Crescem o erro, a ignorância e a cegueira

        São muitos os que dizem, atualmente, que nunca conhecemos tanto o funcionamento das coisas. Entretanto, lado a lado com esse progresso das ideias e das tecnologias, crescem o erro, a ignorância e a cegueira.

        A causa do crescimento do erro está no modo ideológico de organização das ideias: doutrinário e dogmático. Jamais tivemos tantos sistemas teóricos sobre o funcionamento disso ou daquilo.

        A causa da ignorância é o próprio jeito de conhecer. A nossa ciência é simplista e burocrática e especializada e tecnocrata.

        A causa do crescimento da cegueira está no uso esquemático da razão. A razão é o novo soberano de fato. Essa razão endeusada e infalível e sensata e coerente que a todos encanta e mata com a produção descontrolada de armas de destruição.

        A incapacidade de reconhecer e de aprender a complexidade do real é a característica resultante de um modo de pensar separatista da organização do conhecimento.

 

A organização do conhecimento

        “Qualquer conhecimento opera por seleção de dados significativos e rejeição de dados não significativos”. Todo conhecimento separa e associa, hierarquiza e centraliza em função de uma ideia comum. Você dirá que não encontramos outra maneira de conhecer. Você dirá que essas operações de separação e associação e seleção são oriundas da lógica, portanto, sustentam racionalmente a obtenção do conhecimento.

        Porém, essas operações utilizadas pela lógica, já foram organizadas por um princípio de organização do pensamento. Ou seja, essas operações já passaram pelo crivo de um conhecimento anterior. Essas operações logicas foram anteriormente separadas e associadas e selecionadas por princípios que orientaram a nossa consciência para um conhecimento especifico. Esses princípios, por sua vez, foram separados e associados e selecionados por um conhecimento anterior. E, assim, organizamos pensamento sobre pensamento, até um infinito. E excluímos outros infinitos.

 

A patologia do saber

        Vivemos na época da hegemonia das ideias, da simplificação e da separação. Platão sustenta que o mundo sensível é um mundo irreal, que o verdadeiro mundo é o mundo dos pensamentos. Descartes separou o sujeito pensante da coisa pensada. Tanto o pensamento de Platão como o de Descartes são produtos do pensamento separatista, simplificado e reducionista.

        Esse pensamento separatista e reducionista não consegue conceber o singular e o múltiplo como um conjunto. Essa razão idolatrada racionaliza o real. Para o pensamento racional, o real é apenas um detalhe. Para o pensamento racional, as ideias são a verdadeira realidade.

        A ciência isola um fenômeno do seu ambiente e faz conclusões de laboratório sobre o fenômeno, com validade para o funcionamento do fenômeno no seu ambiente real. A ciência brada a imparcialidade do seu método, entretanto, não admite a impossibilidade de separação entre o observador e a coisa observada. Até mesmo as disciplinas que buscam conhecer o homem já concluíram que não precisam do homem para conhece-lo. Constatam assim a inexistência do homem. Transformam a existência humana numa contingencia ilusória.

 

A necessidade do pensamento complexo

        Essa simplificação é compreensível, pois a complexidade do real é uma desordem para a nossa razão imatura. Estudar um fenômeno no laboratório é simplista, é fugir da dificuldade do pensamento complexo, é fugir da desordem do real, é escapar das infinitas inter-relações entre os fenômenos.

        É difícil associar sem identificar ou reduzir. Desde tempos remotos aprendemos a conhecer identificando (separando) e reduzindo (selecionando). A ciência enganosamente constrói uma simplificação do fenômeno no laboratório e conclui leis e propriedades validas para o fenômeno em situações complexas – reais.

        O pensamento contemporâneo é o da simplificação, que não deixa ver a complexidade do real. O pensamento mitológico criou uma vida ideológica de deuses com características humanas. O pensamento oculta a realidade. A ideia torna a realidade ilusória. Os sistemas teóricos se fecham em si mesmos e dogmatizam o conhecimento. A razão imatura racionaliza e encerra o real num sistema de ideias coerente, mas parcial e unilateral.

        Uma parte do real é irracionalizável, mas estamos na era da barbárie das ideias.

 

Psicologia de Rebanhos

O rebanho é os meus pensamentos

E os meus pensamentos são todos sensações.

(Fernando Pessoa)

 

        As nossas sensações são enganosas. Como produtos das nossas sensações, os nossos pensamentos são enganosos. Essa é uma associação oriunda da lógica. A lógica é uma construção dos nossos pensamentos enganosos. Portanto, a nossa lógica, que sustenta a nossa forma de conhecer, é também enganosa. Resta-nos aprender a lidar com essa complexidade.

 

Referencias

MORIN, Edgar. Introdução ao pensamento complexo. Porto Alegre: Sulina, 2015.

 

Atores, porque agem, e espectadores, porque observam

        Vamos fazer teatro? Você pode estar se perguntando o que o teatro está fazendo aqui num blog que se propôs a falar sobre a psicologia? É que tudo que diz respeito ao humano é de interesse da psicologia. Teatro e psicologia tem tudo a ver. Todos os seres humanos são atores, porque agem, e espectadores, porque observam. Somos todos espect-atores.

        No teatro, nós temos a possibilidade de vermos a nos mesmos em ação. O teatro é a arte de nos vermos vendo. Na psicologia, nós temos a possibilidade de ver nós mesmos em ação. A psicologia é a arte de nos ver nos vendo.

        O teatro nos ajuda a conhecer a nós mesmos e ao nosso tempo. O teatro é uma forma de conhecimento e também um meio de transformação. A psicologia nos ajuda a conhecer a nós mesmos e ao nosso tempo. A psicologia é uma forma de conhecimento e também um meio de transformação.

 

Toda sensação é uma comparação.

        Você pode entender um som porque é capaz de escutar o silencio. Você atua sobre o ambiente e conhece a si mesmo. Você faz teatro e psicologia.

        A música é a mais arcaica das artes. Ela começa quando ainda estamos no útero de nossas mães. A música é uma das formas de organizar o mundo. A psicologia nos ajuda a conhecer o mundo.

        Todas as outras artes são posteriores a música e só aparecem com os outros sentidos. A dança traduz o som em imagem, em movimento, torna o som visível, palpável. A psicologia é uma das outras formas de dar sentido ao mundo.

 

Os atores trabalham os seus corpos para melhor conhece-los e torna-los mais expressivos

        Os espectadores trabalham os seus corpos para melhor conhece-los e torna-los mais expressivos.

        Para que o teatro seja transformador é indispensável permitir que os espect-atores proponham seus temas. Para que a psicologia seja transformadora é indispensável permitir que o próprio interessado proponha os seus temas.

 

O Teatro-imagem tem por objetivo ajudar a pensar com imagens

        No teatro, debatemos um problema sem o uso da palavra, usando apenas o próprio corpo e objetos (posições corporais, expressões fisionômicas, distâncias e proximidades, etc.).

        Tal qual na psicologia, podemos vivenciar as imagens que se apresentam de um problema, sem o uso da palavra, usando apenas o próprio corpo (posições corporais, expressões fisionômicas, distâncias e proximidades, etc.).

        Quando um ator interpreta um ato, ele o faz no lugar do espectador. Quando um espect-ator executa a mesma ação, ele o faz em nome de todas as possibilidades de que é capaz de atuar na sua vida.

 

A emoção prioritária

        No teatro, valorizamos a emoção para que ela possa determinar, livremente, a forma final. É a prioridade do ator de teatro. Valorizamos a emoção, na psicologia, como ponto de partida inicial para que o espect-ator compreenda como ele atua na vida.

        Para que as emoções se expressem livremente através do corpo do ator, ele faz exercícios corporais para desmecanizar os movimentos do seu corpo, muscularmente automatizado e insensível.

        Na psicologia, para que o espect-ator acesse livremente as suas emoções, ele faz exercícios corporais para flexibilizar os movimentos do seu corpo, muscularmente automatizado e rígido.

 

O corpo fica mecanizado pela incessante repetição de gestos e expressões.

        “Cada atividade humana como, andar a pé, é uma operação extremamente complicada, que só é possível porque os sentidos são capazes de selecionar e estruturar.

        Esse processo de estruturação e seleção produzido pelos sentidos leva a mecanização, porque os sentidos selecionam sempre os mesmos estímulos da mesma maneira.

        Para desenvolver sempre os mesmos movimentos, cada pessoa mecaniza o seu corpo para melhor executa-los, privando-se então de possíveis alternativas para cada situação original”.

        O ator faz exercícios para sentir certas emoções e sensações, das quais já se desabituou, para amplificar a sua capacidade de sentir e se expressar.

        Na terapia, o espect-ator experiencia emoções e sensações, compreende como os seus sentidos mecanizaram as suas emoções e sensações, e, assim, se capacita para reorganiza-las como der ou puder ou quiser.

 

Psicologia de Rebanhos

O rebanho é os meus pensamentos

E os meus pensamentos são todos sensações.

(Fernando Pessoa)

 

        A Psicologia pode lhe ajudar compreender e lidar com as suas emoções.

Referencias

BOAL, Augusto. Jogos para atores e não atores. Rio de janeiro. Civilização brasileira, 2012.

 

Como é possível que o universo seja infinito?

