilíbrio-desequilíbrio. Sofremos, ininterruptamente, a ação da força da gravidade. Somos constantemente testados quanto a nossa forma de estar no mundo. Embora não tenhamos consciência das nossas posturas, as solicitações e respostas as atividades musculares chegam ao nosso cérebro e nele são organizadas.

Referencias

SOUCHARD, Philippe E. RPG, reeducação postural global: o método. Rio de Janeiro: Elsevier, 2011.

 

Vai, Carlos! Ser gauche na vida

Alguma poesia
        A Mario de Andrade, meu amigo.
Poema de sete faces
         Quando nasci, um anjo torto
         Desses que vivem na sombra

         Disse: Vai, Carlos! Ser gauche na vida.

         As casas espiam os homens

         Que correm atrás de mulheres.

         A tarde talvez fosse azul,

         Não houvesse tantos desejos.

         O bonde passa cheio de pernas:

         Pernas brancas pretas amarelas.

         Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.

         Porem meus olhos

         Não perguntam nada.

O homem atrás do bigode

É sério, simples e forte.

Quase não conversa.

Tem poucos, raros amigos

O homem atrás dos óculos e do bigode.

         Meu Deus, por que me abandonaste

         Se sabias que eu não era Deus

         Se sabias que eu era fraco.

         Mundo mundo vasto mundo,

         Se eu me chamasse Raimundo

         Seria uma rima, não seria uma solução.

         Mundo mundo vasto mundo,

         Mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer

Mas essa lua

Mas esse conhaque

Botam a gente comovido como o diabo.

 

* * *

 

No meio do caminho

         No meio do caminho tinha uma pedra

Tinha uma pedra no meio do caminho

Tinha uma pedra

No meio do caminho tinha uma pedra.

 

Nunca me esquecerei desse acontecimento

Na vida de minhas retinas tão fatigadas.

Nunca me esquecerei que no meio do caminho

Tinha uma pedra

Tinha uma pedra no meio do caminho

No meio do caminho tinha uma pedra.

 

* * *

 

Igreja

         E nos domingos a litania dos perdões, o murmúrio das invocações.

         O padre que fala do inferno

         Sem nunca ter ido lá.

 

* * *

 

Esperteza

Tenho vontade de

– ponhamos amar

Por esporte uma loura

O espaço de um dia.

         Certo me tornaria

         Brinquedo nas suas mãos.

         Apanharia, sorriria

         Mas acabado o jogo

         Não seria mais joguete,

         Seria eu mesmo.

 

         E ela ficaria espantada

         De ver um homem esperto.

 

* * *

 

Poesia

         Gastei uma hora pensando um verso

         Que a pena não quer escrever.

         No entanto ele está cá dentro

         Inquieto, vivo,

         Ele está cá dentro

         E não quer sair.

         Mas a poesia deste momento

         Inunda minha vida inteira.

 

Psicologia de Rebanhos

O rebanho é os meus pensamentos

E os meus pensamentos são todos sensações.

(Fernando Pessoa)

 

         Um verso é a tentativa do poeta para explicar a poesia do momento. A poesia deste momento se encontra nos sentimentos indescritíveis que nos acompanharam por toda a nossa vida. O verso do poeta é sua tentativa de compreender as suas sensações. Como os poetas, os pacientes, em psicologia, versejam na tentativa de compreender os seus sentimentos.

 

ANDRADE, Carlos Drummond de.  Nova reunião: 19 livros de poesia. Rio de Janeiro: Jose Olympio, 1983.

 

Crescem o erro, a ignorância e a cegueira

        São muitos os que dizem, atualmente, que nunca conhecemos tanto o funcionamento das coisas. Entretanto, lado a lado com esse progresso das ideias e das tecnologias, crescem o erro, a ignorância e a cegueira.

        A causa do crescimento do erro está no modo ideológico de organização das ideias: doutrinário e dogmático. Jamais tivemos tantos sistemas teóricos sobre o funcionamento disso ou daquilo.

        A causa da ignorância é o próprio jeito de conhecer. A nossa ciência é simplista e burocrática e especializada e tecnocrata.

