Uma espécie de sentimento religioso cósmico

        Os gênios religiosos de todas as épocas têm-se distinguidos do comum dos mortais por uma espécie de sentimento religioso cósmico, que não conhece dogmas nem concebe um Deus a imagem do homem.

        Por isso não pode haver igrejas cujos ensinamentos centrais se apoiem nesse sentir. Será, portanto, entre os heréticos de todas as épocas que vamos encontrar homens impregnados do mais elevado sentimento religioso, considerados por seus contemporâneos, ora como ateus, ora como santos.

        Através desse prisma, homens como Demócrito, Francisco de Assis e Spinoza estão muito próximos uns dos outros.

* * *

        Pessoalmente, sinto-me capaz de atingir o mais alto grau de felicidade possível, através das grandes obras de arte. Delas recebo dons espirituais de tal força que coisa alguma poderia proporcionar-me idênticas sensações. Em minha vida, as visões artísticas têm desmedida influência. Afinal, o trabalho de pesquisadores e cientistas germina no campo da imaginação e da intuição.

* * *

        Não posso imaginar um Deus a recompensar e a castigar o objeto de sua criação. Não posso fazer ideia de um ser que sobreviva após a morte do corpo. Se semelhantes ideias germinam em um espirito, para mim é ele um fraco, medroso e estupidamente egoísta.

* * *

        O espirito cientifico, fortemente armado com seu método, não existe sem a religiosidade cósmica. Ela se distingue da crença das multidões ingênuas que consideram Deus um ser de quem esperam benignidade e do qual temem o castigo.

* * *

        Não basta ensinar ao homem uma especialidade. Porque se tornara assim uma máquina utilizável e não uma personalidade. É necessário que adquira um sentimento, um senso prático daquilo que vale a pena ser empreendido, daquilo que é belo, do que é moralmente correto.

* * *

        A religião do futuro será cósmica e transcendera um Deus Pessoal evitando os dogmas e a teologia.

* * *

        O valor do homem é determinado, em primeira linha, pelo grau e pelo sentido em que ele se libertou do seu ego.

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        Deus é inexorável no oferecimento de dons: Deu-me apenas a teimosia de uma mula. Não! Deu-me também um agudo sentido de dor.

* * *

        O homem pode encontrar significado na vida, curta e perigosa como é, somente através de seu devotamento a sociedade.

* * *

        Evidentemente, nos existimos para nossos semelhantes – em primeiro lugar, para as pessoas queridas de cujo bem-estar e sorrisos depende nossa felicidade; depois, para todos esses seres que não conhecemos pessoalmente, aos quais, entretanto, estamos ligados pelos laços de simpatia e fraternidade humanas.

* * *

        Sem esta fé eu não poderia ter uma convicção firme e inabalável acerca do valor independente do conhecimento.

 

Psicologia de Rebanhos

O rebanho é os meus pensamentos

E os meus pensamentos são todos sensações.

(Fernando Pessoa)

 

        Quem lê as histórias da civilização humana, encontra em diversas narrativas a existência de um sentimento de religiosidade que liga o homem a algo que ele desconhece. A esse algo desconhecido, a que o homem se submete por ignorância, se dá diferentes nomes, desde o início da história conhecida – deuses, cosmos, deus, nada, liberdade, ciência, ética. Esse rebanho de nomes cunhados pelos pensamentos se sustenta na enganosa compreensão das suas sensações.

 

Referencias

EINSTEIN, Albert. O pensamento vivo de Einstein. São Paulo: Martin Claret Editores, 1986.

Dificuldade de acesso a mente possibilita a criação de uma alma

        “Nossa visão direta da mente depende de uma parte dessa própria mente”. Essa dificuldade de acesso a mente possibilita a criação de uma alma, de um espirito, de uma mente, que habitaria o corpo e dele se desataria quando o corpo deixasse de funcionar. Essa dificuldade de conhecer como nossa mente funciona, usando da nossa própria mente, possibilita a criação de um deus que explica tudo. O acesso a nossa mente, apenas por uma parte da nossa própria mente, não pode permitir uma apreciação abrangente e fidedigna do que está acontecendo.

        Pode parecer uma ingratidão e mesmo paradoxal, questionar a nossa confiabilidade em nossa capacidade de conhecimento. Afinal, já comprovamos que temos algo que nos faz conhecer que nós somos um nós, que nós somos um eu, essa parte da mente que nos dá acesso ao conhecimento, inclusive de nós mesmos.

        “No entanto, essa é a situação. Com exceção da janela direta que o eu nos abre para nossas dores e prazeres, as informações que ele fornece tem de ser questionadas, sobretudo quando dizem respeito a” sua própria natureza.

 

A superação de uma intuição enganosa

        Quando nós observamos, nós adotamos duas posturas:

– uma postura quando observamos a mente, nós nos voltamos para dentro;

– outra postura quando observamos os nossos tecidos biológicos, nossos olhos estão voltados para fora.

        “Nessas circunstancias, não é de surpreender que a mente de a impressão de não possuir uma natureza física e que seus fenômenos pareçam pertencer a outra categoria. Ver a mente como um fenômeno não físico, separado da biologia que a cria e a sustenta, é a razão pela qual certos autores apartam a mente das leis da física, uma discriminação a qual outros fenômenos cerebrais geralmente não estão sujeitos”.

 

A estrutura

        “Os organismos produzem mentes a partir da atividade de células especiais conhecidas como neurônios. Os neurônios têm muitas das características de outras células do nosso corpo, mas seu funcionamento é distinto. Eles são sensíveis a mudanças ao redor, são excitáveis (uma propriedade interessante que tem em comum com as células musculares)”.

Uma perspectiva integrada

        Aquilo que chamamos de mente é o resultado de padrões neurais de funcionamento do nosso cérebro. Os neurônios são as células mais famosas que frequentam o nosso sistema nervoso. Através de múltiplas e diversificadas relações constituídas entre os neurônios, o cérebro forma os padrões neurais que determinam os nossos comportamentos. Uma imensa quantidade de informações chega e parte do nosso sistema nervoso a todo instante. Entretanto, alguns padrões neurais geram um processo de eu, quer dizer, de consciência de padrões neurais.

        “Há milhões de anos que inúmeros seres possuem mentes ativas no cérebro”. Somente quando o cérebro foi capaz de desenvolver um processo que lhe permitiu observar a si mesmo, é que surge a consciência. Mas a consciência, como definimos hoje, somente se tornou conhecida depois que o cérebro desenvolveu a linguagem. Somente pela linguagem podemos conhecer a existência de mentes.

        “Entender como o cérebro produz esse algo mais, o protagonista que carregamos para todo lado e chamamos […] de eu, é um objetivo importante da neurobiologia da consciência”.

 

Psicologia de Rebanhos

O rebanho é os meus pensamentos

E os meus pensamentos são todos sensações.

(Fernando Pessoa)

 

        Também é o objetivo da Psicologia entender como o nosso cérebro produz a nossa consciência. Porém, acreditamos que não é somente através da linguagem que podemos conhecer a consciência. Nosso entendimento da formação dos nossos padrões neurais considera a existência de uma consciência anterior a linguagem. Essa consciência tem raízes nos nossos demais sentidos. Todas as nossas formas de sentir contribuem para damos sentido ao mundo.

 

Referencias

DAMÁSIO, António R. E o cérebro criou o homem. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

Agimos de acordo com nosso padrão mental ou nossa autoimagem

Entendendo enquanto se faz

 

         Agimos de acordo com nosso padrão mental ou nossa autoimagem. Consideramos que o nosso padrão mental seja constituído de diferentes formas por três fatores: hereditariedade, aprendizagem e autoaprendizagem.

         A nossa parte herdada é a menos mutável. A nossa herança biológica se refere a capacidade e a forma do nosso sistema nervoso, estrutura óssea, tecidos, glândulas, pele, sentidos.

        Nosso padrão mental se desenvolve no curso da nossa experiência. A nossa aprendizagem estabelece um padrão mental de conceitos e reações que variarão de acordo com o ambiente no qual vivemos.

         A nossa aprendizagem influencia na direção de nossa autoaprendizagem. A nossa autoaprendizagem influencia o modo pelo qual a nossa aprendizagem é adquirida. A nossa aprendizagem e a nossa autoaprendizagem ocorrem intermitentemente e simultaneamente.

         Desses três fatores ativos considerados aqui no estabelecimento da nossa autoimagem, somente a autoaprendizagem está em alguma medida por nossa conta. Ou seja, dos três fatores destacados na composição do nosso comportamento, somente a autoaprendizagem é possivelmente sujeita à nossa vontade.

 

A autoimagem

         Se desejamos mudar o nosso modo de agir, precisamos mudar a imagem própria que está em nós.

         Em nossa autoimagem estão envolvidos, pelo menos, quatro componentes que movem a nossa ação: o movimento, a sensação, o sentimento e o pensamento.

         O movimento, a sensação e o sentimento supõe-se que estão envolvidos também no pensamento. No decorrer de nossa vida, valorizamos um ou mais destes elementos da ação em função dos outros, o que proporciona o enrijecimento de nossas ações em uma ou mais destas áreas de ação endurecidas.

         Supõe-se que a nossa autoimagem seja constituída por um grupo de células repetitivamente estruturadas de forma a atender as nossas necessidades. Um grande grupo de células e combinações de células são desprezados em nossas atividades diárias. A nossa autoimagem é geralmente mais limitada e menor que o nosso potencial para fazer novas combinações de imagens.

         Temos a tendência de parar de aprender quando conseguimos suficiente habilidade para atingir o nosso objetivo mais imediato.

Ninguém sabe o propósito da vida.

        Aquilo que cada geração passa para a seguinte não é mais que uma continuação de hábitos da geração dominante.

         “Durante os primeiros anos, uma criança é valorizada, não por suas realizações, mas simplesmente por si mesma. Nas famílias onde isto se dá, a criança desenvolver-se-á de acordo com suas habilidades individuais. Nas famílias onde as crianças são julgadas primariamente por suas realizações, toda a espontaneidade desaparecera nos primeiros anos”.

         O nosso padrão mental é algo dinâmico. Portanto, a nossa autoimagem atual é inteiramente diferente daquela autoimagem com a qual nascemos. Acreditamos que mudar é possível e inelutável. O nosso padrão mental é o resultado da nossa própria experiência.

        “Cada padrão de ação que se torna amplamente assimilado interferira com os padrões das ações subsequentes”.

Psicologia de Rebanhos

O rebanho é os meus pensamentos

E os meus pensamentos são todos sensações.

(Fernando Pessoa)

 

        Agimos de acordo com a nossa autoimagem. A nossa autoimagem se forma na dinâmica das relações celulares que nos constitui. Essa constituição se forma nas relações entre nós e o ambiente e entre nos conosco. Nossa autoimagem é biológica e toda transformação que nela acontece, passa, necessariamente, por uma mudança na nossa dinâmica celular.

Referencias

FELDENKRAIS, Moshe. Consciência pelo movimento. São Paulo: Summus, 1977.

