As raízes dos estigmas que a prática apresenta

Saia desse corpo que não lhe pertence!
 
Capitulo 7

        A propagação da prática da tatuagem ocorreu no convívio dos marinheiros com prostitutas e ladrões. “Dessa forma, ladrões presos levaram a prática ao contexto carcerário (ao qual é associada até hoje), enquanto prostitutas a utilizavam como fetiche. Estes usos são as raízes dos estigmas que a prática apresenta até os dias atuais, associada à marginalidade” (Carvalho, 2010).

        “No percurso do século XIX e começo do XX, a prática da tatuagem seguiu uma intrépida fase de peregrinação pelos setores marginais da sociedade, nos quais presidiários, meretrizes e soldados converteram-se nos novos protagonistas dessa prática.

        Ao converter-se em objeto de preferência dos setores marginais, a tatuagem se situava socialmente nas margens da sociedade. Essa situação gerou uma construção negativa em torno dessa prática, que transportou ao imaginário social um sentido de referência e equivalência entre tatuagem = marca marginalidade. O contexto começou a mudar notoriamente a partir da invenção da máquina elétrica, em 1891” (Fonseca, 2003).

Entre 1870 e 1880, “a cultura física passou a integrar a cultura americana, participando de um imaginário regenerador em meio a depressão” (Pires, 2005).

 

Inicia-se assim o culto ao corpo.

 

        “O estilo de vida e o desejo de obter a perfeição física levaram o homem da sociedade industrial a buscar, excessivamente, um novo padrão de beleza. Uma exigência para a sua inclusão na sociedade, onde tudo pode virar mercadoria” (Cassimiro e Galdino, 2012).

        “A insatisfação com o próprio corpo implicou a incorporação da prática do exercício físico com fins estéticos no cotidiano do indivíduo. O trabalho corporal desenvolvido pela academia obedece à lógica da máquina: a cronometrização e mecanicidade são os princípios orientadores das práticas corporais” (Pelegrini, 2005).

        No século XX, o corpo ganha “um registro intersubjetivo, através do qual o sujeito reconhece a si e aos demais”. Em decorrência, a dimensão fisiológica do corpo “foi reconhecida como indissociável das sensibilidades, afetos, racionalizações, bem como das decisões e ações, com seus contornos éticos e políticos” (Mori e Buarque, 2014).

        “A presença de inscrições no corpo, seja por intermédio de tatuagens ou de escarificações, e o aparecimento de sintomas corporais que traduzem sofrimentos eminentemente psíquicos, destaca-se cada vez mais na contemporaneidade.

        Na verdade, o corpo passa a ocupar um espaço privilegiado de manifestação e comunicação de conflitos psíquicos. O corpo foi inventado teoricamente no século XX, e seria Freud o grande responsável por sua nova percepção.

        A teoria freudiana propõe pensá-lo (o corpo) para além da carnalidade; o corpo não é apenas um organismo biológico. Ele é atravessado pela linguagem, e essa, por sua vez, faz com que o corpo exista fora da pura sensação carnal.

As oscilações psíquicas produziram efeitos no corpo e no psíquico que, por sua vez, sofrem influências do ambiente social” (Moreira, Teixeira e Nicolau, 2010).

        “A leitura do corpo é sempre sócio histórica, e a psicanálise está inserida nesta perspectiva: ‘a psicologia individual é ao mesmo tempo também psicologia social’ (Freud, 1921). A psicanálise não está fora da cultura sendo, ela mesma, fruto do trabalho de cultura” (Ceccarelli, 2011).

        Até o século XVIII, “o corpo foi reprimido e punido, mas, a partir do século XXI, tornou-se objeto do Capitalismo”. O processo de transformação do corpo, da Grécia Antiga até os dias atuais, “sempre ocorreu por motivações políticas, econômicas e religiosas das classes que detinham o poder em cada período. Assim, o corpo exerceu papéis diferentes em cada sociedade”. (Cassimiro e Galdino, 2012).

Psicologia de Rebanhos

O rebanho é os meus pensamentos

E os meus pensamentos são todos sensações.

(Fernando Pessoa)

        A Psicologia de Rebanhos compreende que o nosso corpo é uma construção sócio histórica. Ou seja, os nossos corpos são construídos pelas ideias políticas, sociais, morais, religiosas, econômicas de cada sociedade em determinada época. Atualmente, nossos corpos são considerados os depositários de nossos afetos, sensações e pensamentos. Portanto, cabe a nós a responsabilidade pela guarda e conservação dos afetos neles depositados.

 

Referencias

 

CARVALHO, Eric de. TATTOO – Incorporações de produtos midiáticos por meio de tatuagens. São Paulo, 2010. Acesso em 21 de outubro de 2015. Disponível em

CASSIMIRO, Érica Silva; GALDINO, Francisco Flávio Sales. As concepções de corpo construídas ao longo da história ocidental: da Grécia antiga à contemporaneidade. Revista Eletrônica Print by. Μετάνοια, São João del-Rei/MG, n.14, 2012. Acesso em 05 de junho de 2015. Disponível em

CECCARELLI, Paulo Roberto. Uma breve história do corpo. In Corpo, Alteridade e Sintoma: diversidade e compreensão. Lange & Tardivo (org.). São Paulo: Vetor, p. 15-34, 2011. Acesso em 05 de junho de 2015. Disponível em

FONSECA, Andrea Lissett Perez. Tatuar e ser tatuado: etnografia da pratica contemporânea da tatuagem. Florianópolis, agosto de 2003. Acesso em 08 de março de 2015. Disponível em

FREUD, Sigmund. Psicologia das massas e analise do eu. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

MOREIRA, Jacqueline de Oliveira; TEIXEIRA, Leônia Cavalcante; NICOLAU, Roseane de Freitas. Inscrições corporais: tatuagens, piercings e escarificações à luz da psicanalise. Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental. São Paulo, v. 13, n. 4, p. 585-598, dezembro 2010. Acesso em 27 de fevereiro de 2015. Disponível em

MORI, Geraldo De; BUARQUE, Virgínia. Corporeidade-encarnação: teologia em diálogo interdisciplinar. Perspectiva Teologia, Belo Horizonte, v. 46, n. 129, p. 187-214, mai/ago, 2014. Acesso em 05 de junho de 2015. Disponível em

PELEGRINI, Thiago. Imagens do corpo: reflexões sobre as acepções corporais construídas pelas sociedades ocidentais. Revista Urutágua – revista acadêmica multidisciplinar –  Quadrimestral – Nº 08 – Dez/Jan/Fev/Mar de 2005/6 – Maringá – Paraná – Brasil – ISSN 1519.6178. Centro de Estudos Sobre Intolerância – Maurício Tragtenberg, Departamento de Ciências Sociais – Universidade Estadual de Maringá (DCS/UEM). Acesso em 20 de julho de 2015. Disponível em

PIRES, Beatriz Ferreira. O corpo como suporte da arte: piercing, implante, escarificação, tatuagem. São Paulo: Editora SENAC,2005.

 

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