Recordar é sentir de novo

Da nossa própria mente

        As sensações e a memória das sensações produzem todas as nossas ideias. A memória é um dos efeitos da nossa sensibilidade física. Quando sentimos, necessariamente estamos recordando sensações vividas. Recordar é sentir de novo.

        Pensamos ou produzimos ideias quando percebemos as semelhanças ou as diferenças, as concordâncias ou as discordâncias que existem entre si os objetos ou as situações diferentes. Essa capacidade de percepção é oriunda das nossas sensações. Pensar é sentir de novo.

        Dizemos que o nosso cérebro produz a nossa mente onde são produzidos os nossos pensamentos. A percepção das relações que os objetos ou as situações tem conosco formam a nossa mente.

        Mas, então, o que é os pensamentos? Os pensamentos são operações da nossa mente. Essas operações se resumem a perceber diferenças entre as coisas (objetos, situações). Então, os nossos pensamentos se reduzem ao julgamento que fazemos sobre as diferenças que percebemos entre as coisas. “Julgar não é senão sentir. Todo juízo é apenas uma sensação”.

 

Da nossa própria ignorância

        ”Prazeres físicos são os únicos prazeres reais.

        A medida que a falta de dinheiro se faça sentir num Estado acostumado ao luxo, a nação cai em descredito.

        Para evitar estas consequências, seria preciso reaproximar-se duma vida simples, mas tanto os costumes como as leis a isto se opõem. Assim, a época de maior luxo de uma nação é comumente a época mais próxima de sua queda e de seu aviltamento.

        Nas questões complicadas, e sobre as quais se julga, sem paixão, só se engana por ignorância, isto é, imaginando que o lado que se vê num objeto é tudo o que há para ver neste mesmo objeto”.

        É através das nossas sensações que compreendemos o mundo. É através das sensações que nossos prazeres e nossas dores se realizam. As nossas sensações são enganosas, exceto a dor. Por que as nossas ideias, oriundas das nossas sensações, não seriam também enganosas? A época de maior valorização das ideias de uma nação é comumente a época mais próxima da sua queda e do seu aviltamento.

        A supremacia dos pensamentos em detrimento das sensações revela uma época que julga os fatos e os objetos e as suas relações, sem paixão, e assim se engana por ignorância. Por ignorar que os pensamentos são oriundos das sensações. Essa época suprema imagina que valorizar os pensamentos por si mesmos é tudo o que há para compreender sobre os fatos e os objetos e as suas relações com cada um de nos.

 

Da nossa própria paixão

        “Para amar os homens é preciso esperar pouco deles: para ver os seus defeitos sem amargor é preciso acostumar-se a perdoa-los”. O perdão é uma espécie de justiça que os homens se sentem no direito de exigir.

        “A liberdade do homem consiste no exercício livre de seu poder”. Esse poder se restringe ao âmbito das nossas capacidades. “Porque seria ridículo tomar como uma não-liberdade a impotência que temos de atravessar a nuvem como a águia, viver sob as aguas como a baleia e fazer-nos rei, papa ou imperador.

        Não se pode, portanto, formar nenhuma ideia desse termo liberdade, aplicado à vontade”.

        É que tanto a vontade quanto a nossa liberdade de ação estão orientadas pelas sensações que sentimos das nossas relações com os fatos ou os objetos. E como as nossas sensações são enganosas, melhor ficar com o ensinamento de Jesus: “Perdoai-vos, pai. Eles não sabem o que fazem”. Por isso, o perdão é uma espécie de justiça que os homens se sentem no direito de exigir, oriundo dessa sua existência sem liberdade de escolha.

        Podemos concluir que os nossos julgamentos não são nem verdadeiros nem falsos, apesar de enganosos. Nossos julgamentos são oriundos das nossas paixões e ignorância sensível aos fatos e objetos.

 

Psicologia de Rebanhos

O rebanho é os meus pensamentos

E os meus pensamentos são todos sensações.

(Fernando Pessoa)

 

        Pode-se considerar a mente como a faculdade produtora dos nossos pensamentos. Nesse sentido, a mente é apenas sensações e recordações de sensações. Mas, também pode-se considerar a mente como um efeito das faculdades produtoras dos nossos pensamentos. Nesse outro sentido, a mente é apenas uma reunião de pensamentos que podem ser acessados quando sentimos.

 

Referencias

 

HELVÉTIUS, Claude-Adrien. Do espirito. São Paulo: Abril Cultural, 1984.

 

As raízes dos estigmas que a prática apresenta

Saia desse corpo que não lhe pertence!
 
Capitulo 7

        A propagação da prática da tatuagem ocorreu no convívio dos marinheiros com prostitutas e ladrões. “Dessa forma, ladrões presos levaram a prática ao contexto carcerário (ao qual é associada até hoje), enquanto prostitutas a utilizavam como fetiche. Estes usos são as raízes dos estigmas que a prática apresenta até os dias atuais, associada à marginalidade” (Carvalho, 2010).

        “No percurso do século XIX e começo do XX, a prática da tatuagem seguiu uma intrépida fase de peregrinação pelos setores marginais da sociedade, nos quais presidiários, meretrizes e soldados converteram-se nos novos protagonistas dessa prática.

        Ao converter-se em objeto de preferência dos setores marginais, a tatuagem se situava socialmente nas margens da sociedade. Essa situação gerou uma construção negativa em torno dessa prática, que transportou ao imaginário social um sentido de referência e equivalência entre tatuagem = marca marginalidade. O contexto começou a mudar notoriamente a partir da invenção da máquina elétrica, em 1891” (Fonseca, 2003).

Entre 1870 e 1880, “a cultura física passou a integrar a cultura americana, participando de um imaginário regenerador em meio a depressão” (Pires, 2005).

 

Inicia-se assim o culto ao corpo.

 

        “O estilo de vida e o desejo de obter a perfeição física levaram o homem da sociedade industrial a buscar, excessivamente, um novo padrão de beleza. Uma exigência para a sua inclusão na sociedade, onde tudo pode virar mercadoria” (Cassimiro e Galdino, 2012).

        “A insatisfação com o próprio corpo implicou a incorporação da prática do exercício físico com fins estéticos no cotidiano do indivíduo. O trabalho corporal desenvolvido pela academia obedece à lógica da máquina: a cronometrização e mecanicidade são os princípios orientadores das práticas corporais” (Pelegrini, 2005).

        No século XX, o corpo ganha “um registro intersubjetivo, através do qual o sujeito reconhece a si e aos demais”. Em decorrência, a dimensão fisiológica do corpo “foi reconhecida como indissociável das sensibilidades, afetos, racionalizações, bem como das decisões e ações, com seus contornos éticos e políticos” (Mori e Buarque, 2014).

        “A presença de inscrições no corpo, seja por intermédio de tatuagens ou de escarificações, e o aparecimento de sintomas corporais que traduzem sofrimentos eminentemente psíquicos, destaca-se cada vez mais na contemporaneidade.

        Na verdade, o corpo passa a ocupar um espaço privilegiado de manifestação e comunicação de conflitos psíquicos. O corpo foi inventado teoricamente no século XX, e seria Freud o grande responsável por sua nova percepção.

        A teoria freudiana propõe pensá-lo (o corpo) para além da carnalidade; o corpo não é apenas um organismo biológico. Ele é atravessado pela linguagem, e essa, por sua vez, faz com que o corpo exista fora da pura sensação carnal.

As oscilações psíquicas produziram efeitos no corpo e no psíquico que, por sua vez, sofrem influências do ambiente social” (Moreira, Teixeira e Nicolau, 2010).

        “A leitura do corpo é sempre sócio histórica, e a psicanálise está inserida nesta perspectiva: ‘a psicologia individual é ao mesmo tempo também psicologia social’ (Freud, 1921). A psicanálise não está fora da cultura sendo, ela mesma, fruto do trabalho de cultura” (Ceccarelli, 2011).

        Até o século XVIII, “o corpo foi reprimido e punido, mas, a partir do século XXI, tornou-se objeto do Capitalismo”. O processo de transformação do corpo, da Grécia Antiga até os dias atuais, “sempre ocorreu por motivações políticas, econômicas e religiosas das classes que detinham o poder em cada período. Assim, o corpo exerceu papéis diferentes em cada sociedade”. (Cassimiro e Galdino, 2012).

Psicologia de Rebanhos

O rebanho é os meus pensamentos

E os meus pensamentos são todos sensações.

(Fernando Pessoa)

        A Psicologia de Rebanhos compreende que o nosso corpo é uma construção sócio histórica. Ou seja, os nossos corpos são construídos pelas ideias políticas, sociais, morais, religiosas, econômicas de cada sociedade em determinada época. Atualmente, nossos corpos são considerados os depositários de nossos afetos, sensações e pensamentos. Portanto, cabe a nós a responsabilidade pela guarda e conservação dos afetos neles depositados.

 

Referencias

 

CARVALHO, Eric de. TATTOO – Incorporações de produtos midiáticos por meio de tatuagens. São Paulo, 2010. Acesso em 21 de outubro de 2015. Disponível em

CASSIMIRO, Érica Silva; GALDINO, Francisco Flávio Sales. As concepções de corpo construídas ao longo da história ocidental: da Grécia antiga à contemporaneidade. Revista Eletrônica Print by. Μετάνοια, São João del-Rei/MG, n.14, 2012. Acesso em 05 de junho de 2015. Disponível em

CECCARELLI, Paulo Roberto. Uma breve história do corpo. In Corpo, Alteridade e Sintoma: diversidade e compreensão. Lange & Tardivo (org.). São Paulo: Vetor, p. 15-34, 2011. Acesso em 05 de junho de 2015. Disponível em

FONSECA, Andrea Lissett Perez. Tatuar e ser tatuado: etnografia da pratica contemporânea da tatuagem. Florianópolis, agosto de 2003. Acesso em 08 de março de 2015. Disponível em

FREUD, Sigmund. Psicologia das massas e analise do eu. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

MOREIRA, Jacqueline de Oliveira; TEIXEIRA, Leônia Cavalcante; NICOLAU, Roseane de Freitas. Inscrições corporais: tatuagens, piercings e escarificações à luz da psicanalise. Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental. São Paulo, v. 13, n. 4, p. 585-598, dezembro 2010. Acesso em 27 de fevereiro de 2015. Disponível em

MORI, Geraldo De; BUARQUE, Virgínia. Corporeidade-encarnação: teologia em diálogo interdisciplinar. Perspectiva Teologia, Belo Horizonte, v. 46, n. 129, p. 187-214, mai/ago, 2014. Acesso em 05 de junho de 2015. Disponível em

PELEGRINI, Thiago. Imagens do corpo: reflexões sobre as acepções corporais construídas pelas sociedades ocidentais. Revista Urutágua – revista acadêmica multidisciplinar –  Quadrimestral – Nº 08 – Dez/Jan/Fev/Mar de 2005/6 – Maringá – Paraná – Brasil – ISSN 1519.6178. Centro de Estudos Sobre Intolerância – Maurício Tragtenberg, Departamento de Ciências Sociais – Universidade Estadual de Maringá (DCS/UEM). Acesso em 20 de julho de 2015. Disponível em

PIRES, Beatriz Ferreira. O corpo como suporte da arte: piercing, implante, escarificação, tatuagem. São Paulo: Editora SENAC,2005.

 

E sei apenas do meu próprio mal

A rua dos cata-ventos

 
Eu nada entendo da questão social.
Eu faço parte dela, simplesmente…

E sei apenas do meu próprio mal,

Que não é bem o mal de toda a gente.