Incultas produções da mocidade

Sonetos eróticos

 

Proposição das ritmas do poeta

Incultas produções da mocidade

Exponho a vossos olhos, ó leitores:

Vede-as com magoa, vede-as com piedade,

Que elas buscam piedade, e não louvores;

Ponderai da Fortuna a variedade

Nos meus suspiros, lagrimas, e amores;

Notai dos males seus a imensidade,

A curta duração dos seus favores;

E se entre versos mil de sentimento

Encontrardes alguns, cuja aparência

Indique festival contentamento,

Crede, ó mortais, que foram com violência

Escritos pela mão do Fingimento,

Cantados pela voz da Dependência.

* * *

O autor aos seus versos

Chorosos versos meus desentoados,

Sem arte, sem beleza, e sem brandura,

Urdidos pela mão da Desventura,

Pela baça Tristeza envenenados:

Vede a luz, não busqueis desesperados,

No mudo esquecimento a sepultura;

Se os ditosos vos lerem sem ternura,

Ler-vos-ão com ternura os desgraçados:

Não vos inspire, ó versos, cobardia

Da sátira mordaz o furor louco,

Da maldizente voz a tirania:

Desculpa tendes, se valeis tão pouco;

Que não pode cantar com melodia

Um peito, de gemer cansado e rouco.

* * *

A morte de uma formosa dama

Onde há no mundo que ver, se a formosura,

Se Amor, se as Graças, se o prazer contigo

Jazem no eterno horror da sepultura?

* * *

A razão domina pela formosura

Importuna Razão, não me persigas;

Cesse a ríspida voz que em vão murmura;

Se a lei de Amor, se a força da ternura

Nem domas, nem contrastas, nem mitigas:

Se acusas os mortais, e os não abrigas,

Se (conhecendo o mal) não das a cura,

Deixa-me apreciar minha loucura,

Importuna Razão, não me persigas.

É teu fim, teu projeto encher de pejo

Esta alma, frágil vitima daquela

Que, injusta e varia, noutros laços vejo:

Queres que fuja de Marilia bela,

Que a maldiga, a desdenhe; e o meu desejo

É carpir, delirar, morrer por ela.

* * *

 Glosando o mote:

“A morte para os tristes é ventura”

Quem se vê maltratado, e combatido

Pelas cruéis angustias da indigência

Quem sofre de inimigos a violência,

Quem geme de tiranos oprimido:

Quem não pode ultrajado, e perseguido

Achar nos céus, ou nos mortais clemencia,

Quem chora finalmente a dura ausência

De um bem, que para sempre está perdido:

Folgara de viver, quando não passa

Nem um momento em paz, quando a amargura

O coração lhe arranca e despedaça?

Ah! Só deve agradar-lhe a sepultura,

Que a vida para os tristes é desgraça,

“A morte para os tristes é ventura”.

* * *

Insuficiência dos ditames da razão contra o poder de amor

Cego a meus males, surdo a teu reclamo,

Mil objetos de horror com ideia eu corro,

Solto gemidos, lagrimas derramo:

Razão, de que me serve o teu socorro?

Mandas-me não amar, eu ardo, eu amo;

Dizes-me que sossegue, eu peno, eu morro.

* * *

Notando insensibilidade da sua amada

A frouxidão no amor é uma ofensa,

Ofensa que se eleva a grau supremo;

Paixão requer paixão; fervor, e extremo;

Com extremo e fervor se recompensa.

Vê qual sou, vê qual es, vê que diferença!

Eu descoro, eu praguejo, eu ardo, eu gemo;

Eu choro, eu desespero, eu clamo, eu tremo,

Em sombras a razão se me condensa:

Tu só tens gratidão, só tens brandura,

E antes que um coração pouco amoroso

Quisera ver-te uma alma ingrata, e dura:

Talvez me enfadaria aspecto iroso;

Mas de teu peito a languida ternura

Tem-me cativo, e não me faz ditoso.

* * *

Psicologia de Rebanhos

O rebanho é os meus pensamentos

E os meus pensamentos são todos sensações.

(Fernando Pessoa)

        Os sentimentos nos paralisam e nos movem. Os sentimentos nos inundam e nos afogam em tristezas e sofrimentos.  “A vida para os tristes é desgraça. A morte para os tristes é ventura”. Mas podemos recorrer a formosa razão que nos acolhe com justificativas e explicações para tanta tristeza e sofrimento. A razão nos acolhe inventando outra vida. E não poderia ser de outro jeito, pois não ha razão que dessa vida possa dar conta. É que não há razão que não sinta. É que meus pensamentos vêm todos das minhas sensações.

BOCAGE, Manuel Maria Barbosa du. O delírio amoroso e outros poemas. Porto Alegre: L&PM, 2004.

 

Gozar do corpo da pessoa amada

Amores impuros, prazer dramático

        Era para mim doce amar e ser amado, se podia gozar do corpo da pessoa amada. Deste modo, manchava com torpe concupiscência aquela fonte de amizade. Embaciava a sua pureza com o fumo infernal da luxuria.

        Amamos, portanto, as lagrimas e as dores. Mas todo homem deseja o gozo. Ora, ainda que a ninguém apraza ser desgraçado, apraz-nos, contudo, o ser compadecidos. Não gostaremos nós dessas emoções dolorosas pelo único motivo de que a compaixão é companheira inseparável da dor?

        Porem a dor não encontra nela prazer algum. Ainda que o dever da caridade aprove que nos condoamos do infeliz.

        Mas eu, miserável, gostava então de me condoer, e buscava motivos de dor.

 

Compreensão da inteligência versus o raciocínio da carne

        Meu deus, a vos o confesso, a vos que de mim vos compadecestes quando ainda vos não conhecia, quando vos buscava não segundo a compreensão da inteligência, mas segundo o raciocínio da carne.

        Ignorava que deus é espirito e não tem membros dotados de comprimento e de largura, nem é matéria.

