Vivemos numa época de insegurança externa e interna

        “Vivemos numa época de tamanha insegurança externa e interna, e de tamanha carência de objetivos firmes, que a simples confissão de nossas convicções pode ser importante. Mesmo que essas convicções, como todo julgamento de valor, não possam ser provadas por deduções logicas.

        Surge imediatamente a pergunta: podemos considerar a busca da verdade? Como um objetivo autônomo de nosso trabalho? Ou nossa busca da verdade deve ser subordinada a algum outro objetivo, de caráter pratico por exemplo?

        Essa questão não pode ser resolvida em bases logicas.

        A decisão, contudo, terá considerável influência sobre nosso pensamento e nosso julgamento moral. Desde que se origine numa convicção profunda e inabalável.

        Permitam-me fazer uma confissão. Para mim, o esforço no sentido de obter maior percepção e compreensão é um dos objetivos independentes sem os quais nenhum ser pensante é capaz de adotar uma atitude consciente e positiva ante a vida.

        Além do conhecimento proveniente da experiência acumulada, e além das regras do pensamento logico, não existe, em princípio, nenhuma autoridade cujas decisões e declarações possam ser consideradas “Verdade” pelo cientista.

        Isso leva a uma situação paradoxal. Uma pessoa que devota todo seu esforço a objetivos materiais se tornara, do ponto de vista social, alguém extremamente individualista. Que, em princípio, só tem fé em seu próprio julgamento, e em nada mais.

        É possível afirmar que o individualismo intelectual e a sede de conhecimento cientifico apareceram simultaneamente na história e permaneceram inseparáveis desde então.

        Qual é, pois, a posição do cientista de hoje como membro da sociedade?

        Evidentemente, ele tem orgulho de que o trabalho dos cientistas tenha contribuído para mudar radicalmente a vida econômica dos homens, pela eliminação quase completa do trabalho muscular.

Vivemos uma epoca de inseguranca interna e externa

        Ele sofre pelo fato de que os resultados do trabalho cientifico se tenham transformado numa ameaça a humanidade, por terem caído em mãos dos expoentes moralmente cegos do poder político.

        Ele tem consciência de que os métodos tecnológicos, que seu trabalho tornou possíveis, acarretam uma concentração de poder econômico e também político nas mãos de pequenas minorias que passaram a dominar completamente a vida de grandes massas humanas, cada vez mais amorfas.

        E o que é pior: a concentração do poder econômico e politico nas mãos de poucos não só tornou os cientistas economicamente dependentes, como também ameaça sua independência interior.

        O emprego de métodos de influência intelectual e psíquica evita o desenvolvimento de personalidades independentes.

        Assim, o cientista, como podemos ver com nossos próprios olhos, padece de um destino realmente trágico . Forjou os instrumentos que estão sendo usados para escraviza-lo e destrui-lo até interiormente. Tem plena consciência do fato de que a destruição universal é inevitável. Pois o desenvolvimento histórico levou a concentração de todo o poder econômico, político e militar em mãos do Estado.

        Não haverá nenhuma escapatória para o cientista?

        Terão passado para sempre os tempos em que, guiado por sua liberdade interior e pela independência de seu pensamento e de seu trabalho, o cientista tinha a possibilidade de iluminar e enriquecer as vidas de seus semelhantes?

        Ao colocar demasiadamente seu trabalho em bases intelectuais, não terá esquecido sua responsabilidade e sua dignidade”? (Einstein, 1950). *

Psicologia de Rebanhos

“O rebanho é os meus pensamentos e os meus pensamentos são todos sensações” (Fernando Pessoa).

        “Minha resposta é esta: pode-se destruir uma pessoa intrinsecamente livre e escrupulosa. Mas esta pessoa jamais pode ser escravizada ou usada como um instrumento cego” (Einstein, 1950). *

* Esse texto é uma versão abreviada de uma mensagem que Albert Einstein dirigiu em 1950 ao 43º Congresso da Sociedade Italiana para o Progresso da Ciência.

 

Referências

EINSTEIN, Albert. O pensamento vivo de Einstein. São Paulo: Martin Claret Editores, 1986.

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