 

* * *

 

Espelho magico

 

Da observação

Não te irrites, por mais que te fizerem…

Estuda, a frio, o coração alheio.

Faras, assim, do mal que eles te querem,

Teu mais amável e sutil receio…

 

* * *

 

Dos mundos

Deus criou este mundo. O homem, todavia,

Entrou a desconfiar, cogitabundo…

Decerto não gostou lá muito do que via…

E foi logo inventando o outro mundo.

 

* * *

 

Dos milagres

O milagre não é dar vida ao corpo extinto,

Ou luz ao cego, ou eloquência ao mundo…

Nem mudar agua pura em vinho tinto…

Milagre é acreditarem nisso tudo!

 

* * *

 

Das ilusões

Meu saco de ilusões, bem cheio tive-o.

Com ele ia subindo a ladeira da vida.

E, no entretanto, após cada ilusão perdida…

Que extraordinária sensação de alivio!

 

Dos nossos males

A nós nos bastem nossos próprios ais,

Que a ninguém sua cruz é pequenina.

Por pior que seja a situação da China,

Os nossos calos doem muito mais…

 

* * *

 

Da eterna procura

Só o desejo inquieto, que não passa,

Faz o encanto da coisa desejada…

E terminamos desdenhando a caça

Pela doida aventura da caçada.

 

* * *

 

Do pranto

Não tentes consolar o desgraçado

Que chora amargamente a sorte ma.

Se o tirares por fim do seu estado,

Que outra consolação lhe restara?

 

Psicologia de Rebanhos

O rebanho é os meus pensamentos

E os meus pensamentos são todos sensações.

(Fernando Pessoa)

 

        Todos nós temos problemas, mas o problema de cada um é um problema único, de cada um. Embora não seja exatamente um problema de cada um, mas de todos. Afinal, o problema é nosso ou é dos outros? É que sem os outros, os problemas não existiriam. Os nossos problemas são gerados nas relações com os outros e com a gente mesmo.

        Aí então, desconfiados desse jeito do mundo ser, cheio de problemas, inventamos a solução para os problemas desse mundo em outro mundo. Um mundo que não é esse, nem o meu nem o seu nem o nosso. O pior é que acreditamos que esse tal outro mundo que criamos existe e tem a solução dos problemas desse mundo aqui.

        Somente quando a ilusão da solução dos problemas desaparece, aprendemos que a solução sempre esteve em nos mesmos. Aprendemos que os nossos problemas são somente os nossos problemas. E por serem os nossos doem muito mais que os problemas dos outros. Os problemas dos outros são nossa diversão. Assim, esquecemos dos nossos problemas, nos divertindo com os problemas dos outros.

        Esquecer é outra ilusão que criamos para não resolver os nossos problemas. É que existe no esquecimento um consolo, mas um consolo que não consola. Apenas adia o encontro e nos afasta de nós mesmos.

 

QUINTANA, Mario. Quintana de bolso. Porto Alegre: L&PM, 2006.

 

Os indivíduos que formam uma multidão não agem pela sua consciência

        Uma multidão “constitui uma alma coletiva poderosa, mas momentânea”. Uma característica da época atual é evidente quando vemos uma multidão em ação, os indivíduos que formam uma multidão não agem pela sua consciência, mas pela “consciência” da multidão.

        “As grandes convulsões que precedem as mudanças de civilização parecem determinadas por transformações políticas consideráveis, invasões de povos ou derrubadas de dinastias”. Mas não é bem assim que ocorre. “As únicas mudanças importantes, aquelas das quais provem a renovação das civilizações, produzem-se nas opiniões, concepções e crenças”.

 

A idade em que entramos será verdadeiramente a era das multidões

 

      “Hoje as reivindicações das multidões tornam-se cada vez mais claras e tendem a destruir completamente a sociedade atual para reconduzi-la ao comunismo primitivo, que era o estado normal de todos os grupos humanos antes da aurora da civilização.

        Pouco aptas ao raciocínio, as multidões mostram-se, ao contrário, muito aptas a ação. A história ensina que no momento em que as forças morais, base de uma sociedade, perdem seu vigor, a dissolução final é efetuada pelas multidões inconscientes e brutais adequadamente qualificadas como barbaras.

        Até aqui as civilizações foram criadas e guiadas por uma pequena aristocracia intelectual, nunca pelas multidões. Estas tem poder apenas para destruir. Seu domínio sempre representa uma fase de desordem. Quando o edifício de uma civilização está carcomido, as multidões levam-no ao desmoronamento. É quando seu papel aparece”.

 

O papel das multidões é destruir

 

        A qualidade da razão, o bom senso da lógica ou o raciocínio bem conduzido, poucas influências exercem sobre as multidões. As teorias metafisicas são rapidamente ignoradas pelas multidões. “Somente as impressões que se fazem surgir em sua alma podem seduzi-las”

        “O mais injusto poderá ser na pratica o melhor para as multidões, se for o menos visível e aparentemente o menos pesado. Por isso um imposto indireto, mesmo exorbitante, sempre será aceito pela multidão. Sendo diariamente recolhido nos objetos de consumo, por frações de centavos, não atrapalha seus hábitos e pouco a impressiona. Os homens nunca se comportam seguindo as prescrições da razão pura”.

 

Um indivíduo numa multidão faz parte de uma unidade mental

 

        Quando dizemos multidão estamos nos referindo a uma reunião de indivíduos quaisquer. A multidão pode mesmo ser formada por quaisquer indivíduos, pois uma multidão é “uma aglomeração de homens que possui características novas muito diferentes daquelas de cada indivíduo que a compõe”.

        O que caracteriza um indivíduo numa multidão é o desaparecimento da sua personalidade e a orientação dos seus sentimentos e dos seus pensamentos em um mesmo sentido. No sentido dado pela multidão.

 

 

        “O fato mais surpreendente apresentado por uma multidão é o seguinte: quaisquer que sejam os indivíduos que a compõem, o mero fato de se haverem transformado em multidão dota-os de uma espécie de alma coletiva. Essa alma os faz sentir, pensar e agir de um modo completamente diferente daquele como sentiria, pensaria e agiria cada um deles isoladamente”.

        “Na alma coletiva, apagam-se as aptidões intelectuais dos homens e consequentemente sua individualidade”. Numa multidão não é possível realizar atos que exijam “uma inteligência elevada”. Nas multidões imperam “não a inteligência, mas a mediocridade”.

 

Características especificas das multidões

 

Primeira característica é que “o indivíduo na multidão adquire, exclusivamente por causa do número, um sentimento de poder invencível que lhe permite ceder a instintos que, sozinho, teria forçosamente refreado”. A multidão garante o anonimato, por isso um indivíduo na multidão cede facilmente a comportamentos mais “instintivos”. Numa multidão, o sentimento de responsabilidade de um indivíduo desaparece.

Segunda característica, o contagio mental. “Em uma multidão, todo sentimento, todo ato é contagioso, e contagioso ao ponto de que o indivíduo sacrifique muito facilmente seu interesse pessoal ao interesse coletivo”. Sacrificar o seu interesse pessoal é um comportamento que se encontra em desacordo com a propensão de quaisquer espécies de indivíduos. Entretanto, o homem, quando faz parte de uma multidão, torna-se capaz de sacrificar o seu interesse pessoal.

Terceira característica, os indivíduos na multidão possuem características especificas as vezes muito opostas as do indivíduo isolado.

        “Esse é aproximadamente o estado do indivíduo que faz parte de uma multidão. Ele já não tem consciência de seus atos.

        Portanto, o desaparecimento da personalidade consciente, predomínio da personalidade inconsciente, orientação por meio de sugestão e de contagio dos sentimentos e das ideias num mesmo sentido, tendência a transformar imediatamente em ato as ideias sugeridas são as principais características do indivíduo na multidão. Ele já não é ele mesmo, é um autômato cuja vontade tornou-se impotente”.

        O homem que faz parte de uma multidão possui a “faculdade em se deixar impressionar por palavras, imagens e conduzir a atos que lesam seus mais evidentes interesses”. Mas não é apenas pelo seu comportamento que o indivíduo na multidão difere de si mesmo. “Antes mesmo de ter perdido toda independência, suas ideias e seus sentimentos se transformaram”.

Psicologia de Rebanhos

O rebanho é os meus pensamentos

E os meus pensamentos são todos sensações.

(Fernando Pessoa)

 

        A pratica terapêutica pretende acompanhar o indivíduo na transformação de seus sentimentos, em direção a sua autonomia e a sua responsabilidade pelos seus atos. Se é possível deixar-se levar, também é possível conter-se. Experimentar as instancias que separam os opostos é uma das técnicas utilizadas na psicoterapia. O entendimento de uma sensação passa pela compreensão da sua sensação simétrica oposta. Para perceber uma emoção como tristeza é necessário percorrer as instancias da alegria. A vida é movimento.

 

Referencias

LE BON, Gustave. Psicologia das multidões. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2008.

 

Existe diferença entre acreditar e estar certo?

        Por que você acredita no que você acredita? Como se formaram as crenças que você tem? Existe diferença entre acreditar e estar certo? O que é uma crença? Como formamos uma crença?

        Uma crença é certo estado mental onde não existe uma garantia de verdade para todos. Uma crença é um sentimento subjetivo que pode ser compartilhado e apoiado por outros.  Se creio, não tenho certeza, mas creio que estou certo.

        Crer, então, é algo que se fundamenta na minha opinião. Portanto, a sua crença implica algo em que você acredita e eu posso acreditar ou não. Assim, crer é diferente de certeza, pois a crença está baseada no sentimento de algo e o saber está fundamentado no conhecimento de algo.

        Mas será que crer e saber serão mesmo diferentes? Concordar que crer e saber são diferentes é acreditar que crer e saber são modos de atividades diferentes e de origens diferentes. No entanto, essa tentativa de conhecer a diferença entre crer e saber origina-se da “sensação” de que crer e saber são diferentes. A ciência diria que a origem não seria a minha sensação, mas a hipótese do fenômeno a ser observado.

        Para a ciência, a crença é uma opinião, portanto um conhecimento menor destituído de verdade. Para os parâmetros científicos, a crença não está certa. Para a crença, a ciência é um saber destituído de fé, portanto um conhecimento menor. Para os parâmetros crentes, a ciência não está certa.

        Para a ciência, a crença explica o real a partir dos sentimentos, portanto, a crença para a ciência é um fenômeno que diz respeito ao afeto. Para a crença, a ciência explica o real a partir da reflexão, do pensamento, da razão. Portanto, a ciência para a crença é um fenômeno intelectual.

        Uma das características da crença é seu sentimento rapidamente contagioso, enquanto o saber exige um trabalho lento e paciente.

        É consenso no meio cientifico que não se constrói uma teoria a partir apenas de fatos particulares. Entretanto, é a partir de suposições particulares que se constroem as teorias. Portanto, a construção de uma teoria implica sempre como ponto de partida uma suposição, um ato de fé. Ato de fé, suposição, presunção, conjectura são termos utilizados pelo crente. Método cientifico, hipótese, observação, teoria são os termos utilizados pelo cientista.

 

        Entretanto, se pensarmos que crer é um ato racional e não sentimental, podemos examinar a natureza da crença, pesquisar como ela se funda e se produz. Por outro lado, se pensamos a crença como um sentimento, o seu conhecimento fica restrito as nossas sensações. Portanto, a crença não chega a racionalizar a sua motivação.