        Desconhecia inteiramente que princípio havia em nós segundo o qual na sagrada escritura se diz que “fomos feitos a imagem de deus”.

        Não vos supunha, ó meu Deus, sob a figura de corpo humano. Mas não me ocorria outro modo de vos conceber na imaginação!

        Esforçava-me por vos imaginar o grande, o único verdadeiro Deus. Com efeito, acreditava, com todas as fibras do coração.

 

A moral e os costumes

        Ignorava a verdadeira justiça interior, que não julga pelo costume, mas pela lei retíssima de deus onipotente.

        A obediência aos reis é um pacto geral da sociedade humana.

 

A obediência a Deus

        Vos estáveis diante de mim; porem eu apartava-me de mim e, se nem sequer me encontrava a mim mesmo, muito menos a vos.

        Vos, porém, meu Deus, já me tínheis ensinado de modos admiráveis e ocultos! Creio o que vos me ensinastes, porque é verdade, e só vos sois o Mestre da Verdade.

É Deus o autor do mal?

        Buscava a origem do mal, mas buscava-a erroneamente. E, ainda mesmo nessa indagação, não enxergava o mal que nela havia.

        Qual a sua origem, se Deus, que é bom, fez todas as coisas? Donde, pois, vem o mal?

 

A relatividade das criaturas

        Examinei todas as outras coisas que estão abaixo de vos e vi que nem existem absolutamente, nem totalmente deixam de existir. Por um lado, existem, pois provem de vos; por outro não existem, pois não são aquilo que vos sois. Ora, só existe verdadeiramente o que permanece imutável. Por isso, para mim é bom prender-me a Deus, porque, se não permanecer n’Ele, também não poderei continuar em mim.

 

Do platonismo a Sagrada Escritura

        Mas depois de ler aqueles livros dos platônicos e de ser induzido por eles a buscar a verdade incorpórea, vi que as vossas perfeiçoes invisíveis se percebem por meio das coisas criadas. Experimentei a certeza de que existíeis e éreis infinito, sem, contudo, vos estenderdes pelos espaços finitos e infinitos.

(*) Esse texto é uma versão abreviada dos Livros III, V e VII das Confissões.

 

Psicologia de Rebanhos

O rebanho é os meus pensamentos

E os meus pensamentos são todos sensações.

(Fernando Pessoa)

        Que dolorosas sensações, Agostinho vivenciaria, para repudiar as suas experiências amorosas e condena-las ao inferno? Que gozo, Agostinho sentiria na dor, para buscar motivos para doer? Ora a sua crença se encontra na inteligência, ora se encontra nas fibras do seu coração.

        Agostinho se utiliza da sua inteligência para reprimir e controlar os seus sentimentos, para evitar a vivencia das suas sensações. Incapaz de controlar as suas sensações, Agostinho se refugia na crença de uma verdade incorpórea. E como ele faz isso? Através da criação de ideias e pensamentos que lhe mantivessem distante de si mesmo.

        A nossa mente, através da criação das ideias e pensamentos, tanto pode nos aproximar quanto nos afastar de nós mesmos. As nossas ideias e pensamentos são confiáveis ou não-confiáveis. As nossas ideias e os nossos pensamentos são o fruto das relações que manemos com as nossas sensações.

 

Referencias

AGOSTTINHO, Santo. Confissões. São Paulo: Abril Cultural, 1984.

Recordar é sentir de novo

Da nossa própria mente

        As sensações e a memória das sensações produzem todas as nossas ideias. A memória é um dos efeitos da nossa sensibilidade física. Quando sentimos, necessariamente estamos recordando sensações vividas. Recordar é sentir de novo.

        Pensamos ou produzimos ideias quando percebemos as semelhanças ou as diferenças, as concordâncias ou as discordâncias que existem entre si os objetos ou as situações diferentes. Essa capacidade de percepção é oriunda das nossas sensações. Pensar é sentir de novo.

        Dizemos que o nosso cérebro produz a nossa mente onde são produzidos os nossos pensamentos. A percepção das relações que os objetos ou as situações tem conosco formam a nossa mente.

        Mas, então, o que é os pensamentos? Os pensamentos são operações da nossa mente. Essas operações se resumem a perceber diferenças entre as coisas (objetos, situações). Então, os nossos pensamentos se reduzem ao julgamento que fazemos sobre as diferenças que percebemos entre as coisas. “Julgar não é senão sentir. Todo juízo é apenas uma sensação”.

 

Da nossa própria ignorância

        ”Prazeres físicos são os únicos prazeres reais.

        A medida que a falta de dinheiro se faça sentir num Estado acostumado ao luxo, a nação cai em descredito.

        Para evitar estas consequências, seria preciso reaproximar-se duma vida simples, mas tanto os costumes como as leis a isto se opõem. Assim, a época de maior luxo de uma nação é comumente a época mais próxima de sua queda e de seu aviltamento.

        Nas questões complicadas, e sobre as quais se julga, sem paixão, só se engana por ignorância, isto é, imaginando que o lado que se vê num objeto é tudo o que há para ver neste mesmo objeto”.

        É através das nossas sensações que compreendemos o mundo. É através das sensações que nossos prazeres e nossas dores se realizam. As nossas sensações são enganosas, exceto a dor. Por que as nossas ideias, oriundas das nossas sensações, não seriam também enganosas? A época de maior valorização das ideias de uma nação é comumente a época mais próxima da sua queda e do seu aviltamento.

        A supremacia dos pensamentos em detrimento das sensações revela uma época que julga os fatos e os objetos e as suas relações, sem paixão, e assim se engana por ignorância. Por ignorar que os pensamentos são oriundos das sensações. Essa época suprema imagina que valorizar os pensamentos por si mesmos é tudo o que há para compreender sobre os fatos e os objetos e as suas relações com cada um de nos.