        “Como é possível que o universo seja infinito? Como é possível que o universo seja finito? Se o mundo é finito, onde termina o mundo? Se o mundo é finito, onde se encontra o mundo? Onde o universo”?

        “O mundo que existe neste espaço finito possui todas as coisas finitas que existem neste espaço”.

        “Eu considero o universo ‘todo infinito’ porque não possui limite, nem termo, nem superfície; digo não ser o universo ‘totalmente infinito’ porque cada parte que dele possamos pegar é finita, e cada um dos inúmeros mundos que contem é finito”.

        “Considerar o mundo ilimitado não traz consigo inconveniente algum, e até nos liberta de inúmeras angustias que nos envolvem se afirmamos o contrário. Por que frustrar a capacidade infinita, defraudar a possiblidade de mundos infinitos que podem existir? Por que deveríamos afirmar algo que, uma vez admitido, traz consigo tantos inconvenientes, e que, sem favorecer, de forma alguma, leis, religiões, fé ou moralidade, destrói tantos princípios de filosofia”?

        Para a solução desse impasse, vamos “primeiro considerar que, sendo o universo infinito e imóvel, não é necessário procurar o motor dele. Segundo, se infinitos são os mundos contidos nele, tais como as terras, os fogos e outras espécies de corpos chamados astros, todos se movem pelo princípio interno, que é a própria alma, sendo assim, é inútil investigar acerca de seu motor extrínseco”.

        “O movimento de todas as coisas, portanto, não seria de natureza mecânica, cujo deslocamento e cujos entrechoques resultariam de um movimento inicial comunicado por um ser superior. O movimento seria da natureza dos seres vivos e todas as coisas possuiriam um princípio anímico, que as faz transformarem-se permanentemente.

        O princípio anímico não se distingue da própria matéria animada. Não existem duas substancias (matéria e espirito) distintas. Tudo o que existe estaria reduzido a uma única essência material provida de animação espiritual”.

        Portanto, Deus é “imanente ao Universo e idêntico a ele. Deus não seria um ser que tivesse criado o Universo, mas seria o próprio mundo”.

        “Finalmente, pelo que se passa a nossa vista, cada objeto parece limitar outro objeto: o ar limita as colinas, os montes limitam o ar, e a terra o mar, e, por seu turno, o mar termina todas as terras; mas na verdade, nada há, para além do todo, que lhe sirva de limite.

        Efetivamente, por todo o lado, abre-se as coisas, em toda direção, um espaço sem limites”.

        “É, pois, um só o céu, um o espaço imenso, uma a abobada, um o continente universal, uma a região etérea pela qual tudo passa e tudo se movimenta. Aí podem ser observados sensivelmente inúmeras estrelas, astros, globos, sois e terras e, com razão, chega-se a conjeturar que são infinitos. O universo imenso e infinito é o composto que resulta de tal espaço e de tantos corpos nele contidos”.

        “Esse espaço nós o chamamos infinito, porque não existe razão, conveniência, possiblidade, sentido ou natureza que deva limita-lo”.

        “Mesmo que isto seja verdade, eu não quero acreditar; porque este infinito não pode ser compreendido pelo meu raciocínio, nem digerido pelo meu estomago. Com certeza, se nós quisermos colocar os sentidos como juiz ou dar-lhes a função que lhes é própria, isto é, ser o veículo originário de toda a informação, acharemos então muito difícil.

        Não são os sentidos que percebem o infinito; não é pelos sentidos que chegamos a esta conclusão, porque o infinito não pode ser objeto dos sentidos.

        Para que então servem os sentidos?

        Servem somente para excitar a razão, para tomar conhecimento, indicar e dar testemunho parcial, não para testemunhar sobre tudo, nem para julgar, nem para condenar. Porque nunca, mesmo perfeitos, são isentos de alguma perturbação. Por isso a verdade, em pequena parte, brota desse fraco princípio que são os sentidos, mas não reside neles.

        A inconstância dos sentidos demonstra que eles não são princípio de certeza e não a determinam senão por certa comparação e conferencia de um objeto sensível com outro e de uma sensação com outra. Daí se infere que a verdade é relativa nos diversos sujeitos.

        Nenhum dos sentidos nega o infinito, visto que não o podemos negar, pelo fato de não compreendermos o infinito com os sentidos; mas, como os sentidos são compreendidos por ele e a razão vem confirma-lo, somos obrigados a admiti-lo”.

Psicologia de Rebanhos

O rebanho é os meus pensamentos

E os meus pensamentos são todos sensações.

(Fernando Pessoa)

        A Psicologia de Rebanhos está fundamentada no trabalho com as sensações. Não é por conta da inconstância dos sentidos que eles não são princípio de certeza. É, exatamente, por sua incerteza que as sensações são a nossa medida do universo. Nossa medida do universo é parcial, singular e única.

        A verdade (palavra que sugere a definição de algo que apenas tem existência verbal), então, é relativa e diversa para cada um de nos. “Porque eu sou do tamanho do que vejo e não do tamanho da minha altura” (Caeiro, 1974).

TAMANHO DO UNIVERSO – Duração 3:11

Referencias

BRUNO, Giordano. Sobre o infinito, o universo e os mundos. São Paulo: Abril Cultural, 1983.

CAEIRO, Alberto. O guardador de rebanhos. In PESSOA, Fernando. Obra poética. Rio de Janeiro: Companhia José Aguilar Editora, 1974.

 

Você tem consciência da sua respiração ou nunca pensou nisso?

        Você toma cuidado com a sua dieta? Você come por dever ou come por prazer? Você faz exercícios regularmente ou não tem tempo ou não lhes dá importância? Você bebe bastante agua ou agua nem para tomar remédio?  Você tenta ser alegre e rir ou está sempre reclamando de tudo? Você tem consciência da sua respiração ou nunca pensou nisso?

        Para você responder estas e outras perguntas sobre você, é preciso que você tenha consciência de você mesmo. A consciência é o passo inicial para alterar qualquer estado de coisas.

O toque

         Você já se tocou hoje? Você nunca se toca? O toque é uma forma de conhecimento. O toque é uma das principais necessidades dos animais.

        O toque tem sido usado como terapia desde as civilizações mais antigas. É sabido que macacos jovens privados de convívio próximo sentem dificuldade em se relacionar. Os bebes humanos na ausência do toque produzem irritabilidade e depressão.

Muito além do toque

         A massagem é um método de tocar, pressionar, friccionar e amassar diversas regiões do corpo. A massagem pode aliviar a dor, relaxar, estimular e tonificar músculos, tendões, ligamentos e articulações.

         A massagem mobiliza a musculatura e a articulação. A massagem realiza um trabalho de alongamento, respiração e meditação.

Alongamento

         O alongamento atua como correção da postura e alivio de dores musculares. Mantem os músculos maleáveis – o que facilita a mobilidade e reduz os riscos de lesão muscular e articular.

Respiração

         A respiração é uma função vital e involuntária, mas que pode ser controlada pelo indivíduo. Faça um teste agora. Expire todo o ar. Pausa. Inspire contando lentamente um, dois, lentamente, três, quatro. Pausa. Conte um, dois. Expire lentamente contando um, dois, lentamente, três, quatro. Viu, você controlou a sua respiração!

voce-tem-consciencia-da-sua-respiracao-ou-nunca-pensou-nisso

         Você pode facilmente perceber a relação entre a sua respiração e os seus estados emocionais. Os estados emocionais produzem um efeito direto e imediato na forma como inspiramos e expiramos. Preste atenção em como a sua respiração muda em momentos de estresse, relaxamento ou alegria.

        Quando você inspira e expira, conscientemente e profundamente, como fizemos a pouco, você causa o relaxamento dos músculos e a diminuição da frequência cardíaca. “Além disso, o ar fica um tempo maior em contato com os alvéolos do pulmão, melhorando a troca gasosa e permitindo que mais oxigênio atinja a circulação, alimentando células e órgãos vitais”.

        Isso promove a atenção e o relaxamento. E auxilia na diminuição da quantidade de pensamentos e na melhoria do raciocínio.

        A respiração consciente potencializa os efeitos da meditação, auxiliando as pessoas a experimentarem estágios mentais diversificados, e ainda ajuda a diminuir a ansiedade, a depressão e o estresse.

Meditação

        O primeiro passo para a consciência é você se tornar atento ao seu corpo. Como você faz isso? Se você está sentado agora. Observe como você toca a cadeira. Quais as partes do seu corpo tocam a cadeira e como elas a tocam.

        Agora, torne-se consciente dos seus pensamentos. Como você faz isso? Perceba o que é que você está pensando. Quais são as qualidades desses seus pensamentos? Cuidado com os seus pensamentos! Os nossos pensamentos se utilizam de uma lógica toda nossa para nos enganar.

        Porém, o próprio fato, de você observar como a sua mente funciona, a transforma. Agora, no terceiro passo, você se torna consciente dos seus sentimentos, das suas emoções, dos seus humores. Como você faz isso?

        Acompanhe o ritmo da sua respiração. Não é necessário nomear o que você está sentindo. Existe consciência anterior as palavras. Até que … você se torna uma pessoa acordada, consciente da sua própria consciência.

Referências

MARTILNELLI, Alda. Yoga massagem ayurvédica: a transformação pelo toque: método Kusum Modak. São Paulo: Editora Olhares, 2011.