Uma espécie de sentimento religioso cósmico

        Os gênios religiosos de todas as épocas têm-se distinguidos do comum dos mortais por uma espécie de sentimento religioso cósmico, que não conhece dogmas nem concebe um Deus a imagem do homem.

        Por isso não pode haver igrejas cujos ensinamentos centrais se apoiem nesse sentir. Será, portanto, entre os heréticos de todas as épocas que vamos encontrar homens impregnados do mais elevado sentimento religioso, considerados por seus contemporâneos, ora como ateus, ora como santos.

        Através desse prisma, homens como Demócrito, Francisco de Assis e Spinoza estão muito próximos uns dos outros.

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        Pessoalmente, sinto-me capaz de atingir o mais alto grau de felicidade possível, através das grandes obras de arte. Delas recebo dons espirituais de tal força que coisa alguma poderia proporcionar-me idênticas sensações. Em minha vida, as visões artísticas têm desmedida influência. Afinal, o trabalho de pesquisadores e cientistas germina no campo da imaginação e da intuição.

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        Não posso imaginar um Deus a recompensar e a castigar o objeto de sua criação. Não posso fazer ideia de um ser que sobreviva após a morte do corpo. Se semelhantes ideias germinam em um espirito, para mim é ele um fraco, medroso e estupidamente egoísta.

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        O espirito cientifico, fortemente armado com seu método, não existe sem a religiosidade cósmica. Ela se distingue da crença das multidões ingênuas que consideram Deus um ser de quem esperam benignidade e do qual temem o castigo.

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        Não basta ensinar ao homem uma especialidade. Porque se tornara assim uma máquina utilizável e não uma personalidade. É necessário que adquira um sentimento, um senso prático daquilo que vale a pena ser empreendido, daquilo que é belo, do que é moralmente correto.

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        A religião do futuro será cósmica e transcendera um Deus Pessoal evitando os dogmas e a teologia.

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        O valor do homem é determinado, em primeira linha, pelo grau e pelo sentido em que ele se libertou do seu ego.

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        Deus é inexorável no oferecimento de dons: Deu-me apenas a teimosia de uma mula. Não! Deu-me também um agudo sentido de dor.

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        O homem pode encontrar significado na vida, curta e perigosa como é, somente através de seu devotamento a sociedade.

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        Evidentemente, nos existimos para nossos semelhantes – em primeiro lugar, para as pessoas queridas de cujo bem-estar e sorrisos depende nossa felicidade; depois, para todos esses seres que não conhecemos pessoalmente, aos quais, entretanto, estamos ligados pelos laços de simpatia e fraternidade humanas.

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        Sem esta fé eu não poderia ter uma convicção firme e inabalável acerca do valor independente do conhecimento.

 

Psicologia de Rebanhos

O rebanho é os meus pensamentos

E os meus pensamentos são todos sensações.

(Fernando Pessoa)

 

        Quem lê as histórias da civilização humana, encontra em diversas narrativas a existência de um sentimento de religiosidade que liga o homem a algo que ele desconhece. A esse algo desconhecido, a que o homem se submete por ignorância, se dá diferentes nomes, desde o início da história conhecida – deuses, cosmos, deus, nada, liberdade, ciência, ética. Esse rebanho de nomes cunhados pelos pensamentos se sustenta na enganosa compreensão das suas sensações.

 

Referencias

EINSTEIN, Albert. O pensamento vivo de Einstein. São Paulo: Martin Claret Editores, 1986.

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