 

Da nossa própria paixão

        “Para amar os homens é preciso esperar pouco deles: para ver os seus defeitos sem amargor é preciso acostumar-se a perdoa-los”. O perdão é uma espécie de justiça que os homens se sentem no direito de exigir.

        “A liberdade do homem consiste no exercício livre de seu poder”. Esse poder se restringe ao âmbito das nossas capacidades. “Porque seria ridículo tomar como uma não-liberdade a impotência que temos de atravessar a nuvem como a águia, viver sob as aguas como a baleia e fazer-nos rei, papa ou imperador.

        Não se pode, portanto, formar nenhuma ideia desse termo liberdade, aplicado à vontade”.

        É que tanto a vontade quanto a nossa liberdade de ação estão orientadas pelas sensações que sentimos das nossas relações com os fatos ou os objetos. E como as nossas sensações são enganosas, melhor ficar com o ensinamento de Jesus: “Perdoai-vos, pai. Eles não sabem o que fazem”. Por isso, o perdão é uma espécie de justiça que os homens se sentem no direito de exigir, oriundo dessa sua existência sem liberdade de escolha.

        Podemos concluir que os nossos julgamentos não são nem verdadeiros nem falsos, apesar de enganosos. Nossos julgamentos são oriundos das nossas paixões e ignorância sensível aos fatos e objetos.

 

Psicologia de Rebanhos

O rebanho é os meus pensamentos

E os meus pensamentos são todos sensações.

(Fernando Pessoa)

 

        Pode-se considerar a mente como a faculdade produtora dos nossos pensamentos. Nesse sentido, a mente é apenas sensações e recordações de sensações. Mas, também pode-se considerar a mente como um efeito das faculdades produtoras dos nossos pensamentos. Nesse outro sentido, a mente é apenas uma reunião de pensamentos que podem ser acessados quando sentimos.

 

Referencias

 

HELVÉTIUS, Claude-Adrien. Do espirito. São Paulo: Abril Cultural, 1984.

 

As raízes dos estigmas que a prática apresenta

Saia desse corpo que não lhe pertence!
 
Capitulo 7

        A propagação da prática da tatuagem ocorreu no convívio dos marinheiros com prostitutas e ladrões. “Dessa forma, ladrões presos levaram a prática ao contexto carcerário (ao qual é associada até hoje), enquanto prostitutas a utilizavam como fetiche. Estes usos são as raízes dos estigmas que a prática apresenta até os dias atuais, associada à marginalidade” (Carvalho, 2010).

        “No percurso do século XIX e começo do XX, a prática da tatuagem seguiu uma intrépida fase de peregrinação pelos setores marginais da sociedade, nos quais presidiários, meretrizes e soldados converteram-se nos novos protagonistas dessa prática.

        Ao converter-se em objeto de preferência dos setores marginais, a tatuagem se situava socialmente nas margens da sociedade. Essa situação gerou uma construção negativa em torno dessa prática, que transportou ao imaginário social um sentido de referência e equivalência entre tatuagem = marca marginalidade. O contexto começou a mudar notoriamente a partir da invenção da máquina elétrica, em 1891” (Fonseca, 2003).

Entre 1870 e 1880, “a cultura física passou a integrar a cultura americana, participando de um imaginário regenerador em meio a depressão” (Pires, 2005).

 

Inicia-se assim o culto ao corpo.

 

        “O estilo de vida e o desejo de obter a perfeição física levaram o homem da sociedade industrial a buscar, excessivamente, um novo padrão de beleza. Uma exigência para a sua inclusão na sociedade, onde tudo pode virar mercadoria” (Cassimiro e Galdino, 2012).

        “A insatisfação com o próprio corpo implicou a incorporação da prática do exercício físico com fins estéticos no cotidiano do indivíduo. O trabalho corporal desenvolvido pela academia obedece à lógica da máquina: a cronometrização e mecanicidade são os princípios orientadores das práticas corporais” (Pelegrini, 2005).

        No século XX, o corpo ganha “um registro intersubjetivo, através do qual o sujeito reconhece a si e aos demais”. Em decorrência, a dimensão fisiológica do corpo “foi reconhecida como indissociável das sensibilidades, afetos, racionalizações, bem como das decisões e ações, com seus contornos éticos e políticos” (Mori e Buarque, 2014).

        “A presença de inscrições no corpo, seja por intermédio de tatuagens ou de escarificações, e o aparecimento de sintomas corporais que traduzem sofrimentos eminentemente psíquicos, destaca-se cada vez mais na contemporaneidade.

        Na verdade, o corpo passa a ocupar um espaço privilegiado de manifestação e comunicação de conflitos psíquicos. O corpo foi inventado teoricamente no século XX, e seria Freud o grande responsável por sua nova percepção.

        A teoria freudiana propõe pensá-lo (o corpo) para além da carnalidade; o corpo não é apenas um organismo biológico. Ele é atravessado pela linguagem, e essa, por sua vez, faz com que o corpo exista fora da pura sensação carnal.

As oscilações psíquicas produziram efeitos no corpo e no psíquico que, por sua vez, sofrem influências do ambiente social” (Moreira, Teixeira e Nicolau, 2010).

        “A leitura do corpo é sempre sócio histórica, e a psicanálise está inserida nesta perspectiva: ‘a psicologia individual é ao mesmo tempo também psicologia social’ (Freud, 1921). A psicanálise não está fora da cultura sendo, ela mesma, fruto do trabalho de cultura” (Ceccarelli, 2011).

        Até o século XVIII, “o corpo foi reprimido e punido, mas, a partir do século XXI, tornou-se objeto do Capitalismo”. O processo de transformação do corpo, da Grécia Antiga até os dias atuais, “sempre ocorreu por motivações políticas, econômicas e religiosas das classes que detinham o poder em cada período. Assim, o corpo exerceu papéis diferentes em cada sociedade”. (Cassimiro e Galdino, 2012).

Psicologia de Rebanhos

O rebanho é os meus pensamentos

E os meus pensamentos são todos sensações.

(Fernando Pessoa)

        A Psicologia de Rebanhos compreende que o nosso corpo é uma construção sócio histórica. Ou seja, os nossos corpos são construídos pelas ideias políticas, sociais, morais, religiosas, econômicas de cada sociedade em determinada época. Atualmente, nossos corpos são considerados os depositários de nossos afetos, sensações e pensamentos. Portanto, cabe a nós a responsabilidade pela guarda e conservação dos afetos neles depositados.

 

Referencias

 

CARVALHO, Eric de. TATTOO – Incorporações de produtos midiáticos por meio de tatuagens. São Paulo, 2010. Acesso em 21 de outubro de 2015. Disponível em

CASSIMIRO, Érica Silva; GALDINO, Francisco Flávio Sales. As concepções de corpo construídas ao longo da história ocidental: da Grécia antiga à contemporaneidade. Revista Eletrônica Print by. Μετάνοια, São João del-Rei/MG, n.14, 2012. Acesso em 05 de junho de 2015. Disponível em

CECCARELLI, Paulo Roberto. Uma breve história do corpo. In Corpo, Alteridade e Sintoma: diversidade e compreensão. Lange & Tardivo (org.). São Paulo: Vetor, p. 15-34, 2011. Acesso em 05 de junho de 2015. Disponível em

FONSECA, Andrea Lissett Perez. Tatuar e ser tatuado: etnografia da pratica contemporânea da tatuagem. Florianópolis, agosto de 2003. Acesso em 08 de março de 2015. Disponível em

FREUD, Sigmund. Psicologia das massas e analise do eu. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

MOREIRA, Jacqueline de Oliveira; TEIXEIRA, Leônia Cavalcante; NICOLAU, Roseane de Freitas. Inscrições corporais: tatuagens, piercings e escarificações à luz da psicanalise. Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental. São Paulo, v. 13, n. 4, p. 585-598, dezembro 2010. Acesso em 27 de fevereiro de 2015. Disponível em

MORI, Geraldo De; BUARQUE, Virgínia. Corporeidade-encarnação: teologia em diálogo interdisciplinar. Perspectiva Teologia, Belo Horizonte, v. 46, n. 129, p. 187-214, mai/ago, 2014. Acesso em 05 de junho de 2015. Disponível em

PELEGRINI, Thiago. Imagens do corpo: reflexões sobre as acepções corporais construídas pelas sociedades ocidentais. Revista Urutágua – revista acadêmica multidisciplinar –  Quadrimestral – Nº 08 – Dez/Jan/Fev/Mar de 2005/6 – Maringá – Paraná – Brasil – ISSN 1519.6178. Centro de Estudos Sobre Intolerância – Maurício Tragtenberg, Departamento de Ciências Sociais – Universidade Estadual de Maringá (DCS/UEM). Acesso em 20 de julho de 2015. Disponível em

PIRES, Beatriz Ferreira. O corpo como suporte da arte: piercing, implante, escarificação, tatuagem. São Paulo: Editora SENAC,2005.

 

E sei apenas do meu próprio mal

A rua dos cata-ventos

 
Eu nada entendo da questão social.
Eu faço parte dela, simplesmente…

E sei apenas do meu próprio mal,

Que não é bem o mal de toda a gente.

 

* * *

 

Espelho magico

 

Da observação

Não te irrites, por mais que te fizerem…

Estuda, a frio, o coração alheio.

Faras, assim, do mal que eles te querem,

Teu mais amável e sutil receio…

 

* * *

 

Dos mundos

Deus criou este mundo. O homem, todavia,

Entrou a desconfiar, cogitabundo…

Decerto não gostou lá muito do que via…

E foi logo inventando o outro mundo.

 

* * *

 

Dos milagres

O milagre não é dar vida ao corpo extinto,

Ou luz ao cego, ou eloquência ao mundo…

Nem mudar agua pura em vinho tinto…

Milagre é acreditarem nisso tudo!

 

* * *

 

Das ilusões

Meu saco de ilusões, bem cheio tive-o.

Com ele ia subindo a ladeira da vida.

E, no entretanto, após cada ilusão perdida…

Que extraordinária sensação de alivio!

 

Dos nossos males

A nós nos bastem nossos próprios ais,

Que a ninguém sua cruz é pequenina.

Por pior que seja a situação da China,

Os nossos calos doem muito mais…

 

* * *

 

Da eterna procura

Só o desejo inquieto, que não passa,

Faz o encanto da coisa desejada…

E terminamos desdenhando a caça

Pela doida aventura da caçada.

 

* * *

 

Do pranto

Não tentes consolar o desgraçado

Que chora amargamente a sorte ma.

Se o tirares por fim do seu estado,

Que outra consolação lhe restara?

 

Psicologia de Rebanhos

O rebanho é os meus pensamentos

E os meus pensamentos são todos sensações.

(Fernando Pessoa)

 

        Todos nós temos problemas, mas o problema de cada um é um problema único, de cada um. Embora não seja exatamente um problema de cada um, mas de todos. Afinal, o problema é nosso ou é dos outros? É que sem os outros, os problemas não existiriam. Os nossos problemas são gerados nas relações com os outros e com a gente mesmo.

        Aí então, desconfiados desse jeito do mundo ser, cheio de problemas, inventamos a solução para os problemas desse mundo em outro mundo. Um mundo que não é esse, nem o meu nem o seu nem o nosso. O pior é que acreditamos que esse tal outro mundo que criamos existe e tem a solução dos problemas desse mundo aqui.