        A causa do crescimento da cegueira está no uso esquemático da razão. A razão é o novo soberano de fato. Essa razão endeusada e infalível e sensata e coerente que a todos encanta e mata com a produção descontrolada de armas de destruição.

        A incapacidade de reconhecer e de aprender a complexidade do real é a característica resultante de um modo de pensar separatista da organização do conhecimento.

 

A organização do conhecimento

        “Qualquer conhecimento opera por seleção de dados significativos e rejeição de dados não significativos”. Todo conhecimento separa e associa, hierarquiza e centraliza em função de uma ideia comum. Você dirá que não encontramos outra maneira de conhecer. Você dirá que essas operações de separação e associação e seleção são oriundas da lógica, portanto, sustentam racionalmente a obtenção do conhecimento.

        Porém, essas operações utilizadas pela lógica, já foram organizadas por um princípio de organização do pensamento. Ou seja, essas operações já passaram pelo crivo de um conhecimento anterior. Essas operações logicas foram anteriormente separadas e associadas e selecionadas por princípios que orientaram a nossa consciência para um conhecimento especifico. Esses princípios, por sua vez, foram separados e associados e selecionados por um conhecimento anterior. E, assim, organizamos pensamento sobre pensamento, até um infinito. E excluímos outros infinitos.

 

A patologia do saber

        Vivemos na época da hegemonia das ideias, da simplificação e da separação. Platão sustenta que o mundo sensível é um mundo irreal, que o verdadeiro mundo é o mundo dos pensamentos. Descartes separou o sujeito pensante da coisa pensada. Tanto o pensamento de Platão como o de Descartes são produtos do pensamento separatista, simplificado e reducionista.

        Esse pensamento separatista e reducionista não consegue conceber o singular e o múltiplo como um conjunto. Essa razão idolatrada racionaliza o real. Para o pensamento racional, o real é apenas um detalhe. Para o pensamento racional, as ideias são a verdadeira realidade.

        A ciência isola um fenômeno do seu ambiente e faz conclusões de laboratório sobre o fenômeno, com validade para o funcionamento do fenômeno no seu ambiente real. A ciência brada a imparcialidade do seu método, entretanto, não admite a impossibilidade de separação entre o observador e a coisa observada. Até mesmo as disciplinas que buscam conhecer o homem já concluíram que não precisam do homem para conhece-lo. Constatam assim a inexistência do homem. Transformam a existência humana numa contingencia ilusória.

 

A necessidade do pensamento complexo

        Essa simplificação é compreensível, pois a complexidade do real é uma desordem para a nossa razão imatura. Estudar um fenômeno no laboratório é simplista, é fugir da dificuldade do pensamento complexo, é fugir da desordem do real, é escapar das infinitas inter-relações entre os fenômenos.

        É difícil associar sem identificar ou reduzir. Desde tempos remotos aprendemos a conhecer identificando (separando) e reduzindo (selecionando). A ciência enganosamente constrói uma simplificação do fenômeno no laboratório e conclui leis e propriedades validas para o fenômeno em situações complexas – reais.

        O pensamento contemporâneo é o da simplificação, que não deixa ver a complexidade do real. O pensamento mitológico criou uma vida ideológica de deuses com características humanas. O pensamento oculta a realidade. A ideia torna a realidade ilusória. Os sistemas teóricos se fecham em si mesmos e dogmatizam o conhecimento. A razão imatura racionaliza e encerra o real num sistema de ideias coerente, mas parcial e unilateral.

        Uma parte do real é irracionalizável, mas estamos na era da barbárie das ideias.

 

Psicologia de Rebanhos

O rebanho é os meus pensamentos

E os meus pensamentos são todos sensações.

(Fernando Pessoa)

 

        As nossas sensações são enganosas. Como produtos das nossas sensações, os nossos pensamentos são enganosos. Essa é uma associação oriunda da lógica. A lógica é uma construção dos nossos pensamentos enganosos. Portanto, a nossa lógica, que sustenta a nossa forma de conhecer, é também enganosa. Resta-nos aprender a lidar com essa complexidade.

 

Referencias

MORIN, Edgar. Introdução ao pensamento complexo. Porto Alegre: Sulina, 2015.

