Vai, Carlos! Ser gauche na vida

Alguma poesia
        A Mario de Andrade, meu amigo.
Poema de sete faces
         Quando nasci, um anjo torto
         Desses que vivem na sombra

         Disse: Vai, Carlos! Ser gauche na vida.

         As casas espiam os homens

         Que correm atrás de mulheres.

         A tarde talvez fosse azul,

         Não houvesse tantos desejos.

         O bonde passa cheio de pernas:

         Pernas brancas pretas amarelas.

         Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.

         Porem meus olhos

         Não perguntam nada.

O homem atrás do bigode

É sério, simples e forte.

Quase não conversa.

Tem poucos, raros amigos

O homem atrás dos óculos e do bigode.

         Meu Deus, por que me abandonaste

         Se sabias que eu não era Deus

         Se sabias que eu era fraco.

         Mundo mundo vasto mundo,

         Se eu me chamasse Raimundo

         Seria uma rima, não seria uma solução.

         Mundo mundo vasto mundo,

         Mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer

Mas essa lua

Mas esse conhaque

Botam a gente comovido como o diabo.

 

* * *

 

No meio do caminho

         No meio do caminho tinha uma pedra

Tinha uma pedra no meio do caminho

Tinha uma pedra

No meio do caminho tinha uma pedra.

 

Nunca me esquecerei desse acontecimento

Na vida de minhas retinas tão fatigadas.

Nunca me esquecerei que no meio do caminho

Tinha uma pedra

Tinha uma pedra no meio do caminho

No meio do caminho tinha uma pedra.

 

* * *

 

Igreja

         E nos domingos a litania dos perdões, o murmúrio das invocações.

         O padre que fala do inferno

         Sem nunca ter ido lá.

 

* * *

 

Esperteza

Tenho vontade de

– ponhamos amar

Por esporte uma loura

O espaço de um dia.

         Certo me tornaria

         Brinquedo nas suas mãos.

         Apanharia, sorriria

         Mas acabado o jogo

         Não seria mais joguete,

         Seria eu mesmo.

 

         E ela ficaria espantada

         De ver um homem esperto.

 

* * *

 

Poesia

         Gastei uma hora pensando um verso

         Que a pena não quer escrever.

         No entanto ele está cá dentro

         Inquieto, vivo,

         Ele está cá dentro

         E não quer sair.

         Mas a poesia deste momento

         Inunda minha vida inteira.

 

Psicologia de Rebanhos

O rebanho é os meus pensamentos

E os meus pensamentos são todos sensações.

(Fernando Pessoa)

 

         Um verso é a tentativa do poeta para explicar a poesia do momento. A poesia deste momento se encontra nos sentimentos indescritíveis que nos acompanharam por toda a nossa vida. O verso do poeta é sua tentativa de compreender as suas sensações. Como os poetas, os pacientes, em psicologia, versejam na tentativa de compreender os seus sentimentos.

 

ANDRADE, Carlos Drummond de.  Nova reunião: 19 livros de poesia. Rio de Janeiro: Jose Olympio, 1983.

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *