Recordar é sentir de novo

Da nossa própria mente

        As sensações e a memória das sensações produzem todas as nossas ideias. A memória é um dos efeitos da nossa sensibilidade física. Quando sentimos, necessariamente estamos recordando sensações vividas. Recordar é sentir de novo.

        Pensamos ou produzimos ideias quando percebemos as semelhanças ou as diferenças, as concordâncias ou as discordâncias que existem entre si os objetos ou as situações diferentes. Essa capacidade de percepção é oriunda das nossas sensações. Pensar é sentir de novo.

        Dizemos que o nosso cérebro produz a nossa mente onde são produzidos os nossos pensamentos. A percepção das relações que os objetos ou as situações tem conosco formam a nossa mente.

        Mas, então, o que é os pensamentos? Os pensamentos são operações da nossa mente. Essas operações se resumem a perceber diferenças entre as coisas (objetos, situações). Então, os nossos pensamentos se reduzem ao julgamento que fazemos sobre as diferenças que percebemos entre as coisas. “Julgar não é senão sentir. Todo juízo é apenas uma sensação”.

 

Da nossa própria ignorância

        ”Prazeres físicos são os únicos prazeres reais.

        A medida que a falta de dinheiro se faça sentir num Estado acostumado ao luxo, a nação cai em descredito.

        Para evitar estas consequências, seria preciso reaproximar-se duma vida simples, mas tanto os costumes como as leis a isto se opõem. Assim, a época de maior luxo de uma nação é comumente a época mais próxima de sua queda e de seu aviltamento.

        Nas questões complicadas, e sobre as quais se julga, sem paixão, só se engana por ignorância, isto é, imaginando que o lado que se vê num objeto é tudo o que há para ver neste mesmo objeto”.

        É através das nossas sensações que compreendemos o mundo. É através das sensações que nossos prazeres e nossas dores se realizam. As nossas sensações são enganosas, exceto a dor. Por que as nossas ideias, oriundas das nossas sensações, não seriam também enganosas? A época de maior valorização das ideias de uma nação é comumente a época mais próxima da sua queda e do seu aviltamento.

        A supremacia dos pensamentos em detrimento das sensações revela uma época que julga os fatos e os objetos e as suas relações, sem paixão, e assim se engana por ignorância. Por ignorar que os pensamentos são oriundos das sensações. Essa época suprema imagina que valorizar os pensamentos por si mesmos é tudo o que há para compreender sobre os fatos e os objetos e as suas relações com cada um de nos.

 

Da nossa própria paixão

        “Para amar os homens é preciso esperar pouco deles: para ver os seus defeitos sem amargor é preciso acostumar-se a perdoa-los”. O perdão é uma espécie de justiça que os homens se sentem no direito de exigir.

        “A liberdade do homem consiste no exercício livre de seu poder”. Esse poder se restringe ao âmbito das nossas capacidades. “Porque seria ridículo tomar como uma não-liberdade a impotência que temos de atravessar a nuvem como a águia, viver sob as aguas como a baleia e fazer-nos rei, papa ou imperador.

        Não se pode, portanto, formar nenhuma ideia desse termo liberdade, aplicado à vontade”.

        É que tanto a vontade quanto a nossa liberdade de ação estão orientadas pelas sensações que sentimos das nossas relações com os fatos ou os objetos. E como as nossas sensações são enganosas, melhor ficar com o ensinamento de Jesus: “Perdoai-vos, pai. Eles não sabem o que fazem”. Por isso, o perdão é uma espécie de justiça que os homens se sentem no direito de exigir, oriundo dessa sua existência sem liberdade de escolha.

        Podemos concluir que os nossos julgamentos não são nem verdadeiros nem falsos, apesar de enganosos. Nossos julgamentos são oriundos das nossas paixões e ignorância sensível aos fatos e objetos.

 

Psicologia de Rebanhos

O rebanho é os meus pensamentos

E os meus pensamentos são todos sensações.

(Fernando Pessoa)

 

        Pode-se considerar a mente como a faculdade produtora dos nossos pensamentos. Nesse sentido, a mente é apenas sensações e recordações de sensações. Mas, também pode-se considerar a mente como um efeito das faculdades produtoras dos nossos pensamentos. Nesse outro sentido, a mente é apenas uma reunião de pensamentos que podem ser acessados quando sentimos.

 

Referencias

 

HELVÉTIUS, Claude-Adrien. Do espirito. São Paulo: Abril Cultural, 1984.

 

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