        Porém, uma crença também é constituída de palavras, cultos, imagens, pois uma crença precisa de uma forma para ser crível. Essas palavras, cultos e imagens que formam uma crença tem seu sentido próprio. Entretanto, a ciência, ancorada na razão, supõe que somente a racionalidade pode dar sentido à vida, à realidade, à existência.

        É mais fácil persuadir com imagens, sons, cheiros, em suma, com sensações, do que com argumentos. O pensamento é um habito, é uma outra forma de dar sentido à vida, à realidade, à existência. O pensamento não é soberano, muito pelo contrário, o pensamento está mais para subalterno das sensações.

        Portanto, todas as teorias e crenças se equivalem e nenhuma delas tem valor algum. Teorias e crenças são criações humanas. Teorias e crenças fazem parte da imaginação humana. Teorias e crenças criaram a ideia de que as coisas são constituídas por um ente que as determina. Essa teoria/crença é a base de toda uma rede de falsos conceitos nos quais os homens se fixam, se endurecem, se imobilizam. Através dessa crença/teoria os homens concretizam a realidade como uma fotografia, onde a verdade se mostra com toda a sua ignorância.

Psicologia de Rebanhos

O rebanho é os meus pensamentos

E os meus pensamentos são todos sensações.

(Fernando Pessoa)

 

        Enfim, existe diferença entre acreditar e estar certo? Durante a nossa existência afirmamos diariamente a certeza das nossas crenças e as crenças das nossas certezas. Torna-se assim, para nós, quase uma impossibilidade perceber outra realidade que não sejam as nossas crenças e certezas. A Psicologia entende que a realidade não é apenas aquela fotografia que amarelece com o tempo ou jaz esquecida num arquivo digital. A psicologia entende que a realidade é um vir-a-ser e não apenas o ser. Ser este que se eterniza num instantâneo da existência. Por isso a Psicologia acredita na transformação, pois a vida é movimento.

 

Referencias

 

NOVAES, Adauto. A invenção das crenças. São Paulo: Edições SESC SP, 2011.

 

A emoção fundamental que está na raiz de toda ciência e arte

A coisa mais bela que o homem pode experimentar é o misterioso. É esta a emoção fundamental que está na raiz de toda ciência e arte.

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Não existe nenhum caminho logico para a descoberta das leis elementares do Universo – o único caminho é o da intuição.

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Penso noventa e nove vezes e nada descubro; deixo de pensar, mergulho em profundo silencio – e eis que a verdade se me revela.

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A imaginação é mais importante que o conhecimento.

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A maioria de nós prefere olhar para fora e não para dentro de si mesmo.

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Talvez algum dia a solidão venha a ser adequadamente reconhecida e apreciada como mestra da personalidade. O indivíduo que teve experiência da solidão não se torna vitima fácil da sugestão das massas.

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Na verdade, você nunca entende uma nova teoria. Você simplesmente a utiliza.

*

O homem vem a terra para uma permanência muito curta, para um fim que ele mesmo ignora, embora, às vezes, julgue sabe-lo.

*

O homem, como qualquer outro animal, é por natureza indolente. Se nada o estimula, mal se dedica a pensar e se comporta guiado apenas pelo habito, como um autômato.

*

Sem a convicção de uma harmonia intima do Universo, não poderia haver ciência.

*

        Às vezes me pergunto como pode ter acontecido de eu ter sido o único a desenvolver a Teoria da Relatividade. A razão, creio eu, é que um adulto normal nunca para para pensar sobre problemas de espaço e tempo. Isso são coisas que ele pensou quando criança.

        Mas o meu desenvolvimento intelectual foi retardado, motivo pelo qual comecei a questionar sobre espaço e tempo somente quando já era adulto. Naturalmente, pude ir muito mais fundo no problema do que uma criança com suas habilidades normais.

*

O universo é finito, mas ilimitado.

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        – Quando um homem se senta ao lado de uma moça bonita, durante uma hora, tem a impressão de que se passou apenas um minuto. Deixe-o sentar-se sobre um fogão quente durante um minuto somente – e esse minuto lhe parecera mais comprido do que uma hora.

        – Isto é a relatividade.

*

O tempo é relativo e não pode ser medido exatamente do mesmo modo e por toda a parte.

 

Psicologia de Rebanhos

O rebanho é os meus pensamentos

E os meus pensamentos são todos sensações.

(Fernando Pessoa)

 

        É através das nossas sensações que compreendemos o mundo. A Psicologia é a ciência que compreende o mundo estudando os nossos sentimentos com relação ao mundo. Essa necessidade de dar sentido ao mundo parece algo constitutivo do ser humano. Seja esse sentido dado pelas sensações, emoções, ciências, artes, imaginação, intuição, pensamentos. A vida é movimento.

 

Referencias

EINSTEIN, Albert. O pensamento vivo de Einstein. São Paulo: Martin Claret Editores, 1986.

 

A tatuagem era uma prática tradicional

Saia desse corpo que não lhe pertence!
 
Capitulo 6

 

        A tatuagem foi redescoberta no Ocidente na época das “grandes expedições marítimas que se realizaram durante o século XVIII. E, em especial, às ilhas do Pacífico, onde foi observado que a tatuagem era uma prática tradicional, bastante expandida e com importantes funções sociais” (Fonseca, 2003).

        Considerado um dos primeiros registros literários do qual se tem notícia, James Cook, quando esteve no Taiti, na Polinésia, relatou em seu diário, no ano de 1769: “os nativos usavam espinhas de peixe muito finas ou ossos de pássaros para perfurar a pele e injetar um pigmento feito à base de carvão e ferrugem.

        A palavra tatuagem tem origem na palavra tattow, escrita por Cook em seu diário, também conhecida como tatau” (Ferreira, 2012), “A origem do nome tatuagem como o conhecemos tem uma história curiosa: ‘Tatau’ como era chamada inicialmente pelos nativos taitianos, era a forma como se referiam à onomatopeia do som emitido durante a execução da tatuagem” (Simões, 2011).