 

Uma espécie de sentimento religioso cósmico

        Os gênios religiosos de todas as épocas têm-se distinguidos do comum dos mortais por uma espécie de sentimento religioso cósmico, que não conhece dogmas nem concebe um Deus a imagem do homem.

        Por isso não pode haver igrejas cujos ensinamentos centrais se apoiem nesse sentir. Será, portanto, entre os heréticos de todas as épocas que vamos encontrar homens impregnados do mais elevado sentimento religioso, considerados por seus contemporâneos, ora como ateus, ora como santos.

        Através desse prisma, homens como Demócrito, Francisco de Assis e Spinoza estão muito próximos uns dos outros.

* * *

        Pessoalmente, sinto-me capaz de atingir o mais alto grau de felicidade possível, através das grandes obras de arte. Delas recebo dons espirituais de tal força que coisa alguma poderia proporcionar-me idênticas sensações. Em minha vida, as visões artísticas têm desmedida influência. Afinal, o trabalho de pesquisadores e cientistas germina no campo da imaginação e da intuição.

* * *

        Não posso imaginar um Deus a recompensar e a castigar o objeto de sua criação. Não posso fazer ideia de um ser que sobreviva após a morte do corpo. Se semelhantes ideias germinam em um espirito, para mim é ele um fraco, medroso e estupidamente egoísta.

* * *

        O espirito cientifico, fortemente armado com seu método, não existe sem a religiosidade cósmica. Ela se distingue da crença das multidões ingênuas que consideram Deus um ser de quem esperam benignidade e do qual temem o castigo.

* * *

        Não basta ensinar ao homem uma especialidade. Porque se tornara assim uma máquina utilizável e não uma personalidade. É necessário que adquira um sentimento, um senso prático daquilo que vale a pena ser empreendido, daquilo que é belo, do que é moralmente correto.

* * *

        A religião do futuro será cósmica e transcendera um Deus Pessoal evitando os dogmas e a teologia.

* * *

        O valor do homem é determinado, em primeira linha, pelo grau e pelo sentido em que ele se libertou do seu ego.

* * *

        Deus é inexorável no oferecimento de dons: Deu-me apenas a teimosia de uma mula. Não! Deu-me também um agudo sentido de dor.

* * *

        O homem pode encontrar significado na vida, curta e perigosa como é, somente através de seu devotamento a sociedade.

* * *

        Evidentemente, nos existimos para nossos semelhantes – em primeiro lugar, para as pessoas queridas de cujo bem-estar e sorrisos depende nossa felicidade; depois, para todos esses seres que não conhecemos pessoalmente, aos quais, entretanto, estamos ligados pelos laços de simpatia e fraternidade humanas.

* * *

        Sem esta fé eu não poderia ter uma convicção firme e inabalável acerca do valor independente do conhecimento.

 

Psicologia de Rebanhos

O rebanho é os meus pensamentos

E os meus pensamentos são todos sensações.

(Fernando Pessoa)

 

        Quem lê as histórias da civilização humana, encontra em diversas narrativas a existência de um sentimento de religiosidade que liga o homem a algo que ele desconhece. A esse algo desconhecido, a que o homem se submete por ignorância, se dá diferentes nomes, desde o início da história conhecida – deuses, cosmos, deus, nada, liberdade, ciência, ética. Esse rebanho de nomes cunhados pelos pensamentos se sustenta na enganosa compreensão das suas sensações.

 

Referencias

EINSTEIN, Albert. O pensamento vivo de Einstein. São Paulo: Martin Claret Editores, 1986.

Dificuldade de acesso a mente possibilita a criação de uma alma

        “Nossa visão direta da mente depende de uma parte dessa própria mente”. Essa dificuldade de acesso a mente possibilita a criação de uma alma, de um espirito, de uma mente, que habitaria o corpo e dele se desataria quando o corpo deixasse de funcionar. Essa dificuldade de conhecer como nossa mente funciona, usando da nossa própria mente, possibilita a criação de um deus que explica tudo. O acesso a nossa mente, apenas por uma parte da nossa própria mente, não pode permitir uma apreciação abrangente e fidedigna do que está acontecendo.