        Somente quando a ilusão da solução dos problemas desaparece, aprendemos que a solução sempre esteve em nos mesmos. Aprendemos que os nossos problemas são somente os nossos problemas. E por serem os nossos doem muito mais que os problemas dos outros. Os problemas dos outros são nossa diversão. Assim, esquecemos dos nossos problemas, nos divertindo com os problemas dos outros.

        Esquecer é outra ilusão que criamos para não resolver os nossos problemas. É que existe no esquecimento um consolo, mas um consolo que não consola. Apenas adia o encontro e nos afasta de nós mesmos.

 

QUINTANA, Mario. Quintana de bolso. Porto Alegre: L&PM, 2006.

 

Os indivíduos que formam uma multidão não agem pela sua consciência

        Uma multidão “constitui uma alma coletiva poderosa, mas momentânea”. Uma característica da época atual é evidente quando vemos uma multidão em ação, os indivíduos que formam uma multidão não agem pela sua consciência, mas pela “consciência” da multidão.

        “As grandes convulsões que precedem as mudanças de civilização parecem determinadas por transformações políticas consideráveis, invasões de povos ou derrubadas de dinastias”. Mas não é bem assim que ocorre. “As únicas mudanças importantes, aquelas das quais provem a renovação das civilizações, produzem-se nas opiniões, concepções e crenças”.

 

A idade em que entramos será verdadeiramente a era das multidões

 

      “Hoje as reivindicações das multidões tornam-se cada vez mais claras e tendem a destruir completamente a sociedade atual para reconduzi-la ao comunismo primitivo, que era o estado normal de todos os grupos humanos antes da aurora da civilização.

        Pouco aptas ao raciocínio, as multidões mostram-se, ao contrário, muito aptas a ação. A história ensina que no momento em que as forças morais, base de uma sociedade, perdem seu vigor, a dissolução final é efetuada pelas multidões inconscientes e brutais adequadamente qualificadas como barbaras.

        Até aqui as civilizações foram criadas e guiadas por uma pequena aristocracia intelectual, nunca pelas multidões. Estas tem poder apenas para destruir. Seu domínio sempre representa uma fase de desordem. Quando o edifício de uma civilização está carcomido, as multidões levam-no ao desmoronamento. É quando seu papel aparece”.

 

O papel das multidões é destruir

 

        A qualidade da razão, o bom senso da lógica ou o raciocínio bem conduzido, poucas influências exercem sobre as multidões. As teorias metafisicas são rapidamente ignoradas pelas multidões. “Somente as impressões que se fazem surgir em sua alma podem seduzi-las”

        “O mais injusto poderá ser na pratica o melhor para as multidões, se for o menos visível e aparentemente o menos pesado. Por isso um imposto indireto, mesmo exorbitante, sempre será aceito pela multidão. Sendo diariamente recolhido nos objetos de consumo, por frações de centavos, não atrapalha seus hábitos e pouco a impressiona. Os homens nunca se comportam seguindo as prescrições da razão pura”.

 

Um indivíduo numa multidão faz parte de uma unidade mental

 

        Quando dizemos multidão estamos nos referindo a uma reunião de indivíduos quaisquer. A multidão pode mesmo ser formada por quaisquer indivíduos, pois uma multidão é “uma aglomeração de homens que possui características novas muito diferentes daquelas de cada indivíduo que a compõe”.

        O que caracteriza um indivíduo numa multidão é o desaparecimento da sua personalidade e a orientação dos seus sentimentos e dos seus pensamentos em um mesmo sentido. No sentido dado pela multidão.

 

 

        “O fato mais surpreendente apresentado por uma multidão é o seguinte: quaisquer que sejam os indivíduos que a compõem, o mero fato de se haverem transformado em multidão dota-os de uma espécie de alma coletiva. Essa alma os faz sentir, pensar e agir de um modo completamente diferente daquele como sentiria, pensaria e agiria cada um deles isoladamente”.

        “Na alma coletiva, apagam-se as aptidões intelectuais dos homens e consequentemente sua individualidade”. Numa multidão não é possível realizar atos que exijam “uma inteligência elevada”. Nas multidões imperam “não a inteligência, mas a mediocridade”.

 

Características especificas das multidões

 

Primeira característica é que “o indivíduo na multidão adquire, exclusivamente por causa do número, um sentimento de poder invencível que lhe permite ceder a instintos que, sozinho, teria forçosamente refreado”. A multidão garante o anonimato, por isso um indivíduo na multidão cede facilmente a comportamentos mais “instintivos”. Numa multidão, o sentimento de responsabilidade de um indivíduo desaparece.

Segunda característica, o contagio mental. “Em uma multidão, todo sentimento, todo ato é contagioso, e contagioso ao ponto de que o indivíduo sacrifique muito facilmente seu interesse pessoal ao interesse coletivo”. Sacrificar o seu interesse pessoal é um comportamento que se encontra em desacordo com a propensão de quaisquer espécies de indivíduos. Entretanto, o homem, quando faz parte de uma multidão, torna-se capaz de sacrificar o seu interesse pessoal.

Terceira característica, os indivíduos na multidão possuem características especificas as vezes muito opostas as do indivíduo isolado.

        “Esse é aproximadamente o estado do indivíduo que faz parte de uma multidão. Ele já não tem consciência de seus atos.

        Portanto, o desaparecimento da personalidade consciente, predomínio da personalidade inconsciente, orientação por meio de sugestão e de contagio dos sentimentos e das ideias num mesmo sentido, tendência a transformar imediatamente em ato as ideias sugeridas são as principais características do indivíduo na multidão. Ele já não é ele mesmo, é um autômato cuja vontade tornou-se impotente”.