        “Somente quando os marinheiros e viajantes talharam suas peles foi que se estabeleceu uma ponte através da qual o Ocidente se aproximou e iniciou sua trajetória na tatuagem” (Fonseca, 2003).

        “Os desenhos na pele não eram exclusivos para ritos de passagem, celebrações de eventos sociais ou proteção, eram muito usados também para amedrontar os inimigos. São chamadas de pinturas de guerra e, dependendo da cor, servia também como camuflagem na floresta” (Silva, 2010).

 

 

“As mudanças econômicas e sociais causadas pelo capitalismo e pela industrialização tiram do corpo a dimensão humana e o transformam num instrumento de trabalho, que deve ter seus instintos dominados, educados e disciplinados” (Pires, 2005).

        “A disciplina e controle corporais eram preceitos básicos. Todas as atividades físicas eram prescritas por um sistema de regras rígidas, visando a saúde corporal” (Barbosa, Matos e Costa, 2009).

        “A obtenção do corpo sadio circundava a dominação do indivíduo: a prática física domava a vontade, contribuindo para tornar o praticante subserviente ao Estado.

        Na lógica de produção capitalista o corpo mostrou-se tanto oprimido, quanto manipulável. Era percebido como uma ‘máquina’ de acúmulo de capital. Deste modo, os movimentos corporais passaram a ser regidos por uma nova forma de poder: o poder disciplinar.

        As novas tecnologias de produção em massa desencadearam um processo de homogeneização de gestos e hábitos que se estendeu a outras esferas sociais, entre elas a educação do corpo, que passou a identificar-se não só com as técnicas, mas também com os interesses da produção.

        A padronização dos conceitos de beleza, fundada no corpo magro ou musculoso, ancorada pela necessidade de consumo, criada pelas novas tecnologias e homogeneizada pela lógica da produção, foi responsável por uma diminuição significativa na quantidade e na qualidade das vivências corporais do homem contemporâneo” (Pelegrini, 2005).

        No século 19, se referiam a sociedade como “uma sociedade anónima, uma vasta população de gente que não se conhece. O trabalho, o lazer, o convívio com a família são atividades separadas, vividas em compartimentos a ela destinados. O homem procura proteger-se do olhar dos outros…

        Disciplinamos o corpo para que consigamos reconhecimento social e aprovação, estando o prazer associado ao esforço, o sucesso à determinação e a intensidade do esforço será proporcional à angústia provocada pelo olhar do outro” (Barbosa, Matos e Costa, 2009).

Psicologia de Rebanhos

O rebanho é os meus pensamentos

E os meus pensamentos são todos sensações.

(Fernando Pessoa)

        A Psicologia de Rebanhos parte da hipótese de que somos o nosso corpo. E que o corpo de cada um de nós é função das nossas relações sociais e pessoais. Cada sociedade se compõe de corpos específicos que cumprem determinada finalidade. Cada sociedade necessita de corpos com habilidades especificas para manter a sua hegemonia cultural.

        Nossos corpos são instrumentos sociais que cumprem uma função especifica na sociedade. Conhecer como nós agimos socialmente e como esse nosso agir social afeta nossa vida pessoal é a nossa tarefa. Aprender a lidar com o que a sociedade quer de nós e o que nós queremos da vida é o nosso limite. Atuar fora desse espaço entre o social e o pessoal é penetrar num mundo de indeterminação.

 

Referencias

BARBOSA, M. R.; MATOS, P. M.; COSTA, M. E. Um olhar sobre o corpo: o corpo ontem e hoje. Psicologia & Sociedade; 23 (1): 24-34, 2011. Outubro de 2009. Acesso em 05 de junho de 2015. Disponível em

FERREIRA, Deborah Cristina. O corpo como texto: analise discursiva da escrita no corpo. Revista Eventos Pedagógicos, v. 3, n. 1 Numero Especial, p. 138 – 146, abr, 2012. Acesso em 08 de março de 2015. Disponível em

FONSECA, Andrea Lissett Perez. Tatuar e ser tatuado: etnografia da pratica contemporânea da tatuagem. Florianópolis, agosto de 2003. Acesso em 08 de março de 2015. Disponível em

PELEGRINI, Thiago. Imagens do corpo: reflexões sobre as acepções corporais construídas pelas sociedades ocidentais. Revista Urutágua – revista acadêmica multidisciplinar  – Quadrimestral – Nº 08 – Dez/Jan/Fev/Mar de 2005/6 – Maringá – Paraná – Brasil – ISSN 1519.6178. Centro de Estudos Sobre Intolerância – Maurício Tragtenberg, Departamento de Ciências Sociais – Universidade Estadual de Maringá (DCS/UEM). Acesso em 20 de julho de 2015. Disponível em

PIRES, Beatriz Ferreira. O corpo como suporte da arte: piercing, implante, escarificação, tatuagem. São Paulo: Editora SENAC, 2005.

SILVA, Bruna Cristina Daminelli. A tatuagem na contemporaneidade. Criciúma, julho de 2010. Acesso em 21 de julho de 2015. Disponível em

SIMÕES, Renan. A Comunicação não Verbal Através da Tatuagem. XIV Conferência Brasileira dos Estudos da Folkcomunicação – “O artesanato como processo comunicacional” – IX Encontro Regional de Comunicação, 2011. Acesso em 21 de julho de 2015. Disponível em

 

Sistema de bloqueios que impede o livre fluxo de sensações

        Na terapia lidamos com emoções. A emoção tem a capacidade de mobilizar ou paralisar o organismo. Dizemos que uma pessoa se encontra “travada” emocionalmente se, em algum nível, a sua mobilidade foi afetada. Uma emoção paralisada é, então, equivalente a um sistema de bloqueios que impede o livre fluxo de sensações através do corpo. O objetivo da terapia é, assim, localizar esses bloqueios e recuperar essa fluência.