        Pode parecer uma ingratidão e mesmo paradoxal, questionar a nossa confiabilidade em nossa capacidade de conhecimento. Afinal, já comprovamos que temos algo que nos faz conhecer que nós somos um nós, que nós somos um eu, essa parte da mente que nos dá acesso ao conhecimento, inclusive de nós mesmos.

        “No entanto, essa é a situação. Com exceção da janela direta que o eu nos abre para nossas dores e prazeres, as informações que ele fornece tem de ser questionadas, sobretudo quando dizem respeito a” sua própria natureza.

 

A superação de uma intuição enganosa

        Quando nós observamos, nós adotamos duas posturas:

– uma postura quando observamos a mente, nós nos voltamos para dentro;

– outra postura quando observamos os nossos tecidos biológicos, nossos olhos estão voltados para fora.

        “Nessas circunstancias, não é de surpreender que a mente de a impressão de não possuir uma natureza física e que seus fenômenos pareçam pertencer a outra categoria. Ver a mente como um fenômeno não físico, separado da biologia que a cria e a sustenta, é a razão pela qual certos autores apartam a mente das leis da física, uma discriminação a qual outros fenômenos cerebrais geralmente não estão sujeitos”.

 

A estrutura

        “Os organismos produzem mentes a partir da atividade de células especiais conhecidas como neurônios. Os neurônios têm muitas das características de outras células do nosso corpo, mas seu funcionamento é distinto. Eles são sensíveis a mudanças ao redor, são excitáveis (uma propriedade interessante que tem em comum com as células musculares)”.

Uma perspectiva integrada

        Aquilo que chamamos de mente é o resultado de padrões neurais de funcionamento do nosso cérebro. Os neurônios são as células mais famosas que frequentam o nosso sistema nervoso. Através de múltiplas e diversificadas relações constituídas entre os neurônios, o cérebro forma os padrões neurais que determinam os nossos comportamentos. Uma imensa quantidade de informações chega e parte do nosso sistema nervoso a todo instante. Entretanto, alguns padrões neurais geram um processo de eu, quer dizer, de consciência de padrões neurais.

        “Há milhões de anos que inúmeros seres possuem mentes ativas no cérebro”. Somente quando o cérebro foi capaz de desenvolver um processo que lhe permitiu observar a si mesmo, é que surge a consciência. Mas a consciência, como definimos hoje, somente se tornou conhecida depois que o cérebro desenvolveu a linguagem. Somente pela linguagem podemos conhecer a existência de mentes.

        “Entender como o cérebro produz esse algo mais, o protagonista que carregamos para todo lado e chamamos […] de eu, é um objetivo importante da neurobiologia da consciência”.

 

Psicologia de Rebanhos

O rebanho é os meus pensamentos

E os meus pensamentos são todos sensações.

(Fernando Pessoa)

 

        Também é o objetivo da Psicologia entender como o nosso cérebro produz a nossa consciência. Porém, acreditamos que não é somente através da linguagem que podemos conhecer a consciência. Nosso entendimento da formação dos nossos padrões neurais considera a existência de uma consciência anterior a linguagem. Essa consciência tem raízes nos nossos demais sentidos. Todas as nossas formas de sentir contribuem para damos sentido ao mundo.

 

Referencias

DAMÁSIO, António R. E o cérebro criou o homem. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

Agimos de acordo com nosso padrão mental ou nossa autoimagem

Entendendo enquanto se faz

 

         Agimos de acordo com nosso padrão mental ou nossa autoimagem. Consideramos que o nosso padrão mental seja constituído de diferentes formas por três fatores: hereditariedade, aprendizagem e autoaprendizagem.

         A nossa parte herdada é a menos mutável. A nossa herança biológica se refere a capacidade e a forma do nosso sistema nervoso, estrutura óssea, tecidos, glândulas, pele, sentidos.

        Nosso padrão mental se desenvolve no curso da nossa experiência. A nossa aprendizagem estabelece um padrão mental de conceitos e reações que variarão de acordo com o ambiente no qual vivemos.