        O homem que faz parte de uma multidão possui a “faculdade em se deixar impressionar por palavras, imagens e conduzir a atos que lesam seus mais evidentes interesses”. Mas não é apenas pelo seu comportamento que o indivíduo na multidão difere de si mesmo. “Antes mesmo de ter perdido toda independência, suas ideias e seus sentimentos se transformaram”.

Psicologia de Rebanhos

O rebanho é os meus pensamentos

E os meus pensamentos são todos sensações.

(Fernando Pessoa)

 

        A pratica terapêutica pretende acompanhar o indivíduo na transformação de seus sentimentos, em direção a sua autonomia e a sua responsabilidade pelos seus atos. Se é possível deixar-se levar, também é possível conter-se. Experimentar as instancias que separam os opostos é uma das técnicas utilizadas na psicoterapia. O entendimento de uma sensação passa pela compreensão da sua sensação simétrica oposta. Para perceber uma emoção como tristeza é necessário percorrer as instancias da alegria. A vida é movimento.

 

Referencias

LE BON, Gustave. Psicologia das multidões. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2008.

 

Existe diferença entre acreditar e estar certo?

        Por que você acredita no que você acredita? Como se formaram as crenças que você tem? Existe diferença entre acreditar e estar certo? O que é uma crença? Como formamos uma crença?

        Uma crença é certo estado mental onde não existe uma garantia de verdade para todos. Uma crença é um sentimento subjetivo que pode ser compartilhado e apoiado por outros.  Se creio, não tenho certeza, mas creio que estou certo.

        Crer, então, é algo que se fundamenta na minha opinião. Portanto, a sua crença implica algo em que você acredita e eu posso acreditar ou não. Assim, crer é diferente de certeza, pois a crença está baseada no sentimento de algo e o saber está fundamentado no conhecimento de algo.

        Mas será que crer e saber serão mesmo diferentes? Concordar que crer e saber são diferentes é acreditar que crer e saber são modos de atividades diferentes e de origens diferentes. No entanto, essa tentativa de conhecer a diferença entre crer e saber origina-se da “sensação” de que crer e saber são diferentes. A ciência diria que a origem não seria a minha sensação, mas a hipótese do fenômeno a ser observado.

        Para a ciência, a crença é uma opinião, portanto um conhecimento menor destituído de verdade. Para os parâmetros científicos, a crença não está certa. Para a crença, a ciência é um saber destituído de fé, portanto um conhecimento menor. Para os parâmetros crentes, a ciência não está certa.

        Para a ciência, a crença explica o real a partir dos sentimentos, portanto, a crença para a ciência é um fenômeno que diz respeito ao afeto. Para a crença, a ciência explica o real a partir da reflexão, do pensamento, da razão. Portanto, a ciência para a crença é um fenômeno intelectual.

        Uma das características da crença é seu sentimento rapidamente contagioso, enquanto o saber exige um trabalho lento e paciente.

        É consenso no meio cientifico que não se constrói uma teoria a partir apenas de fatos particulares. Entretanto, é a partir de suposições particulares que se constroem as teorias. Portanto, a construção de uma teoria implica sempre como ponto de partida uma suposição, um ato de fé. Ato de fé, suposição, presunção, conjectura são termos utilizados pelo crente. Método cientifico, hipótese, observação, teoria são os termos utilizados pelo cientista.

 

        Entretanto, se pensarmos que crer é um ato racional e não sentimental, podemos examinar a natureza da crença, pesquisar como ela se funda e se produz. Por outro lado, se pensamos a crença como um sentimento, o seu conhecimento fica restrito as nossas sensações. Portanto, a crença não chega a racionalizar a sua motivação.

        Porém, uma crença também é constituída de palavras, cultos, imagens, pois uma crença precisa de uma forma para ser crível. Essas palavras, cultos e imagens que formam uma crença tem seu sentido próprio. Entretanto, a ciência, ancorada na razão, supõe que somente a racionalidade pode dar sentido à vida, à realidade, à existência.

        É mais fácil persuadir com imagens, sons, cheiros, em suma, com sensações, do que com argumentos. O pensamento é um habito, é uma outra forma de dar sentido à vida, à realidade, à existência. O pensamento não é soberano, muito pelo contrário, o pensamento está mais para subalterno das sensações.

        Portanto, todas as teorias e crenças se equivalem e nenhuma delas tem valor algum. Teorias e crenças são criações humanas. Teorias e crenças fazem parte da imaginação humana. Teorias e crenças criaram a ideia de que as coisas são constituídas por um ente que as determina. Essa teoria/crença é a base de toda uma rede de falsos conceitos nos quais os homens se fixam, se endurecem, se imobilizam. Através dessa crença/teoria os homens concretizam a realidade como uma fotografia, onde a verdade se mostra com toda a sua ignorância.

Psicologia de Rebanhos

O rebanho é os meus pensamentos

E os meus pensamentos são todos sensações.

(Fernando Pessoa)

 

        Enfim, existe diferença entre acreditar e estar certo? Durante a nossa existência afirmamos diariamente a certeza das nossas crenças e as crenças das nossas certezas. Torna-se assim, para nós, quase uma impossibilidade perceber outra realidade que não sejam as nossas crenças e certezas. A Psicologia entende que a realidade não é apenas aquela fotografia que amarelece com o tempo ou jaz esquecida num arquivo digital. A psicologia entende que a realidade é um vir-a-ser e não apenas o ser. Ser este que se eterniza num instantâneo da existência. Por isso a Psicologia acredita na transformação, pois a vida é movimento.

 

Referencias

 

NOVAES, Adauto. A invenção das crenças. São Paulo: Edições SESC SP, 2011.