        Podemos conceituar a emoção como um “movimento para fora”, uma expressão fundamental a todas as formas de vida. Mesmo organismos unicelulares mostram uma reação de expansão e contração em resposta a estímulos.

        Um organismo cria um estado de tensão quando ocorre uma mudança em seu ambiente. Um organismo mobilizado para enfrentar uma alteração no seu ambiente, apresenta duas reações esperadas, que podem ser resumidas como “luta” ou “fuga”.

        Se o organismo consegue se livrar da ameaça, atacando-a ou fugindo dela, ele soube lidar com a situação. Porém, o organismo pode não conseguir lidar com a situação nem lutando nem fugindo. Então, ele está “encrencado”: o organismo bloqueou o sistema de livre fluxo das sensações. É assim que você se encrenca.

        Cientistas observaram que macacos, usados em experimentos, desenvolveram ulceras por serem repetidamente colocados em situações de estresse que eles, os macacos, não puderam evitar.

        Na terapia, as pessoas são ajudadas a vivenciar seus “sentimentos ocultos” (sistema de bloqueio do livre fluxo das sensações) de raiva, tristeza, alegria, nojo, ansiedade, desejo e muitos outros, e encorajadas a expressa-los.

        No nosso rosto, expressamos vários “sentimentos que julgamos ocultos” ligados a impulsos contidos de morder, sugar, chorar ou fazer caretas. Cada uma dessas expressões está ligada a um sistema de bloqueio de livre fluxo de sensações traumáticas.

        O pescoço é um dos locais preferidos de contração muscular (bloqueio de uma emoção) na estrutura do corpo. As tensões (sistema de bloqueio do livre fluxo das nossas sensações) no pescoço impedem a sensação de conexão entre a cabeça e o restante do corpo. Essa sensação pode ser uma das hipóteses que explica o fato de muitas pessoas se sentirem identificadas com a sua cabeça e não reconhecerem o seu corpo como seu corpo.

 

“A sensação de identificação de uma pessoa está diretamente ligada à sua capacidade de se conscientizar daquilo que seu corpo sente”.

 

        Em nossa garganta, “prendemos” as expressões de soluçar, berrar e gritar. Prendemos a raiva no pescoço e espalhamos as suas tensões nos músculos dos ombros, que avançam para as nossas costas. Estar com as costas rígidas e os ombros tensos pode ser resposta ao bloqueio do livre fluxo das sensações de raiva.

        Depois do pescoço, a outra área preferida para armazenar as tensões é a do tronco, onde regulamos a respiração. A respiração é indispensável a vida e a qualquer forma de expressão emocional.

        Toda pessoa que bloqueia o livre fluxo das suas sensações apresenta distúrbios respiratórios. Esses distúrbios se manifestam num peito estufado e o abdômen encolhido, ou, numa respiração na qual um mínimo de ar é levado aos pulmões.

        Outra região preferida para o bloqueio emocional é a pelve. A imobilidade da pelve acarreta, provavelmente, dificuldades sexuais. No entanto, as dificuldades sexuais não estão restritas a imobilidade da pelve. Pois, as tensões, em qualquer parte do nosso corpo, afetarão a qualidade das sensações obtidas nas nossas vivencias.

Psicologia de Rebanhos

“O rebanho é os meus pensamentos e os meus pensamentos são todos sensações” (Fernando Pessoa). 

        Uma emoção paralisada cria um sistema de bloqueios que impede o livre fluxo de sensações através do corpo. A contenção de uma emoção é um processo comportamental. Um comportamento para ser modificado passa pela sua compreensão.  O objetivo da terapia é, assim, localizar essas contenções e recuperar a fluência das sensações.

Referencias

BOADELLA, David. Correntes da vida: uma introdução a biossíntese. São Paulo: Summus, 1992.

A Natureza me está, se não te vejo, magoando

Enfim, tudo o que a rara Natureza
Com tantas variedades nos oferece,

Me está, se não te vejo, magoando.

 

Sem ti, tudo me enoja e me aborrece;

Sem ti, perpetuamente estou passando

Nas maiores alegrias maior tristeza.

 

***

 

Alma minha gentil, que te partiste

Tão cedo desta vida, descontente,

Repousa lá no Céu eternamente

E viva eu cá na Terra sempre triste.

 

Se lá no assento etéreo, onde subiste,

Memoria desta vida se consente,

Não te esqueças daquele amor ardente,

Que já nos olhos meus tão puro viste.

 

E se vires que pode merecer-te

Alguma coisa a dor que me ficou

Da magoa, sem remédio, de perder-te,

 

Roga a Deus, que teus anos encurtou,

Que tão cedo de cá me leve a ver-te,

Quão cedo de meus olhos te levou.

 

 

Amor é fogo que se arde sem se ver;

É ferida que dói e não se sente;

É um contentamento descontente;

É dor que desatina sem doer;

 

É um não querer mais que bem querer;

É solitário andar por entre a gente;

É nunca contentar-se de contente;

É cuidar que se ganha em se perder;

 

É querer estar preso por vontade;

É servir a quem vence, o vencedor;

É ter com quem nos mata lealdade.

 

Mas como causar pode seu favor

Nos corações humanos amizade,

Se tão contrário a si é mesmo Amor?

 

***

 

Quanta incerta esperança, quanto engano!

Quanto viver de falsos fundamentos,

Pois todos vão fazer seus pensamentos

Só no mesmo em que está seu próprio dano!

 

Não haja em aparências confianças;

Entende que o viver é de emprestado;

Que o de que vive o mundo são mudanças.

 

Mudai, pois o sentido e o cuidado,

Somente amando aquelas esperanças

Que duram para sempre com o amado.