         A nossa aprendizagem influencia na direção de nossa autoaprendizagem. A nossa autoaprendizagem influencia o modo pelo qual a nossa aprendizagem é adquirida. A nossa aprendizagem e a nossa autoaprendizagem ocorrem intermitentemente e simultaneamente.

         Desses três fatores ativos considerados aqui no estabelecimento da nossa autoimagem, somente a autoaprendizagem está em alguma medida por nossa conta. Ou seja, dos três fatores destacados na composição do nosso comportamento, somente a autoaprendizagem é possivelmente sujeita à nossa vontade.

 

A autoimagem

         Se desejamos mudar o nosso modo de agir, precisamos mudar a imagem própria que está em nós.

         Em nossa autoimagem estão envolvidos, pelo menos, quatro componentes que movem a nossa ação: o movimento, a sensação, o sentimento e o pensamento.

         O movimento, a sensação e o sentimento supõe-se que estão envolvidos também no pensamento. No decorrer de nossa vida, valorizamos um ou mais destes elementos da ação em função dos outros, o que proporciona o enrijecimento de nossas ações em uma ou mais destas áreas de ação endurecidas.

         Supõe-se que a nossa autoimagem seja constituída por um grupo de células repetitivamente estruturadas de forma a atender as nossas necessidades. Um grande grupo de células e combinações de células são desprezados em nossas atividades diárias. A nossa autoimagem é geralmente mais limitada e menor que o nosso potencial para fazer novas combinações de imagens.

         Temos a tendência de parar de aprender quando conseguimos suficiente habilidade para atingir o nosso objetivo mais imediato.

Ninguém sabe o propósito da vida.

        Aquilo que cada geração passa para a seguinte não é mais que uma continuação de hábitos da geração dominante.

         “Durante os primeiros anos, uma criança é valorizada, não por suas realizações, mas simplesmente por si mesma. Nas famílias onde isto se dá, a criança desenvolver-se-á de acordo com suas habilidades individuais. Nas famílias onde as crianças são julgadas primariamente por suas realizações, toda a espontaneidade desaparecera nos primeiros anos”.

         O nosso padrão mental é algo dinâmico. Portanto, a nossa autoimagem atual é inteiramente diferente daquela autoimagem com a qual nascemos. Acreditamos que mudar é possível e inelutável. O nosso padrão mental é o resultado da nossa própria experiência.

        “Cada padrão de ação que se torna amplamente assimilado interferira com os padrões das ações subsequentes”.

Psicologia de Rebanhos

O rebanho é os meus pensamentos

E os meus pensamentos são todos sensações.

(Fernando Pessoa)

 

        Agimos de acordo com a nossa autoimagem. A nossa autoimagem se forma na dinâmica das relações celulares que nos constitui. Essa constituição se forma nas relações entre nós e o ambiente e entre nos conosco. Nossa autoimagem é biológica e toda transformação que nela acontece, passa, necessariamente, por uma mudança na nossa dinâmica celular.

Referencias

FELDENKRAIS, Moshe. Consciência pelo movimento. São Paulo: Summus, 1977.

Incultas produções da mocidade

Sonetos eróticos

 

Proposição das ritmas do poeta

Incultas produções da mocidade

Exponho a vossos olhos, ó leitores:

Vede-as com magoa, vede-as com piedade,

Que elas buscam piedade, e não louvores;

Ponderai da Fortuna a variedade

Nos meus suspiros, lagrimas, e amores;

Notai dos males seus a imensidade,

A curta duração dos seus favores;

E se entre versos mil de sentimento

Encontrardes alguns, cuja aparência

Indique festival contentamento,

Crede, ó mortais, que foram com violência

Escritos pela mão do Fingimento,

Cantados pela voz da Dependência.

* * *

O autor aos seus versos

Chorosos versos meus desentoados,

Sem arte, sem beleza, e sem brandura,

Urdidos pela mão da Desventura,

Pela baça Tristeza envenenados:

Vede a luz, não busqueis desesperados,

No mudo esquecimento a sepultura;

Se os ditosos vos lerem sem ternura,

Ler-vos-ão com ternura os desgraçados:

Não vos inspire, ó versos, cobardia

Da sátira mordaz o furor louco,

Da maldizente voz a tirania:

Desculpa tendes, se valeis tão pouco;

Que não pode cantar com melodia

Um peito, de gemer cansado e rouco.

