Uma doutrina constituída por algumas regras de conduta moral

A patrística, um instrumento de contestação

        Como era o cristianismo no seu começo? Havia uma doutrina, regras de moral, uma ética? Como era a crença dos cristãos no começo do cristianismo?  O que nos apresenta aos nossos dias é que o cristianismo foi uma doutrina constituída por algumas regras de conduta moral e pela crença na salvação através do sacrifício de Cristo.

        No começo, o cristianismo foi uma religião que servia de instrumento de contestação da ordem imperial vigente. Os cristãos viviam em permanente conflito com os senhores romanos. O cristianismo não tinha nenhuma fundamentação filosófica. O cristianismo era uma religião revelada pelo sacrifício de Cristo.

        Mas para além de um espanto passageiro, uma revelação necessita de manutenção para se perpetuar. Sendo assim, os cristãos precisavam desenvolver instrumentos de defesa para sobreviver. E perceberam que além do espanto, a revelação deveria ser temida. Uma religião, para ser apreciada como uma religião de fato, precisa provocar terror e temor.

        O poder estava com os temidos romanos que haviam construído o seu império pelo terror e pelo convencimento.  O terror vinha da força das armas e o convencimento da força do pensamento.

        Os cristãos então se esforçaram para conciliar as verdades reveladas com ideias filosóficas. Assim, os primeiros pensadores cristãos revestiram a revelação cristã de elementos da especulação da filosofia grega.

 

Uma teoria dogmática do conhecimento

        O primeiro grande filosófico cristão foi Agostinho. Apesar de filosofo foi feito santo. Bem, ele foi considerado santo não por ser filosofo, mas por ter se convertido a crença no deus cristão. Ou seria porque, para a igreja católica, o acesso a Deus necessita de intermediário?

        As ideias filosóficas platônicas ainda mantinham o seu glamour na época de Agostinho (354-430). Novos platônicos “sustentavam a tese de que não é possível encontrar um critério de evidencia absoluta e indiscutível, o conhecimento limitando-se ao meramente verossímil, provável ou persuasivo”.

        “Para os céticos, a fonte de todo o conhecimento era a percepção sensível, na qual não se poderia encontrar qualquer fundamento para a certeza, já que os sentidos forneciam dados variáveis e, portanto, imperfeitos”.

        “O erro – diz Agostinho – provem dos juízos que se fazem sobre as sensações e não delas próprias. A sensação enquanto tal jamais é falsa. Falso é querer ver nela a expressão de uma verdade externa ao próprio sujeito”.

 

A ação da alma sobre o corpo

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        É com Platão (428-348 a.C.) que surge a ideia de que o homem é uma alma que habita um corpo. Portanto, a alma é a ideia que Platão faz do que devia ser o homem. Por outro lado, Platão considera que qualquer conhecimento verdadeiro precisa ser necessariamente estável e permanente. O conhecimento, portanto, não seria apreendido pela percepção sensível (alma com corpo), posto ser enganosa. O verdadeiro conhecimento estaria no mundo das ideias (alma sem corpo).

 

A doutrina da iluminação divina

        Agostinho também se utiliza do ensinamento de Platão de que “o princípio espiritual de todas as coisas é, ao mesmo tempo, causa de sua própria existência”.

        Agostinho, então, conclui que “todo conhecimento verdadeiro é o resultado de um processo de iluminação divina, que possibilita ao homem contemplar as ideias, arquétipos eternos de toda a realidade”.

 

Deus, infinitamente bom …

        Portanto, “Deus seria a realidade total e plena”. Deus seria a essência, a substancia, o ser primeiro de todas as coisas. Assim, Agostinho liga a revelação cristã a filosofia platônica.

        “Agostinho concebe a unidade divina como plena, viva e guardando dentro de si a multiplicidade. Deus compreende três pessoas iguais e consubstanciais: Pai, Filho e Espirito Santo. O Pai é a essência divina em sua insondável profundidade. O Filho é o verbo, a razão ou a verdade, através da qual Deus se manifesta. O Espirito Santo é o amor, mediante o qual Deus dá nascimento a todos os seres”.

        Os gregos concebiam deus como um artífice que criava um material não-criado. Ou seja, para os gregos, deus dava ordem ao que sempre existira. Deus transformava em cosmos o caos originário. Deus dava uma forma ao que sempre existira.

        Aqui, Agostinho se diferencia da concepção grega de deus. Para Agostinho, “Deus, por sua própria essência, é criador de todos os seres, a partir de nada além dele e como consequência apenas de seu amor infinito”. Para Agostinho, nada existe antes de Deus.

 

O homem e a essência do pecado

        Assim, Agostinho, a partir do pensamento racionalista de Platão, concebe um Deus de bondade absoluta e o homem como um desprezível miserável condenado a danação eterna. Porém, nem tudo está perdido! Para Agostinho, a eternidade somente é eterna para Deus. Portanto, o homem está condenado a danação eterna, mas não é uma eternidade ETERNA. O homem pode mudar a sua danação de eterna para passageira.

        Salve! Condenado e salvo por Agostinho, esse homem desprezível e miserável é possível de ser recuperado da condenação eterna. Basta que aceite a graça divina! Eis a palavra da fé! A verdade revelada! Eis o princípio da antropologia cristã pensada por Agostinho e propagada pela igreja católica. Assim, Agostinho da sustentação a crença cristã com o suporte no pensamento de Platão.

 

Referencias

AGOSTTINHO, Santo. Confissões; De Magistro (Do Mestre). São Paulo: Abril Cultural, 1984.

 

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