 

Psicologia de Rebanhos

O rebanho é os meus pensamentos

E os meus pensamentos são todos sensações.

(Fernando Pessoa)

 

        Nessas canções de amor, o amante fala da ausência do amado. Quão sofrida e triste é a vida sem o amado! E mesmo quando o amor é vivido, por que dói tanto!? Como pode o amor ser tão contrário a si? Que sentimento é esse que não se encontra em mim, mas que dura para sempre com o amado!? Amor é sentimento? De tão idealizado, esse amor parece mais com pensamento do que com algo que se sente.

       

Soneto de Fidelidade – Duração 1:36

CAMÕES, Luiz Vaz de. 200 sonetos: Luiz Vaz de Camões. Porto Alegre: L&PM, 1998.

 

O homem é o criador dos valores, mas esquece sua própria criação

        “Apolo é o Deus da clareza, da harmonia e da ordem; Dioniso, o deus da exuberância, da desordem e da música”.

        “O homem é o criador dos valores, mas esquece sua própria criação e vê neles algo de ‘transcendente’, de ‘eterno’ e ‘verdadeiro’, quando os valores não são mais do que algo ‘humano, demasiado humano’’’.

 

O dionisíaco e o socrático

        “Nietzsche trouxe uma nova concepção da filosofia e do filosofo, não se trata mais de procurar o ideal de um conhecimento verdadeiro, mas sim de interpretar e avaliar”.

        A interpretação procura conhecer o sentido de um fenômeno. Porém, por mais alcance que tenha o pensamento, ele será sempre parcial e fragmentário. O conhecimento é uma ideia de um sujeito, e somente daquele sujeito, que pensa o sentido de um fenômeno. A avaliação tenta determinar o valor de um fenômeno. A avaliação busca entender para que o fenômeno acontece, se presta, existe.

        Assim é a busca por um ideal. A busca de um ideal é similar a arte de interpretar. É similar a coisa a ser interpretada. Assim é a verdade. A verdade é similar a arte de interpretar. Na arte de interpretar, ator e obra se avaliam e interpretam a existência.

 

O homem é o criador dos valores, mas esquece sua própria criação

        Entre os filósofos pré-socráticos existe unidade entre o pensamento e a vida. A vida “estimula” o pensamento e o pensamento “afirma” a vida. O pensamento é algo que existe porque sentimos. “Mas o desenvolvimento posterior da filosofia trouxe consigo a progressiva degeneração dessa característica, e, em lugar de uma vida ativa e de um pensamento afirmativo, a filosofia propôs como tarefa ‘julgar a vida’”.

        A filosofia se cristaliza, então, opondo a vida valores, com a pretensão de significados superiores aos sentidos. Esses valores, criados pelos filósofos e aqueles que os apoiaram, passam a ser a medida da vida. O que é certo ou errado, bom ou mau, belo ou feio. Os filósofos e aqueles que os apoiaram impuseram limites a maneira de viver de todos. Aqueles filósofos e seus apoiadores condenaram a vida a valores ideais de existência. É quando surge, então, o filosofo metafisico – o filosofo do sobrenatural.

        Nesse momento “moralista” (idealista) da vida grega, torna-se propicio a degeneração do sentimento da vida e a ascensão do pensamento sobre a vida. Então, aparece Sócrates, como o representante daqueles que apoiam a ascensão do pensamento sobre a vida. É nessa fase da vida grega que “se estabelece a distinção entre dois mundos, pela oposição entre essencial e aparente, verdadeiro e falso, inteligível e sensível”.

        Sócrates e aqueles que o apoiam descobriram ”a metafisica fazendo da vida aquilo que deve ser julgado, medido, limitado, em nome de valores ‘superiores’ como o Divino, o Verdadeiro, o Belo, o Bem”. Valores criados pelo próprio homem.

 

A invenção das palavras

        As palavras são uma invenção do homem, de qualquer classe de homem. As palavras, sejam elas quais forem, não querem dizer nada. As palavras por si só, apenas impõem uma interpretação. O que nos interessa, portanto, não é o significado de uma palavra, mas o que existe numa palavra para ser interpretado. Pois tudo é inventado, tudo é mascara, interpretação e avaliação.

 

Um poder concedido

        Todo aquele sobre quem se diz que tem poder conquistou tal poder através da violência. A violência é uma concessão de poder, dada por alguém para aquele que passa a deter o poder. Portanto, para todo aquele que detém o poder, corresponde alguém que lhe concedeu tal poder. A consequência de conceder poder a alguém é dar o direito a esse alguém de um poder sobre aquele que concede o poder. O direito, portanto, é uma concessão dada e conquistada pela violência, arrogância e usurpação.

 

Psicologia de Rebanhos

O rebanho é os meus pensamentos

E os meus pensamentos são todos sensações.

(Fernando Pessoa)

 

        O poder é exercido pela palavra. A palavra é uma invenção do homem. Entretanto, as palavras em si não querem dizer nada. As palavras são interjeições sofisticadas de sentimentos de ação e reação. O poder das palavras é conhecido desde a época dos deuses gregos. As palavras são mandamentos. As palavras são sons impostos pela violência. As palavras que formam pensamentos lógicos ou sensatos são fundamentos da ciência e da justiça. Com essas palavras pode-se dominar a maioria das pessoas. As palavras constroem imagens. Essas imagens são ainda mais poderosas que as palavras que as constroem. Com essas imagens pode-se submeter uma multidão.

        A Psicologia de Rebanhos busca compreender as imagens que as palavras tentam representar. A Psicologia de Rebanhos busca compreender como alguém detém o poder sobre outro alguém. A Psicologia de Rebanhos busca compreender como alguém concede poder para outro alguém. A Psicologia de Rebanhos busca compreender como alguém se empodera.

 

Referencias

 

NIETZSCHE, Friedrich. Obras incompletas. São Paulo: Abril Cultural, 1983.