* * *

A morte de uma formosa dama

Onde há no mundo que ver, se a formosura,

Se Amor, se as Graças, se o prazer contigo

Jazem no eterno horror da sepultura?

* * *

A razão domina pela formosura

Importuna Razão, não me persigas;

Cesse a ríspida voz que em vão murmura;

Se a lei de Amor, se a força da ternura

Nem domas, nem contrastas, nem mitigas:

Se acusas os mortais, e os não abrigas,

Se (conhecendo o mal) não das a cura,

Deixa-me apreciar minha loucura,

Importuna Razão, não me persigas.

É teu fim, teu projeto encher de pejo

Esta alma, frágil vitima daquela

Que, injusta e varia, noutros laços vejo:

Queres que fuja de Marilia bela,

Que a maldiga, a desdenhe; e o meu desejo

É carpir, delirar, morrer por ela.

* * *

 Glosando o mote:

“A morte para os tristes é ventura”

Quem se vê maltratado, e combatido

Pelas cruéis angustias da indigência

Quem sofre de inimigos a violência,

Quem geme de tiranos oprimido:

Quem não pode ultrajado, e perseguido

Achar nos céus, ou nos mortais clemencia,

Quem chora finalmente a dura ausência

De um bem, que para sempre está perdido:

Folgara de viver, quando não passa

Nem um momento em paz, quando a amargura

O coração lhe arranca e despedaça?

Ah! Só deve agradar-lhe a sepultura,

Que a vida para os tristes é desgraça,

“A morte para os tristes é ventura”.

* * *

Insuficiência dos ditames da razão contra o poder de amor

Cego a meus males, surdo a teu reclamo,

Mil objetos de horror com ideia eu corro,

Solto gemidos, lagrimas derramo:

Razão, de que me serve o teu socorro?

Mandas-me não amar, eu ardo, eu amo;

Dizes-me que sossegue, eu peno, eu morro.

* * *

Notando insensibilidade da sua amada

A frouxidão no amor é uma ofensa,

Ofensa que se eleva a grau supremo;

Paixão requer paixão; fervor, e extremo;

Com extremo e fervor se recompensa.

Vê qual sou, vê qual es, vê que diferença!

Eu descoro, eu praguejo, eu ardo, eu gemo;

Eu choro, eu desespero, eu clamo, eu tremo,

Em sombras a razão se me condensa:

Tu só tens gratidão, só tens brandura,

E antes que um coração pouco amoroso

Quisera ver-te uma alma ingrata, e dura:

Talvez me enfadaria aspecto iroso;

Mas de teu peito a languida ternura

Tem-me cativo, e não me faz ditoso.

* * *

Psicologia de Rebanhos

O rebanho é os meus pensamentos

E os meus pensamentos são todos sensações.

(Fernando Pessoa)

        Os sentimentos nos paralisam e nos movem. Os sentimentos nos inundam e nos afogam em tristezas e sofrimentos.  “A vida para os tristes é desgraça. A morte para os tristes é ventura”. Mas podemos recorrer a formosa razão que nos acolhe com justificativas e explicações para tanta tristeza e sofrimento. A razão nos acolhe inventando outra vida. E não poderia ser de outro jeito, pois não ha razão que dessa vida possa dar conta. É que não há razão que não sinta. É que meus pensamentos vêm todos das minhas sensações.

BOCAGE, Manuel Maria Barbosa du. O delírio amoroso e outros poemas. Porto Alegre: L&PM, 2004.

 

Gozar do corpo da pessoa amada

Amores impuros, prazer dramático

        Era para mim doce amar e ser amado, se podia gozar do corpo da pessoa amada. Deste modo, manchava com torpe concupiscência aquela fonte de amizade. Embaciava a sua pureza com o fumo infernal da luxuria.

        Amamos, portanto, as lagrimas e as dores. Mas todo homem deseja o gozo. Ora, ainda que a ninguém apraza ser desgraçado, apraz-nos, contudo, o ser compadecidos. Não gostaremos nós dessas emoções dolorosas pelo único motivo de que a compaixão é companheira inseparável da dor?

        Porem a dor não encontra nela prazer algum. Ainda que o dever da caridade aprove que nos condoamos do infeliz.

        Mas eu, miserável, gostava então de me condoer, e buscava motivos de dor.

 

Compreensão da inteligência versus o raciocínio da carne

        Meu deus, a vos o confesso, a vos que de mim vos compadecestes quando ainda vos não conhecia, quando vos buscava não segundo a compreensão da inteligência, mas segundo o raciocínio da carne.

        Ignorava que deus é espirito e não tem membros dotados de comprimento e de largura, nem é matéria.

        Desconhecia inteiramente que princípio havia em nós segundo o qual na sagrada escritura se diz que “fomos feitos a imagem de deus”.

        Não vos supunha, ó meu Deus, sob a figura de corpo humano. Mas não me ocorria outro modo de vos conceber na imaginação!

        Esforçava-me por vos imaginar o grande, o único verdadeiro Deus. Com efeito, acreditava, com todas as fibras do coração.

 

A moral e os costumes

        Ignorava a verdadeira justiça interior, que não julga pelo costume, mas pela lei retíssima de deus onipotente.

        A obediência aos reis é um pacto geral da sociedade humana.

 

A obediência a Deus

        Vos estáveis diante de mim; porem eu apartava-me de mim e, se nem sequer me encontrava a mim mesmo, muito menos a vos.

        Vos, porém, meu Deus, já me tínheis ensinado de modos admiráveis e ocultos! Creio o que vos me ensinastes, porque é verdade, e só vos sois o Mestre da Verdade.

É Deus o autor do mal?

        Buscava a origem do mal, mas buscava-a erroneamente. E, ainda mesmo nessa indagação, não enxergava o mal que nela havia.

        Qual a sua origem, se Deus, que é bom, fez todas as coisas? Donde, pois, vem o mal?

 

A relatividade das criaturas

        Examinei todas as outras coisas que estão abaixo de vos e vi que nem existem absolutamente, nem totalmente deixam de existir. Por um lado, existem, pois provem de vos; por outro não existem, pois não são aquilo que vos sois. Ora, só existe verdadeiramente o que permanece imutável. Por isso, para mim é bom prender-me a Deus, porque, se não permanecer n’Ele, também não poderei continuar em mim.

 

Do platonismo a Sagrada Escritura

        Mas depois de ler aqueles livros dos platônicos e de ser induzido por eles a buscar a verdade incorpórea, vi que as vossas perfeiçoes invisíveis se percebem por meio das coisas criadas. Experimentei a certeza de que existíeis e éreis infinito, sem, contudo, vos estenderdes pelos espaços finitos e infinitos.

(*) Esse texto é uma versão abreviada dos Livros III, V e VII das Confissões.

 

Psicologia de Rebanhos

O rebanho é os meus pensamentos

E os meus pensamentos são todos sensações.

(Fernando Pessoa)

        Que dolorosas sensações, Agostinho vivenciaria, para repudiar as suas experiências amorosas e condena-las ao inferno? Que gozo, Agostinho sentiria na dor, para buscar motivos para doer? Ora a sua crença se encontra na inteligência, ora se encontra nas fibras do seu coração.

        Agostinho se utiliza da sua inteligência para reprimir e controlar os seus sentimentos, para evitar a vivencia das suas sensações. Incapaz de controlar as suas sensações, Agostinho se refugia na crença de uma verdade incorpórea. E como ele faz isso? Através da criação de ideias e pensamentos que lhe mantivessem distante de si mesmo.

        A nossa mente, através da criação das ideias e pensamentos, tanto pode nos aproximar quanto nos afastar de nós mesmos. As nossas ideias e pensamentos são confiáveis ou não-confiáveis. As nossas ideias e os nossos pensamentos são o fruto das relações que manemos com as nossas sensações.

 

Referencias

AGOSTTINHO, Santo. Confissões. São Paulo: Abril Cultural, 1984.