Tatuar – Uma forma de pensar o corpo

Saia desse corpo que não lhe pertence!

Capitulo 3

        As formas de pensar o corpo, as intervenções e investimentos ao longo da história seguem “o conjunto de valores, costumes e normas instituídos pela sociedade” (Araújo e Aragão, 2005).

        “Nos textos Egípcios, Hititas, Babilônicos e Assírios, e nas civilizações ameríndias – Incas, Maias, Astecas – não existem referências específicas ao corpo. Nos 586 mitos ameríndios analisados por Lévi-Strauss (1908-2009) a noção de corpo simplesmente não aparece“ (Ceccarelli, 2011).

         Uma múmia encontrada na região dos Alpes, entre a Itália e a Áustria, datada de 5200 anos, é a primeira pessoa tatuada de que se tem notícia e “traz cinquenta marcas de tatuagem na pele, situadas nas costas e atrás dos joelhos” (Silva, 2010).

        Muito se especula a respeito da origem da tatuagem, em virtude de vestígios arqueológicos, pertencentes a vários períodos históricos, terem sido encontrados em diversas regiões do globo (Simões, 2011).

        “A arte pré-histórica deixou vestígios sobre a tatuagem ao registrar para a prosperidade desenhos e estatuetas de figuras humanas exibindo pinturas nos corpos, numa evidencia da possibilidade da prática dessa arte há centenas de milhares de anos” (Silva, 2010).

        “Na antiguidade, a tatuagem já era utilizada na Grécia para distinguir as castas às quais pertenciam determinados indivíduos. Observou-se também que algumas múmias egípcias datadas do século XIV a.C. apresentavam marcas azuis de tatuagens” (Ferreira, 2012).

        O povo ateniense “valorizava o corpo como um todo, como uma unidade indivisível, não fragmentada, a liberdade era assegurada pelo privilégio de expor-se inteiramente” (Pires, 2005).

 

O corpo – objeto de prazer e de admiração

        “O corpo era visto como elemento de glorificação e de interesse do Estado. O corpo nu é objeto de admiração. A expressão e a exibição de um corpo nu representavam a sua saúde e os Gregos apreciavam a beleza de um corpo saudável e bem proporcionado” (Barbosa, Matos e Costa, 2009).

        Esse cuidar de si provocou no mundo helenístico e romano um individualismo, no sentido em que as pessoas valorizavam as regras de condutas pessoais e voltavam-se para os próprios interesses, tornando-se menos dependentes uns dos outros e mais subordinadas a si mesmas. Instaura-se então o que Foucault chama de cultura de si (Barbosa, Matos e Costa, 2009).

 

Tatuar - uma forma de pensar o corpo

 

        “Ao longo da história da humanidade, a tatuagem flutuou por várias castas sociais, carregando combinações infinitas de signos, que, dependendo da época, transmitiam poder, cultura e realeza, ou então caracterizavam marginalidade” (Silva, 2010).

          “A prática da tatuagem consiste na realização de técnica e caráter estético, com o objetivo de pigmentar a pele, através da introdução intradérmico de substâncias corantes por meio de agulhas ou similares” (Ramos, 2001 apud Silva).

        Na Idade Média, por obra do cristianismo, a tatuagem foi abolida. Alterar o corpo, portanto, é gerar um desequilíbrio na ordem das coisas. Portanto, a tatuagem, como ato antinatural, é enquadrada dentro da categoria do impuro, associada a todos os valores negativos que a mesma contém. Isso quer dizer que a tatuagem como prática social tinha se construído no âmbito do “impuro”, da profanação corporal (Fonseca, 2003).

 

Com o cristianismo assiste-se a uma nova percepção de corpo

        “ O corpo passa da expressão da beleza para fonte de pecado, passa a ser ‘proibido’” (Barbosa, Matos e Costa, 2009). “A experiência sensorial deveria ser anulada em detrimento da espiritual. O corpo deixa de ser retratado nu” (Pires, 2005).

        “O apogeu dessa somatofobia se expressa na separação corpo/alma, ou corpo/espírito. Este dualismo rapidamente transformou-se em oposição corpo/alma. O espírito passou a ser visto como algo glorioso, divino” (Ceccarelli, 2011).

 

O cristianismo reprime constantemente o corpo

        “Por outro lado, (o corpo) é glorificado, nomeadamente através do corpo sofredor de Cristo. A dor física teria um valor espiritual. A lição divulgada era a morte de Cristo, o lidar bem com a dor do corpo, que seria mais importante do que saber lidar com os prazeres” (Barbosa, Matos e Costa, 2009).

        Relatos históricos mostram que o corpo sexuado da Idade Média foi majoritariamente desvalorizado, as pulsões e o desejo carnal, amplamente reprimidos. O culto ao corpo era considerado um verdadeiro pecado, e concebido principalmente como a vestimenta da alma; e a renúncia ao próprio corpo foi a base de sustentação do discurso da salvação da mesma (Cassimiro e Galdino, 2012).

 

Psicologia de Rebanhos

“O rebanho é os meus pensamentos e os meus pensamentos são todos sensações” (Fernando Pessoa).

        Apos vários seculos desaprendendo e menosprezando o cuidado com o corpo, o homem volta a cuidar de si. Esse cuidado está repleto de incertezas e verdades efêmeras. Porem, ao corpo nos aproximamos e aprendemos pela experiencia que ele, o corpo, é o único alicerce.

Referências

ARAÚJO, Allyson Carvalho de; ARAGÃO, Marta Genú S. Os frutos da carne e os do espírito: Aproximações entre corpo e religião. Integração, ano XI, jan/fev/mar, 2005, nº 40. Acesso em 20 de julho de 2015. Disponível em 

BARBOSA, M. R.; MATOS, P. M.; COSTA, M. E. Um olhar sobre o corpo: o corpo ontem e hoje. Psicologia & Sociedade; 23 (1): 24-34, 2011. Outubro de 2009. Acesso em 05 de junho de 2015. Disponível em

CASSIMIRO, Érica Silva; GALDINO, Francisco Flávio Sales. As concepções de corpo construídas ao longo da história ocidental: da Grécia antiga à contemporaneidade. Revista Eletrônica Print by Μετάνοια, São João del-Rei/MG, n.14, 2012. Acesso em 05 de junho de 2015. Disponível em 

CECCARELLI, Paulo Roberto. Uma breve história do corpo. In Corpo, Alteridade e Sintoma: diversidade e compreensão. Lange & Tardivo (org.). São Paulo: Vetor, p. 15-34, 2011. Acesso em 05 de junho de 2015. Disponível em

FERREIRA, Deborah Cristina. O corpo como texto: analise discursiva da escrita no corpo. Revista Eventos Pedagógicos, v. 3, n. 1 Numero Especial, p. 138 – 146, abr, 2012. Acesso em 08 de março de 2015. Disponível em

FONSECA, Andrea Lissett Perez. Tatuar e ser tatuado: etnografia da pratica contemporânea da tatuagem. Florianópolis, agosto de 2003. Acesso em 08 de março de 2015. Disponível em 

PIRES, Beatriz Ferreira. O corpo como suporte da arte: piercing, implante, escarificação, tatuagem. São Paulo: Editora SENAC,2005.

SILVA, Bruna Cristina Daminelli. A tatuagem na contemporaneidade. Criciúma, julho de 2010. Acesso em 21 de julho de 2015. Disponível em

SIMÕES, Renan. A Comunicação não Verbal Através da Tatuagem. XIV Conferência Brasileira dos Estudos da Folkcomunicação – “O artesanato como processo comunicacional” – IX Encontro Regional de Comunicação, 2011. Acesso em 21 de julho de 2015. Disponível em

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *